10 de Dezembro de 2019

Leitura todo-poderosa

Posted in Ler faz crescer às 15:08 por sidneif

Por MARIA AMÉLIA ELÓI*

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“In lettura sul mare” (1910), de Vittorio Matteo Corcos (1859-1933)

Quanto poder sobre minha vida. Quanto engenho, quanta paixão da braba essa senhora me traz. Quanta verdade destrava nos silêncios em que me toca. É assim a Dona Leitura: estimula viagens, adultera o real, engambela meus miolos e minhas tripas. Enquanto chacoalha minha realidade morna, enseja acessos novos a mim mesma e ao outro, abre janelas para esta criatura afeita a cômodos cerrados.

Ao decifrar a narrativa tecida, exercito carências e adimplências; descubro lacunas e acervos que, em contextos distintos, certamente me escapariam. Essa Patroa, fiel provedora de amido e tempero, toca-me as peles, cora-me sonhos e pesadelos, descortina-me verdades e transparências. Devo culpá-la também pelos textos que intento. Sob sua regência, por sua influência, de repente me arrisco a escrever. (Questão de honra, gratidão, pagamento?)

Dona Leitura é agasalho, colheita, fartura de promessas. Nada de solidão ou egoísmo em seu terreiro. Agarrada a uma boa obra literária, tomo a voz, a dor, o medo, o sopro, o mistério, a história do outro. Subitamente, o forasteiro me representa, eu me torno o peregrino que eu não era, a humanidade de mim se apropria. E eu adoro essa possibilidade de viver mais, muito além.

Ler é exercício de empatia, jeito bom de enxergar lá fora e de alcançar cá dentro. A Dona Leitura — principalmente a de sobrenome essencialmente literário — me atrai, provoca, engravida. A Palavra me laçando, me lançando ao misto de dor encantamento alegria prazer desespero raiva surpresa e inveja, inveja que arde. Diante do romance criativo e poeticamente edificado, vou grifando tudo, agarrada aos personagens, ávida sedenta pelas belezuras e eternidades literárias. Eu sempre despeitada, querendo ter escrito aquilo que leio e que me emociona. E completamente fascinada, sem querer nunca mais sair dali nem dar adeus àquela história. Eu precisando morar no livro.

Para não cometer o pecado branco da desmemória, não vou citar aqui autores e títulos de obras que marcaram, marcam e continuarão marcando minha vida. Mas garanto que a lista é imensa e variada. Muitos livros centelhas têm provocado diálogos e me tocado de forma profunda e cada vez mais diferente, de acordo com o contexto. Eu me apaixono por clássicos da literatura brasileira e por lançamentos estrangeiros e também sou fisgada por livros publicados por autores vizinhos, do Distrito Federal. Meu leque se abre sempre, com as lindezas recém-descobertas. Há muita literatura a ser lida, relida, a ser louvada.

Que privilégio ter acesso a um bom conteúdo literário (disponível na minha estante, no meu livro eletrônico, em bibliotecas públicas, nas revistas, resenhas, redes sociais, nas mesas de debates e encontros com autores, entre outros). Que alegria poder conviver com escritores maravilhosos, com os quais posso trocar ideias. Adoro prestigiá-los, lendo seus livros, recebendo-os para bate-papos, publicando trechos e impressões sobre suas obras, participando com eles de eventos culturais. Sinto prazer em aplaudi-los e divulgá-los. Um luxo fazer parte da turma de devoção à Dona Leitura. Neste momento — em especial depois de ter me aliado ao movimento nacional Mulherio das Letras —, tenho dado preferência a obras de mulheres vivas. Muitas delas se tornaram minhas madrinhas literárias, heroínas lindas que discursam esperança. 

Nunca serei grata o suficiente à Dona Leitura; mas dia a dia, na minha escrita e nas minhas atitudes, vou tentando fazer jus a sua influência formadora e revolucionária, vou pelejando para ser uma leitora mais digna, uma mulher autora cidadã mais íntegra. Agradeço às amizades e às vidas que ela me possibilita e tento transparecer às minhas filhas, aos amigos e aos alunos como é sublime o amor que sinto pela senhora todo-poderosa. 

*Maria Amélia Elói nasceu em 1973 em Taguatinga, DF. Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade de Brasília, foi premiada em 2009 no III Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação, com a obra “Poesia Torta”. Em 2001, ganhou o Prêmio Nestlé/MEC pelo ensaio “Idéias a Mais!: a crítica literária no JB e na Folha de S. Paulo no ano 2000″. Em 2016, publicou o livro de crônicas “Um milagre para cada corcova”, pela Editora Penalux. Em 2017, participou da antologia de contos “Novena para pecar em paz,” também pela Editora Penalux. É servidora da Câmara dos Deputados, onde desenvolve projetos culturais.

Abracadabra, a escrita é poderosa!

Posted in Ler faz crescer às 15:03 por sidneif

Por CHRISTIANE DE MURVILLE*

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“The submissive reader” (1928), de René Magritte (1898-1967)

Quantos lugares interessantes, histórias fantásticas e personagens incríveis conheci através dos livros! Cada vez que inicio uma leitura, um universo diferente descortina-se à minha frente, estimulando minha imaginação, meus pensamentos e trazendo novas reflexões. Sou transportada para outros mundos, que podem ser alegres, tristes, chocantes, assustadores, reconfortantes, esperançosos, vibrantes ou sombrios, remetendo às inúmeras sensações e aos estados emocionais que podemos eventualmente experimentar ao longo da vida.

Conheci O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry) e a Turma da Mônica, me encantei com as aventuras do Rei Artur, em Brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley), voei com Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach), fiquei impressionada com a Divina Comédia ( Dante Alighieri) e aprendi muito com O Livro de Mirdad (Mikhail Naimy) e a Autobiografia de um Iogue (Paramahansa Yogananda)! Certamente, muitos livros me marcaram profundamente e contribuíram na formatação da realidade que hoje percebo à minha volta. 

Afinal, até o Aladim já sabia que criamos ao falar, que as palavras, como por exemplo “abracadabra”, têm força, ainda mais quando proferidas com convicção e intenção. Mas não somente a palavra oral é poderosa, a escrita também! Expressa conceitos, ideias sobre a vida e o mundo, toca e influencia pessoas, evoca sentimentos, fomenta comportamentos, revela planos de ação, decisões, coloca à mostra o que cada um carrega em seu coração. 

Atualmente, confesso que sou mais seletiva com minhas leituras. Sei o quanto aquilo com o qual alimentamos a nossa mente contribui para a construção da realidade que encontraremos mais adiante. Tudo pode ser considerado como vibração, uma forma de onda, um som ou energia vibrando em determinado padrão e frequência. E crenças, pensamentos, sentimentos, emoções, intenções e ações influenciam os padrões vibracionais de energia que determinam e materializam o mundo físico conforme o percebemos, definindo a realidade vivida. Somos absolutamente responsáveis por tudo que vemos e materializamos à nossa volta!

Mas que mundo deixaremos para as gerações futuras? de medo, comparação, raiva, desconfiança, ganância e egoísmo ou de compaixão, amor, honra, generosidade, respeito e unidade? Pois, onde colocamos a nossa energia e atenção e o que temos na mente e no coração indicam para onde caminhamos. Apontam a realidade com a qual estamos em sintonia, à qual damos crédito, força e vida, levando-a a oportunamente se manifestar.

Leitura é fundamental, transforma a realidade. É uma ferramenta poderosa que, quando explorada com consciência, pode promover experiências inspiradoras e esclarecedoras e contribuir para a materialização de mundos mais harmoniosos, alegres e luminosos para todos. 

 

*Christiane de Murville, doutora em Psicologia Cliníca, bacharel em Ciência da Computação. É autora, pela editora Chiado,  da triologia “A Caverna Cristalina” : Volume 1: “Uma aventura no tempo”, Volume 2: “O desafio do labirinto”, Volume 3: “Capturados no tempo”, “A vida como ela é”, “Até quando? O vai e vem” ( todos já com publicações também em francês) e “Até quando? A prisão”.

https://www.cmurville.com.br/

3 de Dezembro de 2019

Ticiana Werneck em três contos

Posted in Biscoito Fino às 16:41 por sidneif

Ticiana Werneck nasceu no Rio de Janeiro em 1976, hoje mora em São Paulo. Aos onze anos, brincando com uma máquina de escrever, criou um jornalzinho de histórias inventadas. Nunca mais largou os teclados. Jornalista, escreve para revistas e portais de negócios, e continua cedendo ao impulso de fatiar a vida em histórias.

Autora de Trilhas para andar descalça ( Moinhos, 2018) e do ebook Ana não sabe nadar (plataforma Amazon), Werneck brinda a seção Biscoito Fino com três contos.

Neruda

“The Red Table” (1916), de Leon De Smet (1881-1966)

“Nunca gostei do som da minha voz”, ela me disse da sua mesa. Eu sabia que ela falava comigo, pois estávamos sozinhas no salão. Virei-me fazendo ranger a borracha da cadeira no chão. A ruiva apoiava o cigarro entre os dedos e me olhava absorta conforme soltava a fumaça em intervalos. Um transe, imaginei. Ela continuou: “Eu mesma assoprei as velas do meu barco, vago por aí catando as migalhas que a vida me joga”. Disse cada palavra sem pressa, saboreando. Seus olhos, por detrás da fumaça, aguardavam alguma reação minha. Em meu socorro, vi a porta da cozinha se abrir. Por ela, veio o garçon. Ele cruzou o salão, parou em frente à mesa da ruiva e, enquanto adicionava café à sua xícara pediu, com uma entonação que não soava inédita, para que ela não fumasse. A ruiva pareceu não perceber sua presença, deu um trago e em seguida apagou o cigarro no pires. Estaria chorando? Agora sem fumaça, posso ver que seus olhos estão inchados. Não tenho certeza. “Sabe”, ela disse de lá. “Hoje eu sinto um profundo desinteresse por tudo o que antes me despertava excitação. Como se eu estivesse inoculada pela invisibilidade ou envenenada”, completou. Eu pigarreei: “Depressão?” Ela deu um sorriso profundo, daqueles de doer o rosto, e estacionou ele no rosto mais tempo do que seria o esperado. Sua mão suspensa no ar como se segurasse um cigarro invisível, mostrava unhas vermelhas bem feitas. Sorveu um gole de sua xícara fumegante e com uma expressão vazia, puxou o ar de forma sonora com o rosto virado para o teto. Eu fiquei aguardando para ver se a conversa continuaria, se o fôlego renovado viria acompanhado de mais uma frase enigmática ou se podia voltar para meu livro. Neruda, Vinte poemas de amor, o título. Nessa época, eu andava numa fase romântica com a cabeça cheia de rimas e floreios. A ruiva me encarou, disse: “Tem coisas”, e parou como se buscasse no ar as outras palavras para engatar, “que ninguém nos ensina. É um daqueles mistérios da vida, simplesmente se sabe e pronto”, e estalou os lábios satisfeita com sua colocação. Fez-se o silêncio novamente, afinal, eu, deslocada naquela cena, não sabia o que dizer, e calculei que nenhum garçon viria novamente em meu favor.

“O que você está lendo aí?”, ela disparou. Eu levantei a capa do meu livro. Ela balançou a cabeça, como se concordasse comigo e inspirou fundo pelo nariz: “Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida. Pablo Neruda”, ela disse. Então a ruiva era do tipo que colecionava aforismos. Fiz um ar grave, vasculhei fundo nas minhas sinapses sem nada pescar e quase complementei sua citação com um “Grande Neruda”, para não parecer passiva demais. Me contive. Minha língua grande sempre me colocou em apuros e não seria agora que eu daria combustível para que com ele a ruiva atiçasse a fogueira. Me mantive agarrada ao meu ar grave, fitando ela de onde estava, dois metros a nos separar. Fiquei esperando seu próximo movimento, ali eu era apenas coadjuvante. Olhei aquela mulher faminta de companhia, toda ela exalava um cheiro de abandono, ocupada em alimentar seus monstros interiores. Com a respiração alterada, a ruiva engoliu em seco e voltou a falar, misturando as palavras como se usasse a colher de açúcar. “Não confie em ninguém. Muito menos em homens de perna fina”. Dito isso, se levantou erguendo a cadeira para não rasgar o chão em ruído. Passou por mim vagarosa, um pouco cambaleante, e tamborilou a minha mesa como se agradecesse pela “conversa”. Se eu fosse fluente em linguagem corporal diria que, apesar de tudo, ela estava confortável na própria pele. Eu a observei sair da cafeteria, seu sobretudo se arrastou no degrau quando ela atingiu a rua e de lá veio uma inesperada lufada de ar quente que invadiu todo o ambiente como uma corrente elétrica. A saída de minha interlocutora telúrica aumentou a sensação térmica do lugar obrigando-me a desvestir meu cachecol. Voltei, finalmente, para Neruda. Me arrumei na cadeira, saquei o marca-página do miolo e retomei de onde havia parado. Algo não parecia certo. Me voltei novamente à mesa da ruiva, agora vazia. A marca de batom na xícara, o cigarro amassado no pires, nenhum grão de açúcar deixado à esmo. Neruda naufragava na concorrência com a personagem ausente. Busquei a porta, na esperança que a ruiva voltasse em busca de algo que pudesse ter esquecido. Nada. Chamei o garçon e me fui pelas ruas, tentando, em segredo, refazer seus passos, entender seus mecanismos, desvendar suas frases. Um tempo após chegar em casa, ainda alvoroçada, atinei à falta em minha bolsa. Neruda.

Tempo quebrado

“As três idades da mulher” (1905), de Gustav Klimt (1862-1918)

“Tenho 45 anos e os órgãos de uma velha de oitenta”, dizia minha mãe quase todas as manhãs. Ela andava por aí arrastando sua sombra, queixando-se entre grunhidos enquanto tentava endireitar a postura com as mãos nas ancas.

Como se as mulheres pudessem reproduzir o poder de fêmeas animais que se cheiram e reconhecem seu ciclo, doenças e a chegada da velhice, eu senti quando minha mãe ia morrer. Seu modo de respirar mudou. Sua presença se alterou na casa. Um dia ela não acordou. O pai foi ver. Morta. O pai chorou um choro doído, escorre até uma lágrima de lembrar. O tempo nunca esgotou esse amor dos dois. Cuidei de tudo sozinha, o enterro, os documentos. O pai só chorava e andava se segurando nos móveis. Notei meu pai se esvaziando de si mesmo, as ideias embaralhando. Meses passados, o médico laudou: Alzheimer. O pai não lembrava mais de mim, não lembrava mais da mãe, do amor deles, estava livre do luto. Mais um pouco desgarrou da realidade para seu mundo solitário. Eu cuidei dele até o final, banhava, penteava, alimentava.

Meu irmão se foi bem antes, nunca foi bom filho. Por um punhado de moedas era capaz de qualquer maldade. Mãe não enxergava. Quando criança, era um menino muito magro, vivia agarrado na pipa. Mãe bulia: “ô menino um dia essa pipa te leva”. E não é que levou mesmo? Com dezessete anos sumiu para nunca mais. Eu nem lembro mais da voz dele. Mas não esqueço quando estragou meu presente, o único que ganhei na meninice. Mãe ganhou da patroa uma boneca usada, dessas americanas, que a filha não brincava mais. Mãe deixou a boneca deitada na minha parte da cama, me esperando. Mas quando eu cheguei da escola, a boneca estava quebrada. Aquele cão arrancou o braço da bichinha. Eu apertei a boneca tão forte entre meus braços como se pudesse abrandar os sofrimentos dela e o meu por ganhar uma boneca faltando um pedaço. Chorei alto. O pai veio ver o que estava acontecendo e com empurrões violentos empurrou meu irmão para o quintal, estalando o cinto no ar. Eu segurei minha boneca mais forte cobrindo suas orelhas, a protegendo do horror, do meu horror de ter um cabra assim como irmão.

O tempo passou por aqui e levou aquele dia. Ainda tenho a boneca guardada no armário lá em cima. Nunca consertei de volta seu braço, a manguinha do vestido sempre murcha de um lado, não ligava mais. Como se a falta daquele braço a tornasse mais humana. Como se a falta do braço apagasse um pouco daquele olhar congelado dela de boneca americana perfeita. De olhos azuis.

Cada dia me sinto mais solitária nessa casa. Ninguém me obrigou a ficar, mas eu fiquei. Me sinto segura aqui. Quase não saio. Largo as horas procurando ocupação nas sujidades do chão, nas poeiras que encaracolam no ar e grudam na grade da janela. Deixo tudo alvo, tenho muita disposição, mesmo com toda idade que acumulei. No espelho, avalio meu rosto. Ele é vincado exatamente onde as lágrimas passam, como se minha pele tivesse criado um rio pequeníssimo. A barriga distendida de perfil lembra uma grávida. Estou grávida de passado, do tempo que cresceu dentro de mim. É um sentimento que se perde no correr das horas mas não no passar dos anos. Quando tempo ainda tenho?  

Me admira você, Ângela

“O perfume” (1910), de Luigi Russolo (1885-1947)

Toda noite ela se encontrava com ele. No embolado do lençol entre declarações suspiradas na bruma, seu coração pulsava como se tudo fosse real. Recém saída do sonho, ela se armava de pequenas coragens: “se ele for à ‘Bloom’ darei meu número de telefone”. Simplesmente entregará aquele pedaço de papel, dobrado três vezes e guardado no fundo do bolso do uniforme.

Ângela trabalhava na loja de lingeries “Bloom”, já eram três anos de carteira assinada. Ah como era doce e mágico o cheiro daquele lugar. Tudo por causa do aromatizante de ambiente, FLORAL, marcado em letras maiúsculas na embalagem de um litro. Todos os dias, ao abrir a loja, era incumbência dela pulverizar o ambiente com o perfume e em seguida completar os frascos do produto espalhados pelas araras, prateleiras e provadores, virando de cabeça para cima os palitinhos de madeira espetados neles. Igual a uma flor, a “Bloom” desabrochava ao amanhecer deixando escapar seu cheiro, pensava Ângela durante a faina. Pensava também se ele viria. Se naquela sexta-feira, Carlos viria. Ele, o senhor dos seus sonhos, que aparecia sempre um pouco antes da loja fechar para comprar um “presente de última hora”, dizia. Débito ou crédito?, ela perguntava por perguntar pois sabia que ele sempre escolhia a primeira opção. Secretamente, lhe dava prazer imaginar que ele vinha para vê-la. Presente que nada.

Naiara, a gerente, era só elogios para a funcionária. Pontual, eficiente, fazedora, tão bem assentada no seu papel de boa moça, se referia a Ângela. Naiara, em plena menopausa, bem intervencionada esteticamente, esbanjava na energia e no ar condicionado. A “Bloom” estava sempre no inverno, não importava a estação lá fora.

Naquele dia, quando o sol enfraqueceu sua investida contra a vitrine, Ângela sentiu mais frio, mas manteve a pose. Era um dia fraco de poucas vendas. Precisou recorrer a motivações externas. “Faça acontecer” dizia o adesivo colado dentro do balcão do caixa. “Você tem coragem para ir atrás dos seus sonhos?”, perguntava outro, retirado de um livro de autoajuda. Estas frases sempre a faziam refletir. Perdeu os olhos no movimento da rua. Quando deixaria de ser criança? De se encantar por qualquer besteira? E quando começaria a correr atrás dos seus sonhos? Pensou na família no interior, na infância em cima das árvores, no descompromisso que tinha com o futuro. Um passado que deslizava tão silencioso pela tarde que Ângela se sobressaltou quando um vulto surgiu na porta, balançando o sino de entrada. Era ele. Prontamente, ela se colocou a postos ao lado da arara.

Simpático como sempre, Carlos pediu uma camisola tamanho M, para presente. Ângela sugeriu que ele levasse também a essência da loja, “campeã de vendas”, acrescentou ao final. Do balcão, Naiara aprovava a cena, com os olhos por cima dos óculos. Indeciso, Carlos colocou a camisola na frente do corpo de Ângela, “para ver como ficará na presentada que tem o mesmo corpo que o seu”, acrescentou. “Ela é nova?”, quis saber a vendedora. “Tem a mesma idade que você”, ele respondeu. “O que ela é sua? Você a ama?”, sua cabeça rodopiava numa realidade paralela. “Finge que me ama e compra um presente para mim”, rodopiava, rodopiava. A voz dele correndo pelas suas veias, coagulando seu sangue, aquela visão dele tão enorme na sua frente, a realidade esbofeteando seus sentidos. “Bota o juízo no lugar, Ângela”, pensou interrompendo o rodopio. Voltou. Carlos já aguardava a sacola com o cartão na mão. Agora era a hora. Naiara, entretida com a embalagem de presente não notaria se Ângela, após passar o cartão o devolvesse com o bilhete onde anotou seu telefone. E assim o fez. O cliente, discreto, guardou o cartão na carteira e o bilhete no bolso. Agradeceu e partiu, com o mesmo charme natural de sempre. Ângela, ficou lá, com o coração açoitando o peito, quase encontrando saída pela garganta. Do seu lado, nem imaginando tal turbilhão emocional, Naiara mirava o computador com aquela cara plácida de sempre, o creme antirrugas brilhando no rosto o cuidado diário no espelho. Hora de fechar a loja. A impiedosa chave encerrou a sexta-feira estalando a fechadura.

Os dias foram passando, um a um, como pedestres desinteressados na frente da vitrine. Quantas sextas-feiras depois daquela? Quem conta? E aquele eterno inverno? Um miserável clima de Rússia a congelar sua pele eriçando os pelos todo santo dia. E aquele cheiro fabricado que enjoava feito esgoto? “Odor frutado sensual” dizia a etiqueta. Mentira. Era um cheiro inebriante, um perfume de puta. Depois do dia do bilhete, Carlos nunca mais pôs os pés na loja. Ângela descolou o “Faça acontecer” da parede e o rasgou em minúsculos pedaços. “Me admira, você Ângela”, penitenciou-se.

3 de Maio de 2019

Filhos do mundo

Posted in Ler faz crescer às 16:38 por sidneif

Por SUELI GUTIERREZ*

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“Mulher lendo na mesa” (1934), de Pablo Picasso ( 1881–1973)

Quando iniciei a aprendizagem do be-á-bá, foram muitas as descobertas de sentido e inspiração. O primeiro livro de aprendizado à época foi o primário Caminho Suave, que ensinava a junção das vogais com as consoantes. E com ele fui montando as sílabas, formando palavras. 

Lembro-me de que, quando passava de transporte público  por uma rua  comercial, lia todas as placas que me eram possíveis: farmácia Acácia, restaurante vegetariano Zé Gordo, padaria Meu Pão, e assim da janela virava o pescoço para todas as publicidades. 

Depois que aprendi a ler, parti para as coisas mais emocionantes e ousadas. Devorei  Agatha Christie. Os assassinatos misteriosos me instigavam, como uma detetive, a analisar cada personagem e tentar encontrar o culpado pelas mortes antes que o final do livro revelasse. Acredito ter lido quase todos os seus livros, tanto assim que me inspirei em suas histórias ao escrever  Alfazema, que está ainda para ser lançado. 

Mas não li somente livros policiais. Enveredei pelos caminhos do Nordeste e encontrei o  humor de João Hubaldo Ribeiro,  Ariano Suassuna e as histórias  do Pelourinho de Jorge Amado.

Havia uma época, ainda adolescente, em que fui apresentada para uma revista (gratuita): recebia mensalmente Cadernos do Terceiro Mundo, especializada em questões políticas dos países africanos e latino-americanos. Com ela descobri que não havia apenas Estados Unidos e Europa, mas um mundo desigual, com mandantes e mandados, exploradores e explorados, invasores e invadidos.

Cheguei ao fundo do poço com Guy de Maupassant e Charles Baudelaire. As traições no quotidiano parisiense, as questões sociais. Depois as feministas de Simone de Beauvoir. Mergulhei na Paris do século passado e visitei seus becos e suas intrigas.

Viajei bastante e ainda viajo. Na emoção, na geografia de um país, na cultura e costumes de uma região, no pensamento de um personagem. Viajamos o mundo, porque somos todos estrangeiros, somos todos filhos do mundo e,  conhecendo mais sobre os outros, aprendemos mais sobre nós mesmos.

 

Capa livro MENOR*Sueli Gutierrez, jornalista, escritora, revisora de texto. É autora de “Era uma vez, Conto outra vez”, uma releitura, à moda brasileira, de histórias infantis mundialmente conhecidas — o livro custa R$ 30,00 e pode ser encomendado diretamente  com a escritora pelo Whatsapp (11 9-9197-8627 ) ou por e-mail (sueligutierrez@gmail.com).

 

21 de Março de 2019

A arte de ler nacionais

Posted in Ler faz crescer às 16:54 por sidneif

Por BRUNA MENEGUETTI*

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“Scène brésilienne” (1937), de Di Cavalcanti (1897 – 1976)

Ler é um ato de escolha: toda vez que abri um livro estava escolhendo não abrir outro. Por isso mesmo, a arte de ler tem relação com a arte de escolher — que possui relação com gostos e referências. Assim, não é de se espantar que eu tenha demorado muito para começar a ler autores e autoras nacionais e que poucos dos que leem este texto tiveram contato com os brasileiros.

Talvez isso se explique pelo nosso complexo de vira-lata ou talvez seja apenas uma falta de incentivo, de conhecimento. As únicas referências que temos, quando adolescentes, são de autores brasileiros homens já mortos, cujas obras somos obrigados a engolir no ensino fundamental e colegial. Alguns poucos vão gostar dessa leitura, a maioria não. Mesmo os poucos irão achar, talvez por muito tempo, que a literatura nacional se resume àquela meia dúzia de autores antigos do vestibular.

Somamos isso ao fato de que a maioria das editoras não aposta nos autores e autoras nacionais atuais que escrevem ficção. Entra o dilema: não apostam porque vende pouco ou vende pouco porque não apostam? De qualquer forma, esses livros escritos por brasileiros dificilmente chegam à bolha do leitor, a menos que este seja incentivado ou levado ao acaso para sair dessa bolha. No meu caso, fui movida por uma curiosidade pessoal: quando comecei a escrever profissionalmente, não apenas como hobby, decidi procurar quem estava fazendo a literatura nacional hoje. Porém, quantos caminhos tortuosos como esse existem até alguém chegar a algum autor ou autora brasileira? Incontáveis, e talvez esse texto seja um deles.

Ler autores nacionais significa navegar por territórios pouco conhecidos, mesmo de pessoas já mortas, como Maria Firmina dos Reis, uma das primeiras escritoras negras do Brasil e primeira autora abolicionista da língua portuguesa. Com seu romance Úrsula, a autora escancara a escravidão convidando o leitor para saber mais sobre a história do país e como muitos dos pensamentos de antigamente ainda estão arraigados. Quem também fala sobre a história brasileira é Fred Di Giacomo, autor vivo, que conta em seu livro Desamparo sobre uma cidade brasileira sempre machucada pela violência.

Podemos ler ainda Deborah Dornellas, autora reveladora de uma Brasília recente, dos anos 90, em seu livro Por cima do mar. Nele, Dornellas demonstra claramente o que significa ser pobre e negro no Brasil, esmiuçando as diversas fases da vida de uma mulher. Também Maria Valéria Rezende, com seu livro A face serena, revela por meio de contos as etapas da vida: infância, adolescência, fase adulta e velhice são permeadas de um tom irônico incrível. Ainda na pegada dos contos, podemos ir atrás de outra autora maravilhosa e que demorou muito para despontar com edições de peso nas prateleiras: Lygia Fagundes Telles, com Os contos.

Para quem gosta de poesia, temos Pedro Tostes com Na casamata de si, que traz, principalmente, temas políticos. Já Geruza Zelnys fala sobre a nossa própria casa, uma morada interior também é desenvolvida no seu Quintais. Na parte de quadrinhos, temos o incrível Angola Janga, de Marcelo D’Salete, que conta a história do Quilombo dos Palmares. Ou ainda podemos falar de Alexandre de Maio, que fez jornalismo em quadrinhos, no livro Raul, para contar a biografia de um criminoso que aplica golpes bancários.

Foram livros como esses que me marcaram nos últimos anos e marcaram justamente porque eram vozes que falavam diretamente de dentro, de onde eu estou. Creio que o mesmo pensamento que Paulo Emilio Salles Gomes tinha sobre cinema pode ser transportado para a literatura, algo que poderia ser condensado na seguinte frase: “O pior livro brasileiro diz mais de nós mesmos do que o melhor livro estrangeiro”. Dizer isso pode soar demasiadamente determinista. Está certo que nem sempre é assim, mas o leitor deve compreender que, em algum momento, precisa encontrar vozes que falam do lugar em que ele está para poder construir um melhor pensamento crítico sobre esse mesmo local.  

São em livros de autores e autoras nacionais que surgirão muitos dos questionamentos sobre a sociedade atual brasileira, identificação com temas e personagens cujos problemas são os mesmos que os seus ou os vistos em sua família, ou vivenciados na rua da sua casa, com amigos. São textos assim que vão falar sobre a nossa política (algo de certo jamais visto em qualquer outro lugar do mundo num período tão curto de tempo); nossa cultura plural, que rende muito pano para manga em livros de fantasia; nossa língua, tão diversa e que sempre vai ter a sua maneira própria de expressar certas coisas; nossas ruas, locais de encontros e paraísos perdidos reais, que se tornam palpáveis e, muitas vezes, reconhecíveis para nós.

É importante lembrar também que os escritores e escritoras brasileiros são os responsáveis pelo registro da época atual e por olhar épocas passadas com o intuito de pensar sobre as recentes. Dessa forma, ler sobre as rainhas em seus castelos glaciais é interessante e, claro, traz muito conhecimento, mas não podemos negar as rainhas que tinham que lidar com a poeira e o calor tropical daqui, pois elas explicarão muito mais sobre como se formou a realeza, os papéis sociais e quais foram os seus desdobramentos.

Ler esses escritores e buscar mais sobre a literatura nacional foram experiências que me mudaram e que me moldam todos os dias. Muito do que escrevo e do que penso atualmente veio desses livros, de conversas com quem escreve também. Outro lado positivo de ler brasileiros é justamente essa possibilidade: as autoras, os autores estão próximos de você, é possível perguntar a eles sobre temas, conversar sobre a obras, participar de rodas de leituras em que essas pessoas estarão presentes. E, fico pensando, por que não aproveitar este privilégio? São escritores acessíveis, você pode abraçá-los, pegar autógrafos, prestigiá-los enquanto estão vivos.

Dê uma olhada nos autores mortos da sua prateleira, aqueles que desejaria ter conhecido. Pois bem, todo passado é feito do presente. Aproveite isso, esses artistas precisam de apoio em um país que incentiva tão pouco a cultura e em que tão poucos a consomem. Os editores que apostam nessas pessoas precisam de leitores e estão sempre lutando por um pouco da sua atenção. Lugares como Editora Patuá, Editora Reformatório, Editora Moinhos, Editora Penalux, Editora Nós, Não Editora, Editora Quase Oito, Giostri Editora, CEPE Editora, Faro Editorial, Editora 7Letras, Editora Quelônio, Editora Quase Oito, Confraria do Vento, Editora Illuminuras, Editora Veneta, Desconcertos Editora, Editora Oito e Meio, Editora Instante, Atêlie Editorial, Tinta da China, muitos dos quais já receberam diversos prêmios literários importantes por livros publicados, precisam ser cada vez mais notados e conhecidos.

Até mesmo editoras grandes com catálogos interessantes de escritores brasileiros e brasileiras, como Todavia, Companhia das Letras, Record e Rocco merecem ter seus autores e autoras nacionais percebidos com mais carinho. Com isso, deixo também uma boa lista de editoras que podemos seguir nas redes sociais e acompanhar os lançamentos, além de um pedido: na próxima vez que for praticar a arte de escolher livros, lembre-se da arte de ler nacionais.

*Bruna Meneguetti, jornalista e escritora. autora de “O céu de Clarice” (Amazon, 2017), “O último tiro da Guanabara” (Reformatório, 2019) e coautora do livro-reportagem “Corações de asfalto” (Patuá, 2018).

A leitora que habita em mim

Posted in Ler faz crescer às 16:51 por sidneif

Por MAYA FALKS*

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“A taça de chá” (1935), de André Derain (1880-1954)

Parece estranho dizer, mas minha experiência como leitora começou bem antes da minha alfabetização. O batalhão das letras, meu primeiro livro favorito. Esse livro foi tão fundamental na minha formação como leitora e escritora que homenageei seu autor, Mário Quintana, com uma tatuagem do célebre verso “Eles passarão, eu passarinho”. Por essa época, minha incapacidade de ler me fazia criar minhas próprias histórias através das ilustrações.

No início da juventude, migrei para as histórias eletrizantes de Pedro Bandeira e os diversos autores da coleção Vaga-Lume, certamente os maiores responsáveis pela formação de leitores nas décadas de 80 e 90.

Aos 14 anos descobri Gonçalves Dias. Já desde antes tinha algum apreço pela poesia nas letras de Augusto dos Anjos e Manuel Bandeira, mas Gonçalves Dias virou meu mundo de cabeça para baixo. Lembro-me de que, uns poucos anos depois da descoberta, encontrei um livro de obras completas do poeta com capa de couro que custava praticamente o que eu ganhava por mês de salário, mas não hesitei na compra, e é até hoje meu livro de cabeceira.

Comecei a escrever minhas primeiras poesias muito antes de descobrir Gonçalves Dias e sofro até hoje muito mais influência de Augusto dos Anjos do que dele, mas o romantismo brasileiro deixou de ser meramente um período literário pra mim para ser meu grande divisor de águas.

Como jovem adulta, desviei do caminho dos clássicos e parti para a lista dos mais vendidos, os mais evidentes nas vitrines e gôndolas. Li Nora Roberts, Danielle Steel, Dan Brown até cair de paraquedas em Carlos Ruiz Zafón. A sombra do vento foi o primeiro livro que eu terminei incapaz de descrever o tamanho da experiência que eu tinha vivido. Logo depois dele veio uma leva de outros livros com esse mesmo sentimento que foram me levando, pouco a pouco, a um caminho muito mais artístico do que comercial.

Hoje, embora não tenha preconceitos com leituras, tenho me focado muito mais em conhecer o trabalho dos amigos que fui conquistando no mercado literário. Leio Natalia Borges Polesso, Jarid Arraes, Rosângela Vieira Rocha, Maria Valéria Rezende, Cinthia Kriemler, Aline Bei, Mariana Basílio, Micheliny Verunschk, Leticia Wierzchowski, Tiago Germano, Thiago Medeiros, Conceição Evaristo, Ana Miranda, Pilar Bu, Germana Zanettini, Débora Ferraz, Lilia Guerra, Fábio Fernandes, Deborah Dornellas, Andri Carvão, Daniela Arbex, Nil Kremer, Jaque Pivotto, entre muitos outros que vou conhecendo diariamente e que ocupariam uma página inteira se citados um a um (espero que me perdoem!).

O mágico da literatura — principalmente a contemporânea — é que há leitura para absolutamente todos os gostos. Os citados acima, por exemplo, são extremamente diversos, não atendendo apenas a um estilo literário. Tem contos, crônicas, poesias, romances, livros-reportagem, livro histórico, ficção científica e temas tão variados que torna a leitura, indo de um para outro, ainda mais fascinante.

É essa diversidade imensa que marca meu gosto como leitora a principal responsável pela minha escrita ser flexível. Embora meus textos tenham uma marca própria, é esse contato com tantos mundos diferentes que me permite brincar com as narrativas e tornar mais rica a minha literatura.

 

*Maya Falks, escritora, publicitária e jornalista. Autora das obras “Depois de Tudo” , “Versos e Outras Insanidades”, “Histórias de Minha Morte” e “Poemas para Ler no Front”.

Ler sem entender

Posted in Ler faz crescer às 16:43 por sidneif

Por LUCIANA CAÑETE*

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“The Reader” (1926), de Juan Gris (1887-1927)

Abrir um livro me acompanha como memória das mais antigas. Lembro-me do finado Círculo do Livro¹ e do vendedor que trazia uma mala cheia de desejos e capas coloridas, da minha mãe negociando e levando uma coleção inteira pra minha alegria e de minhas irmãs. Lembro da estante do quarto dos meus pais, de estar deitada na cama e ler, quase que diariamente, os títulos das lombadas sonhando com o dia em que teria idade para acessar as histórias escondidas ali. Alguns daqueles livros li e tenho na memória a sequência título/autor que passava e repassava mentalmente deitada na cama, como se as prateleiras fossem as linhas de uma página: Os Ratos –  Dyonélio Machado, Mutações – Liv Ullmann, A brincadeira – Milan Kundera, Mulher daqui pra frente” – Marina Colasanti.

Na minha experiência  singular e individual, como costuma ser toda a experiência de um leitor assíduo, poder ler sempre foi um desejo e representava um ritual de passagem, a cada etapa do amadurecimento, os livros iam ficando mais pesados, mais grossos, letras menores e menos imagens. Abrir um livro sempre foi um ato de coragem pra mim, como se me pusesse a atravessar um vasto mar desconhecido. Quanto mais desconhecido melhor. Ir cingindo, sentada entre as páginas abertas, ondas e mais ondas de frases às vezes fáceis, outras nunca compreendidas. Nisso sempre morou meu gosto pela leitura: muitas coisas que li nunca entendi, continuo sem entendê-las e ainda assim gostei de ter lido, gostei do mistério de não ter compreendido.

Saindo do geral e mergulhando no particular, algumas leituras em especial me marcaram e gostaria de falar delas. Algumas, porque em geral a leitura me marcava, a boa leitura deixa coisas e leva outras. Sem ordem cronológica, de maneira aleatória, vou falar das que me vierem livremente na memória, como flashes.

Lembro de que quando comecei a faculdade, me enfiei na biblioteca da Reitoria da UFPR [Universidade Federal do Paraná] e catei um livro bonito, uma capa com umas ilustrações tipo cordel: Manuelzão e Miguilim, Guimarães Rosa. Nunca tinha lido este ilustre autor nem sabia bem do que se tratava, só que era famoso. Comecei a esmo, por este volume, e depois li, reli e tenho (orgulho da biblioteca particular) a obra completa. Um deslumbre de linguagem, eu ia nadando naquela sintática e semântica sem compreender muito, quase me afogando. Eis que de repente, eu enxergava a cena, eu entendia o que se passava, eu me identificava com Miguilim. Havia algo de intuição no entendimento daquela maneira de escrever que eu nunca experimentara antes com a literatura.

Eu devia ter 9 ou 10 anos, meu pai era leitor voraz, e minha mãe também era. Mas meu pai era quem comprava livros. O título era Fernão Capelo Gaivota (de Richard Bach),  e foi a primeira vez, com honra e orgulho, que meu pai pôde me emprestar o livro que acabara de ler. Eu iria ler o mesmo livro que meu pai, adulto, homem, psiquiatra lera. Eu, uma menina de 10 anos. Entendi em partes, desentendi muitas frases, parágrafos inteiros, mas li. Depois discutimos sentados na mesa da cozinha a vida transgressora de Fernão, seu ímpeto de liberdade, e o que isso tinha a ver conosco. Para isso, também, passamos as horas de reclusão e solidão da leitura, para compartilhá-la depois. Falar da leitura é tão importante quanto ler, compartilhar a leitura é continuar o seu entendimento para além do objeto livro.

Tínhamos um armário no corredor de casa, de fórmica branca, com puxadores de metal quadrados. As portas faziam um barulho especial ao abrir. Ali ficava uma caixa com a coleção de livros que minha mãe comprou do vendedor do Círculo do Livro. A gente alcançava facilmente o armário, tirava todos os livros da caixa e os lia e relia. Lia e relia. Aventura no escuro (de Jane Carruth) era o meu preferido, Toquinho, o personagem principal se perdia na floresta e passava a noite lá. Via monstros que, ao amanhecer, se revelavam apenas troncos velhos de árvores. Que alívio! Eu vivia com Toquinho a alegria de vencer os medos.

Num certo momento da vida comecei a devorar biografias, coisa que nunca tinha me interessado antes. Li a da Maitê Proença por acaso, porque saindo às pressas para viajar percebi que não tinha separado nenhum livro e essa biografia estava sobre a prateleira do quarto na hora de sair. Li com certo preconceito e resistência, mas gostei. Gostei de mergulhar na tragédia do outro, gostei de ver a vida de outra mulher em palavras. Na sequência, li a da Frida Kahlo, a da Clarice Lispector, a do Oliver Sacks.

Recentemente, tenho lido muita poesia e histórias infantis (se é que existe isso…) para minha pequena leitora em formação. A leitura me ajudou. No bom sentido, a leitura é autoajuda. A gente se debruça sobre aquilo que lê e, no esforço de entender, se entende. A gente carrega o que não compreendeu de imediato e às vezes vivendo, numa epifania, vem a frase, a cena incompreendida e a vida nos ajuda a entendê-la. Ou ao contrário, num momento de incompreensão, nos assalta uma frase compreendida de uma leitura e nos pesca do nosso desentendimento. Ou ainda, morremos admirando uma fala de um personagem, sem nunca alcançar o seu real mistério. Porque nos fazer amar o incompreensível também é papel da leitura.

 

*Luciana Cañete, professora, tradutora e poeta. Autora de “Meu coração bate e às vezes me espanca” ( Multifoco, 2009,).

  1. Círculo do Livro foi um projeto formado pelas editoras Bertelsmann (Alemanha) e Abril que funcionava no esquema de catálogos. Iniciado em 1973 e encerrado na década de 1990, o projeto chegou a contar com 800 mil associados  no seu auge.

Nossa vida em muitas direções

Posted in Ler faz crescer às 16:33 por sidneif

Por PATRÍCIA NIEDERMEIER*

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“Das lesende Mädchen” (1848), de Johann Georg Meyer (1813–1880)

Eu amo os livros, eu gosto de tocar neles, de sentir o cheiro. Eu gosto do objeto, eu gosto de ter uma relação afetiva com o livro — de chorar junto com ele, de abraçá-lo, de carregá-lo na bolsa, de levá-lo comigo. Não consigo ler e-book e essas coisas porque eu, realmente, preciso ter essa relação física com o livro.

Eu sou apaixonada pelo [Franz] Kafka.  Fiz 3 trabalhos¹ de teatro inspirados na obra dele. Ele é uma grande influência na minha vida, uma inspiração. Ele sempre está comigo. Há até um capítulo do meu filme “Salto no vazio” que é todo inspirado na minha relação com o Kafka. No filme, eu o procuro em Praga. Ele me indica o caminho, existe todo um diálogo afetivo, uma geografia afetiva ali com Kafka, com a cidade dele, com os livros dele, com esse universo.

A Virginia Wolf é também uma grande influência na minha vida  artística, na vida pessoal, na minha alma. É uma grande escritora, uma feminista, uma mulher imensa, forte, inspiradora, corajosa. Eu amo também os livros delas, montei Orlando, que foi um grande desafio na minha vida, um grande desejo. A peça depois  virou um filme “Orlando — ou um impulso de acompanhar os pássaros até o fim do mundo!” (2012).

Posso dizer sim que Kafka, Virginia basicamente são os autores que eu amo. Também gosto muito do Paul Auster, mas é diferente a relação . Eu até encontrei -o em Nova York. Foi meio estranho porque você lê os livros da pessoa, você tem, com ela,  intimidade literária, ela fala da vida dela nos livros e aí você  a encontra.  Na verdade é um estranho. Mas eu adoro a literatura dele, acho o Auster um grande artista e também muito inspirador.

Os livros abrem caminhos, emocionam, abrem a nossa alma,  expandem a nossa vida em muitas direções, e agradeço a eles por isso. O  escritor [José Eduardo] Agualusa fala de uma livraria [Altair] na Espanha (Barcelona), que conta  com muitos livros, muitos atlas, acho que os livros levam mesmo a gente a lugares desconhecidos.

 

*Patricia Niedermeier, atriz e diretora.

  1. A atriz se refere as peças  A construção; Comunicado a uma academia Odradek. Ainda no universo de Kafka, Niedermeier participou, também,  de Construções, peça baseada no conto A toca.

15 de Março de 2019

Meus portais

Posted in Ler faz crescer às 17:08 por sidneif

Por APARECIDA VILAÇA*

downloadImaginando esse texto, oscilei entre contar algo sobre as leituras que me abriram o mundo dos livros ou falar daquelas que têm me fascinado nos dias de hoje. Optei pelos dois e me surpreendi com a continuidade de meus interesses ao longo de cinquenta anos como leitora.

Fiz parte de uma geração de crianças que não tinha à sua disposição muitos livros destinados a nós, com exceção de algumas enciclopédias, como O mundo da criança (Editora Delta, 1949), recheada de pequenas histórias, cantigas e poemas. Tenho até hoje todos os seus volumes guardados, em suas encadernações vermelhas com as lombadas listradas de vermelho, branco e preto, escritas em letras douradas; na capa, somente singelos desenhos coloridos, sem letras. Na minha memória, entretanto, eu não os lia diretamente, pois era pequena demais para isso, e me encantava ao ouvir os versos na voz de minha mãe, que me mostrava os desenhos que os acompanhavam. Havia um deles sobre “gatinhos sapecas que perderam as suas luvinhas” e outro sobre uma casa em uma bota, onde vivia uma numerosa família, de que não me esqueço.

Mas foi ao receber de presente Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, que meu mundo realmente se abriu, pois aos poucos me dei conta de que, bem devagarzinho, eu conseguia ler o que estava escrito ali. Era uma edição da Brasiliense, com uma capa dura de fundo amarelo quase totalmente coberta pelo rosto de Narizinho, olhando para cima, para um peixinho vestido de fraque, com quem ela havia se casado. Juntamente com Narizinho, Emília, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa, dona Benta e tia Nastácia tornaram-se tão reais quanto os meus vizinhos. Imaginava-os chegar um dia para viver perto de mim, do mesmo modo que os personagens dos contos de fadas e D. Quixote em pessoa chegaram um dia para viver no Sítio do Picapau Amarelo (aí já estou em outro livro, homônimo do famoso sítio).

Foram esses mesmos livros, já com suas capas desgastadas de tanto uso, os primeiros que li para os meus filhos, quando os colocava para dormir. Emocionava-me que eles despertassem em meus meninos, trinta anos depois, o mesmo fascínio, e volta e meia parávamos a leitura para falar um pouco de um ou outro personagem. Monteiro Lobato transformou a hora de dormir em festa na minha casa (as leitoras que são mães certamente compreendem a importância do fato). Anos depois, já no século XXI, com os meninos crescidos, encontrei em uma feira de antiguidades (sim, haviam se tornado antiguidades esses livros escritos nos anos 1930) a coleção completa do Sítio do Picapau Amarelo, encadernada e em ótimo estado. Não hesitei e carreguei para casa a minha preciosidade, que guardo junto com os meus originais de criança. Tenho esperança de que poderei lê-los um dia para os meus futuros netos e desconfio que eles vão gostar muito. Não posso imaginar uma criança que não fique fascinada por esse povo do sítio e seus mais incríveis visitantes.

Agora em domínio público (estamos em fevereiro de 2019), acho que as obras de Monteiro Lobato fizeram pelas crianças da minha geração o mesmo que J. K. Rowling com o seu Harry Potter e a escola de bruxaria fez por aquelas nascidas nos anos 1990: a revelação de que todo um mundo podia estar contido em páginas escritas, que não nos deixavam cansados mesmo sendo muitas. Se os primeiros livros que meus filhos escutaram foram os de Monteiro Lobato, os primeiros que leram sozinhos foram os de Harry Potter, que tinham o poder de tirá-los da frente da TV e de outros aparelhos eletrônicos. Era lindo ver aquelas crianças ainda pequenas, com um livro enorme aberto no colo, ou então deitadas de bruços no chão, com o volume aberto à sua frente, exatamente como eu fazia na idade deles.  

E chegamos então às minhas leituras atuais. Sou muito eclética, e devo elogiar, dos muitos livros que li recentemente, Só Garotos e Linha M, de Patti Smith, Uma noite, Markovich, de Ayelet Gundar-Goshen, e o espetacular 4321, de Paul Auster. Mas há para mim um autor especial, cujos livros e coletâneas literalmente devorei, e que me deixa aflita a cada vez que demora um pouco mais para publicar um livro novo: Haruki Murakami. Conheci-o com o Kafka à beira mar, edição da Alfaguara, que me foi emprestado por meu amigo Daniel. Fui tomada pela leitura de um modo arrebatador, e de Kafka segui por Minha querida Sputinik, Norwegian Wood, Crônicas de um pássaro de cordas (de todos, o meu favorito), Caçando Carneiros, e todos os demais, muitos deles não traduzidos ainda. Do que eu gosto nesses livros? De tudo, mas especialmente dos portais, passagens para mundos paralelos, disfarçadas nas mais corriqueiras paisagens, como um poço de água desativado, uma pintura à óleo, uma trilha na floresta ou uma rua. Ao fazer os seus personagens atravessá-los, Murakami nos leva a outros mundos possíveis, onde chovem peixes, e os gatos são parentes do gato encontrado por Alice ao atravessar o seu portal para o país das maravilhas. Muito falantes, perceptivos, inteligentes.

Foi somente ao escrever esse texto que percebi o quão próximos se encontram Monteiro Lobato e Haruki Murakami. Com as importantes diferenças de homens de civilizações diferentes e com um século de distância, ambos conseguriam despertar em mim o interesse em mundos paralelos, em possibilidades outras, não só de tamanho e forma, como de vidas, pensamentos, relações. Talvez Monteiro Lobato tenha, de algum modo, me levado à antropologia, e esta tenha me conduzido a Murakami. A imagem das aranhas costureiras que prepararam o vestido de noiva de Narizinho, feito de peixes vivos, que nadavam por ele, me parece o equivalente infantil de personagens de uma pintura à óleo que saíam do quadro para interagir com o protagonista, no novo romance de Murakami, O assassinato do comendador. Não é uma obra infantil, de modo algum. Murakami escreve para adultos, trata de questões complexas como a solidão, o abandono, as perdas, as guerras e a morte. Não se trata para mim, portanto, de reviver tramas infantis lendo Murakami. Mas de poder pensar novamente como uma criança, ainda capaz de habitar a multiplicidade constitutiva do mundo, disposta a seguir pelo primeiro caminho estranho e escondido que encontrar para ver aonde se chega. Pois é, existem sim esses mundos paralelos, e não só na floresta amazônica onde vivi. As letrinhas dispostas lado a lado nos livros, página atrás de página, são como o buraco onde cai Alice ou como o poço onde meditam os personagens de Murakami: segui-las implica entrar no portal que nos leva a esses mundos diferentes, que existem junto com o nosso. Neles, coelhos, gatos, peixes, porcos conversam como gente, mas isso não é o mais importante. O que vale à pena descobrir é que nesses mundos pensamentos radicalmente diferentes convivem e dialogam; a diferença é tomada como um valor e por isso não se quer transformar o outro em si mesmo.

 

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Aparecida Vilaça e Paletó

*Aparecida Vilaça nasceu no Rio de Janeiro em 1958. É antropóloga do Museu Nacional, especialista em etnologia amazônica. Autora de “Paletó e eu: memórias de meu pai indígena” (Todavia, 2018)

Eu, estátua!

Posted in Ler faz crescer às 16:59 por sidneif

Por STELLA MARGARITA*

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“The Library” (1905), de Elizabeth Shippen Green (1871–1954)

Estou surpresa com o “convite” [para escrever para a seção Ler faz crescer].  Fico bem feliz de saber que existe esse movimento em prol da leitura, porque ela, sabemos, abre universos, alarga o espírito… A possibilidade quase mágica de sermos por um tempo outras pessoas, imaginar outras paisagens, sentirmos em outros contextos, outros perfumes, longe de nossas realidades é, no mínimo, incrível.  A leitura nos oferece a possibilidade de ver o outro de uma forma diferente e, ás vezes, pode abrir um caminho à compreensão das diferenças que, sabemos, é  muito difícil.

Penso nas crianças, sobretudo naquelas que vivem numa dura realidade, o fato de terem acesso a um livro, a uma história contada por alguém, tem o poder maravilhoso de transportá-las para uma realidade melhor, e essa realidade fica e é ativada em momentos mais difíceis.

Tive minha época de leitora na minha infância e adolescência, e via o quanto ler era de suma importância para minha mãe.  Morávamos no interior no Uruguai, e lembro claramente os movimentos da minha mãe ao redor dos livros. Ia junto com ela na casa de um parente amigo que tinha uma grande biblioteca, lembro-me deles dois concentrados na escolha dos livros, ele ia tirando um e outro das estantes, falava suavemente a respeito do livro, eu, estátua! de pescoço esticado ( a biblioteca ia até o alto da parede) , sentindo a importância do que estava em jogo.  A atmosfera era tão deliciosamente especial que é, sem dúvida,  a melhor lembrança que tenho da minha infância. Hoje meu ofício é pintar, e posso sentir que essa vivência infantil de certa forma está presente, frente a uma tela em branco, assim como em vários momentos. Quando pinto sinto essa tensão maravilhosa da escolha, da decisão, da pincelada, da cor…do que ao igual que um livro não sabemos o final.

 Minha mãe aos 79 anos continua lendo, agora no Kindle, e tenho um neto de 6 anos que é um leitor voraz.  Quando o visito, ele que mora em outro país, e vejo o seu entusiasmo com a leitura, sinto-me muito feliz, e, o melhor de tudo, ele lê em voz alta para mim.

Estarei atenta ao blog, já li lindos depoimentos, quem sabe é um recomeço da leitura…

*Stella Margarita, artista plástica uruguaia. Vive e trabalha no Brasil. https://stellamargarita.46graus.com/

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