6 de Setembro de 2018

Sobre a leitura

Posted in Ler faz crescer às 16:38 por sidneif

Por KATIA GERLACH*

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“Duas meninas lendo” (1934), de Pablo Picasso (1881-1973)

Antes do alfabeto, os gestos, os olhares, as almas, os céus, os mares. Antes das páginas, as sensações do corpo, os batimentos, os passos, os contornos. Antes dos livros, as ideias, as emoções, as digressões.

De modo consciente ou não, não paramos de ler. Acordamos e, com alguma memória, lemos as nossas noites passadas. Não há nada mais encantador do que ler os olhos de alguém, estabelecer um laço ótico que se traduza na possibilidade de páginas e páginas escritas. Ou o mistério da leitura da palma da mão, as linhas do destino assimilando os desenhos da vida. Portanto, a experiência da leitura é intuitiva, orgânica, humana, força criadora, inevitável.

Aprendi a ler através da letra “v” aos quatro anos. Senti pressa em ler. Era urgente perder aquela espécie de cegueira. Quis decifrar as letras para que o mundo não me enganasse, para que eu pudesse checar nas enciclopédias aveludadas os fatos.

A Nazaré cuidava de mim naquela época. Foi a minha terceira avó, levava o pó de café usado para casa a fim de tostá-lo de novo no forno, concertava bonecas e vestia-as como ninguém, às vezes enlouquecia e desaparecia para voltar ao mesmo lugar dias depois.

Lembro das mãos da Nazaré, as unhas pintadas cor de rosa, impressão digital nos documentos de identidade e a inutilidade dos dez dedos que teriam em segurar um livro, folhear páginas. Naná morreu analfabeta, com os bolsos cheios de bilhetes com números de ônibus, e eu continuo a ler por nós, para que possamos aproximar os nossos universos.

 

*Katia Gerlach, escritora. Natural do Rio de Janeiro e radicada em Nova York, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law, e professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas. Corpo docente da Universidad Desconocida do Brooklyn sob a reitoria de Enrique Villa-Matas. Participação no Disquiet International Program em Lisboa através de estipêndio pela Fundação Luso-Americana, FLAD. Agraciada pelo programa da New York Foundation for the Arts, Artes Literárias.  Publica no Jornal Rascunho e na Revista Cenas (Centro Cultural Raimundo Carrero).  Colunista da Philos – Revista de Literatura da União Latina. Autora de “Jogos (Ben)ditos e Folias (Mal)ditas” (Editora Oito e Meio, 2017), “Colisões Bestiais (Particula)res” (Editoria Oito e Meio, 2015), “Forasteiros” (Dulcineia Catadora, 2013), “Forrageiras de Jade” (Dulcineia Catadora, 2009).

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Bons livros, a gente escala

Posted in Ler faz crescer às 16:36 por sidneif

Por CARLA BESSA*

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“La liseuse” (Ca 1880-1890), de Jean-Jacques Henner (1829 -1905)

Há uma passagem em O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, na qual o protagonista diz: “O que realmente me impressiona é um livro que, quando você acaba de lê-lo, você deseja que o autor que o escreveu fosse um amigo incrível seu e que você pudesse ligar pra ele quando sentisse vontade. Isso não acontece muito, no entanto.”

De fato, para mim, gerar essa intimidade e cumplicidade com um bom livro é como encontrar um amigo de verdade, alguém com quem se pode dividir o silêncio sem medo, com quem se pode estar junto e ao mesmo tempo só. “Não acontece muito, no entanto.”

E, assim como ocorre com amigos, há livros que você reconhece de cara, a simpatia é imediata e vocês já vão saindo de mãos dadas. Caminham juntos por um tempo, voltando a certas frases e espreitando as entrelinhas com a voracidade do reconhecimento. Depois, e quase sem que se perceba, cada um segue seu rumo e quando vocês se dão conta, já se perderam de vista. Mas pode muito bem acontecer de se reencontrarem anos mais tarde e retomarem o fio daquela meada que ficou pela estrada. Então, o livro já não é só o texto escrito ali, mas um verdadeiro diálogo com o tempo, e isso tem a força de uma epifania. Mas “não acontece muito, no entanto”

Atualmente, dois desses “amigos” vêm me acompanhando pelos meus descaminhos, carrego-os para cima e para baixo, na maior parte do tempo nem conversamos, mas sei que estão ali e o seu silêncio me ampara e me guia. São eles: Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato e Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues. A linguagem desses dois autores foi para mim um susto e um encantamento, me pegou em cheio, me incomodou, me desnorteou. (O mesmo ocorreu com Guimarães Rosa).

Gosto de livros que são como terrenos pedregosos ou montanhas altas, são difíceis de escalar, mas quando se chega finalmente lá em cima, a vista é mais vasta. Gosto de leituras que não entendo de cara como simpatizo com pessoas complicadas e malcomportadas. Porque me levam a repensar o que se tornou óbvio, a trocar de perspectiva, a questionar a norma. Acho que é isso que procuro nos livros. “Não acontece muito, no entanto.”

*Carla Bessa , Tradutora literária e escritoraEstudou teatro no Rio de Janeiro. Em 1991 emigrou para a Alemanha onde trabalhou por 15 anos em teatros alemães, austríacos e suíços como atriz e diretora. Atualmente, vive entre o Rio e Berlim e é tradutora literária e escritora. Seu primeiro livro de contos, “Aí eu fiquei sem esse filho”, foi publicado em 2017 pela editora Oito e meio, do Rio de Janeiro. Além disso, tem contos publicados em vários blogs literários e revistas online como a Revista Lavoura, Revista Gueto e Revista LiteraLivre. Como resenhista, colabora regularmente com o Jornal Rascunho.

O que a memória ama fica eterno

Posted in Ler faz crescer às 16:31 por sidneif

Por ALESSANDRA BARCELAR*

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“Beatrice” (1896), de Marie Spartali Stillman ( 1844–1927)

Geralmente, quando a pergunta é sobre livros marcantes em minha vida, costumo evocar a mais antiga memória ou o que tenho dela.

O Inicio é algo gravado e começa, acredito eu, com 7 ou 8 anos, quando descobri Coração de Vidro, de José Mauro de  Vasconcelos, não que antes nunca havia visto uma fábula ou história, mas o mergulho, a viagem e a inquietação, com certeza, aconteceram com esse livro.

Não sei ao certo se isso ocorreu por o ambiente ser narrado em uma fazenda ou pela realidade crua. Mas o tom melancólico dos contos me inquietaram, foi a primeira vez que chorei, ali percebi qual era realmente a função da leitura, através da percepção da natureza humana.  Lembrei-me de um amigo que citou uma frase de Rubem Alves ao falar desse livro: “ Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno”.

Outro livro que me marcou profundamente, até pela precoce leitura, foi  Exodus, de Leon Uris, digo precoce porque ele me chegou quando ainda era muito jovem, 13 ou 14 anos. É um livro de quase 900 páginas, na época que li eram divididos em 3 volumes, porém não recordo editora. A importância de Exodus para mim foi por ser meu primeiro livro histórico.  O  livro conta a formação do Estado de Israel, e a capacidade de Uris contar histórias fez da obra algo inesquecível para mim. Foi através desse livro que comecei entender a necessidade de recorrer a outros recursos para compreender uma história e me localizar no tempo e espaço da narrativa. E, de modo consequente, o livro foi o “embrião” para a escolha acadêmica anos depois.

Claro que depois disso, vieram muitos, vários outros livros excelentes, necessários, importantes, já que procuro estar sempre envolvida em trabalhos com leituras, mas esses dois realmente foram um marco, o primeiro pela descoberta do poder da leitura e o segundo pela identidade.

11160672_1079890318693756_2536729381978102914_n*Alessandra Barcelar é Historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, e atua na área de Gestão Hospitalar e Economia da Saúde. Publicou em algumas revistas literárias do Brasil e Portugal . Colaborou com a “Antologia Mitos Modernos I”, a qual foi premiada com o Prêmio Le Blanc de Arte Sequencial, Animação e Literatura Fantástica , livro esse com previsão de lançamento em 2018. 

24 de Agosto de 2018

Cheiro de gente

Posted in Sem categoria às 15:44 por sidneif

Por NEYD MONTINGELLI*

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“Kizette em rosa” (1927), de Tamara de Lempicka (1898-1980)

Na época dos meus 9, 10 anos, minha mãe alugava uma casa na praia para as nossas férias. Claro, férias de julho, pois o dinheiro era curto. Era um frio danado, mas eu e meus irmãos não nos importávamos. Estar na praia era a glória! Pela manhã íamos passear na areia e, apesar do tempo feio, entrávamos na água. Com os lábios roxos e tremendo de frio, disputávamos a única toalha e corríamos para casa. Nova disputa pelo chuveiro quente e então um almoço bem gostoso de um prato só, pois na casa só tinha fogão à lenha e, para facilitar, minha mãe levava um minifogão a gás de uma boca. Na mesma panela, ela cozinhava arroz, legumes e a carne. Era uma delícia.

Depois de lavar a louça, chegava a melhor parte da praia: deitar na cama de casal e ler revistas, gibis e livros com a minha mãe! Isso sim eram boas férias!

Meu irmão desaparecia, pois não queria saber de ler nada, preferia brincar com os meninos da rua. A irmã era pequena e sempre dormia.

Na semana da viagem, minha mãe juntava o pouco dinheiro que tinha e a ia até um sebo comprar nossa leitura de praia. Gibis, revistas Mistério Magazine de Ellery Queen e livros da Aghata Christie. Todos bem velhos, surrados e com cheiro de gente.

Em silêncio, as duas deitadas embaixo das cobertas, líamos um pouco da cada. Eu devorava os gibis, depois passava para as revistas com contos policiais e livros. Quando estava lendo algum conto que minha mãe já havia lido, ela fazia perguntas sobre a trama. Eu adorava aquilo.

Depois das férias, eu queria continuar a ler aqueles livros e revistas, mas tinha que estudar. Muitas vezes minha mãe me apanhava lendo escondido, tarde da noite. Era a mesma frase: “Largue esse livro e vai dormir.” Era difícil para mim.

Virou um vício.

Agora ficou pior. Além de ler, passei a escrever também. Já publiquei 28 livros solo e participo em mais de 140 antologias, coletâneas e e-books.

A minha vida literária é assim: leio o que outros escrevem e escrevo para outros lerem.”

*Neyd Montingelli, escritora. Tem 18 livros publicados e participa em várias antologias. Foi premiada em vários concursos literários de contos, crônicas e poesias. Membro da Academia de Luminescência Brasileira/Araraquara, do Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires e da Embaixada da Poesia. Recebeu troféu Cecília Meireles; Medalha Melhores Poetas da Magico de Oz, o certificado de Responsabilidade Cultural Semeador de Livros e Amigos da Juruá Editora e o Certificado de Responsabilidade Cultural do Instituto Memória Piá Bom de História.

Ler para melhorar o mundo

Posted in Sem categoria às 15:40 por sidneif

Por CLARA ARREGUY*

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“Girl Reading” (1909), de Edmund Charles Tarbell (1862–1938)

A literatura entrou na minha vida desde que aprendi a ler. Leio e escrevo, portanto, há mais de 50 anos, e são duas das atividades que mais amo fazer. Em minha casa tive boas influências e acesso a livros da biblioteca do meu pai. As Mil e uma Noites, Tarzan, Karl May, revista Mistério Magazine de Ellery Quinn, coleção O Mundo da Criança, Machado de Assis e a coleção de contos de várias nacionalidades, entre tantos, foram algumas das leituras formadoras que conheci em casa, desde pequena.

Quando tive que me decidir por uma profissão, escolhi o jornalismo porque me permitiria escrever, mas acabei podendo também ler muito mais. Fui repórter e editora de cultura, crítica de teatro, resenhista de livros durante muitos anos. Assim, lendo e escrevendo, ganhei a vida, até me tornar escritora e editora e me profissionalizar também entre os livros.

Não tive filhos. Tenho livros. Os escritos por mim e os da minha paixão, que moram na minha biblioteca em casa. Cuido deles como se fossem filhos. Por meio deles, me perpetuarei no mundo, contando pras outras pessoas as minhas histórias.

Ler nos faz melhores pessoas, mais inteligentes e imaginativas. Mais capazes, portanto, de encontrar soluções para os problemas, porque habituadas a pensar, a malhar o cérebro. Mas ler nos ensina, sobretudo, a nos colocar no lugar do outro. Ser empáticos com o outro, com a dor do outro, a realidade do outro. Por isso ler nos faz seres melhores e mais aptos a mudar o mundo — para melhor.

*Clara Arreguy, jornalista, escritora, mineira de Belo Horizonte radicada em Brasília desde 2004. Tem 19 títulos publicados. Atualmente dirige a editora que criou, a Outubro Edições, que já lançou 41 livros, entre os de sua autoria e os de outros escritores.

17 de Agosto de 2018

A importância da leitura

Posted in Sem categoria às 17:23 por sidneif

Por ELIANA MARTINS*

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“Nature morte aux livres et à la rose” (1887), de Vicent vanGogh (1853-1890)

Sou de uma época em que não havia internet, redes sociais, jogos eletrônicos ou qualquer espécie de tecnologia. As crianças tinham duas opções de distração: brincar e ler.

Dessa forma, passei minha infância entre minha casa e o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Brincando com meus amigos da rua em que eu morava, e com a Emília,  a Narizinho, o Pedrinho e todos os habitantes dos livros do Monteiro Lobato.

Também li livros do Thales de Andrade, e me encantei com o Saudade. E os do Francisco Marins, da Coleção Taquara-Póca.

Meus pais eram ávidos leitores. Presenteavam-se com livros. Como herdei a biblioteca deles, tenho até hoje livros que meu pai dedicou à minha mãe, e vice-versa.

Vendo-os ler e ouvindo as histórias que me contavam, fui amando cada vez mais os livros.

Chegando à adolescência, a leitura já estava entranhada em mim; era necessária como comer, beber e dormir.

Nessa fase, li todos os romances do José de Alencar, do Machado de Assis, Lima Barreto, Eça de Queiroz, Maria José Dupret, José Mauro de Vasconcelos. Entre eles, posso citar: O Moço Loiro, Iracema, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Éramos Seis, Meu Pé de Laranja Lima e mais uma dezena de maravilhas literárias.

Já adulta, me tornei escritora. Certamente, o hábito da leitura me ajudou demais a compor meus personagens, a estruturar as histórias e encontrar o meu estilo.

Então descobri o José Lins do Rego, o Humberto Ecco, o Thomas Mann, o Mário de Andrade, o Carlos Drummond de Andrade, a Florbela Espanca, o Fernando Pessoa e outros tantos, que não daria para enumerar.

E fui me desenvolvendo literariamente, nunca abandonando os clássicos, mas conhecendo os contemporâneos como o Milton Hatoum, o Érico Veríssimo, a Zélia Gatai, o Jorge Amado, a Raquel de Queiroz. Dando também atenção aos escritores para crianças e jovens, meus colegas.

Que aventuras maravilhosas podem ser vividas dentro dos livros!

Esse é o mundo em que sempre vivi e pretendo continuar vivendo. Venha também viver nele! Mergulhe nos livros e descubra as delícias de viajar sem sair de casa.

 

*Eliana Martins, escritora e roteirista

Como me tornei uma leitora

Posted in Ler faz crescer às 17:13 por sidneif

Por DIVANIZE CARBONIERI*

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“A leitora”, de Armin Glatter (1861-1916)

O processo de me tornar uma leitora foi longo, mas parece que nada poderia impedi-lo. Encontrava-se ali em gérmen desde o início e foi se desenvolvendo conforme fui crescendo. Quando eu ainda não estava na escola, ficava um período do dia na casa da minha avó. Na casa dela, tinha um quintal enorme com um quartinho ou barracão nos fundos. E lá dentro estava guardada uma infinidade de livros que tinham sido dos meus tios. Eu ficava folheando e imaginando, porque ler mesmo não sabia. Mapas, desenhos de navios, fotos iam me fazendo admirar cada vez mais os livros e desejar conhecer o seu conteúdo. Identifico que esse foi o começo do meu fascínio, que dura até hoje.

Depois eu entrei na escola e aprendi a ler. Minhas irmãs iam até a biblioteca municipal buscar livros para elas e traziam para mim também. Toda semana praticamente chegava um livro diferente, e ainda me lembro de alguns títulos: Rosinha, minha canoa (José Mauro de Vasconcelos), O menino do dedo verde (Maurice Druon), Memórias de um cabo de vassoura (Orígenes Lessa), As letras falantes (Orígenes Lessa), entre outros. Isso durou vários anos. Lia ainda muitos gibis que eu comprava na banca da praça onde tomava ônibus para voltar para casa depois da escola. O dono da banca às vezes deixava eu ficar devendo para pagar no outro dia. Acho que todo dia eu comprava um. Eram principalmente histórias da Turma da Mônica, do Maurício de Sousa, que tiveram o mérito de tornar minha leitura cada vez mais rápida.

Com uns 10 anos, eu já andava de ônibus sozinha e podia ir quando quisesse à biblioteca no centro da minha cidade. Era possível entrar no acervo, que ficava dentro do que parecia um cofre. Na verdade, era um recinto com uma porta-forte. Eu andava pelos corredores cheios de prateleiras e escolhia os livros a esmo. Um por semana, mais ou menos. Depois ficava surpresa porque o novo sempre tinha a ver com o anterior. Lia coisa apropriada pra minha idade e coisa que não era. Ninguém censurava o que eu lia.

Na escola, a gente também lia muito. Acho que eram quatro livros de literatura por semestre, normalmente de autores canônicos, como Monteiro Lobato, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis. A gente lia e fazia prova sobre os livros. Alguns colegas não gostavam, mas eu sempre gostei. Aliás, até hoje eu gosto de ler esses romances oitocentistas: é como entrar numa realidade virtual, num filme de época. Também tinha que escrever uma redação por semana. Isso tudo antes dos catorze anos.

Na minha adolescência, alguns livros não eram recomendados pela escola, mas se tornaram uma febre: Eu, Cristiane F., 13 anos, drogada, prostituída (Kai Hermann; Horst Rieck), Feliz ano velho (Marcelo Rubens Paiva), As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley). Li todos eles e muito mais coisa. Nessa época, desenvolvi um grande interesse pelos romances e autobiografias que tratavam das experiências de seus autores durante a ditadura militar, como O que é isso, companheiro? de Fernando Gabeira e Metade arrancada de mim de Izaías Almada. Além da literatura, história, sociologia e filosofia foram se tornando assuntos cada vez mais recorrentes nos livros que emprestava da biblioteca. Ao final da adolescência, eu já era uma leitora competente, e meu amor pelos livros, com o tempo, acabou se transformando em profissão, já que hoje sou professora de literatura numa universidade federal e escritora.

 

*Divanize Carbonieri, doutora em letras pela Universidade de São Paulo, atuando como professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Federal de Mato Grosso. É autora de “Entraves” (2017), agraciado com o 2o Prêmio Mato Grosso de Literatura na categoria Poesia, e de “Grande depósito de bugigangas” (2018), selecionado pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá. Foi finalista do Prêmio Off Flip 2018 – Poesia e selecionada para integrar a antologia “Um girassol nos teus cabelos” (2018), organizada pelo Mulherio das Letras em homenagem a Marielle Franco. Participa também de outras diversas coletâneas.

Ao Bósforo…

Posted in Ler faz crescer às 17:05 por sidneif

Por ANA CRISTINA DE AGUIAR*

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“The Bosphorus with the Two Forts, Fumble Hisan and Anadolu Hisan” (1855), de Count Amadeo Preziosi (1816-1882)

Há um tempo que o Médio Oriente me fascina, mais precisamente, desde que comecei a ler sobre a escrita corânica, que é tida pelos islâmicos/muçulmanos como via de comunicação direta com Deus e cujo encanto das formas e arabescos visa simbolizar esta relação com o sagrado. A suprema beleza contida e expressa nos caligramas, textos poéticos escritos em forma de ornamento, por mãos hábeis e delicadas, muitas vezes com tintas de ouro ou misturas secretas, revelam a grandeza de uma cultura que, infelizmente, muito se desgastou com o tempo, com as guerras, com as inúteis e desumanas querelas étnicas…
Também no livro O segredo do calígrafo (de Rafik Schami, ambientado na Damasco dos anos 1950), encontrei belíssimos relatos sobre essa arte da caligrafia, tão desconhecida de nós, ocidentais afobados e utilitaristas, enlouquecidos para que tudo tenha uma finalidade prática e rápida; tristemente negligentes com a sacralidade da arte pela arte, da beleza pela beleza, do detalhismo e do culto à ornamentação como forma de reverência ao divino, entendido a critério do freguês.
E meu amor por essas artes estendeu-se para as plagas orientais e desembocou na mítica Istambul (antiga Constantinopla, capital do Império Otomano), quando, em 2009, li o livro de mesmo nome, de Orhan Pamuk. A Turquia é um país laico, apesar de a maioria da população ser muçulmana, e tem localização geográfica particular – situa-se entre dois continentes – contando com duas capitais, a política, Ancara, e a histórica, Istambul.
Para o meu arrebatamento definitivo, contribuiu o filme O Tempero da Vida (de Tassos Boulmetis, 2003), que só pode ser degustado assistindo-se; nenhuma descrição daria conta do cheiro das especiarias, do burburinho das ruas e da singela relação de amor que nasce entre um homem e uma mulher ainda na infância, brincando entre montes de temperos e especiarias num empório tipicamente regional.
Gostaria muito de contemplar o Bósforo, por onde circulam os barcos e a fumaça que expelem, tão apreciados por Pamuk. Em suas palavras, “quando a balsa e o vento mudam ligeiramente de posição, a fumaça que sai da chaminé começa a contorcer-se e descrever curvas acima do Bósforo, lembrando a escrita árabe.” Quisera poder flanar pelas ruelas pitorescas e entrar em lojinhas, armarinhos, ateliês e o que mais houver para me inebriar com a cultura de ouro que ainda sobrevive por lá, mesmo com as agruras do velho tempo.
Gostaria muito, enfim, de ver o Bósforo assim, como o relata Pamuk, referindo-se à sua infância na cidade:
“[…] Em pouco tempo, lancei-me em novas e ousadas experiências. Toda manhã, depois que meu primo saía de casa para o liceu alemão, eu abria um dos seus livros imensos, grossos, lindos (era uma edição Brockhaus, acho) e, sentado a uma mesa, copiava as suas linhas. Como eu não sabia alemão, e nem mesmo ler, fazia aquilo sem nenhuma compreensão, desenhando, por assim dizer, a prosa que via à minha frente. Desenhava uma cópia exata de cada linha e de cada frase. Depois que terminava uma palavra que contivesse uma das letras góticas mais difíceis (um g ou um k), fazia o mesmo que os miniaturistas sefévidas depois de desenharem uma a uma os milhares de folhas de um plátano imenso: descansava os meus olhos contemplando os espaços entre os edifícios, os terrenos baldios e as ruas que desciam na direção do mar, e seguindo os barcos que passavam pelo Bósforo nas duas direções.”

 

*Ana Cristina de Aguiar, formada em Linguística, com Mestrado e Doutorado pela Unicamp. O doutoramento, em linhas muito gerais, é sobre a aquisição do sistema de pontuação na escrita da criança e seus imponderáveis, seus imprevistos, sua razão própria. “Também refleti um pouco sobre o estilo de alguns escritores, cuja pontuação subverte o canônico, e passeei pela escrita de línguas não-ocidentais, nas quais a pontuação tem valor diacrítico. Um patchwork que, ao final, ficou bonito!”

“Minha história com as palavras vem de muito cedo, sempre gostei de ler e de me transportar para os enredos que estavam nas páginas em minhas mãos. Cheguei a passar em Direito, numa excelente universidade, mas quando saiu a lista dos aprovados em Letras e Linguística, fui sugada. Atualmente percebo que o Direito também teria sido uma opção interessante para mim, e ele não invalidaria um trajeto de leitura e escrita, porém estar num universo voltado especificamente às palavras e frases e textos acabou se impondo. Sou escritora e poeta amadora e minha primeira publicação aconteceu este ano, com um poema na coletânea “Damas entre Verdes”, do selo e coletivo Senhoras Obscenas. Também me dedico à tradução de poesia norueguesa (visando me exercitar para futuramente oferecer algo para publicação). Colaborei, brevemente, com a página Um poema nórdico ao dia. Atualmente, estou mergulhada na tradução de um livro do norueguês para o português. Já fiz traduções do inglês e alguma coisa do francês. Meu amor é a palavra, publicada ou não, em português ou não, compreensível ou não (sou capaz de me encantar com palavras de línguas estrangeiras só pela sonoridade, pela morfologia que eu tento destrinchar, pela semântica que busco decifrar…). E eu acredito piamente no poder civilizador e engrandecedor da leitura.”

10 de Agosto de 2018

Expansão e implosões

Posted in Ler faz crescer às 17:01 por sidneif

Por CRISTINA JUDAR*

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“Open Air Concert” (1890), de Lilla Cabot Perry (1848–1933)

Mais do que crescimento, a leitura/literatura gera expansão e implosões. Depois de certos trechos, com os quais você toma contato com o pensamento do escritor, você continua a mesma, mas às vezes sem se reconhecer naquilo que era antes. Você pode viver ritos de passagem de natureza secular entre um parágrafo e outro. É como se em você não houvesse mais espaço pra aquilo que não cabe após certas iluminações.

Um marco, da minha infância pra adolescência, foi a personagem Jo, de Louisa May Alcott, em seu romance Little Women (Mulherzinhas), numa edição embolorada da coleção de livros do meu pai. Esse livro me ensinou muito sobre as possibilidades do masculino que havia no feminino, o que foi algo de importância fundamental e, arrisco dizer, é até hoje. Aquela passagem crítica, em que ela corta e vende seu cabelo longo por causa de uma necessidade financeira da família, também representou, simbolicamente, um mundo de necessidades interiores e latentes da personagem que, desde o início, já trazia em si várias inquietações em relação a aquilo que ao “ser mulher” estava reservado no contexto histórico e social da época em que se passa a narrativa. (Assim como suas irmãs, eu habitei aquele sótão de concílios e elaborações, viveiro de almas que ali se aglutinavam intencionalmente para que pudessem viver a liberdade artística).

Jo precisava daquele cabelo cortado, assim como sua família necessitava do dinheiro. Sua dor diante da perda é o luto que vivemos em momentos de mudanças e descobertas radicais. Foi uma morte necessária para que outras vidas viessem. A partir daí, como mulher e escritora, Jo submergiu. E eu estava na sua cola.

Outro livro que me fez expandir do solo ao céu foi On The Road (do beat Jack Kerouac), lá pelos meus 21 anos, emprestado de um amigo da minha irmã que estudava cinema. Não sei se o trecho é exatamente dessa forma, mas foi assim que o memorizei: “se os governos quisessem mesmo que toda a cárie da população mundial fosse eliminada de vez, já haveria a possibilidade de, de forma barata, generalizada e eficaz, ser fabricada uma pasta dental capaz de evitar o surgimento de todos os problemas dentais”. 

Assim como esse, permaneceram na minha mente diversos pensamentos revolucionários da época, que me deslocaram do espaço, até então concedido à literatura, que havia no meu pensamento. On the Road foi fundamental, sem dúvida.

foto_nova*Cristina Judar é escritora e jornalista, autora das HQs “Lina” (Editora Estação Liberdade) “Vermelho, Vivo” (Devir), do livro de contos “Roteiros para uma Vida Curta” (Finalista e Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014) e do romance “Oito do Sete” (contemplado pelo ProAC de Prosa) – ambos publicados pela editora Reformatório. É coautora do livro-arte “Luminescências” e criadora do “Questions For a Live Writing”, projeto de prosa poética desenvolvido na Queen Mary University of London. É uma das editoras da revista de arte e cultura LGBT “Reversa Magazine”, além de integrante do conselho editorial da revista de literatura e artes visuais “Theodora”.

Ler é perigoso

Posted in Ler faz crescer às 16:57 por sidneif

Por MARTHA GOMES*

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“Ophelia / Pause for Thought” (1870), de Pierre Auguste Cot (1837-1883)

Minha infância foi cercada de histórias. Vovó contava seus “causos” de Mato Grosso e do Paraná, lugares onde viveu boa parte da sua vida. Com isso, cresci ouvindo histórias reais, de doer e de sorrir. Algumas pareciam de ficção. Essas eram as de que eu mais gostava. Recitava, também, poemas que eu amava: “quem passou por essa vida em brancas nuvens, (…) quem passou por essa vida e não viveu, foi espectro de homem, e não homem, só passou pela vida, não viveu”. Só fui saber o que era espectro já mocinha, quando comecei a viver entre eles numa depressão que quase me custou a vida. Mas isso já renderia outro texto.

Em casa, lembro-me de uma enciclopédia ilustrada que punha aberta em frente às bonecas. Minha primeira experiência como professora. Chapeuzinho Vermelho e outros contos conheci na escola.

Aprendi a ler cedo, o que me fez pular a primeira série e repetir a segunda. Gostava de escrever, sabia muitas histórias de cor, mas fui reprovada em ciências ao colocar, em uma figura do corpo humano, o fígado no pé. Minha mãe foi chamada à escola para a professora lhe contar o acontecido, o que me rendeu uma bronca de mentirinha e boas risadas até em casa.

Meu pai escrevia “pensamentos”. Vivia com o dicionário embaixo do braço. Minha avó me ensinou a amar histórias, meu pai a respeitar as palavras. Com isso, cresci fazendo poemas que guardava em caixas que perdi em alguma mudança. Meus tios e primos também gostavam de escrever e diziam: – Está no sangue!

O tempo passou e, já adulta, depois de ter meus três filhos, fiz minha faculdade de Letras. Achei que iria deslanchar na escrita, afinal já tinha certa experiência com as palavras e uma bagagem de histórias na cabeça.

Qual não foi minha surpresa ao entrar na faculdade e aprender a enquadrar tudo que vivia solto na minha memória. Travei. Fiquei anos sem escrever. Afinal, como uma profissional da escrita não poderia “errar”. Isso durou muito tempo. Li vários livros enquanto minhas mãos se recusavam a rabiscar uma linha. Apaixonei-me por Machado de Assis. O fascínio pelos clássicos adquiri nas aulas de literatura. Isso fez valer minha faculdade inteira.

Já no final do curso, comecei a frequentar umas rodas de poesias. Na época, os chamados Saraus Literários. Fui percebendo que poderia brincar com as palavras. Que não havia necessidade de tanta rigidez e, aos poucos, fui me lançando novamente no mundo da escrita. Vez ou outra, escrevo umas coisinhas.

Gosto muito de estimular o fomento à leitura literária. Aliás, trabalho com isso. Ler e escrever é direito de todos, como bem escreveu Bartolomeu Campos de Queirós em seu “Manifesto por um Brasil literário”. No mundo da literatura, cada um dá sentido ao que lê.  Deve ser por isso que alguns dizem que ler é perigoso…

 

*Martha Gomes, formada em Letras – Português/Literatura – Universidade Federal Fluminense (UFF), pós-graduada em Leitura e Produção Textual – UFF, pós-graduada em Literatura Infantil e Juvenil – UFF, integrante da Gerência de Leitura e Audiovisual da Prefeitura do Município do Rio de Janeiro, agente de leitura em uma biblioteca escolar do Estado do RJ, parceira do Blog Livros para todas as idades com a coluna “Lendo com Martha Gomes”, participante do GT de cinema da UFF.

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