14 de Junho de 2018

De leitora a escritora

Posted in Sem categoria às 16:56 por sidneif

Por IZILDA BICHARA*

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“Figura na janela” (1925), de Salvador Dalí (1904-1989)

Venho de uma família simples. Meus pais tiveram pouco estudo, mas os livros que tínhamos em casa sempre foram considerados algo muito valioso. Eram algumas coleções e enciclopédias compradas a prestação de vendedores que batiam de porta em porta. Minha mãe gostava de ler. Desvendava histórias ou verbetes de pesquisa para os três filhos pequenos e, sempre que ia à “cidade” – como ela chamava o centro de São Paulo – voltava para casa com um livrinho azul, da editora Melhoramentos, o presente mais esperado por nós, crianças. Eram fábulas e historinhas variadas que ela lia e relia para os filhos. Eu ficava encantada com o que ouvia e, aos poucos, passei a decifrar pessoalmente o enigma da composição das letras, que formavam palavras, que formavam frases, que formavam pensamentos, ensinamentos e tantas histórias lindas.

Eu aprendi formalmente a ler aos seis anos e, nessa ocasião, fui com a família para uma Colônia de Férias, em Bertioga – SP, onde havia uma biblioteca circulante. Lembro-me que fiquei fascinada com a quantidade de livros que vi e, mais ainda, com a possibilidade de tomá-los por empréstimo. O primeiro livro que retirei na vida foi ali: Alice no País das Maravilhas, uma adaptação do texto de Lewis Carroll, que me deixou absolutamente maravilhada. Mas, como eu era uma leitora iniciante, as férias acabaram e não consegui chegar ao final do livro que, com muito pesar, tive de devolver. Talvez isso tenha atiçado ainda mais meu interesse pela leitura, pois, a partir de então, passei a ler com voracidade tudo o que me chegava às mãos, desde as cobiçadas revistinhas em quadrinhos até os livros indicados no colégio, muitos dos quais retirados de bibliotecas públicas.

Aos 17 anos, dois livros foram fundamentais na escolha da faculdade que eu iria cursar: Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, indicado e emprestado por minha professora de Português, que me desafiou a ler um autor que escrevia de um jeito completamente novo, e Crime e Castigo, de Dostoiévski, que comprei, por acaso, num sebo. Ambos me envolveram e tocaram profundamente e me mostraram uma nova concepção de literatura. Ao final daquelas duas leituras, não tive mais dúvidas. Cursei Letras, Língua e Literatura Portuguesa e Russa, na Universidade de São Paulo, onde tive a oportunidade de conhecer outros grandes autores russos, portugueses e brasileiros. E isso acentuou em mim também o desejo de escrever.

Hoje sou escritora e sou também uma leitora voraz, que lamenta a certeza de que precisaria de muitas vidas para dar conta de todos os livros que gostaria de ler.

Acredito que ler e escrever são atos que se complementam. Um bom escritor se alimenta da leitura de bons livros. E o que é um bom livro? Para mim, é o que me leva para um outro lugar, onde acompanho a vida, os dramas, as alegrias e agruras de personagens que passam a fazer parte do meu universo, com quem me identifico ou não, por quem torço ou me enraiveço, que sempre me fazem pensar e sentir alguma coisa nova.

Um livro é um novo caminho que se abre, um acesso a um mundo inusitado ou desconhecido. Por meio dele, posso viajar no tempo e no espaço, para lugares e situações que estão além dos limites de minha vida, ampliando minhas experiências e dimensões.

A leitura efetivamente faz diferença. Desenvolve o raciocínio e o repertório, amplia o conhecimento geral, estimula a criatividade, as emoções e a imaginação, aumenta o vocabulário, desenvolve o senso crítico, causa impacto ou deleite. É por isso que considero de fundamental importância incentivar e cultivar o gosto pela leitura entre crianças e jovens, para que se possa construir uma sociedade melhor, culturalmente mais rica, mais desenvolvida, mais humana.

                                               

IMG_3405 (4)*Izilda Bichara, formada em Letras e em Direito pela USP. Foi professora de Língua Portuguesa, procuradora do Município de São Paulo e orientadora de oficina de poesia e expressão escrita. Participa do Mulherio das Letras e integra o Coletivo Literário Martelinho de Ouro, desde a sua fundação, em 2012, tendo contos publicados nas diversas coletâneas do grupo: “Achados e Perdidos”, “Serendpt”, “Sub e Eu não sou aqui ” e nos fanzines “50 anos daquele 64″, “Fancine e Flipzine” (no prelo).É autora da novela “Térreo” (e-galáxia) e de “Desculpa o atraso e outros contos” (ed. @link). Foi finalista do Prêmio Off Flip 2015.

Contato: https://www.facebook.com/izildabicharaescritora/

ou   izildabichara@gmail.com

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O presente para dar e receber

Posted in Sem categoria às 16:47 por sidneif

Por MARIA CAROLINA SCARANTI*

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“A Leitora” (1865), de Federico Faruffini (1831- 1869)

A leitura sempre foi algo encantador para mim! Aprendi a ler e a escrever muito cedo, com apenas três anos e meio. Quem me ensinou foi o meu avô Oiliam José, falecido em 2017, com 96 anos. Ele foi meu grande exemplo! Formou-se em Direito aos 42 anos, era historiador, escritor, professor e membro de várias instituições como Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, de São Paulo, de Juiz de Fora; Instituto Genealógico Brasileiro; Academia Mineira de Letras (onde foi o primeiro acadêmico a completar 50 anos de Academia, permanecendo lá até a sua morte), entre outras.

Com ele, pude descobrir o prazer pelos livros. Ele tinha um escritório em sua casa com milhares de livros e sabia todos os títulos que havia ali e onde se encontravam nas prateleiras. Era impressionante! Sentar ao seu lado e ouvi-lo contar sobre os livros era fascinante!

Adorava fazer trabalhos escolares, pois, naquela época, não tínhamos a Internet, então, as pesquisas eram feitas em vários livros. E os livros de História do meu avô eram sempre os meus favoritos!

Já li inúmeros livros e continuo lendo muito! Sou jornalista, formada em Direito e responsável pelo Blog Canal Infantil. Como sou apaixonada pela leitura e acredito que, por meio dela, podemos mudar o mundo (como diz o próprio nome desta seção: LER FAZ CRESCER), sempre divulgo matérias sobre livros em meu blog. Com um livro nas mãos podemos ir longe, viajar, conhecer culturas, lugares, encontrar caminhos e nos descobrir como seres humanos.

Tenho várias lembranças de livros e momentos especiais! Vou citar apenas dois! Quando bem pequena, cinco anos, fui a um lançamento do livro O Pequeno Planeta Perdido, do grande Ziraldo. Guardo com muito carinho a sua dedicatória: “Para a Maria Carolina com o desejo de que ela tenha uma vida tão musical quanto o seu nome! Ziraldo (1986)”. Outra lembrança também muito legal que tenho é da minha época de escola. A professora pediu para lermos um livro da autora Elisabeth Loibl e escrevemos cartas (sim, de papel, enviadas pelos Correios) para a autora, que respondeu todas! Guardei a carta com a maior emoção do mundo!

Acho que a leitura é um dos melhores presentes que podemos dar e receber!

 

*Maria Carolina Scaranti, Jornalista, formada em Direito e responsável pelo blog Canal Infantil.

A oficina das ressurreições humanas

Posted in Ler faz crescer às 16:38 por sidneif

Por RAFAEL ZACCA*

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“Morte e Vida” (1910-1915), de Gustav Klimt (1862-1918)

Lembro-me de que quando li Clarice Lispector pela primeira vez tive a nítida sensação de que o tempo e a vida eram infinitos. Eu lia A Hora da Estrela, e me parecia que aquilo duraria para sempre. Eu estava sozinho na casa de meu pai, que à época trabalhava em São Paulo durante a semana, e o Rio de Janeiro se estendia madrugada adentro como se o tempo fosse o próprio universo em constante expansão. Não era Clarice que era imortal, nem aquele que a lia; era a própria leitura que parecia não ter começo nem fim (como o narrador da novela de Clarice, que quer, a todo custo, adiar o começo e o fim de sua narrativa).

 Walter Benjamin referiu-se algumas vezes à sua própria geração como uma geração que fracassou. Que morreu nos campos de batalha, que foi humilhada economicamente e arrebentada até o osso pelo fascismo. Ainda assim, me lembro da sensação de ter lido, pela primeira vez, no caderno N das Passagens, no ano de 2010, a anotação: “a indestrutibilidade suprema da vida em todas as coisas.” Quem anuncia o fim do mundo deve anunciar também uma chance. “Há esperança suficiente, infinita – mas não para nós.” A frase é de Kafka, e a chance de Benjamin se escreve sobre ela. A chance não é esperançosa, ela é qualquer coisa que se arrisca apesar de… Sempre fiquei fascinado com a arte dos desesperados que enxergam uma chance. Drummond, Clarice, Benjamin.

“Eu não vivi na terra o que me cabia até o fim”, escreveu certa vez Maiakóvski, “nem amei o que me cabia até o fim.” Desesperado, é claro. Conta o Roman Jakobson que em 1920 voltava da Europa para Moscou cheio de livros e novidades ocidentais. Conversando com Maiakóvski, falou, entre outras coisas, sobre a teoria da relatividade. Isso deixou o poeta fora de si. Ou dentro. Totalmente numa. Conta o Jakobson, num relato meio grande, que vou reproduzir inteiro, porque é absurdo, que, depois de debater longamente sobre a teoria de Einstein, tentando explicar ao amigo a relatividade, Jakobson ouviu do poeta: “Você não acha que é desse modo que adquiriremos a imortalidade?” “Olhei-o surpreso”, diz Jakobson, “e murmurei uma dúvida. Então ele apertou os maxilares com aquela obstinação hipnotizadora, provavelmente familiar a todos que o conheceram de perto, e disse: “Pois eu estou inteiramente convencido de que algum dia não existirá mais a morte. Vão ressucitar os mortos. Vou procurar um físico que me explique o livro de Einstein ponto por ponto. É impossível que eu não entenda.” Para mim, nesse instante revelou-se um Maikóvski que eu não conhecia: a exigência da vitória sobre a morte o dominava. Logo ele me contou que estava escrevendo um poema, V Internacional, que trataria de todas essas questões. “Einstein será um membro dessa Internacional.” Naquela época, Maiakóvski andava obcecado com o projeto de enviar a Einstein um telegrama de felicitação – da arte do futuro para a ciência do futuro.” O poema de Maikóvski restou inacabado. Mas Jakobson tem algo a dizer sobre isso tudo, lembrando o epílogo do poema “Sobre isto”: “Eu vejo, vejo claramente até os detalhes, incólume à decomposição e à destruição, brilhando, eleva-se através dos séculos a oficina das ressurreições humanas.” No mesmo poema, Maiakóvski pedia a um cientista do futuro: “ressucite-me, quero viver o que me cabe.”

Alguém que me ama desde que eu era um bebê parece estar, ano após ano, mais e mais assustada com a possibilidade de que em breve (daqui a um, dez, talvez cinquenta anos) não esteja mais aqui. Dou-te aqui um nome fictício, Maria. Maria. Maria, três vezes te digo que não vais morrer, e se morreres viverás com os camaradas da V Internacional, e eu estarei lá, antes, te esperando.

*Rafael Zacca, poeta, crítico, oficineiro e coarticulador da oficina Experimental de Poesia. https://rafaelzacca.com/

 

 

12 de Junho de 2018

A pena maravilhosa de Leonardo Villa-forte

Posted in Biscoito Fino às 14:38 por sidneif

Leonardo Villa-Forte, escritor, professor e criador do projeto Páginário, presenteia os leitores do blog com um trecho do seu último livro — O princípio de ver histórias em todo lugar (Oito e Meio, 2015).

Cover - O principio de ver historias em todo lugar - Leonardo Villa-Forte“Semanas antes, eu havia lido uma reportagem sobre uma pesquisa cuja conclusão é a de que o elemento decisivo para duas pessoas se apaixonarem se chama geografia. Quanto mais perto moram, maiores são as chances de se apaixonarem. A mesma conclusão valia para as chances do casal permanecer junto. Metros e centímetros regem o afeto, diziam os pesquisadores. A disposição romântica, privada e íntima, seria proporcional à distância de bairros, ruas, quarteirões. Mais do que qualquer tarô, simpatia, reza ou macumba, um edifício construído ao lado do seu pode lhe trazer a pessoa amada. Assim você passa a ter mais chances de encontrá-la. Segundo a pesquisa, as pessoas se afeiçoam ao que elas se habituam. O hábito é frequência. O afeto, assim, é uma questão de repetição e proximidade. Basta repetir e estar perto para que se habitue, e basta se habituar para acabar gostando. Talvez o caminho inverso também aconteça: deixarmos de gostar de quem está longe. Afeto somado à distância resultaria em negativo. Dessa maneira, toda a ansiedade, a insegurança, o medo e a raiva, enfim, tudo o que eu sentia naquele momento por Cecília logo sofreria mudanças e, ao invés de ser incômodo, tornaria-se habitual.”

7 de Junho de 2018

Mudar mundos, sonhar

Posted in Ler faz crescer às 15:17 por sidneif

Por TELMA GUIMARÃES*

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O Escritório encantado de Telma Guimarães

Nasci e vivi até os vinte e três anos na cidade de Marília, São Paulo. Naquela época era uma cidade pequena, com duas livrarias e duas bibliotecas, a da minha escola e a biblioteca municipal. Meu pai foi meu grande incentivador, pois permitiu que eu comprasse todos os livros que quisesse. Na nossa casa, uma biblioteca maravilhosa!  Assim, cresci lendo histórias com personagens que viviam pelo mundo afora, cada um vivendo e pensando de um jeito. Isso  me abriu horizontes. Penso que quando você lê, você muda muitos mundos, a começar pelo seu. E sonha. E vive esse sonho. E faz outros sonharem junto.
Lembro-me de um livro que li chamado À beira do Riacho, de Laura Ingalls Wilder. Achei tão divertida aquela personagem que sujava a roupa na lama, era mesmo uma moleca. Durante muito tempo essa menina, a Laura, povoou os meus sonhos. Mas ela morava longe e levava uma vida bem diferente da minha, menina da cidade. Assim, procurei ler outros tipos de livros, alguns que mostrassem personagens mais parecidos comigo. Descobri então, mais tarde, O Diário de Ana Maria, de Michael Quoist. Os dois, autores americanos.  Nessa época, então, já tinha meus próprios diários, contava sobre os namoradinhos, as confusões entre amigos, os momentos na escola, meus segredos, enfim. Era eu, e pronto. Sem lama, sem viagens pelos Estados Unidos, mas com os mesmos problemas de adolescente que permeiam nossos corações e mentes.
Li todos os livros de José Mauro de Vasconcelos. Também li Monteiro Lobato, Machado de Assis, Orígenes Lessa, Eça de Queirós…Ah, foram tantos. O mundo era pequeno e não cabia numa estante de livros. Era preciso ler diferentes autores, cada um de um lugar do mundo, de uma época, juvenil ou adulto, não importava. Meu pai ajudava, deixando que eu comprasse na livraria da cidade, os livros que tinha vontade de ler. E na biblioteca da minha escola, pública, um enorme acervo! Eu preenchia cartões e cartões, e a bibliotecária ficava toda feliz. Eu era uma usuária e tanto!
Como era uma aluna preguiçosa nas aulas de Inglês, (para não dizer relapsa…pronto, disse!) meus pais me matricularam num Curso de Inglês. Em três anos, descobri outro mundo, outra língua e livros nessa língua. Terminei o curso e pude começar a dar aulas ali mesmo, olha só! Que diferença na minha vida! Já estava cursando Letras na Universidade de São Paulo, UNESP, quando, com a ajuda financeira de meus pais, fiz um intercâmbio nos Estados Unidos. Que coincidência: assim como meu pai era diretor de escola na minha cidade, “meu pai americano” também o era. Mais livros para minha vida. Agora os autores americanos que povoaram meu imaginário: Edgar Allan Poe, Walt Whitman, Emily Dickinson, Mark Twain, entre tantos.
Terminei o Curso de Letras e lecionei durante alguns anos, seguindo assim, o rumo tão bonito do magistério.  Depois que meus filhos nasceram, ao contar histórias para que eles dormissem, aqueles momentos mágicos que eu tinha com minha mãe, ouvindo suas histórias na cama, povoaram minha mente tão fortemente, que eu não resisti ao chamdo da escrita. Comecei a anotar as histórias que eu iventava, passava tudo a limpo, continuava inventando. Quatro anos depois, e lancei não só o primeiro, mas três livros!  Outros foram surgindo, infantis, juvenis… E eis que decidi escrever em Inglês, não só textos autorais como adaptações. E daí começaram a surgir os autores prediletos, dos quais faço as adaptações bilíngues.
Escrever é uma grande aventura. Você pode ser do jeito que você quiser, morar em outra cidade, outro país… Eu me divirto muito enquanto escrevo. Às vezes paro, lembro de algo e volto para o começo da história e avanço de novo. Todo semana vou à uma  livraria, pesquiso, observo o que há de novo, compro os lançamentos. Normalmente leio o que escrevi para alguém da família. Uma crítica cai bem, goste ou não. Principalmente de alguém mais jovem, como minha neta! Escrever histórias infantis é algo libertador para mim. Eu me sinto criança de novo! Gosto disso!  Também amo escrever para adolescentes. Dois universos diferentes, duas paixões!
Quando casei e saí de Maríla, SP, onde morava, e vim para Campinas, onde estou até hoje, trouxe muitos livros. Meu pai deu a maioria deles para mim, tudo aquilo que eu gostava e tinha apreço. Aos poucos, ele foi dando também os seus livros de Ciências Naturais, que eram seus livros de cabeceira, Professor desta disciplina que foi durante tanto tempo. Ao  relê-los, fiz muitas outras histórias: de sapos, de onças pintadas e sem pintas, de João-de-barro, coelhos, e outros bichos.  Esses livros estão todos comigo. Junto, trouxe também as fábulas  de Esopo, recontadas por La Fontaine, meus livros infantis de contos de fadas, as enciclopédias. Ficam todos ao meu redor, caso precise deles. E eu preciso. De suas páginas, de seus cheiros, e até dos carimbos com o nome de meu pai em cada um. Eles guardam histórias incríveis e um pouco da minha prória história.
Como não gostar de ler? Minha história nunca mais foi a mesma após me encantar com o primeiro livro!
Hoje, após ter publicado quase duzentos livros, posso dizer que ainda nada sei. Preciso ler mais. Por isso vou à livraria de uma a duas vezes por semana, ver as novidades, deixar-me encantar por um autor diferente, um ilustrador, um texto poético ou ficcional, não importa.
Aos pais, compartilho o que vivi: inventem histórias à noite, antes de dormir, para seus filhos. Ou contem um pouco sobre os acontecimentos de sua infância. Lembro-me até hoje das histórias que minha mãe contava sobre as estrepolias dos irmãos, quando pequenos, no sítio onde moravam. Eram  quase bobagens, mas aquele momento para mim, era único. Nós, na mesma cama, o aconchego, a espera pela frase seguinte. A mesma história, repetida infinitas vezes! Que delícia! Permitam que as crianças façam suas próprias escolhas. Deixem que, na livraria ou biblioteca,  escolham seu livro preferido. Aos poucos, mostre outras opções, temas variados. Torne esses momentos um prazer, e ele será um hábito e um vício extremamente saudável: o da leitura!

ESCRITÓRIO 5*Telma Guimarães, escritora. Autora de livros infantis, juvenis, didáticos de Inglês, dicionário bilíngue, livros bilíngues em Português/Inglês e Espanhol.

www.telma.com.br 

Veja aqui fotografias do escritório encantado de Telma guimarães!

Um novo mundo, ali, bastando abrir um livro

Posted in Ler faz crescer às 15:05 por sidneif

Por CLAUDIA VENTURI*

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“A leitura de Molière” (c. 1728), de Jean-Francois de Troy (1679-1752)

Eu nasci nos anos 70, em uma família de quatro filhos, o que hoje poderia ser considerada grande. Embora os meus pais tivessem formação universitária, não muito comum naqueles tempos, e valorizassem muito a nossa educação, eu não me recordo deles lendo para os filhos.

Tenho imagens claras de meu pai fazendo apostas malucas, contando piadas politicamente incorretas e dançando com os filhos ao som de Chico Buarque, Sergio Endrigo e clássicos internacionais que giravam no antigo prato para vinil.

Lembro-me de minha mãe nos salvando de terríveis farpas nos dedos, joelhos ralados e outros ferimentos que insistiam em nos atingir a cada vez que saíamos para brincar na rua, coisa que fazíamos com muito mais frequência do que as crianças de hoje conseguiriam imaginar. Não, o meu pai não era uma boa escolha nesses momentos! Ele era meio “carniceiro” e os machucados doíam muito mais em suas mãos acostumadas com as lidas da terra.

Para os livros eu fui apresentada na escola mesmo. Não sei precisar o momento e nem a minha temática de preferência naquele momento. Li diversos livros e coleções inteiras infantojuvenis que eram sucesso na época. Histórias de aventura e de pequenos espiões passaram a ser as minhas preferidas.

Quando criança eu era uma garota pequena para a minha idade, tímida e com a voz muito baixa. Era normal as pessoas ignorarem a minha presença e interromperem as minhas raras falas, simplesmente por não perceberem que eu havia começado a falar. Rapidamente comecei a guardar as minhas argumentações para mim mesma e para as páginas do meu diário, o qual nominei “Edwin”, em homenagem ao protagonista de um filme de Hollywood que fez muito sucesso naqueles tempos.

O fato é que a leitura me abriu portas para mundos de aventuras e vivencias que eu não conseguiria obter de outras formas. Ler também me deu confiança para falar mais alto e conhecimento para poder transitar em diversas esferas e grupos dentro da sociedade. Quando iniciei o Ensino Médio, por exemplo, já tinha grandes amigos tanto no grupo dos “inteligentes” quanto no dos “bagunceiros”, eu era aceita e respeitada em todos os meios.

A verdade é que a leitura é só uma das chaves do conhecimento. Para usufruir de seus efeitos, é importante que o leitor tenha curiosidade, não daquele tipo que busca informações das vidas alheias, mas aquela que te faz acordar cedo para finalizar a leitura do capítulo sobre o qual se acabou adormecendo na noite anterior.

Outro aspecto importante é a escrita. A leitura não costuma estar completa se não conseguirmos elaborar os pensamentos que ela suscita dentro de nós e sintetizá-los na forma de um novo texto. Pode ser uma frase, pode ser um parágrafo, pode ser um livro inteiro, totalmente novo, desenvolvido a partir dos vislumbres que a leitura nos proporcionou.

Com o tempo tornei-me uma contadora de histórias, daquele tipo que não possui formação e não atua profissionalmente, mas que conta causos e filmes em pequenas rodas de amigos e grupos familiares. Fiquei conhecida por reproduzir as situações com tantos detalhes que precisaria de três horas para contar um filme de duas.

Aos poucos eu aprendi a ler de tudo. Dizem que a variedade de estilos estimula o raciocínio e ajuda a prevenir o Alzheimer. Os livros se tornaram companheiros para todos os momentos, informação, estudo, pesquisa, trabalho ou passatempo. Também continuo escrevendo sempre que posso. Esse hábito me ajuda a fixar conteúdos e regras gramaticais. Então comecei a trabalhar como atriz, professora, tradutora. Todas elas profissões estreitamente relacionadas e fortalecidas com a leitura e com a compreensão de texto. Também tive a oportunidade de viajar para além dos livros e de conhecer, fisicamente, lugares que antes eram visitados apenas pela minha imaginação, nos momentos em que percorria as páginas de boas histórias.

Hoje em dia as tecnologias têm substituído até demais a leitura. Costumamos desperdiçar horas em redes sociais e jogos virtuais, enquanto os nossos livros são esquecidos e empoeirados em prateleiras, como se fossem souvenirs inúteis. E embora existam boas versões de livros em formato digital, a maioria das pessoas limita a sua leitura a mensagens com caracteres contados, figurinhas e abreviações infindáveis, o que, consequentemente, também limita a abrangência da argumentação e do raciocínio.

Embora eu tenha de confessar que também tenho lido com muito menos voracidade do que em outros tempos, continuo considerando os livros meus grandes amigos, companheiros de jornada e de aprendizado. Minha estante abriga mais livros do que tenho conseguido ler, sempre com temas variados. Estão ali, esperando uma brecha em minhas atividades para efetivarem a sua participação efetiva em minha vida. E eu me sinto tranquila sabendo que sempre encontrarei uma boa leitura ao alcance das mãos, assim que eu tiver um tempo ou a simples vontade de encontrar uma nova perspectiva ou um novo mundo, ali, bastando abrir um livro.

*Claudia Venturi, atriz, diretora, professora teatral, tradutpresidente do Círculo Artístico Teodora.

 Contando minha história… Eu leitora

Posted in Ler faz crescer às 14:59 por sidneif

Por LIA BRITTO*

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“Bons Amigos [Retrato de Bertha Edelfelt, irmã do pintor]” (1881), de Albert Gustaf Aristides Edelfelt (1854-1905)

Meu letramento, ao iniciar o período escolar, era limitado a minha família em hábitos, costumes, passeios e pessoas relacionadas ao núcleo familiar. Eles eram minhas referências. Sou a quinta filha  de uma família de sete irmãos. Meus pais se divorciaram quando eu tinha oito anos, tive vários problemas para me socializar dali para frente. Como muitas meninas, fui ficando moca e rebelde. Péssima em matemática, fiz da leitura minha companheira. Ler me ajudou a crescer!

O  inicio com a literatura não sei precisar ao certo, acredito que aconteceu quando consegui meu primeiro diário! Lembro-me dele, da cor, das folhas, da magia em poder colocar tudo nas linhas, sem ter medo de que alguém soubesse.  Acreditava que ali ficariam meus sentimentos, dúvidas, receios e desabafos. escrevi sem fim neste caderno especial. Logo depois percebi que poderia continuar a escrever em qualquer caderno, a colocar tudo que era de felicidade,  como também o que era de tristeza. Descobri,  em autores lidos nestes anos, formas e expressões parecidas com as quais eu sentia, fui aprofundando-me dentro das frases, dos versos, das histórias.

Minha primeira coleção foi MalbaThan/ Mil histórias sem fim, não me recordo a edição. Cada vez que eu a lia, melhor ficava. Me identificava nos personagens, no autor que tudo escrevia de uma forma tão real . Depois de ler ficava a imaginar-me dentro da história, era muito divertido e prazeroso. Meus preferidos entre  alguns são: O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, A Bolsa Amarela,de Lygia Bojunga, A Cabana, de  Willian P. Young… São tantos que teria que fazer uma lista. Vou desde Meu pé de laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, até os autores atuais. Sou contadora de histórias, sendo assim, hoje como leitora,tenho um amplo cardápio literário. Em cada canto um conto!

Tenho como profissão ser professora. Sonhei desde pequena em ensinar. Não é sacerdócio, como podem pensar alguns. Eu nasci para lecionar e lecionando fui lendo, escrevendo. Dei continuidade ao que eu sabia fazer de melhor: ler.

Lecionei para diversas faixas etárias, em todas elas a leitura presente, através das histórias, dos textos, das frases, das melhores palavras. Todas praticadas, lidas e degustadas com prazer.

Hoje, como Psicopedagoga, o meu mundo é a leitura, a pesquisa, a busca por respostas, por indagações, por prazer. Procuro escrever, ler, atualizar-me sempre em todos os temas e assuntos diversos. Através dos autores, busco passagens, histórias, mistérios ocultos, trechos que proporcionam o prazer  da leitura. Para que cada criança que atendo seja ligada ao prazer da leitura, aos caminhos e  as alegrias  contidas na literatura.

Sou  leitora de Internet sim. Embora tenha como preferência o palpável, com formas e cheiros ali meio escondidos. Não guardo coleções de livros, sei que, quando minha saudade bater, posso pegar na Biblioteca ou na Internet. Quando gosto de um livro leio-o diversas vezes , depois passo para outro e depois pra outro. Assim acredito ser a utilidade dos livros, chegar para todos, desde os pequenos até os mais idosos. A literatura prazerosa, bem apresentada, vista de vários aspectos dentro da arte e  da cultura. A história interpretada encantando promove  a imaginação. A pintura faz a literatura ficar ali em um quadro bem representado de formas e cores. a poesia falada, escrita, sentida e bem interpretada nos prepara para o entendimento do mundo! Felizes aqueles que por mãos de terceiros, são introduzidos e incentivados, neste mundo encantado das letras.

Colocar-me como leitora, este foi o convite. Pensei ser fácil isso. Não o foi. Deixei, então, as lembranças dessa parceria chegarem. O resultado foi este texto. Dentro dessas lembranças, percebi que minha proximidade com a senhora Literatura sempre existiu! .Iniciou-se em mim desde a primeira história contada por minha querida professora primária que um dia me alfabetizou! Ali… Bem ali… Há minha professora, obrigada! Com você meu mundo de leitora começou!

   *Lia Britto, professora, psicopedagoga, contadora de histórias, escritora.

25 de Maio de 2018

Mergulho em outros mundos

Posted in Ler faz crescer às 17:36 por sidneif

Por ANA MARIA GAZZANEO*

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“Library Interior with Maid Reading” (1915), de Edouard John Mentha (1858-1915)

Convidada a fazer um depoimento de como surgiu e ganhou corpo o processo de leitura em minha vida,  resolvi contar-lhes a minha história.

Talvez igual a — ou muito diferenciada —   da maioria, mas enfim é a história que tenho para contar, e a comparação deixo para você, que terminará por fazer uma leitura também, e isso agradeço desde já.

Entrei para a escola aos seis anos de idade. É claro que antes de ser alfabetizada, eu já havia “lido” muitas coisas.

Nasci em Minas Gerais e vivia sitiada por vasta área de vegetação e paisagens. As cores e variedades de flores, frutos e animaizinhos silvestres foram a minha primeira leitura.

Hoje as crianças olham-veem-leem tudo isso nos livros.

Não acho ruim… Muito pelo contrário, acho que nos livros, a visão de tudo se perpetua… Dito isto, acho que tive dupla alegria em minhas leituras…

Aprendi as palavras do nosso Alfabeto ( aqui existe uma paixão que eu nunca havia revelado a ninguém ) e também a ler. A maior alegria que vivi foi a de saber que os mundos que eu precisei deixar nas minhas montanhas da infância, eu podia reler no livro.

Depois fui para o fundamental dois. Outro tempo em maravilhas na qual me vi às voltas com a leitura e escrita.

Nas férias de Julho e Dezembro, voltava para Minas. Ficava na casa de uma tia materna e aí dois livros especiais tomavam o meu tempo ocioso, pois que a maioria do tempo gastava lendo a natureza, que era exuberante e refrigério para a minha pequena e singela alma.

Voltando aos dois livros mencionados anteriormente, tratava-se de um dicionário de capa dura, um luxo para a época, e uma Bíblia gigante com gravuras. Antes de ler qualquer palavra, são as gravuras que ganham as nossas vistas mais vivazes… E quem disse que isso já não se trata de uma leitura?

 Ganho enorme se percebeu em minha aquisição de vocabulário, que muito me auxiliou como arsenal para uma comunicação mais clara e variada de qualquer ideia que eu pudesse ter.

Depois vivi a fase de ouro dos HQs. Li toneladas de gibis.

A imprensa sendo ainda um processo primitivo e o regime militar reduzindo o país à economia de guerra e baixíssima renda me impediram de maior contato com o que considero o maior tesouro que uma pessoa possa ter em vida, livros.

Uma biblioteca lotada de livros, dos mais variados assuntos, idiomas e procedências sempre foi o meu sonho de consumo.

Em minha lista de livros marcantes, posso citar alguns como: O Príncipe, de Maquiável, O Banquete, de  Sócrates, O Livro Proibido, de Santo Antão, Folhas na Relva, de Walt Whitman, Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, de Neruda, O Jardineiro do Amor, de Rabindranath Tagore, os quatro volumes de As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, e Cazuza, de Viriato Correia — este último o meu primeiro livro lido, presente do professor José Wilson Serralvo, no tempo do ensino fundamental.  Então posso dizer que quem de fato me incentivou no gosto por livros e leituras foi meu professor de Língua Portuguesa. Os outros caíram em minhas mãos por obra do acaso.

Depois os gostos e as curiosidades foram aumentando, e lamento por viver tão pouco e não ter tempo para ler a imensa vastidão de livros que existe.

Um detalhe, gosto do livro no formato original. Tenho uma relação afetiva com seu corpo físico. Tipo, sentir a textura, o formato, o colorido da capa, o cheiro da impressão, quando se trata de impressão recente.

Hoje até possuo uma rica coleção, de escritores ainda vivos, todos autografados e pelos quais sou apaixonada.

Estas são pequenas curiosidades da minha incursão ao mundo da leitura, e que com muito prazer divido com todos. Oxalá todos descobrissem o imenso prazer que é de pegar um livro e mergulhar ou viajar em outros mundos!

*Ana Maria Gazzaneo, formada em Letras,  escritora e membro da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES) e da União Brasileira de Trovadores (UBT). Contato: gazzaneoanamaria@gmail.com

A importância da Literatura: Por que discutimos o óbvio?

Posted in Ler faz crescer às 17:35 por sidneif

Por DIRCE WALTRICK DO AMARANTE*

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“A Woman Reading” (1869-870), de Camille Corot (1796-1875)

Lendo Balaio: livros e leituras, de Ana Maria Machado, chamou-me a atenção a maneira como a autora discute a “importância da leitura”, tópico recorrente nos ensaios do livro, mas que é tratado, às vezes, com certa impaciência. Em “Hospital da Alma”, por exemplo, texto que sintetiza palestras proferidas em diferentes lugares do Brasil ao longo de 2006, Ana Maria diz que ficava perplexa sempre que era indagada sobre a importância da literatura, perplexidade essa que “deu lugar a uma certa irritação” : “No fundo, ligada à hipótese torta do elitismo da literatura, o que existe é a constatação prévia, óbvia e inescapável: a de que os perguntadores não sabem do que estão falando. Não têm intimidade com livros” . Ana Maria Machado prossegue: “sem esse contato íntimo com a leitura mais refinada e a literatura, recai-se então na situação que comentávamos. Voltamos a tal constatação prévia, óbvia e inescapável: a de que os perguntadores sobre a importância da literatura não sabem do que estão falando.

Aconselha Ana Maria Machado: “em vez de perdemos tempo discutindo se é importante ler, sejamos pragmáticos e aproveitemos todas as oportunidades para pôr professores, jornalistas e burocratas em contato com bons livros. E com a arte, em geral”. Parece-me, no entanto, ser importante reiterar a pergunta sobre o valor da Literatura (da boa literatura, com letra maiúscula, como costuma frisar o ensaísta argentino Daniel Link), mesmo que o tema nos pareça óbvio. A pergunta é como uma “oração” que, repetida diariamente, reforçaria a nossa fé.

De fato, não perguntamos sobre a importância da literatura à toa, ou por ignorar o assunto. Sabemos, como afirma Ana Maria Machado, num dos ensaios menos intransigentes a respeito da questão, Literatura para todos, resultado de uma palestra apresentada no Encontro Anual da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura InfantoJuvenil, em 2004 , da necessidade de

“[…] substituir o senso comum tradicional por um espírito crítico capaz de formular seus próprios anseios. Sem leitura de literatura, essa meta fica muito distante, se não inatingível. Por mais que hoje tenhamos também outros meios e outras linguagens, nenhuma outra produção cultural tem o potencial do texto literário para desempenhar esse papel. Só a literatura – com o tempo e o ritmo que caracterizam a palavra escrita – permite que se desenvolva tanto a imaginação do usuário, dando-lhe a possibilidade de criação individual de roteiros improváveis paralelos, enquanto lê. Ou lhe propiciando a simultânea construção imaginária, às vezes até inconsciente, de cenários utópicos sofisticadamente estruturados. Só ela é capaz de acompanhar de dentro a mente de diferentes personagens com visões do mundo variadas, contraditórias e complementares, ou contrapor autores diversos, mas igualmente fortes e sedutores. Com isso, ao mesmo tempo, ela é capaz de ensinar tolerância, respeito à diferença e a capacitar a que se oponham teses distintas e se busquem as sínteses necessárias”.

A despeito da certeza que possamos ter (ou julgar que temos) em relação à importância da Literatura, no dia a dia os fatos reais nos fazem, por vezes, não exatamente duvidar dela, mas questioná-la.

A esse respeito, lendo The Annotated Snark, de Lewis Carroll, editado por Martin Gardner, deparei-me com a seguinte nota, que conta uma história sobre leitores, ao mesmo tempo saborosa e instrutiva:

A escritora americana Edith Wharton adorava o poema Snark, de Lewis Carroll, quando era apenas uma menininha. Na sua autobiografia, A Backward Glance (1934), páginas 311-12, ela descreve um almoço com o Presidente Roosevelt, a quem ela conhecia desde a infância. “Bem”, ele disse, “estou feliz de receber na Casa Branca uma pessoa para quem eu posso recitar The Hunting of Snark sem ser perguntado sobre o que estou falando! … Você não vai acreditar, mas ninguém do governo jamais ouviu falar de Alice, muito menos do Snark, tanto que outro dia, quando eu disse para o Secretário da Marinha: ´Sr. Secretário, o que eu repito três vezes é verdade` (um verso do poema Snark), ele não reconheceu a alusão e respondeu com ar aflito: ´Sr. Presidente, nunca, nem por um instante, me ocorreria contestar a veracidade do que o senhor afirma’”.

Duas situações opostas são mostradas nessa pequena anedota: a primeira, a da menininha Edith Warthon (ela se tornaria depois grande escritora), fã de The Hunting of the Snark (A caça ao Turpente ), de Lewis Carroll, possivelmente desde cedo grande leitora; a segunda, a dos funcionários do governo, no caso o norte-americano, que chegaram a altos cargos – o de Secretário da Marinha, por exemplo, — sem conhecer Lewis Carroll, um dos maiores escritores de língua inglesa. O Presidente, porém, sabia de cor o poema, mas ele era uma exceção na Casa Branca.

Pensando no caso do Secretário da Marinha norte-americana, que ocupou um cargo importante no governo, mesmo sem ter sido um ávido leitor de Literatura (não levarei em conta possíveis situações análogas em nosso País), perguntei-me: qual a importância da Literatura? Para que serve a Literatura, se podemos ter destaque profissional sem ela? Qual a sua importância na vida prática?

Muitas vezes, a negação da importância da Literatura é feita em casa, diariamente. O ensaísta, tradutor, editor e romancista argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, em Uma História da Leitura, lembra que, quando a sua mãe o via com um livro na mão, dizia: “´Saia e vá viver!`, […], como se minha atividade silenciosa contradissesse seu sentido do que significava estar vivo”.

É óbvio que não podemos duvidar da importância da Literatura, de seu valor no nosso cotidiano e na nossa vida profissional, mas é natural que, vez por outra, certas inquietações nos assaltem e nos levem a repetir a velha e eterna pergunta sobre o seu valor, mesmo que seja, no fundo, para reiterarmos a nossa fé nela.

Saber mais e ver mais longe, dons que a literatura nos concede, são e serão sempre valores fundamentais na nossa formação, desde cedo. O que teria sido do grande romancista Graciliano Ramos, perdido no interior de Alagoas e Pernambuco, praticamente analfabeto até os nove anos de idade, sem a Literatura? Em Infância , livro autobiográfico, o escritor conta como descobriu os livros (na biblioteca de Jerônimo Barreto e não na escola) e a importância deles no universo árido de ideias e sentimentos em que vivia:

“Em poucos meses li a biblioteca de Jerônimo Barreto. Mudei hábitos e linguagem. Minha mãe notou as modificações com impaciência. E Jovino Xavier também se impacientou, porque às vezes manifestava ignorância de selvagem. Os caixeiros do estabelecimento deixaram de afligir-me e, pelos modos, entraram a considerar-me um indivíduo esquisito.”

No parágrafo seguinte, o ávido leitor conclui, exorcizando o ambiente mesquinho em que vivia: “Minha mãe, Jovino Xavier e os caixeiros evaporavam-se. A única pessoa real e próxima era Jovino Barreto, que me fornecia a provisão de sonhos, me falava na poeira de Ajácio, no trono de S. Luís, em Robespierre, em Marat”.

A ideia de que a leitura é, ao mesmo tempo, a construção de um universo e um refúgio contra a hostilidade do mundo foi exposta pelo escritor e ensaísta argentino Ricardo Piglia, em O Último Leitor, ao analisar o que ele chama de os dois movimentos do leitor em Jorge Luis Borges, conclusão que dialoga, parece-me, com a afirmação acima de Graciliano Ramos.

Se é evidente a importância da Literatura, ninguém negará, no entanto, que sempre haverá fatos concretos que a colocarão em xeque. No momento atual, em que vivemos uma “crise” da leitura, sentimos muitas vezes que somos o “último leitor” (de Literatura). Por isso, não vejo mal algum em indagar o que parece óbvio: por que devemos ler? Ou melhor, para que serve a literatura? Não vejo mal algum em querer escutar de novo, como leitores, aquilo que já estamos cansados de saber: que devemos “ler para viver” (Gustave Flaubert) ou “ler para fazer perguntas” (Franz Kafka). Reavivamos assim, com perguntas, a chama da nossa fé.

*Dirce Waltrick do Amarante, ensaísta, tradutora e dramaturga. O texto acima faz parte do livro As Antenas do Caracol: notas sobre a literatura infantojuvenil (Iluminuras, 2012) e foi sugerida ao blog Tabacaria pela própria autora.

O horizonte distante na minha esquina

Posted in Ler faz crescer às 17:32 por sidneif

Por TIAGO PEREIRA DA SILVA*

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“Diógenes Procura um Homem Honesto” (c. 642), de Jacob Jordaens (1593-1678)

Eu cresci no subúrbio de São Paulo. E, quando eu digo subúrbio, eu realmente uso o significado dessa palavra no Brasil na década de 80.

Meus pais estudaram até a quarta série. Meu contato com a leitura se dava estritamente na escola. Não era um contato fácil. Eu ainda me lembro de que tirei zero na prova de história sobre feudalismo, porque achava que o feudo era uma pessoa. A leitura obrigatória de livros escolares também não ajudava a criar um hábito no qual ler era associado a um prazer.

Meu tio mais bem educado era metalúrgico, e eu decidi seguir o seu exemplo. Para mim, meu futuro estava decidido ali. Esse seria um futuro muito bom.

Esse não foi meu caminho. Algo mudou na minha vida e, retrospectivamente, eu não sei precisar quando. Prefiro acreditar que não houve um único evento, mas pequenos conselhos de vários anjos que ajudaram.

Recordo quando resolvi ler a série “Os Pensadores”.  Peguei justamente o volume sobre Sócrates. Não sei exatamente como consegui ler mais que cinco páginas. Mas, após ler as cinquenta primeiras páginas, algo havia mudado em mim. De alguma maneira, Sócrates vinha para o subúrbio exclusivamente para mim e me desafiava, perguntava e mudava meu modo de pensar. Terminei esse livro e li a Republica de Platão. Honestamente, não entendi direito o livro, mas percebi que parte da minha vida estava ali no Mito da Caverna. E eu precisava de iluminação. Eu precisava sair da caverna.

A leitura  transformou meu mundo num ponto: trouxe o horizonte distante para minha esquina. Em poucas semanas eu tinha percorrido a história, visitado o mundo e terminado com a certeza de que ainda havia tanto para aprender.

Por todo lugar a que eu me virava havia algo espetacular para aprender. Um radical recém-convertido, todo meu tempo livre era dedicado à nova religião. Minha mãe se preocupava constantemente com a quantidade de drogas entre meus amigos. Não sabia ela que a minha maior droga era Gonçalves Dias.

Decidi ir para a faculdade e tive que estudar seriamente para o vestibular.  A probabilidade de sucesso era baixa, dado que eu trabalhava 12 horas por dia  e minha educação formal era ruim. Detalhes. Pois assim como Brás Cubas eu tinha um objetivo fixo em mente.

Com o esforço recompensado, entrei na Universidade de São Paulo e passei a me dedicar ao estudo de Física e Matemática. Logo na primeira semana de aula, percebi que, obviamente, eu era o que menos sabia ali. Num ato de loucura, pedi demissão do trabalho ainda sem saber como me sustentar, mas o desejo de aprender me cegou.

Passei então a tomar café com Marcus Aurelius, e as suas meditações me mostraram que meu carácter precisava de melhora. Durante o almoço, Sêneca me disse que a coisa mais preciosa que eu tinha era meu tempo. Realmente, este a única coisa limitada que é nos dado. Durante o jantar, Tostoy me mostrou a vida de Ivan Ilitch, e percebi que eu deveria fazer minhas escolhas de maneira mais autêntica.

Sócrates e Diogenes já haviam me dito que a procura por reconhecimento se dava porque minha cabeça ainda não estava no lugar certo. Eu ainda não me conhecia bem. Mas creio que eu só fui entender isso quando Kafka me contou a sua história do artista da fome.

*Tiago Pereira da Silva, matemático, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP, premiado pelo programa The Newton Advanced Fellowship, da The Royal Society ( a instituição científica britânica fundada em 660 e cujo um dos presidentes foi Isaac Newton).

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