20 de Novembro de 2017

Ler e crescer

Posted in Ler faz crescer às 14:54 por sidneif

Por ROSANA BANHAROLI*

Mulher Segurando uma Balança

“Mulher segurando uma balança” (c. 1664), do holandês Johannes Vermeer (1632 – 1675 ).

“A Educação forma. A Cultura acolhe. Educação e Cultura juntas proporcionam ferramentas para a transformação de indivíduo a cidadão”

Rosana Banharoli

O indivíduo que lê, além do conhecimento adquirido, seja pedagógico ou ficcional, será um cidadão capaz de decisões conscientes. Isto é, será capaz de contextualizar a sua vida, as suas escolhas. E, mais que isso: será capaz de ser dono de opinião perante o estado/status das coisas.

E é esta, a meu ver,  a colheita mais importante: o ser cidadão construído através de seus conhecimentos.

Quando criança, ao observar a conversa entre adultos ( fui uma criança muito curiosa) ,me lembro de que tinha um forte desejo: o de um dia ter a minha opinião. Não a que meus pais tinham, mas a minha.

Se hoje aqui escrevo é porque o consegui. Não digo que ela é verdade absoluta e nem que não a mudarei, mas com certeza, adquiri conhecimento e vivência para tê-la: minha própria!

 


 

1 – um dia minha sobrinha, Laura, me perguntou o porquê de eu preferir livro ao cinema.

Gosto muito de cinema, mas o livro me proporciona o uso de minha imaginação. Os meus cenários, as trilhas sonoras das histórias que leio são parte minha e não a mostrada pelo diretor. Além de desenhar os personagens e de ter os diálogos e a narrativa mais próximos. Além de, às vezes, em segredo, me colocar na trama. Na época, ela tinha assistido ao filme do Harry Potter. Depois da nossa conversa, ela leu todos os livros da saga. Mais uma leitora!

2- em 2010, fiz parte de um grupo de Leitores Itinerantes. Líamos Carlos Drummond de Andrade, nas escolas do ensino fundamental, da cidade.

Tinha acabado de ler E, agora José quando uma aluna me disse que já estava vendo um homem sentado em uma cadeira de rodas, numa esquina, se perguntando: – E, agora?

Outros acontecimentos, neste projeto: – Se eu colocar Itabira, no Google, consigo ver a cidade onde ele nasceu?; – Na biblioteca tem livros dele?  Vou fazer a carteirinha, hoje mesmo; – Eu também; – Eu também!; – Nossa! Vocês  também são escritores  e não estão mortos?

Além de apresentar o nosso Poeta aos alunos, incentivamos a leitura e, acredito, a escrita, pois éramos escritores, estávamos vivos e morávamos na mesma cidade deles (Santo André-SP).

3- há pouco tempo: você só lê e escreve ou lava louça, limpa a casa?

Sim, faço tudo e mais um tanto. E, assim: mais uma escritora  diante da normalidade da vida.

Hoje, não faço mais leituras para crianças, mas proporciono, em meus projetos líteroculturais, contações de histórias; oficinas de criação literária e oficinas de leitura crítica, sempre com profissionais de excelência. Divulgo livros e autores no facebook e em palestras. Resultado: os comentários nas postagens e nos e-mails que recebo: -Estou lendo; Estou escrevendo um livro… Fora os originais que me são entregues.

Sim, a leitura transforma, acrescenta e faz crescer moralmente, culturalmente e desperta  a criatividade. Também, uma pessoa que lê terá um vocabulário e conhecimento que o fará ser um cidadão mais completo. Nunca só mais um.

Ah! Menti: leio para os meus netos, Arthur e Cesar.

*Rosana Banharoli, jornalista por formação; poeta por teimosia. Autora de “Espasmos na Rotina”, poesia, Patuá -, 2017; “As Gotinhas”, em parceria com Denise de Oliveira Masselco, pedagógico/poesia, 2017; “3h30 ou quase isso”, verso&prosa, e-book, Amazon -,2013 ; “Ventos de Chuva”, poesia, Scortecci -2011 e “Cesar o menino superincrível”, no prelo. Publicada em diversas antologias e revistas nacionais e internacionais . Integrante do Projeto Multimidia, Poemaria e dos Coletivos  Sarau da Paulista e Mulheres Obscenas. É membro do Movimento Nacional Mulherio das Letras. É co-idealizadora e curadora dos Projetos: Fliparanapiacaba 2014; Empório Cultural,2015; Leva&Traz 2016 e Vozes da Globalização: Indentidade e Gênero 2010.

 

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25 de Outubro de 2016

Memórias de uma infância reinventada

Posted in Sem categoria às 12:59 por sidneif

 (Em homenagem a Manuel de Barros)

Por Leila Lira Peters*

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Os avós maternos Elza e Urbano e no colo a prima cinara. Na frente, da esquerda para direita: Leila e os irmãos Moa e Téia.

Nasci numa pequena cidade chamada Ibicaré, rodeada pelas colinas do Vale do Rio do Peixe, no Meio-Oeste catarinense. Essa região foi colonizada por imigrantes alemães e italianos que se estabeleceram em propriedades rurais no início do século 20. Isso foi o que aconteceu com meus avôs maternos que, com sua pequena propriedade agrícola, produziam um pouco de tudo e eram praticamente autossustentáveis.

Meus pais moravam no “centro da cidade”. Com meu irmão e minhas irmãs, frequentei a mesma escola que todas as crianças de lá. Nossa vida era simples: íamos à escola durante um período e, no outro, simplesmente brincávamos (além de ajudar nas tarefas domésticas).

Como no final da década de 70 não havia muitos programas infantis na TV e brinquedo era responsabilidade exclusiva do Papai Noel, passávamos nosso tempo inventando o que fazer, tanto em nossa casa quanto na casa de amigos. Aliás, a rua era uma extensão das nossas casas. Por vezes ficava difícil de terminar a brincadeira de esconde-esconde por causa do número de participantes e da amplitude do espaço utilizado. Porém, andávamos “na linha”, pois todos estavam de olho nas peraltices da “piazada”, e ninguém estava livre de levar um bom “xingão” de um adulto quando bem merecido. Além disso, sabíamos que a notícia logo chegaria aos ouvidos dos pais…

Nossas brincadeiras seguiam o ritmo das estações, acompanhadas dos quatro elementos da natureza: terra, ar, fogo e água[1]. Brincávamos de escavar barrancos fazendo túneis para carrinhos e moradores. Construíamos cidades com pequenos restos de madeira quadrada comprada para acender fogo. Buscávamos sacos de casca de arroz para construir novas cidades e enfeitá-las com flores de Cinamomo, minha árvore preferida, que ficava no quintal da nossa casa. Acabada essa etapa, subíamos na árvore pela cerca de madeira e, de lá de cima, saltávamos no monte formado pelas cascas de arroz, após destruirmos a cidade florida. Nossas atividades e construções não eram perenes, mas não nos importávamos, pois reapareciam em outras formas e texturas.

Brincávamos de casinha em qualquer lugar, inclusive no “pé de ameixa”, minha segunda árvore preferida. Cada galho era uma casa. Na época das frutas, era a glória! Só descíamos no nosso galho, opa! da nossa casa, para fazer a comidinha no foguinho que fazíamos ao pé da árvore. Claro que misturávamos frutas com arroz que, por vezes, queimava. Mas ficava bom. Lá de cima também enviávamos mensagens de aviãozinho de papel e jogávamos paraquedista feito com lenço roubado da mãe.

Minha família possuía uma sapataria, isso nos trazia imensas possibilidades no manuseio das ferramentas para inventar e construir nossos brinquedos. Perna de pau era rápido de fazer, bastava ter a madeira comprida para a haste, pois fabricávamos os pés com as madeirinhas das casinhas. Na máquina de costura, confeccionávamos belos vestidos para as bonecas (também partilhadas entre irmãs).

Claro que o verão era nossa estação preferida. Além dos banhos no rio que passava ao lado de casa, passávamos parte das férias na casa dos meus avôs maternos que tinha, inclusive, um riacho com cachoeira. As possibilidades de brincadeiras se ampliavam ainda mais com os animais do sítio da família e a exploração do imenso “potreiro” para o gado e das trilhas no que havia sobrado da floresta. Nossas ações eram dimensionadas pelo ritmo da natureza, dos materiais encontrados nos arredores e frutos da imaginação. Elas traziam consigo o germe da amplitude e da potencialização corporal.

Facilmente adentrávamos em situações imaginárias motivadas pelos personagens do Sítio do Picapau Amarelo, adaptação para TV da obra de Monteiro Lobato, à qual assistíamos regularmente na saída da escola. Não foram poucas as vezes que tentamos encontrar o Reino das Águas Claras ou que saímos correndo para fugir da Cuca ou do Saci Pererê, por causa de um barulho suspeito, quem vai saber? Lá tínhamos mais árvores com seus balanços para voar. Além de uma imensidão de penas das mais variadas galinhas para construirmos nossas petecas. Eu costumava chegar cedo à escola, para jogar com minha amiga Helenice.

O verão também era época das uvas, e nós tínhamos a grande responsabilidade de pisá-las para fazer suco de uva e vinho – é  claro que o fazíamos depois de tirar bem as “cracas” dos pés. Era igualmente época de “garapa”   de cana, de descascar as peras que se transformariam na boa “chimia”. Mas no inverno também gostávamos de ir ao sítio, pois passávamos metade do tempo nos equilibrando entre os galhos das laranjeiras para colher laranjas do céu, de umbigo, ou vergamota, tangerina… Até hoje sinto esses sabores e cheiros na minha memória.

Mas eu não era diferente das demais crianças da época e meu sonho era ter uma bicicleta. E, para minha esperança, houve um concurso de desenho sobre dia da árvore na nossa escola primária! Depois de rezar todas as noites e de ter feito um desenho interessante, ganhei a tal bicicleta. Deus existe! Com ela, passei meu tempo rodando em todas as partes da cidade (quando não a dividia com minhas irmãs). Eu sabia tudo o que acontecia por lá… as chegadas e as partidas das pessoas…

E uma dessas chegadas foi a de um grupo de trabalhadores que veio para asfaltar a estrada que ligava as cidades da região e se instalar com suas famílias, formando uma pequena comunidade nas mediações da cidade. Com eles, vieram muitas crianças novas que começaram a frequentar a escola, e tivemos a sorte de ampliar nosso repertório lúdico e de brincadeiras, sobretudo cantadas, pois as crianças tinham vindo das mais diversas regiões do Brasil[2]. Começamos a chegar ainda mais cedo à escola para brincar com elas, e o recreio era aproveitado a cada minuto para brincarmos nas imensas rodas que fazíamos no pátio. Esse acesso à diversidade cultural e étnica me propiciou ampliar os horizontes e perceber que havia muito mais a descobrir, para além das pequenas montanhas que delimitavam o espaço da nossa cidade.

Porém, nem tudo é brincadeira. Quando chegamos à idade dos 10-12 anos, trabalhávamos como “brincantes profissionais”, cuidando de crianças menores para ajudar no orçamento familiar. Criança cuidando de criança, o que nem sempre era divertido…

Além das brincadeiras, nos encontrávamos para jogar futebol, caçador e vôlei – este praticado com a bola de futebol e uma corda amarrada onde fosse possível. Um dos locais de encontro era o campo onde, aos domingos, costumavam acontecer os torneios de futebol. Entre um jogo e outro, adentrávamos no campo para tentar jogar um pouco. Ou tentávamos uma vaga no jogo de vôlei que acontecia na quadra ao lado do campo, mas o postulante a jogador precisava ser um pouco maior ou ter alguma habilidade, para conquistar o seu espaço. A equipe que perdia ficava de fora e tentava montar um novo grupo com quem lá estivesse. Todos se revezando. E eu sonhava poder jogar no time de vôlei, mas me contentava com nosso joguinho utilizando a corda…

Com o tempo vieram os jogos na escola e entre escolas da região. Eu não podia faltar e, é claro, ser a capitã das nossas equipes. Eu era fera nos esportes e jogava sempre que podia. Até mesmo no time das gurias mais velhas, que ia de caminhão nos finais de semana para participar dos campeonatos femininos nas comunidades do interior de Ibicaré. No futebol, como eu era pequena e magrinha, ninguém me marcava e eu sempre acabava fazendo gols. Com minhas irmãs e amigas, também começamos a frequentar os campeonatos de vôlei nos finais de semana e quase sempre ganhávamos. Esses campeonatos acabavam nos “matinés” dançantes. Momento de (re)encontrar os paqueras encontrados durante os jogos.

Com a vinda à cidade do professor de Educação Física Eliseu Ferrari, recém- formado pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), montamos uma equipe, começamos a treinar vôlei “de verdade” e a participar de jogos que seriam classificatórios para campeonatos regionais. Bom, nesses jogos nossas chances não eram mais as mesmas e minha relação com eles começou a ser outra.

Passada a adolescência, fui fazer a faculdade de Educação Física em Concórdia e tentar a sorte na equipe de vôlei da Sadia, a melhor da região. Porém, o time já estava completo e esse não seria o meu caminho. Concórdia era uma cidade industrial, cujo esporte visava ao espetáculo, componente da lógica do mercado. Esporte profissional: para ser visto e não praticado. A prática do esporte já não era mais importante que o resultado e o espetáculo. Depois de um ano, me transferi da faculdade privada para a UDESC, que era pública, buscando melhores condições. E cheguei ao local onde eu soube que poderia trabalhar com pesquisa.

Experiência que mais tarde me forneceu subsídios para trabalhar no Colégio de Aplicação da UFSC. Aí começa mais uma nova e importante parte da minha história que culmina no que sou hoje. Parte dela você pode conhecer visitando o site da brinquedoteca por cuja implantação fui responsável. Já pensou o privilégio? Poder brincar no meu trabalho? Que tal vir nos visitar e brincar conosco. http://labrinca.paginas.ufsc.br/

*Leila Lira Peters, doutora em Educação pela Université Paris 13 e coordenadora do Labrinca (Laboratório de Brinquedos do Colégio de Aplicação da UFSC).

[1] Conhecer o trabalho de Gandhy Piorski foi inspirador para o exercício de rememorar minha infância a partir dos quatro elementos. https://catraquinha.catracalivre.com.br/geral/manual-de-brincadeiras/indicacao/brinquedos-da-natureza-entenda-o-brincar-partir-dos-quatro-elementos-naturais/

[2]Tive a consciência disso ao reconhecer e rememorar inúmeras cantigas e brincadeiras de roda que foram vivenciadas no curso Educadores Brincantes, em 2015. Esse curso, idealizado por Antônio Nóbrega, visa formar professores brincantes a partir da expressão e da ampliação do repertório da cultura popular brasileira.

30 de Agosto de 2016

Passeio no jardim

Posted in Ler faz crescer às 14:13 por sidneif

Por RENATA CRUZ*

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“Mulheres no Jardim” (1866),  de Monet (1840-1926).

Se eu tivesse que escolher um livro importante para mim, seria a primeira parte de Em busca do tempo perdido, de Proust. Li em espanhol “Por el caminho de Swann”.  Eu tinha mais ou menos 27 anos.

O que permaneceu da leitura foram aqueles relatos e análises das sensações e emoções do personagem em paralelo com pequenos acontecimentos do cotidiano. Como um simples passeio no jardim era capaz de abarcar tantas experiências internas legítimas.

A delicadeza e intensidade de como ele vivia cada momento e sua capacidade de criar mundos a partir de pequenas situações me abriram para uma construção pessoal que me acompanha até hoje.

Fiz na época uma série de gravuras de um homem com sua xícara e usei fragmentos do texto para fazer um livro de gravura também.

Um jardim que tinha em casa me evocava a presença daquele livro e cuidava dele pensando na possibilidade dessa construção que queria para mim.

Acredito que alguns comportamentos e escolhas de vida e do trabalho, surgiram desse livro, descobertas que nenhuma outra pessoa ainda havia me proporcionado até então.

Depois li mais outros dois livros da série e outros de Proust. Parei quando achei que havia compreendido o que me movia a lê-lo. Mas mesmo não o lendo há muitos anos, ele me acompanha até hoje.

A organização do meu tempo pessoal em relação ao mundo e de alguns hábitos e escolhas, só a literatura pôde me dar – e Proust é um desses autores.

*Renata Cruz, artista plástica. http://www.renatacruz.net/

As mil perguntas

Posted in Ler faz crescer às 13:55 por sidneif

Por MAURÍCIO EDUARDO GRAIPEL*

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“Criança com Carneiro”(1954), obra de Cândido Portinari (1903-1962)

Quando penso em um grande momento que vivi nesse mundo mágico da leitura, lembro de muitos livros que li e também das muitas dissertações que escrevi. No meio de tantas lembranças e aventuras vividas, que se misturam entre o mundo real e o mundo da literatura, surge um momento que foi único.

Mas para chegar a esse momento aconteceram tantas coisas… Eu era criança e estava nos fundos da casa onde cresci. Acabara de plantar uma goiabeira e estava olhando para ela com o peito estufado de tanto orgulho. Nesse momento lembrei de um clichê que adorava. Agora só faltava ter um filho e escrever um livro. Naquele terreno eu viria a plantar muitas árvores, que um dia se transformariam em um pequeno bosque. Quando surgiu a Internet percebi aquela mancha verde no meio de uma cidade, cheia de bichos e cercada de casas.

Meu primeiro desejo eu havia alcançado e ido além. Mas nesse tempo já não era mais criança. Já havia me formado biólogo e nem lembrava mais do filho que um dia desejei, nem do livro que um dia quis escrever. Quando me casei, minha esposa não podia mais ter filhos, e eu só tinha tempo para trabalhar em minhas pesquisas com bichos selvagens.

Alguns anos depois, respondendo ao pedido de ajuda de uma aluna que não conseguia segurar uma gambá muito grande, muito brava e cheia de filhotes, tive que responder umas mil perguntas. Chegando em casa, comecei a escrever a história de vida de um corajoso gambá, uma espécie que eu estudava há muitos anos.

Na madrugada daquela noite, ao terminar de escrever, percebi que todos os meus desejos haviam se realizado. Ao responder as mil perguntas de meu filho adotivo, que levara para ver a furiosa gambá, eu acabara escrevendo meu livro¹ esquecido.

*Maurício Eduardo Graipel, biólogo, pesquisador e escritor.

¹Saru, o Guerreiro da Floresta, ed. Cuca Fresca.

14 de Maio de 2016

O leitor é um escritor*

Posted in Sem categoria às 15:22 por sidneif

Por JOSÉ ARRABAL¹

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“O Pequeno leitor”(c. 1860), de Johann Baptiste Reiner (1813-1890)

 

A arte da vida nas histórias

 Gosto de ouvir histórias e de ler histórias.

Sempre gostei de ouvir e de ler histórias.

Muitas vezes gosto ainda mais de tocar, sentir o sabor e até mesmo o perfume de histórias reencontradas em objetos antigos e lances de dados perdidos em meus armários, estantes, gavetas, com amigos que revejo após longo tempo sem convivência, quando então memória e vida se condensam e despertam mais uma página do romance que escrevemos pelo prosseguir da existência.

Ouço, leio, cheiro, seguro e me alimento de histórias.

Interrogo histórias.

Por meus sentidos associo com preciso prazer as histórias que encontro.

Se assim não fosse, certamente jamais teria escrito qualquer história de meus livros publicados. E quantas vezes encontro um primo, um vizinho, um colega de escola, uma cliente da clínica de meu pai, uma namorada de adolescência, um fortuito companheiro de viagem num personagem inventado, presente em algum de meus contos. Quantas vezes encontro um fato vivido, lido na vida, em certa nuance da intriga, do enredo de uma ou outra das histórias que escrevi.

Assim é comigo. E assim deve acontecer com qualquer escritor. O que me leva a crer que o escritor gosta bem mais de conviver com histórias do que de escrever histórias.

A bem da verdade, creio que o escritor é essencialmente um leitor. Sempre um leitor às voltas com a arte da vida transfigurada por palavras.

Lição de Machado de Assis

 O que concluo, porém, é pouco. É tão somente metade da verdade que se completa num desejo de Machado de Assis.

Entendia o maior de nossos escritores que qualquer livro devia trazer na capa e na folha de rosto interior, além do nome do próprio autor, um espaço, uma linha em branco, onde caberia a cada leitor anotar seu nome, apossando-se de uma legítima coautoria, pois que cada leitura de qualquer livro é uma sensível reescritura do lido quando bem lido o livro.

Assim, ler é reescrever e cada leitor um escritor ao ler.

Nenhuma Capitu é a mesma no entendimento de quem a encontra nas páginas de Dom Casmurro.

Creio que sim e tal constatação sempre me desequilibra nas ocasiões em que converso com alguém que leu alguma de minhas histórias.

Isto por conta de perturbadora sensação que me alcança e se faz presente, desconfiado de que me faltou algum lance no que escrevi, lance de dados que o leitor me comunica por suas impressões a propósito de uma personagem ou da intriga na aventura da história reescrita por ele.

Situação às vezes até espetacular, na contradição que me instaura.

Certa feita, com a ânsia de ser lido, passei a uma aluna o texto de um conto que havia terminado na manhã do mesmo dia.

Em meu entender de escritor, tratava-se de uma história triste, tristíssima, dessas que às vezes não sei bem porquê sou levado a escrever.

Claro que me afastei, enquanto o conto era lido por essa aluna.

À distância, surpreendi-me ao escutar rápidas e discretas risadas da leitora amiga.

Mais perplexo deixou-me o seu comentário:

– Ótimo! Divertidíssimo, esse conto! – foi o que me revelou essa leitora, apossando-se da autoria com outro entendimento de minha história, no caso,  leitora-escritora às voltas com a arte da vida transfigurada por palavras.

Nada lhe retruquei, seguro da injustiça presente em meu sentimento de raiva devido à perda da posse única de meu conto, perda que devo entender que é um ganho, pois tantas vezes, igualmente, tomo para mim a autoria de histórias escritas por outros escritores.

 A casa do tesouro

 Se escrever histórias exige do escritor um empenho árduo, não menos, ler histórias exige do leitor um árduo empenho. Deveras, ler e escrever histórias não são hábitos fáceis de adquirir. Contudo, nos fornecem prazeres de preciosa valia.

Verdade é que o melhor na vida não é fácil.

Não é fácil a conquista feliz de uma boa história de amor na vida. O que, igualmente, nos fornece prazeres de preciosa valia.

Se conviver com histórias e seus prazeres – na fantasia dos livros ou na realidade da existência – nos fornece sabedoria para a arte de viver, não menos é necessária uma justa aprendizagem para essa promissora convivência.

Principiei a gostar de ouvir histórias, ler histórias, escrever histórias e gostar da vida – na fantasia dos livros ou na realidade da existência – por obra e graça da aprendizagem que no costume do dia a dia me forneceram meu pai e meus professores, desde minha infância, em casa, na escola primária e, mais tarde, na adolescência, no ginásio da cidade em que nasci.

Verdade é que era um tempo sem tanta pressa inútil feito hoje.

À noite, após o jantar, na sala de estar de casa, se não havia o que conversar entre meus tios, primos e meus avós espanhóis, meu pai lia histórias para todos nós.

Ator em sua juventude, quando estudante de Medicina no Rio de Janeiro, interpretava os enredos e suas personagens, de tudo fazia feliz espetáculo. Chegava ao requinte de paramentar-se tal qual um ou outro protagonista da história de ocasião que lia.

Quem mais gostava dessa festa era minha avó espanhola em seus  últimos anos de vida.

Hoje, passados mais de cinquenta anos desses acontecimentos familiares de minha infância, estou seguro de que era mais para a alegria de vovó que se endereçava todo o esforço e empenho das leituras de meu pai.

Ao longo daqueles anos 50, por mais de mil e uma noite desse percurso de leituras em casa conviveram conosco, entre tantos outros contistas, romancistas e poetas, Machado de Assis, Gonçalves Dias, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Mark Twain, Jack London, Edgar Alan Poe, Charles Dickens, Robert Louis Stevenson, Oscar Wilde, Leon Tolstoi, Máximo Gorki, Anton Tchecov, Voltaire, Victor Hugo, Honoré de Balzac, Gustave Flaubert, Emile Zola e, sempre, sempre, sempre Miguel de Cervantes, mais Federico Garcia Lorca, pois afinal de contas tratava-se de uma casa espanhola com certeza, no interior do Estado do Espírito Santo, Brasil.

Num certo 13 de maio, creio que em 1953, papai nos reuniu a todos, inclusive alguns vizinhos, para uma leitura pomposa de O Navio Negreiro, de Castro Alves. A que juntou um poema de sua própria autoria a respeito do valor dos negros e da Abolição da Escravatura.

Outras festas semelhantes com leituras de papai aconteceram em um ou outro vinte um de abril ou sete de setembro, nalgum dia da árvore ou quinze de novembro e sempre no Natal, mais no dia de Reis.

Na véspera de meu décimo aniversário, em 1956, mamãe avisou-me em segredo que papai havia comprado um tesouro para mim. E que esse tesouro seria meu presente no dia seguinte.

Era, não mais, nem menos do que O Tesouro da Juventude, valiosa reunião de conhecimentos em 18 volumes belíssimos e ilustrados que me foram entregues com a obrigação de ler no decorrer das férias e do ano seguinte.

Evidente que li sem me arrepender. A bem dizer, nada demais. Dois anos antes, ganhara todo o Monteiro Lobato para crianças, 17 volumes em capa dura, que li em menos de dez meses.

Verdade é que ainda hoje, em minha memória, reencontro papai e suas histórias, algumas vezes alegremente com tapa-olho e espada de pirata, lendo para nós A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson.

 O mel das abelhas

 Certa manhã, tio Alípio Barcelos, português em quem bondade e inteligência nasceram e viveram por mais de noventa anos, ao me encontrar na biblioteca de casa com Histórias de Tia Nastácia, Monteiro Lobato, interrompeu-me a leitura com outra história, a de que ler é tão importante para todos feito respirar e comer.

– E não só a leitura dos livros. Se tu queres ver, deixe de prosa e venha comigo – insistiu e me levou até o pomar, no quintal de casa.

No pomar, pôs-se a contar a história de cada árvore, da origem das mudas de flor no jardim, de meu avô contrariado com a oliveira que jamais frutificava, da construção da cerca que margeava o riacho nos fundos do terreno,  da grande enchente que tudo cobrira e derrubara as paredes da edícula onde ficavam guardadas as ferramentas usadas para o plantio, sua reconstrução posterior.

Lia para mim algumas das páginas do grande romance de nosso quintal.

Diante das caixas de abelhas sob os eucaliptos junto ao muro que dividia nosso terreno com o terreno dos vizinhos, adiantou-me que não só os homens sabem ler:

– Toda a natureza lê. As abelhas, se não soubessem ler, não saberiam fazer mel. Lêem as histórias que as flores lhes contam e com elas constroem a vida das abelhas. É isto…

Daí, adiantou-me que na capoeira de erva cidreira além do pé de carambola vivia um saci.

– Nunca vi, mas sei que mora ali, pois foi o que certa vez me alertou sua avó, que não é mulher de mentir. Esta, porém, é outra história que te conto noutra ocasião. Trate agora de voltar ao livro que lia e deixe de contar prosa do que leu. Há muito o que ler e nunca é bastante, pois que ninguém consegue ler tudo, só Deus.

Imediatamente, retornei a Lobato. Evidente que intrigado.

Por conta dessa conversa com meu tio, hoje reconheço que desde então trazia comigo a mais precisa descoberta da história de qualquer leitor.

 A primeira palavra

A primeira palavra que por conta própria li em público e em voz alta, após pretensamente alfabetizado, foi epóca. Assim mesmo, com a tônica deslocada para a segunda sílaba.

– O que é epóca ? – logo perguntei a meu pai, apontando a folha de jornal que protegia o assoalho recém encerado da sala de jantar, onde se encontrava escrita a estranha palavra.

Papai, surpreso, corrigiu:

– Época ! Época ! – e feliz levantou-me do chão, seguro por suas mãos para o melhor abraço de minha vida. – Ele já sabe ler! Ele já sabe ler! – logo levou a notícia a mamãe com tamanho entusiasmo que, a bem da verdade, livrou-me da vergonha de ter lido errado, certo de que não era mau reconhecer e corrigir um erro.

No dia seguinte, deu-me uma caixa com um tabuleiro e muitas peças de madeira, meu jogo de palavras cruzadas que tenho comigo até hoje junto de outras lembranças de infância, relíquias preciosas de minha história pessoal, evidentes testemunhas de que viver é bom.

Desde essa história, todas as vezes que leio a palavra época, não me mete medo a História de nossa época, ainda que tempo de tantas desigualdades, guerras, barbaridades.

 Camões quase destronado

 Na escola primária onde me alfabetizei não foi diferente.

Ainda que nossa professora fosse mal vista por alguns pais como “a maior malandra que não ensina a ler e só sabe ler histórias para as crianças durante as aulas”, deveras, ela nos ensinou a ler e a gostar de histórias tão somente lendo histórias para nós.

Lia com graça de viva contadora de histórias.

Se nos percebia atraídos por alguma palavra, frase, passagem do enredo da história lida, escrevia no quadro negro e em muitos modos de escrever – com letras de forma, manuscritas, em maiúsculas e minúsculas – essa palavra, frase ou passagem, nos despertando a atenção para seus desenhos caligrafados na lousa.

Sem demora nos incentivou a copiar seus desenhos.

Rapidinho aprendemos a ler. E a gostar ainda mais de ouvir histórias e de ler histórias.

No ginásio, em especial na terceira série, hoje sétima, a professora de Português, nos dois semestres do ano letivo, cuidou tão somente de ler para nós e nos fazer ler crônicas, contos, trechos de romances, biografias e poesias que, direta ou indiretamente, tinham por temas os conteúdos das mais diversas disciplinas em curso.

Assim, nos afeiçoamos à Matemática, lendo, comentando e discutindo O Homem que Calculava, de Malba Tahan.

Melhor entendemos a História do Brasil, quando estivemos às voltas com os capítulos de Esaú e Jacó, Machado de Assis, dedicados à proclamação da República.

Surpreendente foi, para nós todos da classe, a leitura dramatizada que fizemos de Édipo Rei, Sófocles, em meio à nossa unânime paixão pela mitologia grega.

Vasta foi a contribuição de Julio Verne nos afeiçoando à Geografia e às demais ciências da conquista humana.

Memórias de um Sargento de Milícias, Manuel Antônio de Almeida, muito nos esclareceu como era a vida do povo no tempo do rei Dom João. E melhor compreendemos os primeiros anos do mando de Pedro II com a vivacidade da comédia O Noviço, Martins Pena.

Lemos e discutimos as mais pungentes passagens da vida de Madame Curie, dando evidente realce à importância da Química para a História da Humanidade.

E a Biologia nos chegou com a biografia de Louis Pasteur.

Feliz foi, sobretudo para mim, a ocasião em que essa professora de Português trouxe até nos meu pai, que, Médico na cidade, nos contou, em palestra ilustrada com fotos, cartazes, crônicas e músicas de época, a história da vida do cientista brasileiro Oswaldo Cruz.

Fomos estimulados a buscar outras histórias entrevistando avós e tios, imigrantes, filhos das mais diversas nações agora vivendo na comunidade de todos nós.

Escrevíamos relatórios e redações, em grupo e individualmente, a partir das histórias que ouvíamos e líamos, nessas aulas de Português.

Muitas vezes parodiávamos poemas em plágio explícito, incentivados pela professora, o que nos divertia pra valer aprimorando nossa escrita.

Camões, admirado, glorificado e lido, por pouco não foi destronado:

“ Sem armas ou barões assinalados,

Neste cantão da terra capixaba,

Gente simples, povo de outros povos,

Mais do que prometia a própria força humana,

Com trabalho duro e sem vara de fada,

Mostra cafezais e gado bem tratados,”

 Claro que não fomos muito adiante com o épico que sonhamos escrever, mas, daí, passamos a contar e a escrever histórias inventadas por nós. A mais feliz farra nessas nossas aula de Português.

Hoje, tais lembranças da importância de ouvir e ler histórias me levam a crer que seria bastante proveitoso se os mais diversos professores de agora, sem tanta pressa para passar seus conteúdos aos alunos, dedicassem certo tempo de suas atividades contando e lendo historias referentes ao conhecimento de suas disciplinas, somando esses seus valiosos esforços com seus colegas do ensino de Português e Literatura.

Uma valiosa preguiça

 Na Faculdade de Letras, vivenciamos, também, incomum e curiosa experiência de leitura no doloroso ano de 1969, em meio a nossos temores de estudantes submetidos à violência da ditadura militar.

Desde a primeira aula, nossa professora de Teoria Literária dividiu a turma em oito grupos. Em rodízio, nos distribuiu, sem maior critério, oito obrigações de estudo, cada um delas com cada grupo a cada mês do ano letivo. Assim, tivemos de ler e comentar por escrito e em seminários:

1- A Ilíada & Odisséia, Homero

2- Eneida, Virgílio

3- A Divina Comédia, Dante Alighieri

4- Decameron, Boccaccio

5- Fausto, Goethe

6- Ulisses, James Joyce

7- Esaú e Jacó & Memorial de Aires, Machado de Assis

8- Grande Sertão: veredas, João Guimarães Rosa

  Havia os que acusavam a professora de agir assim, não mais nem menos, por preguiça de ministrar aulas. Realmente, ela não deu nenhuma aula no decorrer do ano. Chegava na sala, sentava em sua cadeira, fazia a devida chamada e nos perguntava se tínhamos alguma dúvida em nossas leituras. Às vezes passava alguma referência bibliográfica ou texto crítico a respeito de alguma das obras que estávamos lendo. Quando mais, sorteava a data devida para ouvir nossos seminários, a que atribuía suas notas.

Outros insinuavam que a professora assim fazia por temor de ter sob suspeita da polícia algum de seus comentários teóricos, naquele ambiente de pesada repressão política. Suspeita vã, pois que ninguém ignorava suas simpatias pelo governo militar.

Eu me incluía entre os que acreditavam em sua evidente preguiça de dar aula. Preguiça associada à incompetência, pois que a mestra não era lá muito conhecedora do assunto de seu magistério. Ocupava sua cadeira na faculdade por conta de ser filha da velha catedrática de Literatura Brasileira, pessoa de reconhecido poder na hierarquia universitária.

Graças à sua valiosa preguiça, alcançamos dezembro com todas as obras lidas e estudadas. Um grande ganho para todos nós, recompensa sem dúvida maior e melhor do que obteríamos assistindo às supostas aulas da duvidosa mestra.

 Decerto ler não dói

 Creio que me tornei escritor devido a meu gosto por ouvir histórias e ler histórias, prazer tatuado em mim por toda essas aventuras na travessia de minha vida, atento ao empenho e esforço das abelhas de meu tio português.

Sei, contudo, que prefiro ler a escrever.

Decerto, ler não dói.

Escrever às vezes dói, ainda que seja dor logo transfigurada no mais seguro prazer.

Até mesmo creio que leio melhor do que escrevo.

Sei que há escritores que escrevem para ser amados. Outros, porque se julgam infelizes e criam, por suas histórias, mundos diversos, nos quais alcançam alguma felicidade. Há aqueles que escrevem porque não conseguem deixar de escrever. E os que escrevem porque não sabem fazer nada mais senão escrever histórias.

Creio que escrevo por conta do sabor de certas boas saudades, feito quem procura ter o tempo nas mãos por gostar do vivido, mesmo quando inventado. Por gostar imensamente da vida, esse vasto romance de Deus, com intriga e aventuras algumas vezes tão bem resolvidas ou tantas vezes expressas num rascunho rasurado, pleno de falhas que nos revoltam e nos levam ao desejo de reescrevê-lo, ainda que sempre obra-prima de Seu escritor.

Que Deus abençoe o leitor.

 ¹José Arrabal é professor universitário, jornalista, escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira: Teatro” (Editora Brasiliense), “Sherlocks on the Rocks nas Diretas Já”, “A Sociedade de Todos os Povos” (Editora Manole) “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras, Vol 1/Vol. 2”, “Cacuí O Curumim Encantado”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta”. “Da Vinci das Crianças”, “O Terrível Gosmakente”, “A Chave e Além da Chave” (Editora Paulinas), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço”, (Editora FTD), , “Histórias do Japão”, “O Lobisomem da Paulista” (Editora Peirópolis) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora). 

*Originalmente publicado no livro  “O Lobisomem da Paulista” (Ed. Peirópolis), o texto foi gentilmente sugerido  e cedido ao blog pelo autor José Arrabal.

Como se fosse cinema

Posted in Sem categoria às 15:16 por sidneif

Por MARCELO C. P. DINIZ*

eMuseumPlus

“Jovem Lendo à Luz de Vela” (C. 1630), de Mathias Stom (1600-1650)

Eu estudei numa época em que o curso médio era dividido em Científico e Clássico. Desde muito cedo eu sabia que as ciências exatas não eram da minha vocação e optei pelo clássico, com a alma aliviada por não ter que encarar matemática, física, química e até biologia.

Não me lembro se um pouco antes, durante ou depois tive muito gosto ao ler parte da Comédia Humana, de Balzac, O Tempo e o Vento de Erico Veríssimo, vários livros de Jorge Amado, O Velho e o Mar, de Hemingway, O Apanhador no Campo de Centeio (J. D. Salinger), O Cortiço (Aluísio Azevedo), A Cidade e as Serras (Eça de Queirós). Não havia nenhum método prévio: eu pegava um livro, lia um pedacinho, gostava, continuava. E lia como se fosse cinema. Meu pai era gerente da RKO Radio Filmes, distribuía Disney, eu não pagava para entrar e ia ao cinema quase todo dia.

 Mas, muito cedo, ali pelos 16 anos de idade, comecei a trabalhar, fiz o meu primeiro estágio na área de propaganda. A partir daí, dei preferência aos livros técnicos: propaganda, relações públicas, sociologia, filosofia, história etc. Aos 21 anos, trabalhava na Souza Cruz, fui transferido para Governador Valadares e voltava a Belo Horizonte uma vez por mês, para uma reunião dos gerentes distritais. Na volta, passava numa livraria, enchia o porta-malas do carro de livros e viajava.

 Eu era um autodidata, mais uma vez sem ter programado nada.

 Termino este post relacionando alguns livros que foram importantes na minha formação, mas ressalvando que o conhecimento está em todo lugar: nos outros livros, nas revistas, nos posts da internet, nas conversas, no pensamento.

 – Toda a obra de Fritjof Capra;

– Toda a obra de Peter Drucker;

– Toda a obra de Philip Kotler;

– A imaginação de Marketing, de Theodore Levitt;

– A Conexão Planetária, de Pierre Lévy;

– James H. Myers e William H. Reynolds (Gerência de Marketing e Comportamento do Consumidor);

– Toda a obra de David Ogilvy;

– “Nova Técnica de Convencer” (Vance Packard);

– Meus Índios, Minha Gente ( Darcy Ribeiro);

– Jeffrey Sachs (“O Fim da Pobreza” e “A riqueza de Todos”);

– Joseph Stiglitz  (Globalização: como dar certo);

– Lester Thurow  (O Futuro do Capitalismo).

 Se relacionarmos tudo que sabemos, buscando soluções originais, chegaremos à criatividade, que é um valor imensurável. E, se não estivermos procurando o sucesso profissional, o simples fato de saber já ajuda muito a viver.

 

*Marcelo C. P. Diniz, publicitário, autor de “O Capital Moral ou a Falta Dele”,“Crônicas de um bipolar” e “Será a Propaganda Culpada?”. http://www.conscius.com.br

22 de Setembro de 2015

Revelações e epifanias

Posted in Ler faz crescer às 16:49 por sidneif


Por RAQUEL NAVEIRA*

“O Mistério da Vida”  (1879), de Carl Marr (1858-1936).

O objeto livro

Sempre fui fascinada pela palavra. Ela é minha forma de ser e estar no mundo. Quando criança, amava as cantigas de rodas, os contos de fadas, o objeto livro. Meu avô era um autodidata, possuía uma rica biblioteca e eu gostava de manusear os livros, de observar figuras à luz de velas.

As asas da imaginação

Logo que comecei a ler, encontrei Monteiro Lobato – foi o abrir das asas da imaginação. Meu avô me levou a Taubaté para conhecer o Sítio do Picapau Amarelo, e lá participei de um concurso da Petrobrás sobre a vida e a obra de Monteiro Lobato. Eu devia ter uns oito anos, foi quando resolvi ser escritora. Escrevia histórias de fadas e bruxas em cadernos. Era meio bruxa e meio fada. O amor pelos livros transformou-se em amor pelo Magistério. Gostava de dar aulas para minhas bonecas, de fazer chamada, de passar lições na lousa. Nasci com vocação para escritora e professora. Dediquei-me ao jornalismo e ao magistério.

Bálsamo e remédio

A poesia veio na adolescência. Como bálsamo e remédio. Creio que “mágoas curam grandes mágoas”, como disse Luís de Camões. Gosto de revelações, de epifanias, de momentos que explodem no cotidiano e que fazem tudo mudar.

De Monteiro Lobato a Mia couto

Sempre fui leitora apaixonada. Desde criança: Monteiro Lobato, Hans Christian Andersen, os irmãos Grimm, As Mil e Uma Noites, Malba Tahan. Na adolescência, a poesia: os românticos, o revolucionário Castro Alves, o genial Álvares de Azevedo, o clássico Gonçalves Dias; os modernistas: Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles. E houve o momento Clarice Lispector. Lygia Bojunga, amiga querida, que passou a me enviar seus livros com lindas dedicatórias. E Nélida Piñon, que narra tudo como Homero. A Literatura Francesa caminhou lado a lado, o francês é minha segunda língua: Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Paul Verlaine. Há a Literatura Latina – sou fascinada por Roma Antiga, pela mitologia greco-romana -, a  latino-americana com o realismo fantástico de Jorge Luis Borges, a  portuguesa: Camões, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, entre outros. E hoje, a literatura africana com Mia Couto à frente. Nunca esquecendo que minha leitura de todos os dias é a Bíblia. Está tudo lá: oráculos, ensinamentos, poesia pura como ouro de Ofir. Com destaque para os salmos, os cantares de Salomão e as cartas de Paulo.

O verbo encarnado

O meu universo é o das palavras. Creio no poder da palavra. Que a palavra é bênção e maldição. Que ela cria o real. Que Deus é o verbo encarnado. Que o reino das palavras é mágico. Que a palavra atrai,profetiza, cura, exorciza, marca com ferro e fogo.

*Raquel Naveira, escritora, jornalista e professora sul-mato-grossense. Conforme sugestão da própria escritora, o texto Revelações e epifanias é formado por trechos de entrevistas de Raquel Naveira concedidas ao Mestre em Literatura Brasileira Ângelo Mendes Corrêa ( São paulo Review, 03/08/2015, link http://saopauloreview.com.br/a-leitura-e-a-literatura-sao-a-base-de-tudo/) e ao jornalista Carlos Herculano Lopes (O Estado de Minas, 15/03/2014);

3 de Abril de 2015

Aprender a aprender sozinho

Posted in Ler faz crescer às 14:43 por sidneif

Por NUNO MINDELIS*

"Moça Jovem lendo" (1904), do alemão Casper Ritter (1862-1923).

“Moça Jovem lendo” (1904), do alemão Caspar Ritter (1861-1923).

Desde que nasci,  tive a sorte de minha mãe entupir a nossa casa com livros. Ela era uma leitora voraz, essa é provavelmente uma das maiores dádivas que uma criança pode ter.

 Eu e o meu irmão ganhamos todos os clássicos da literatura,  Robinson Crusoe (Daniel Defoe, 1660-1731), Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho (Lewis Caroll, 1832-1898), As Viagens de Gulliver (Jonathan Swift, 1667-1745), contos dos irmãos Grimm, fábulas de La Fontaine (Jean, 1621-1695)  e tantos outros.

 Também nos trazia sempre livros do Tintin¹. Eram como um presente nos dado geralmente quando ficávamos doentes , com gripe ou resfriado, e tínhamos que faltar à escola.

Apesar do ambiente dos quadrinhos, aprendi muita história , geografia e até francês ao mergulhar naquelas aventuras todas, já que eram as edições originais das editoras Flamboyant e  Casterman. Não havia tradução de livros onde eu morava. Era tudo importado e no original.

 Paralelamente , em razão de que minha mãe lia muito, havia quase todos os grandes clássicos da literatura adulta e mais contemporânea pelas estantes da casa , Ernest Hemingway (1899-1962), Truman Capote (1924-1984), F. Scott Fitzgerald (1896-1940), Oscar Wilde (1854-1900) etc.

E muito Eça de Queiroz (1845-1900), em edições primorosas de papel especial, fininho, espetacular. A Cidade e as Serras, O Crime do Padre Amaro e muitos outros.

Também assinava todas as edições da National Geographic, bem como as revistas Time e Newsweek.

 Aos doze anos, peguei por acaso a Metamorfose de Franz Kafka (1883-1924). Li-o, achando que haveria um final feliz , como tanto estava acostumado sendo uma criança. Não houve.

A minha mãe surpreendeu-se ao saber que tinha lido o livro.

Porquê leste esse livro ? Peguntou rindo.

– Bom, estava sempre à vista nesta estante, no caminho do meu quarto.

 Comecera a lê-lo e não conseguia largá-lo porque avançava numa torcida sôfrega por um final feliz.

Um professor meu muito cedo ensinou-me algo de que nunca esquecerei: “peguem no livro e leiam, leiam tudo. Mesmo que não compreendam, continuem a ler. Quando terminarem, leiam de novo. E assim por diante até compreenderem tudo e é certo que chegará esse momento. E leiam a capa, a orelha, o prefácio, as notas, os dados bibliográficos,  leiam tudo , absolutamente tudo e sempre.”

Desde que se sabe da existência do homem, todo o conhecimento é transmitido pela escrita. A rupestre (antes da escrita formal)  até hoje dá dicas de civilizações ancestrais.

Não há outra forma. Mesmo quando se pensa nos sistemas mais sofisticados, é de reparar-se que escrevemos neles ou pelo seu meio. O editor de texto Word que o diga.

 Ler liberta e dá a possibilidade de aprender a aprender sozinho. Por isso liberta. E por isso o conselho do meu professor.

É como abrir cortinas e olhar ao longe, ver o passado, o presente e, como Julio Verne (1828-1905) prova, uma boa dose do futuro com muita precisão.

*Nuno Mindelis, músico brasileiro. Nascido em Angola, Mindelis é um dos principais guitarristas de blues do país.

¹Tintin, personagem dos quadrinhos criado pelo cartunista belga Hergé (1907-1983).

19 de Fevereiro de 2015

Tempos líquidos

Posted in Brasil às 17:15 por sidneif

 Por POLLY D´AVILA*

Solve Sundsbo

Obra de Solve Sundsbo (fotógrafo norueguês).

A frase que parece ecoar com mais força, quando se pensa na aventura moderna, é aquela em que Karl Marx (1818-1883) diz: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado.” O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que reflete sobre temas atuais, fez a seguinte afirmação: “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”. Se relacionarmos o pensamento de Marx ao de Bauman veremos que têm algo em comum – a incerteza que paira sobre a vida humana nos últimos séculos.

Em sua citação, Marx referia-se ao momento pós-industrial na qual ocorreram mudanças sócio-econômicas significativas em alguns países. Com o rápido aumento demográfico, o indivíduo se viu imerso em uma multidão, em que precisava lutar cada vez mais por sua identidade. E isso, também, afetou o modo como o homem passou a lidar com tudo o que era “sagrado” – as relações humanas, a religião, a arte.

A multidão tornou-se massa. E logo ocorreu uma passagem da “fase sólida” moderna para a “fase líquida” pós-moderna. Quais seriam então os valores dos homens em meio as massas? Ou melhor, como podemos falar de valores quando não existem mais valores? Bauman questiona: “Como pode alguém viver a sua vida como peregrinação se os relicários e santuários são mudados de um lado para o outro, são profanados, tornados sacrossantos e depois novamente ímpios num período de tempo mais curto do que levaria a jornada para alcançá-los?” Ou seja, o homem é impelido a ser mutável, reage como um líquido para viver no mundo atual. E, assim como os líquidos, muda de forma rapidamente, incapaz de manter a mesma forma por muito tempo.

Entre os tipos humanos do nosso tempo, Bauman fala-nos do “turista” e do “vagabundo”. O turista baseia sua vida na mobilidade e na liberdade. Guarda para si a distância e impede a proximidade. Quando, para ele, não é mais cômodo estar em um determinado local ele se move. E é nesse ponto em que ele mesmo gera suas incertezas. Já o vagabundo vê o mundo como um ambiente inóspito. Ao contrário do turista, que vê o fascínio. O vagabundo é a vítima do mundo, se ele se move não é porque quer, mas porque não há outra escolha. Tratam-se de metáforas.

Se na pós-modernidade tudo está profanado, e o homem encontra-se dissociado, então não estaríamos vivendo um novo tipo de barbárie? É algo a ser refletido, já que toda barbárie é confusão e volta ao caos. Os noticiários de tv e os acontecimentos que vemos ao nosso redor ajudam-nos a aumentar essa sensação.

Desta forma, o que então pensar das relações afetivas? Os relacionamentos estão cada dia mais inconstantes e frágeis como bolhas de sabão que sopradas ao vento esperam por um fim. Bauman disse em entrevista que, na atualidade, mantemos relações enquanto houver satisfação. Quando esta não mais existe, substituimos-nas como fazemos com os nossos bens de consumo. Para isso ele alerta, “é bom lembrar que o amor não é um ´objeto encontrado´, mas um produto de um longo e muitas vezes difícil esforço e de boa vontade.”

Um outro filosófo chamado Jean-François Mattéi escreveu que já nascemos póstumos na sociedade atual, em meio ao fim das ideologias, do progresso, da história, da metafísica. O olhar do voyeur pós-moderno em relação ao mundo é um olhar de morte. Para ele, vivemos no “i-mundo”, que é o que resta do mundo quando o homem se vê em um lamaçal bárbaro, o qual chamamos de massa, e em que o pensamento individual se abisma.

Portanto, para o homem não ser tomado pela barbárie, precisa superar a prisão do eu. Precisa superar a cegueira, da qual nos fala Saramago por meio de metáforas em um famoso livro. O homem deve elevar-se, como acrescenta Mattéi, pois “todo pensamento é altivo porque se mantém à altura do ser, e para além dele”. Elevando-se, o indivíduo estará à altura da obra e, deste modo, não será um simples sujeito da história. Será um começo em si e um além de si.

Polly D´Avila, artista plástica. O texto foi originalmente publicado no Facebook e gentilmente cedido pela autora ao blog.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. O Mal-estar da Pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

MATTÉI, Jean-François. A barbárie interior. São Paulo: Editora Unesp, 2001.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

BAUMAN, Zygmunt. São Pulo: Isto é. Entrevista concedida a Adriana Prado. <http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/102755_VIVEMOS+TEMPOS+LIQUIDOS+NADA+E+PARA+DURAR> Acesso em: 19 de jan. 2015.

17 de Dezembro de 2014

Os livros cresceram junto comigo

Posted in Ler faz crescer às 17:29 por sidneif

Por TALITA MORETO*

Retrato de sua filha em Gorey, [Julie Manet]

“Retrato de sua filha, Julie Manet, em Gorey” (1886), da francesa  Berthe Morisot (1841-1895).

Os livros chegaram cedo às minhas mãos pequenas. Com poucos anos de vida, vários títulos transitavam pela minha casa. Isso porque meus pais sempre colocaram livros e outros tipos de leitura à nossa disposição (minha e da minha irmã). Não lembro de nenhum deles (meus pais) lendo para mim ao pé da cama, mas eu recordo bem de tentar ler mesmo sem conhecer as palavras e, aos poucos, decifrar os códigos lendo diversas vezes a mesma história.

 Conforme eu crescia os livros “cresciam” junto comigo e as histórias adaptavam-se à minha idade. Na adolescência (dos 11 aos 14 anos, mais precisamente), eu lia muito. Acredito ter lido todos (ou quase todos) os títulos de Pedro Bandeira. Eu tive sorte, eu sei, por frequentar uma escola que possuía uma biblioteca farta.

 Recordo de um sábado no qual eu acordei e, sem levantar da cama, peguei o livro que estava ao lado e o li todinho antes do almoço. Na tarde do mesmo dia eu li mais dois livros. Mas não tente fazer isso se você tem mais de 30 anos. Livros para adolescentes de 12 anos são compostos por 100 ou mais páginas cobertas com letras grandes. Sendo assim, é compreensível ler muito em pouco tempo.

 O fato é que com 12 ou 13 anos eu lia, em média, dez livros por bimestre. Eu retive essa informação na memória porque minha professora de Língua Portuguesa cobrava, por meio de questões na prova bimestral, a leitura de no mínimo três títulos. Foi na sala de aula que eu encontrei mais incentivo para ler.

 Bom, com 13 anos eu achei que tinha capacidade suficiente para escrever um livro, já que, com essa idade, eu fazia centenas de poesias. Comecei então a escrever um livro – e o terminei! Ele ainda existe – na gaveta, ou melhor, no computador. Nunca publiquei, mas eu posso dizer que escrevi um livro aos 13 anos. Quem sabe um dia ele saia do HD.

 Hoje eu continuo lendo, não da mesma forma, nem mesmo três livros por bimestre, e não são todos os livros feitos de papel. A leitura mudou porque eu mudei, mas posso afirmar que os livros continuam “crescendo” junto comigo.

*Talita Moretto, jornalista especialista em Tecnologias na Aprendizagem, coordenadora de Programa Jornal e Educação, atuando na interface mídia e educação desde 2008. Autora do blog Sala Aberta. Contato: talitamoretto@salaaberta.com.

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