12 de Fevereiro de 2021

Como comecei a escrever

Posted in Sem categoria às 13:53 por sidneif

Por SANDRA SANTOS (Mineirinha n’Alemanha)*

Novel-Reader,-The

“The Novel Reader” (1888), de Van Gogh (1853-1890)

Eu era uma criança meio diferente, que passava as noites lendo e acordava tarde, se pudesse, o que deixava a minha mãe um tanto quanto preocupada! Quando me levantava nos finais de semana, se desse sorte ainda achava um pãozinho na mesa da cozinha para tomar o café da manhã, se desse azar a mesa já não estava mais posta. Mas eu não me importava, porque no meio da minha infância muitas vezes solitária, também por causa da minha timidez, eu viajava, me informava e me formava, sem perceber, através dos livros. 

Acho que devo ser uma exceção por ter crescido em uma casa que contava com uma bela biblioteca! Minha mãe vendeu a enciclopédia Barsa e teve a oportunidade de comprar livros da editora de maneira mais facilitada. Mas eu não lia só livros, lia revistinhas, como a da Luluzinha e da Mônica, escrevia cartas para minha prima Denise, escrevia cadernos e cadernos de pensamentos, preenchia meus dados naqueles cadernos que fizemos na infância, com perguntas em cada página para cada pessoa da classe responder. Cedo, comecei também a escrever diários. Acho que foi quando minha mãe teve um acidente e passou meses no hospital. Esse fato me marcou muito, quando tinha uns 13 anos. 

Foi com os livros que cresci, formei minha paixão pelas letras e encontrei o mundo que sempre me acolheu de braços abertos. Fiz uma pausa na escrita durante meu primeiro casamento, pois não tinha liberdade para escrever, e voltei à escrita em 2003, quando descobri o Mundo Pequeno, uma página de blogs de brasileiros espalhados pelo mundo todo, quando decidi abrir o blog que me levaria para o mundo: o Mineirinha n’Alemanha. 

Refletindo sobre a escrita, ela sempre me acompanhou durante a vida. Ainda bem jovem, meu pai fez questão que aprendesse a datilografar com boa velocidade, por isso fica fácil transportar as ideias para o papel em pouco tempo, o que por sorte consigo fazer em vários idiomas. Quando meus filhos eram pequenos, fiz questão de ler sempre livros para eles em português, principalmente antes deles irem dormir. Se o livro não estivesse em português, fazia a tradução simultânea na hora! Sou grata por eles terem adquirido de mim esta paixão pelos livros. Ler em público parece ter se tornado algo tão pouco praticado, que várias vezes meu filho, que tem atualmente 15 anos, recebe a pergunta de por que está lendo e se ele lê porque quer. Claro que sim! Sempre dei a dica para eles de que quem quer melhorar sua nota de português (ou de alemão, ou inglês…) deve ler, pois lendo aprendemos muito do idioma. Lendo aprendemos também a escrever, e desenvolvemos ideias para nossas próprias histórias. Entramos no mundo de outras pessoas e conseguimos ver o mundo sob sua perspectiva. Ganhamos uma habilidade lógica de conseguir transportar ideias com começo, meio e fim – algo que pode parecer simples, mas que muitas pessoas parecem ter bastante dificuldade de fazer. 

Ler esquenta o coração, acalenta a alma, vejo livros como meus melhores amigos. Gosto tanto deles, que costumo abrir um livro qualquer em busca de uma palavra amiga, e muitas vezes sou atendida. Gosto de dormir abraçada a um livro! Já deu pra ver que minha paixão pelos livros tinha mesmo que me levar à função de escritora, não é mesmo? Foram meus livros que viajaram por mim, chegaram a lugares aonde ainda não cheguei e que me trouxeram muitos bons amigos. É no mundo da palavra escrita onde me sinto à vontade, algo que pratico também no trabalho do dia a dia, também como consultora de carreira ajudando pessoas a encontrar um estudo ou trabalho no exterior, quer seja em alemão, inglês ou português. 

Principalmente agora na pandemia o exercício da escrita tem sido algo constante. Durante a primeira onda, a partir de março de 2020, comecei a escrever o livro que acabei de lançar em dezembro de 2020, o HERstory – escreva a sua história! Participei, até agora, de mais de cinco coletâneas desde que o mundo se transformou com o  coronavírus. Vira e mexe sai um poema também, que ando publicando nas mídias sociais, além da participação de coletâneas. As próximas, agora no começo de 2021, serão a Coletânea das Enluaradas do Mulherio das Letras, a coletânea do Mulherio das Letras Portugal e a coletânea em homenagem à Maria Valéria Rezende, que me agraciou com o prefácio do meu último livro. 

Sigo escrevendo! É uma oportunidade de um encontro meu comigo mesma e com outras pessoas, onde me sinto em casa, no mundo fantástico das letras que, colocadas de determinada forma no papel, formam a comunicação e transmitem emoções. Se pudesse escolher um lugar para morar, era lá que eu iria querer estar!

 

Sandra Santos

*Sandra Santos, a Mineirinha n’Alemanha, mora no país desde 1993.  Desde 2003 ela tem um blog homônimo. Desde 2008 ela vem publicando livros e participando de coletâneas organizadas pelo Mulherio das Letras, Liberty Books e Páginas Editora. A Sandra é mineira de Belo Horizonte, é casada e tem dois filhos. Ela escreve para ela e para o mundo por acreditar que tudo está interconectado, que somos e devemos passar luz para os outros e por ter fé em um mundo mais justo e mais fraterno. O último livro dela, que fala de temas como a sororidade e o feminismo consciente, faz um balanço durante a pandemia, leva à reflexão e empodera para que o leitor se coloque no centro de sua vida, com amor próprio e compaixão por si e pelo mundo: HERstory – escreva a sua história!

Contatos com a Sandra:

www.mineirinhanalemanha.de

www.sandrasantos.de

@mineirinhanalemanha

 

21 de Dezembro de 2020

O grande caldeirão

Posted in Ler faz crescer às 16:25 por sidneif

Por WALESKA BARBOSA*

RP-P-OB-738

“A leitora” (1634), de Rembrandt (1606-1669)

Há pouco tempo fiz uma imersão no conteúdo de entrevistas concedidas pela escritora mineira Conceição Evaristo. E começo a falar da minha experiência como leitora a partir das falas dela. Chamou minha atenção o fato de ela contar que a palavra sempre fez parte de sua vida. Não a escrita. Mas a oral. A escrita, ela só veio a conhecer com intimidade, a ter acesso, a tocá-la por meio de livros, por meio das mulheres da família, que exerceram trabalho doméstico nas casas de pessoas de renome, incluindo escritores, que mantinham fartas bibliotecas em seus lares, em Belo Horizonte. A leitora, no caso dela, aconteceu na adolescência, quando por falta de outras opções e de recursos para aproveitá-las, se agarrou aos livros. 

Apesar de realidade crua e dura, eu vejo nisso uma poética. Conceição não desdenhou nem desconheceu a tradição da voz e das narrativas ao estilo griô, a que teve direito. E isso inaugurou a proximidade com a palavra que permeia sua vida, profissão e obra. Talvez tenha feito dela a mulher que não abriu mão de estudar e que tornou-se professora e escritora. 

Faço um contraponto com minha própria história uma vez que já havia identificado que minha proximidade com a palavra veio dos livros físicos mesmo. A presença deles na minha casa nos aproximou, eu e os livros, até que eu pudesse dispor deles e tentar decifrá-los. 

Meu pai também era um bom contador de “causos”. Suas histórias, o clímax delas, era precedido por longo apanhado de detalhes e pormenores que, muitas vezes, exasperavam o  interlocutor. Minha mãe, na época em que nasci, era vereadora em seu primeiro mandato. A sua eleição ocorreu por mais seis e ela passou 32 anos atuando na Casa de Félix Araújo, a Câmara Municipal de Campina Grande/PB, onde eu nasci. Ela era dona da palavra falada. Ótima oradora. Verve pulsante. Era boa de discussões, no meio da rua, onde fosse, para defender-se e aos seus ideais. 

Somos uma família grande. Tenho onze irmãos. Um deles, Raniere, não mais fisicamente entre nós e, outra, mais nova do que eu, Viviane. Dos outros, alguns já adultos quando era bem pequena, fui convivendo com os gostares, com os livros, profissões. Havia uma diversidade de exemplares em casa, que versava de medicina a engenharias, passando pela psicologia, a religião. Chegando à literatura, aos clássicos, aos regionais. Enfim, um grande caldeirão que me preparou para os meus próprios gostares e caminhos escolhidos. 

A música, coleções de vinis com encartes fartos, também me fez ser ouvinte logo cedo. Eu gostava das letras das canções, prestava atenção nelas. Ia percorrendo uma vida paralela por meio das palavras cantadas de João do Vale, Caetano Veloso, Cartola, Gilberto Gil. Não sei viver sem música e, muitos textos que escrevo trazem um ou outro verso ou palavra que, mesmo não sendo identificáveis pelos leitores, soam para mim como uma referência ou reverência, muitas vezes guardada como um segredo só meu. 

Não sei bem com que idade me tornei leitora. Mas foi cedo. Adoro a emblemática Coleção Vaga-Lume e foi aí que comecei, acredito. Lembro também de ser herdeira dos gibis dos irmãos e irmãs e das obras clássicas de Ziraldo. Dali passei para o que chamamos de clássicos. Não fazia (e ninguém fez isso por mim) uma classificação indicativa das obras, como faço hoje para a minha filha de dez anos, já uma leitora aguerrida.

Dessa forma, algumas obras tiveram seu entendimento forjado na criança ou adolescente ou sequer foram entendidas. Mas decifradas o quanto possível. Nesse sentido, a que marcou, da qual eu adorei o processo do ir e vir nas palavras, frases e páginas, foi Dom Quixote (de Miguel Cervantes). Andei com aquele calhamaço por um bom par de dias e saí dele encantada, divertida, preenchida. Acho que dali virei uma leitora para toda obra. Senti orgulho do meu trabalho como leitora. 

Fui seguindo. Veio a faculdade (sou jornalista, fiz o Curso de Comunicação Social na Universidade Estadual da Paraíba e uma especialização na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília). Vieram os livros técnicos. A minha vinda para Brasília, em 2000, recém-formada, aos 24 anos. Mais estudo e livros relacionados à comunicação, ao jornalismo, à política social. A leitura de obras literárias foi diminuindo. A lida da vida me engolindo. 

Mais tarde, em 2010, tornei-me mãe. E os livros vieram como um carimbo de “você consegue”. Em meio a uma mamada e outra e mais toda a lida da vida, ia tentando avançar umas páginas. Mas a coisa rareava. 

Meu movimento como leitora retornou mais forte em 2017, quando decidi abraçar a escrita como um ofício e me colocar no mundo como a escritora que sempre sonhei em ser. Então, retornaram os conselhos de meu pai: para escrever, tem que ler ou leia – até bula de remédio. Ele morreu em 2016 mas deixou um legado de amor à cultura e às palavras, que permanece em nós e em nossos filhos. 

Há algum tempo dedico-me preferencialmente a escritoras mulheres e, entre elas, a preferência por mulheres negras, o que veio como um imperativo depois de conhecer pesquisas que davam conta do (não) papel da mulher na literatura, tanto mundial quanto brasileira. A mulher não era a autora. Não era a personagem principal. Às vezes, nem secundária. A mulher era a subalternizada. A romantizada. A abusada. Olhei para minha estante. Cadê as obras de autoria feminina? Minha estante reproduzia a realidade imposta.

Nesse contexto, conheci o Mulherio das Letras, os Leia Mulheres e após criar um blog, que tinha como meta receber um novo texto a cada dia, virei uma nova pessoa por meio da escrita, curativa que é, como acredito. Entendi meu lugar e passei a me ver e a me fortalecer como mulher negra. Nordestina. Paraibana. O livro foi publicado, enfim, de forma independente, em outubro de 2019, quando atendi ao convite de participar da Feira de Livros de Frankfurt.  Que nosso olhar não se acostume às ausências, de crônicas, será relançado, em março de 2021, pela Arolê Cultural, editora pela qual fui contratada, após a ótima aceitação da obra e de seus 300 exemplares terem se esgotado.  

As crônicas selecionadas fazem da obra e seu título uma proposta para que maiorias ou grupos fora dos padrões normativos, que terminam tomados como minorias, sejam enxergados em seu direito de existir e na sua diversidade. 

“Que o nosso olhar” tem apresentação da escritora Leila de Souza Teixeira, que conheci em São Paulo, em cursos de literatura promovidos pelo Sesc e prefácio de Laura Castro, escritora baiana, editora de livros artesanais e professora universitária.

Nele falo sobre questões como violência, amor, desamor, maternidade solo, genocídio do povo negro, racismo, feminicídio, abordando aspectos que permeiam a vida de mulheres. É um livro feminino, feminista, antirracista. Também há temas pueris, do dia a dia, com uma forma poética e muito peculiar de me colocar diante dos fatos. Nele reconto ou conto histórias que me foram transmitidas por mulheres e, em alguns casos, por homens, mas que têm a mulher como tema. 

Recomendo a leitura (risos).

Voltando ao meu processo de leitora, eu gosto da retomada, a partir de 2017. Mas ele é lento. Sem grandes vaidades. Continuo no meu ritmo de tempo e de orçamento. Fico atenta às necessidades minhas de cada momento. Não gosto de fazer disso uma vaidade enquanto essa vaidade – ler, poder comprar livros – não possa ser de uma maioria. Sempre cito Sérgio Vaz, quando diz que “importante não é quem escrever. Importante é quem lê”. Mas sobre ela, a retomada, escrevi um texto no blog, que encerra o meu livro, que gostaria de compartilhar aqui.  

73026715_2518418014916203_2079995053056458752_o

Crédito: Webert da Cruz

Declaração

Quando eu fechei o livro. Senti prazer. O de tê-lo fechado pela última vez. Separavam-me daquela, outras 516 páginas. Devoradas em pouco menos de uma semana. Deixei-me ficar na cama. No torpor daquela sensação.

Perscrutei o último ano. Sim. Houve mais livros do que eu imaginava. Passei-os em revista. Foram em quantidade maior do que conseguira talvez na última década. Quando colecionei inúmeros volumes inacabados. Denunciados por um marcador em página qualquer. Ou uma anotação interrompida em algum lugar do caminho. Antes de percorrido o trajeto que levaria à linha de chegada.

Não entendo como isso aconteceu. Também não posso fazer nada com o que ficou para trás. Posso, sim, recuperar o tempo perdido. E nisso tenho me empenhado. Na verdade, não na busca do que passou. Mas na construção do quero a partir de agora.

Tenho prestado atenção no meu comportamento de leitora. A partir do abrir uma obra e enxergar suas primeiras frases, vislumbrando tudo o que tem pela frente. Isso tem me ajudado a domar a ansiedade. Aliás, descobri que foi por causa dela que parei de ler por tanto tempo.

Era incapacidade. Inabilidade. De aceitar. Percorrer. O passo por passo. Linha por linha. Capítulo por capítulo. Depender do meu próprio ritmo para saber o que vinha depois. Dar tempo ao tempo. Não folhear o calhamaço ainda por ser vencido. Não buscar o final antes da hora.

Entrar em um livro é estar vinculada, presa como em visgo, ao que está contido naquelas páginas. Ainda mistério a ser decifrado. A gente quer parar, mas não consegue. Quer esquecer, mas fica pensando. Quer ler mais, mas adormece. É limo. É grude. 

Foi assim, fisgada, dependente, que me vi dormindo tarde ou acordando na madrugada. Só para avançar mais um pouco. Foi assim que me vi em lugares variados – da praia à festa. Livro na bolsa. Disponível para preencher quaisquer intervalos. Em filas. Esperas. Silêncios. Ocasos.

Ensina sobre paciência, a leitura. Sobre determinação. Entrega. Um resultado que só depende de cada uma. Uma vitória em cujo pódio se sobe o tempo inteiro. Competição sutil. Quase inexistente. Com as palavras. Com o autor. Com as interpretações. Consigo.

Um adentrar em outras vidas. Aprender com elas. Sofrer. Torcer. Amar. Odiar. Por outros olhos. Incorporar, sem perceber, tanto do que não é seu. Até sair da imersão, modificada, renovada. Mesmo sem saber o que se era antes. O que mudou agora. Mas empunhando a certeza da mudança.

Um adentrar em outros chãos. Tocar seus ladrilhos. Buscar suas direções. Conhecer seus cheiros. Reconhecer seus esconderijos. Até sair da imersão, modificada, renovada. Mesmo sem saber o que se era antes. O que mudou agora. Mas empunhando a certeza da mudança.

Quando eu fechei o livro. Senti prazer. Descobri-me dependente. Declarei-me leitora

Waleska

Waleska Barbosa credito Mauro Siqueira (2)

Crédito: Mauro Siqueira

*Waleska Barbosa, Escritora. Jornalista. Autora de “Que o nosso olhar não se acostume às ausências” (Edição independente; 2019).

www.umpordiawb.com.br

24 de Novembro de 2020

Como a leitura entrou em minha vida

Posted in Ler faz crescer às 16:20 por sidneif

Por VALESKA BRINKMANN*

theodor_pallady_romc3aania-1871_1956-nu-lendo-ost

“Nu lendo” (s/d), de Theodor Pallady (1871-1956)

Pulando a infância, onde minha avó me lia muitas fábulas e havia nossa enciclopédia Mirador e os livros recomendados pela escola, minha vida de leitora – essa que sou hoje – começou aos quinze anos.

Naquele dia eu tinha ido à biblioteca da escola procurar um outro livro, quando vi na cesta de achados e perdidos um livro com o título: Onde estivestes de noite. Atraída pelo título, peguei o livro como se fosse meu. Foi amor a primeira leitura! aqueles contos me fascinaram. 

A escrita de Clarice Lispector me acompanhou desde então por toda adolescência, e início da vida adulta. Havia muita idenficação, Clarice era como uma amiga. Nos seus livros encontrei respostas a questões existenciais, consolo para meus desenganos, crítica social. Também aprendi a reconhecer a força da palavra escrita.

Uma vez falei com meus botões: será que vou conseguir ler outro escritor na vida?
Bom, para minha sorte, eu consegui sim!

 Ler para mim é uma viagem. A lugares novos, ao interior de mim mesma, ou de outra pessoa e até de outro ser vivo como árvore ou raposa. É um acercamento de universos, uma compreensão de mundos.

A leitura é vital e também influencia muito na minha escrita. Incrível, como às vezes, uma única palavra aciona um ponto lá esquecido em meu ser, e já está aí a imediata inspiração. Num segundo estou experimentando vocábulos, verbos, locuções, como se estivesse num laboratório de palavras.

Não quero deixar de destacar a importância das bibliotecas escolares e públicas na minha trajetória como leitora. Embora hoje não com tanta frequência, quando aluna escolar e universitária, fui frequentadora assídua das bibliotecas, e, desde aquela época, na minha bolsa sempre carrego um livro (ou dois) – e o cartão da biblioteca!

Valeska Brinkmann

*Valeska Brinkmann, natural de Santos. Estudou Radio e TV na FAAP (SP). Tem contos e poemas em revistas literárias como Gueto, Ruído Manifesto, Diversos Afins, Stadtsprache Magazin, Literaturabr, escamandro (traduções de poesia alemã) e em diversas antologias na Alemanha, Brasil e Portugal. Publicou em 2016 um livro infantil bilíngue pela editora Bübül Verlag Berlin. É integrante do coletivo GLENSE – guerrilha literária espontânea na sala de estar. Trabalha na emissora de Radio e TV pública de Berlim, onde vive.

16 de Novembro de 2020

O caminho de uma leitora

Posted in Ler faz crescer às 15:36 por sidneif

Por CECILIA BOTANA*

i7RMvoCqcaPr

“Primeiros passos” (1936), de Antonio Berni (1905-1981)

O caminho da minha vida de leitora começa na infância. A primeira lembrança que surge é a pequena biblioteca que tinham meus pais na sala. A maior parte eram livros para adultos, mas eu lembro que olhava para essas prateleiras com muito interesse. Aquele canto de livros me permitiu conhecer animais selvagens assustadores. Livros enciclopédicos com grandes fotos coloridas que mostravam as feras da selva. Uma outra enciclopédia que preencheu minhas horas foi O Tesouro da Juventude, composta de 18 volumes, que oferecia contos, poemas, lendas, fatos históricos, curiosidades sobre a natureza e sobre a ciência, muitas coisas interessantes para se ler e se encantar. Passava as tardes lendo e me maravilhando com as histórias e as fotos ali contidas. É claro que também li contos de fadas. Lembro em especial de um livro que adorava. Gostava muito das ilustrações. Depois tive uma pequena coleção de contos de fadas. Eram livros pequenos que vinham numa pequena caixa. 

Meu pai me comprava livros na banca de jornal, nos aniversários recebia livros de presente. Também recebia roupa, chocolates e outros objetos, mas em vários aniversários (e em outros momentos também) eu ganhava livros. Lembro que ia com a minha mãe a um bairro vizinho, que era mais comercial, para escolher os livros que queria. Tenho até hoje alguns volumes de uma coleção de suspense chamada Alfred Hitchcock. Tratava-se de três amigos pré-adolescentes que, em cada livro, tinham um mistério que resolver. Adorava! E os devorava em um dia! Conservo também exemplares de uma outra coleção, da qual não lembro o nome, em que também uns garotos precisavam resolver casos enigmáticos. Sempre gostei muito do gênero policial e de suspense. Outras leituras também fizeram parte dos meus dias: Meu pé de laranja lima e O veleiro de cristal, de José Mauro de Vasconcelos. Lembro que chorei muito com esse autor. Papai Pernilongo, de Jean Webster, Vinte mil léguas submarinas, de Júlio Verne, As mil e uma noites… Mas também lia poesia. Tinha vários livros de poesia infantil e inclusive lia e declamava poemas que faziam parte de manuais escolares. Deliciava-me lendo e repetia a leitura mais e mais vezes. 

Voltando à lembrança dos meus pais, minha mãe uma vez me deu um dicionário de espanhol, desses escolares, e eu amei! Passei dias lendo, conhecendo novas palavras e escrevendo-as num caderno. Ademais, minha mãe era professora e, numa época, trazia da biblioteca da escola livros infantis que eu lia à noite e ela os devolvia no dia seguinte. 

Realmente ler era um prazer para mim. Sempre foi. Até mesmo os livros considerados chatos que se liam na escola eu lia com agrado. Para mim, ler é uma coisa natural, assim como escrever. Bastou que aprendesse a escrever para que criasse diversos textos, em sua maioria, poesias. De minhas lembranças, só escrevi três contos, fora as redações escolares que, no meu caso, eram compridíssimas! 

Ler e escrever, na minha infância, eram duas formas fantásticas de passar o tempo, duas formas simples e ao alcance da mão de ser feliz. Que bom que já de criança escolhi ser feliz, caso contrário, talvez não tivesse me tornado a leitora e a escritora que sou hoje!

Cecilia Botana

*Cecilia Botana é escritora, mestre em Linguística Aplicada na Universidade Federal Fluminense (UFF), professora de Literatura, Língua Espanhola e Latim.  Cecilia nasceu na cidade de Buenos Aires, Argentina,  e mora no Rio de Janeiro há 24 anos.

www.ceciliabotana.com

30 de Outubro de 2020

Fonte de vitalidade

Posted in Ler faz crescer às 15:10 por sidneif

Por MARTA COCCO*

Vittorio_Matteo_Corcos_-_Dreams_-_1896

“Sonhos” (1896), de Vittorio Corcos (1859-1933)

Os livros sempre foram minhas grandes companhias. Na infância, no meio rural, povoavam minha imaginação, minha vontade de aprender e de conhecer outros horizontes. Na juventude, me ajudavam a organizar sentimentos confusos, fortes emoções e motivar meus sonhos. Até hoje os livros são, para mim, uma fonte de vitalidade.

Um momento inesquecível de leitora aconteceu quando eu tinha uns 9 anos e li Genoveva de Brabante, de Cristopher Schmidt, por recomendação de uma irmã com deficiência auditiva. Ela me disse que a história a tinha feito chorar.  É o drama de uma mulher que foi vítima de calúnia do cunhado, que ambicionava destruir o irmão e tomar seu lugar. Como foi expulsa de casa, se abrigou numa caverna onde teve um filho e uma corça a ajudou a amamentá-lo. No final, a injustiça é reparada, mas a narrativa me marcou definitivamente. Houve outros  momentos com livros que me impactaram profundamente, mas esse foi o primeiro de que tenho lembrança.

minibio

martacocco

* Marta Cocco, natural de Pinhal Grande-RS, reside em Tangará da Serra-MT. É professora de Literaturas da Língua Portuguesa na UNEMAT  e autora de 12 livros (poemas, contos, infantis e crítica literária), com pelo menos mais cinco a serem lançados entre 2021 e 2022.

27 de Outubro de 2020

Os caminhos da leitura

Posted in Ler faz crescer às 14:31 por sidneif

Por JEOVÂNIA P*

thumb_medium

” A leitura” (1924), de Fernand Léger (1881 – 1955)

A leitura é um eterno processo de descoberta. Quando menina me deparei com uns livros, com uns poemas dentro desses livros, que mudaram minha vida. Acredito que foi no livro de português da 5ª série, que, pela primeira vez, vi e li o poema da música Construção, de Chico Buarque de Holanda. Até hoje lembro daquela sensação, eu li, parei, pensei: “que coisa linda!”. Guardei o livro por anos, só por causa daquele poema. Guardei como quem guarda um tesouro. Puro ouro.

Outro livro, desses que me tomou os olhos e mais, foi um pequeno, bem grosso, capa dura, vermelha, não sei o nome, falava de modo geral do português, da literatura. Não era um livro escolar, era da minha mãe, mas como eu gostava de cutucar os livros, fiquei lendo aquele. E me deparei com parte do poema I – Juca Pirama, de Gonçalves Dias, “fantástico!”. Decretei que quando minha mãe morresse, por favor, me deixasse aquele livro de herança, para que eu sempre pudesse voltar àquele poema. Claro, que tal decreto foi tido como um horror, por ela, e por mim, como algo real, e não era maldade, era só o desejo de poder reler a qualquer momento algo tão supremo. No fim das contas, ela ainda está viva, e para ter a obra, comprei um livro que contém todo o poema, para que eu não fique órfã de uma poesia tão perfeita. 

Os livros me tomam desse jeito desde menina. Na adolescência, eu ia todos os dias à biblioteca do SESC, na Cidade Alta, em Natal, para ler Manuel Bandeira. Lá descobri que Bandeira estudava a poesia, que pensava-a, que não era ingênuo. E, se eu quisesse mesmo enveredar por esse caminho, era preciso me debruçar sobre a poética, amadurecer a escrita, descobrir como brincar com as palavras, e seus variados possíveis usos. Ele deu norte à minha vida, e diz meu poema: “Meu pai é Bandeira”.

Machado de Assis, por sua vez, me ensinou a pensar. Um dos meus professores dizia que se você pensa bem, então escreve bem. Eu, besta como sou, logo matutei, “se eu preciso pensar bem, então tenho que ler Machado de Assis e analisar como ele usa a linguagem pra poder aprender a escrever”. Foi essa a via que segui para poder me preparar e para escrever minha dissertação. Até hoje mantenho Machado de Assis na cabeceira, como um recado que se deixa pregado na geladeira, pra nunca esquecer que é necessário ler quem bem escrever, para poder ter uma boa escrita, um pensamento coerente.

Em meio a essas leituras encontrei amores como Jorge Amado, sua escrita fluida, falando para o povo, é isso que quero para mim, uma palavra que vá a qualquer boca, a qualquer ouvido. Foi isso que ele me ensinou.

Também, é claro, descobri Auta de Souza, e me reconheci como mulher, negra, escritora, papa-jerimum. Depois, percebi que existem muitas de nós por aí, precisando serem lidas, carecendo de serem publicadas, de serem reveladas ao mundo. Nessa trajetória percebi a importância não apenas de ler, mas também, de lutar para assegurar o meu/nosso direito de fala. Nós que somos escritoras negras, que sofremos historicamente um processo de apagamento e de negação da própria intelectualidade feminina negra. Precisamos ler, escrever e mostrar o quanto somos capazes.

Jeovania

*Jeovânia P é poeta, bacharel, licenciada e mestre em Filosofia pela UFPB, especialista em Educação pela UEPB e licenciada em Letras pela UFPB Virtual. Amante das artes em todas as suas expressões, Jeovânia P tem experiência como atriz, diretora teatral, produtora musical, e possui poemas publicados em jornais, on-line, livro individual e algumas coletâneas. Potiguar de nascimento, hoje reside na Paraíba.

20 de Outubro de 2020

Da casa da vovó para o mundo

Posted in Ler faz crescer às 16:21 por sidneif

Por PATRÍCIA MONTÊS*

Alfred_von_Schüssler_Lesende_Mädchen

“Zwei lesende Mädchen vor Landschaftshintergrund” (1849), de Alfred von Schüssler (1820-1849)

E foi assim que tudo começou…                                                           

Ouvindo as primeiras histórias contadas por minha avó paterna, Eunice, a quem chamávamos carinhosamente de vovó Nicinha. Ela morava numa linda casa no bairro do Encantado, Rio de Janeiro, com fachada de  pedrinhas coloridas que, ao anoitecer, mais pareciam diamantes. Era um verdadeiro cenário de contos de fadas!

As férias com vovó eram longas, quase três meses por ano e recheadas de muitas brincadeiras, jogos, teatrinhos e piqueniques no quintal. E, antes de dormir, o melhor de tudo, ela nos brindava com muitas lendas e contos de fadas. O Barba Azul foi, sem dúvidas, uma das histórias mais marcantes. Que pavor aquele sangue na chave, por mais que a mulher a lavasse, o sangue nunca saía!  A sopa de pedra, A escada de vidro… e tantas outras histórias que nos faziam sonhar acordadas.

Vovó tinha que contar e recontar todas as histórias, e, quando não sabia mais o que narrar, inventava. Ouvíamos cada história com muita atenção e curiosidade. Havia reis, princesas, bruxas, crianças, madrastas, anões, castelos e casebres. Alegrias, tristezas, surpresas, medo e espanto permeavam nossa imaginação. Assim foram meus primeiros anos da infância, repletos de histórias orais que me encantaram profundamente! 

Além de minha avó Nicinha, meu pai também foi um grande incentivador da literatura, oferecendo a mim e a minha irmã diversos livros, passeios a livrarias e a bibliotecas, universos que desvendávamos juntos. Na escola, os mestres nos incentivavam a escrever e a ler continuamente, lá tive a oportunidade de conhecer alguns dos autores mais maravilhosos da literatura brasileira e que me marcaram profundamente, como Maria José Dupré e a coleção do aventureiro cachorrinho Samba, os clássicos de José Mauro de Vasconcelos (Zezé, o menino sofrido que tinha por amiga o pé de laranja-lima – Meu pé de laranja lima) Monteiro Lobato e suas maravilhosas histórias fantásticas do Sitio do Pica-Pau Amarelo com todos os personagens incríveis; José Lins do Rego e suas histórias de engenho; João Carlos Marinho com seu clássico O gênio do crime, dentre tantos outros.

Tive uma infância rica em experiências literárias, as quais me fizeram uma pessoa apaixonada pela literatura. Escrevo desde adolescente, registrando minhas impressões da vida, as poesias encontradas no dia a dia, mas ao tornar-me mãe, nasceu também a vontade de escrever para as crianças, para através das minhas histórias, encantá-las, fazê-las sonhar, rir, chorar… e terem suas vidas transformadas assim como foi a minha vida. 

Hoje, carrego o desejo que todas as crianças vivam grandes experiências literárias e possam descobrir nas páginas dos livros, o universo mais lindo que existe – da imaginação!

“Quando sairem da escola e esquecerem datas e nomes, poderão lembrar da essência dessas conversas de vida tecidas entre linhas, quando seu professor pegava um livro de contos e dividia com eles a emoção de uma história, sem pedir-lhes nada em troca. Porque, no fundo, os livros são isso: conversações de vida. E sobre a vida, sim, é urgente aprender a conversar.  (Yolanda Reyes – A Substância Oculta dos Contos, texto adaptado de conferência para professores em Bogotá, 2004, para a revista Emília, 2017. Link: https://revistaemilia.com.br/a-substancia-oculta-dos-contos/)

patricia

Foto Patrícia Montês*Patrícia Montês, Artista Plástica e Escritora nasceu no Rio de Janeiro, em 1970, e desde pequena gostava de desenhar e pintar. 

Iniciou os primeiros estudos de artes na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, estudando desenho, pintura e história da arte, e compreendeu que era com arte que ela queria trabalhar. Após concluir os estudos na EAV, mudou-se para São Paulo, onde formou-se bacharel em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes. Também cursou gravura no Museu Lasar Segall e teatro na Escola de Teatro Macunaíma. Trabalhou com projetos de arte-educação para o Museu de Arte Contemporânea de SP e para o Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. Como artista plástica, participou de algumas exposições individuais e coletivas e ganhou prêmios no Salão de Inverno de Visconde de Mauá e no 2º Salão de Artes de Teresópolis. 

Mas foi na literatura infantojuvenil que encontrou sua melhor forma de expressão. Em 1992, inspirada pela maternidade, começou a escrever seus primeiros trabalhos infantis. Ao longo do tempo, aprimorou os textos e  começou a publicá-los. Seu primeiro livro – Felipo, o gato violinista – em junho de 2019, e o segundo, O Segredo da Árvore, em dezembro, saíram ambos pela Editora Tigrito. Em outubro de 2020, lançou seu primeiro e-book – Sete Historietas Fantásticas sobre o Amor –, do qual realizou toda a produção editorial.

Um novo livro está sendo preparado para lançamento em março de 2021, O cozinheiro e a estrela, também pela Tigrito; além de outros trabalhos sendo apreciados por editoras internacionais. Em breve, novos lançamentos. Acompanhe as novidades pelo site da escritora e redes sociais:

www.patriciamontes.com.br

https://www.facebook.com.br/patriciamontesescritora

Instagram: @escritorapatriciamontes             

 

2 de Outubro de 2020

A chave do mundo

Posted in Ler faz crescer às 15:40 por sidneif

Por LUCIENE CARVALHO*

wiertz-1971dig-l

” La liseuse de romans” (1853), de Antoine Wiertz (1806-1865)

Meu grande momento como leitora deu-se de uma forma simples e definitiva: um dia, pra cumprir deveres escolares – com 14 anos –, li Machado de Assis e foi complexa aquela linguagem, de repente… aquele universo entrou em mim.

Eu queria ler mais, eu queria mais daquilo.

Machado ‘entrou em mim’ e girou a chave do mundo.

Luciene

*Luciene Carvalho, mato-grossense, escritora, poeta, declamadora. Autora de Conta-gotas; Sumo da lascívia; Aquelarre ou o livro de Madalena; Porto; Cururu e Siriri do Rio Abaixo (Instituto Usina); Caderno de caligrafia (Cathedral); Teia (Teia 33); Devaneios poéticos: coletânea (EdUFMT); Insânia (Entrelinhas) e Ladra de flores (Carlini & Caniato). Estas obras conquistaram prêmios e condecorações. Ocupa a cadeira n. 31 da Academia Mato-grossense de Letras

16 de Setembro de 2020

Comer e beber livros

Posted in Ler faz crescer às 17:45 por sidneif

Por REGINA DRUMMOND*

*Regina Drummond é  mineira, autora de mais de 130 livros, entre eles Morte na Neve (Editora Duna Dueto, no Brasil) e Mord im Schnee em alemão, edição bilingue da Editora GiraBrasil. Seus trabalhos já receberam vários prêmios e destaques, entre eles, quatro selos “Acervo Básico” e um “Altamente Recomendável”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, como autora, e o “Prêmio Jabuti”, da Câmara Brasileira do Livro, como editora. Atualmente mora em Munique, Alemanha. –

www.reginadrummond.com

11 de Setembro de 2020

Minhas estórias com os livros e as suas extensões 

Posted in Ler faz crescer às 17:16 por sidneif

Por MORGANA POIESIS*

3E02882

“Femme lisant” (1921) de Félix Vallotton (1865-1925)

PARTE I

O teatro foi o meu primeiro amor. Comecei aos 10 anos, na escola, quando fazia a 5ª série do Ensino Fundamental. Eu era extremamente tímida, mas, quando subi ao palco, algo em mim se revelou, então segui montando peças teatrais para os trabalhos escolares. Durante a faculdade, fui atriz de uma companhia profissional, ensaiava  diariamente, à noite, conciliando com as aulas, o trabalho e os serviços domésticos (as quatro jornadas dos meus vinte anos), chegando  a dar oficinas para as crianças de um acampamento rural, aos domingos. Os livros sobre teatro foram os primeiros da minha biblioteca, comprados com uma bolsa de pesquisa, em conjunto com outros colegas, durante uma promoção. Lia o teatro político do brasileiro Augusto Boal e do alemão Bertold Brecht. Minha paixão foi pelo delírio poético de Antonin Artaud, dramaturgo francês, o enlouquecido pela sociedade, em sua crítica ao logocentrismo e à representação na vida e na arte. Eu já estava na transição entre o teatro e a performance artística, o que foi um caminho sem volta. Até hoje me perguntam pelo teatro, o primeiro amor é, mesmo, inesquecível. 

PARTE II

Na minha casa faltaram algumas coisas, como música, diálogo, respeito. Mas nunca nos faltaram os livros. Mesmo que meu pai e minha mãe não tivessem formação superior (minha geração foi a primeira da árvore genealógica a conquistar esse privilégio), havia uma boa biblioteca e o autodidatismo. Também sempre tive o hábito de frequentar as bibliotecas públicas. Os livros infantis ficavam dentro de um baú, no andar de cima do sobrado onde vivíamos. É uma memória muito viva da minha infância, o mundo que encontrava dentro do baú: O livro dos porquês, as bruxinhas Pretinha e Branquinha¹, os macacos que viviam cada um na sua ilha… Quando criança, tive amigos como O pequeno príncipe (Antoine de Saint-Exupéry), O menino do dedo verde (Maurice Druon). Li boa parte das aventuras infantojuvenis da série Vagalume, adotada pela escola, até encontrar Clarissa, de Érico Veríssimo, quando tinha a idade dela. Logo depois conheci O mundo de Sofia (Jostein Gaarder), minha primeira viagem filosófica. No ensino médio, nas aulas de literatura brasileira, havia trabalhos em que cada grupo lia e apresentava um livro para a turma. Foi quando uma colega percebeu que eu havia lido os livros de todos os grupos. Sempre fui uma leitora inveterada. Agora, reencontro, através do cinema nacional, O meu pé de laranja lima (José Mauro de Vasconcelos), romance que também marcou o meu imaginário. Zezé é um menino poeta que conversa com uma árvore e, de tão precoce, parece já ter alcançado a idade da razão. Desejo, profundamente, uma sociedade onde as crianças sejam escutadas em seus desejos e sensibilidades. 

MORGANA

*Morgana Poiesis é poetisa, atriz-dançarina, performer, jornalista e produtora cultural. Graduada em Comunicação Social, especialista em Comunicação e Política (UESB), mestra em Artes Cênicas (UFBA) e doutora em Performances Culturais (UFG). Colaborou com os jornais O Planalto, Folha Solta e o O meio, com o programa de rádio Minutos de Poesia, com a revista de literatura Organismo e com o portal Cronopios. Desde 2015, produz livros-objetos artesanais com poesias, contos, manifestos e cartas, participando de exposições e saraus em feiras de publicações independentes, no Brasil. É idealizadora, roteirista, produtora e locutora do programa de rádio Maria Bonita: mulheres na literatura brasileira, transmitido diariamente na rádio educativa UESB 97.5 fm e 106.1 fm. É integrante do grupo Mulherio das Letras da Bahia, com publicação nas coletâneas Tabuleiro de Poesia e Mulherio das Letras Portugal: poesia, prosa e conto. Baiana, atualmente mora em Vitória da Conquista-BA.

http://morganapoiesis.blogspot.com/

¹Pretinha e Branquinha são duas personagens dos livros Pretinha e Branquinha (1984) e O voo de Pretinha e Branquinha (1988), de autoria de Lucia Pimentel Góes.

Página seguinte