14 de Novembro de 2018

Minhas leituras

Posted in Ler faz crescer às 15:25 por sidneif

Por VERA IONE MOLINA*

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“O Pobre Poeta” (1839), de Carl Spitzweg (1808-1885)

Comecei a pegar livros por minha conta e risco aos 12 anos, de forma totalmente anárquica. Lembro da casa antiga onde morava e do barulho que meus pés faziam nas tábuas do chão, enquanto me deslocava até as estantes. Minhas avós e minha mãe liam muito e eu ia pegando os livros que elas soltavam. Minha avó materna e minha mãe liam romances e minha avó ia ao cinema todas as noites, não havia televisão na minha infância. Havia quatro cinemas na minha terra, mas dois deles eram os mais frequentados, próximos à praça central, frequentei matinés e, mais tarde, as sessões noturnas.

Na minha cabeça havia muita mistura de cinema com literatura. Primeiro minha avó contava os filmes nas tardes em que passávamos reunidas num círculo formado por ela própria, uma irmã dela (minha tia-avó), minha mãe, eu e minhas primas mais velhas. Guardo cenas inesquecíveis que disputaram espaço com os livros na minha formação.

Nasci em 1953, em Uruguaiana, fronteira com Argentina e Uruguai, zona de Segurança Nacional. Além de não ter televisão, não tinha nem eleições para prefeito depois de 1964. Mas eu não me interessava por política e não sentia falta, embora a casa de meus avós fosse muito frequentada por políticos, conhecidos até nacionalmente. Meu avô participara de revoluções e tinha página dele no livro com capa de couro dos membros do Partido Republicano Castilhista (de Julio de Castilhos).

Para terem uma ideia, fora o Erico Verissimo, que na minha casa era discutido como se convivesse e discutisse seus personagens conosco, fui conhecer literatura sul-rio-grandense nos anos 1980. Vou citar alguns autores bem misturados.

  1. Erico Verissimo;
  2. Honoré de Balzack;
  3. Pearl Buck (lia-se muito essa autora nos anos 50-60);
  4. Jorge Luis Borges. (e outros argentinos como Mujica Lainez, Julio Cortázar…);
  5. Scott Fitzgerald;
  6. Manuel Puig (paixão);
  7. João Cabral de Mello Neto;
  8. Machado de Assis;
  9. Gabriel Garcia Márquez;
  10. Aldyr Schlee;
  11. Adélia Prado;
  12. Mario Benedetti (e outros uruguaios, como Mario Arregui).

Tudo misturado, alguns dos meus escolhidos têm muito valor para mim, talvez não constem em listas de intelectuais e estudiosos de literatura. Leio por fruição e profissão, depois de aposentada do magistério público. No final dos anos 1980, ministrava aula de inglês na escola pública e simultaneamente ministrava oficinas de criação literária em prosa de ficção. Embora leia e escute poesia desde sempre, nunca publiquei um livro de poemas, não me considero uma grande poeta, mas às vezes acerto. Os poemas estão guardados.
Gosto muito de poesia norte-americana, principalmente aqueles textos narrativos do tempo dos beats, black mountains, e gosto também de poemas mais imagéticos. É muito difícil discutir e produzir poesia.

Heminghway, Edgar Allan Poe, Scott Fitzgerald eu viria a conhecer no curso de Letras – Português, Inglês e suas respectivas literaturas. Balzak foi culpa da minha mãe. Por isso gosto de narrativas longas, contões e novelas. Os livrões traziam várias histórias que Paulo Rónai chamava de contos. Mas tinha também romances com vários núcleos de personagens que se cruzavam.

Tenho uma relação mágica com a literatura infantil e infantojuvenil. Só conhecia os clássicos, escutava em discos. Então minha mãe começou a ler para minhas irmãs menores O Sítio do Picapau Amarelo, e eu escutava do meu quarto. Quando comecei a escrever, achei que ia me dedicar somente a esse tipo de literatura, então comecei a ler todos os bons autores da época. Ruth Rocha, Ana Maria Machado, depois Sergio Capparelli, Ligia Bojunga.

Não havia a cultura da literatura do meu estado, Rio Grande do Sul, até eu começar a assistir palestras e entrevistas com escritores e professores sobre os gaúchos. Gosto muito de aprender através do sentido da audição. Então comecei a conhecer Aldyr Schlee, Lya Luft, Sergio Faraco, José Eduardo Degrazia por meio de de palestras e painéis sobre suas obras. Nos anos 1980 havia uma promoção de atividades culturais muito rica em Porto Alegre.

Em 1990 fui fazer mestrado. Fiz todos os créditos e não escrevi a dissertação, assim fiquei com o título de especialista. Cansei daquele mundo acadêmico e fui me dedicar mais à escrita, com prejuízo financeiro, mas com uma escolha da qual nunca me arrependi.

 

*Vera Ione Molina, escritora e crítica literária. Graduada em Letras (Português, Inglês e respectivas literaturas) e pós-graduada em Teoria da Literatura. Publicou livros ( omais recente:  “Catarina Abre um Caminho de Magia”, editora Bestiário, Porto Alegre, 2018), ensaios e artigos em  diversos jornais e revistas e integrou várias antologias de poesia e contos. Finalista em diversos concursos literários ,  venceu o Concurso Estadual de Literatura Infantil Escreve, Professor! CPERS, 1989, RS.

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19 de Outubro de 2018

Meu amor aos livros

Posted in Ler faz crescer às 16:34 por sidneif

Por ELOÍSA ARAGÃO*

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“Hora de leitura” (s/d), de George Goodwin Kilburne (1839-1924)

Hoje é um dia particularmente doloroso, e eu havia recebido o pedido de escrever porque a leitura e os livros são importantes para mim. Desse modo, volto-me às páginas da Vida para contar. O que hoje faz meu dia ser uma noite desassossegada é que uma pessoa querida perdeu alguém que lhe acompanhou por uns anos numa relação vivida a dois. Não sei se é essa a melhor forma que encontro para narrar que esta figura também me foi cara, confesso, com pesar e um traje de luto cultuado um pouco a distância, até mais por uns dissabores do que alegrias. Além disso, pesa-me a força da ressaca que se abateu sobre nós, que amamos a democracia, e temos de fazer um grande esforço para não nos deixarmos tomar pela enfermidade da depressão civil.

Mas é dessa matéria de escândalos e caos que me ergo para contar sobre os livros. Talvez porque a minha lembrança sobre ouvir histórias tenha vindo da infância quando minha mãe lia, a mim e à minha irmã, contos de fadas e histórias de um livro com capa dura, marrom e cujo título era grafado com letras levemente douradas. Tenho-o guardado como a prova de que ele me vale mais do que as fotografias.

Em certo dia, bateu à porta um vendedor de livros. Era tão diferente aquela visita, e boa. Minha mãe  comprou a coleção de contos de fadas, com ilustrações grandes e brilhantes que me fizeram praticamente entrar num universo onírico. Deve ter pagado em prestações. A generosidade se fazia presente, mas não a medida do dinheiro, que nos tinha mau gosto.  O homem vestia-se de modo formal, uma camisa de mangas compridas e usava gravata. Pensei que era alguém como o próprio diretor da escola vindo ao nosso portão sugerir que os livros oferecem alentos para mulheres e crianças.

Havia muitas dificuldades à nossa volta, não somente materiais, mas uma espécie de assombro do que poderia ser o dia seguinte. Então, ali criança e interessada nos sopros cotidianos de novidade, eu assistia a tudo sem ainda me fazer tantas perguntas. Até mesmo porque meu espanto era maior do que a possibilidade de formular alguma resposta. Nesse universo paralelo em que eu me salvava, havia o momento mágico em que a minha mãe abria o livro e lia-nos poemas e histórias curtas, fábulas. Sentia que para ela igualmente o mundo se transformava, sua voz tornava-se mais pausada e melodiosa, como a fazer um ritual solene à entonação do mundo. A mãe ursa brincando com os filhotes, vendo-os  dar cambalhotas.  

De um modo secreto, percebi que os poemas eram como  jujubas. Era preciso ouvir e deixar a sensação se formar na mente para depois se revelar, como o doce que tem o sabor mais definido quando a bala está quase no final. Foi assim que me lembro do quanto me tocaram poemas de Cecília Mereiles, Florbela Espanca e de Manuel Bandeira. Até certo momento — hoje dou risada de como eu idealizava os poetas e escritores, numa idade mais avançada, ainda perto de 12 ou 13 anos, eu piamente acreditava que não fosse possível aos escritores terem uma vida concreta, acorda, toma banho, toma café, vai trabalhar, tem direito a férias.

Em seguida, revejo os conceitos e penso que o certo mesmo é que Clarice, Machado, Eça, Sophia, Virginia, Guimarães Rosa, Pessoa, Cortazar, Borges, Sartre, Simone de Beauvoir  e tantos outros que me deram e darão tantas horas tão felizes — como uma trupe contemporânea que é fantástica — têm todo o direito de viver num mundo à parte, a seu gosto, no melhor estilo que tenho chamado “fez a fama, deita na cama da tapera odara”. (Odara é como eu chamo tudo o que é lindo e alegre. Um dia, num desvario, pedi que quando eu morresse deveriam tocar no meu enterro “Odara”, de Caetano Veloso.)  

Àquela altura da infância, os contos e as fábulas eu os associava à atenção de um dia desejado, a chegada do aniversário, a festa e o momento de partir o bolo. Outra coisa inesquecível é que, desde aquela época, eu sabia que os animais falavam. Fato que foi se comprovando à proporção que cresci. Tenho por eles a maior amizade porque desde sempre conversamos e eu já duvidava de pessoas que não entendessem a linguagem deles. O cachorro, o gato, a lebre, a tartaruga, a águia, o cavalo, o macaco, a festa inteira no céu. E sempre o leão, enjubado e selvagem, lendo os capítulos das estações com seu poder ruivo. Assim, posso comprovar que a arte de ler é também uma arte de entrar na floresta e conversar com os bichos.

Voltando-me às leituras não ficcionais, meu interesse começou nas aulas de História, a disciplina que me explicava a origem de muitas coisas que me intrigavam. E essa pesquisa sobre fatos, agentes e contextos sociais  aumentava à medida que a minha visão de adolescente notava que vivíamos num país muito conservador, cheio de interditos, de um sistema de dominação que eu percebia ao meu redor e intensa e vertiginosamente me incomodavam. Foi por isso que, desde a época da minha graduação, passei numerosas temporadas debruçando-me em livros de História, Sociologia, Teoria Literária e afins e me tornei historiadora.

Não foi por outro motivo que depois da formação universitária, entre outras possibilidades em que teria de investir, abracei o desempenho na área editorial. Finalmente, eu poderia ganhar a vida na realização de um ofício que eu sempre amara: as leituras e o aprendizado. Ali naquele ambiente ordenado do trabalho, quieta e inquieta, eu poderia entrar no universo dos livros — e, ainda, num futuro que se tornou realidade, ver meu nome nos créditos de uma variedade de obras. Quem trabalhou com  impressos por anos sabe o gosto que tem essa conquista, sortida pela textura e pelo cheiro de um livro que acaba de sair da gráfica. Quando é o nosso que chega, então, nem se fala. Até os pulsos palpitam.

É costume da Vida nos colocar em bifurcações, em dúvidas. Mas quanto a essa escolha nunca hesitei: a arte de amor aos livros e às leituras. Ela só me trouxe coisas boas, como a sorte de um dia ter trabalhado com livros para crianças e adolescentes, elaborando catálogos e editando textos. Li tantas obras criativas e outras clássicas, algumas adaptadas, que fizeram minha criança exultar.  A criança que eu fui, muitas vezes insultada por um ambiente hostil, entre impulsos de conflito e de conciliação recebeu colo nas páginas dos livros e ali se aninhou numa ternura inesgotável.

 

*Eloisa Aragão é mestre e doutora em História Social pela USP. É autora de Censura na lei e na marra: como a ditadura quis calar as narrativas sobre suas violências, São Paulo: Humanitas, 2013; Teresa do jardim encantado, São Paulo: Com-Arte, 2012, e de artigos acadêmicos. Tem vários anos de experiência na área editorial, desempenhando trabalhos de edição e elaboração de textos. Mantém a página no Facebook: Sophia de Mello Breyner Andresen – Militância Antifascista < https://www.facebook.com/Sophia-de-Mello-Breyner-Andresen-Milit%C3%A2ncia-Antifascista-182085276004477/?modal=admin_todo_tour >

3 de Outubro de 2018

Oráculos

Posted in Ler faz crescer às 09:45 por sidneif

Por DENISE SCHITTINE* 

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“In the Library” (1923), de John A. Lomax (1857-1923)

Costumo dizer que temos uma família afetiva de escritores. Uma árvore genealógica que acusa nossos gostos de leitor, influencia nas nossas escolhas de textos, nos ajuda na leitura do mundo. Escolhemos nossos parceiros ancestrais e criamos, ao longo da vida, uma relação sólida e duradoura com eles. Com o tempo, esses escritores se tornam amigos próximos. Pedimos conselhos a eles. São oráculos. Nunca deixei de tomar uma decisão importante em minha vida sem antes abrir uma página de Borges, Guimarães Rosa, Gabo, Graciliano, Sartre, Manguel, Dostoiévski, João Cabral ou James Joyce. Eles me inspiram, me alentam e, sem perceberem, me oferecem respostas, nas entrelinhas, nas orações, nas inflexões de seus personagens… nos versos. São uma família com opiniões díspares, nem sempre em concordância, com personalidades fortes e pontos de vista únicos. Mas, como todas as famílias, é a ela que recorro quando quero me sentir em casa. Alberto Manguel disse uma vez que a combinação da cama com um livro concedia a ele uma espécie de lar ao qual ele sabia que podia voltar, noite após noite, sob qualquer céu. Se eu pudesse viver nos meus livros, habitá-los, já saberia em qual canto de minha biblioteca me recolheria para ouvir as últimas histórias antes do sono.

Comigo começou tarde. Eu já me considerava perdida para leitura quando o professor de literatura do segundo grau entrou em sala, postura desafiadora, recitando o último capítulo de Ulisses. Ele nos olhava sem censura e repetia o hipnotizante monólogo de Molly Bloom. Eram tantos “sins” misturados a uma descrição de paisagens, flores, aromas, perfumes, texturas, vacas, campos, paisagens… A primeira vez que senti uma personagem viva, pulsante, vibrante: com o fluxo de pensamento livre. Saí da sala de aula embriagada pela experiência sensual de Molly. Quis ler o livro. Precisava saber como ela havia chegado ao seu pico de prazer. Então, perdi alguns meses na trama longa e complicada de James Joyce. Foi muito difícil, em alguns pontos, incompreensível. Mas não desisti.

Então, depois dessa primeira experiência finalmente eu tinha encontrado uma das raízes da minha família. O segundo grau foi a minha celebração com a literatura e o encontro com alguns dos personagens que mais me marcaram e emocionaram. Chorei, ainda choro até hoje, com a morte da cachorra Baleia em Vidas Secas: tão corajosa com a cabecinha encostada na pedra depois de perder o que restava da saliva e sonhar com preás. Fabiano, impossibilitado de lidar com as próprias palavras; vítima da violência da vida, da agressividade do soldado amarelo e de sua própria incomunicabilidade. Macabea, uma estrela apagada, mas com brilho interno tão, tão forte, que me gerava uma empatia espontânea. Era uma ingênua, inocente, e eu sempre enxerguei a verdade e a beleza nas pessoas capazes de serem simples. Clarice Lispector era uma descoberta principalmente pela facilidade com que discorria sobre todos os sentimentos, inclusive os meus: o romance A hora da estrela vinha na frente. Mas Clarice era excepcional nos contos. “Feliz aniversário” era o xeque-mate de uma matriarca talvez esquecida, talvez envelhecida, mas com o espirito crítico aguçadíssimo. “Uma galinha” me fez ter pena de todas as angustiadas galinhas que existiam no sítio da minha família. Mas o maior afeto era pelo conto “Felicidade clandestina”: ter a felicidade, ainda que clandestina, de ler um livro proibido era o meu sonho de leitora.

Depois veio o mestre Guimarães Rosa. Mais lágrimas ao final de Grande Sertão Veredas. Não havia amor maior do que o de Riobaldo e Diadorim. Quantos desencontros, quantos desejos nunca mencionados. Era como na vida, o amor dependia do encontro, do momento: deixar passar uma oportunidade poderia significar perder um grande amor. Rosa sabia disso, como sabia de tantas outras coisas. Sabia a linguagem dos valentes vaqueiros, das mulheres esquecidas no sertão, das orações, das superstições e dos medos. Com ele eu aprendi a amar essa região inóspita que brindou o Brasil com a mais bela literatura. E depois dele veio João Cabral, Euclides da Cunha, Ariano Suassuna, Ronaldo Brito. O sertão corre nas minhas veias literárias de uma forma inexplicável. Sertão é o rio São Francisco: percurso inevitável de Severino, em Morte e vida Severina. Um dos poemas mais lindos da nossa literatura, impossível de ser lido sem pensar na música de Chico Buarque e na trajetória do sertanejo que encontra todo tipo de morte em seu percurso até entender que é possível, sim, ao final de tudo, encontrar vida: ainda que pequenina e Severina. Sertão é a oralidade divertida de Ariano Suassuna, que nos faz lembrar dos cordéis e repentes, das feiras de rua do nordeste do país, dos emboladores de coco, carpideiras… contadores de histórias que forjaram a nossa História.

Mas, nesse meio tempo, fui morar fora do Brasil. E, na França descobri a beleza particular dos romances de Sartre. Li com carinho A idade da razão, A náusea e Sursis. Mas as peças eram uma fatia muito especial da obra do escritor e entre elas inegavelmente A prostituta respeitosa e Huis Clos (Entre quatro paredes). Vi montagens de Huis Clos na França e no Brasil e sempre me impressionou a visão do Inferno de Sartre: uma sala fechada com três pessoas que mal se conhecem, mas são obrigadas a conviver pela eternidade. A peça me perturba até hoje. O inferno são os outros? Não, o inferno somos nós. Mas o meu livro de cabeceira sartriano chama-se As palavras, meu oráculo de Delfos. Essa autobiografia, pequena e delicada, sobre a infância do escritor e a sua descoberta das bibliotecas, dos livros e da beleza das palavras é sem dúvida um dos textos mais bonitos que já li. É inesquecível o momento em o pequeno Sartre descobre que os livros têm “vida própria”. Ele pede à mãe, Anne-Marie, ler uma história: “Minha mãe ausentara-se: nenhum sorriso, nenhum sinal de conivência, eu estava no exílio. Além disso, eu não reconhecia sua linguagem. Onde é que arranjava aquela segurança? Ao cabo de um instante, compreendi: era o livro que falava”. Pela linhagem francesa viriam outras leituras, tão importantes: Jean-Pierre Vernant, que só aprofundou o meu amor pela mitologia, o controverso Georges Bataille, Flaubert, principalmente o conto “A legenda de São Julião Hospitaleiro”, Georges Perec e seu W ou le souvenir d’enfance, sempre desafiando o leitor com jogos, ideias e pensamentos. Mas o mais marcante foi Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, uma protagonista irresistível: mulher numa França provinciana do princípio do século XX, Thérèse é indomesticável, genial, entediada e bastante cruel. Uma anti-heroína, uma mulher complexa, amarga, culpada, mas ao mesmo tempo capaz de purgar seu próprio pecado com um doloroso exame de consciência.

Não demorou muito para eu ir estudar literatura e o meu maior medo, como escritora e leitora: a cegueira. Foi com essa tocha que me embrenhei no escuro da obra de Jorge Luis Borges para encontrar um dos escritores que mais escreveu sobre livros, bibliotecas, espelhos, tigres, labirintos… Era uma profusão de assuntos que me encantavam: livros de areia, objetos mágicos, seres imaginários, bibliotecas infinitas, senhas para a eternidade, jogos de espelhos e de palavras, duplos, sonhos, dentro de sonhos, dentro de outros sonhos… Borges era, e é, um caleidoscópio de invenções e referências. A prova de que a realidade é repleta de ficção. Eu tinha chegado aonde queria.

E foi Borges quem me abriu as portas para o meu olhar para América Latina. Morar em Rosário me fez encarar o que havia do outro lado do rio Paraná. Com ele vieram Adolfo Bioy Casares, María Esther Vázquez, Cortázar, Erneste Sabato. O estudo da língua espanhola me permitiu explorar mais: ler Gabriel Garcia Márquez no original, visitar a Colômbia e buscar Macondo em cada cidade e um Buendía em cada esquina. Dormir embalada pelas histórias de Maria Vargas Llosa: Pantaleão y las visitadoras, O elogio da madrasta. Visitar o Chile de Germán Marín, o México de Héctor Abad Faciolince, a Colômbia de Evelio Rosero. Com essas leituras, meu mapa literário estava pronto. E ele ainda é formado de pampas, sertão, rios, cidades imaginárias, caminhos que se bifurcam, labirintos e muitas, muitas bibliotecas: grandes ou pequenas; abertas ou fechadas, mas sempre infinitas.

 

*Denise Schittine, editora de ficção e não-ficção nacional , doutora em em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e Universidade Nacional de Rosário (2011). Autora de  “Ler e escrever no escuro: a literatura através da cegueira” ( Paz e Terra, 2016) e “Blog: comunicação e escrita íntima na internet (Civilização Brasileira, 2004)”. 

24 de Setembro de 2018

Abrir um livro, um nirvana

Posted in Ler faz crescer às 15:25 por sidneif

Por BÁRBARA LIA*

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“A sala de estar” (1941-1943), de Balthus (1908-2001)

Minha vida de leitora começou na infância. Aprendi a ler e comecei a devorar todos os almanaques, livros e revistas pela casa. No início da minha vida de leitora era mais comum ler almanaques e revistas policiais. Lia (e amava) a Revista X-9. Crimes solucionados e na contracapa uma história de terror. Nada disso mudou minha essência delicada, talvez por ser tudo pulverizado com poesia. Meu pai recitava poemas pela casa, o tempo todo. Minha vida teve uma biblioteca sonora com os grandes poetas do Brasil, aqueles que o pai amava: Castro Alves, Vicente de Carvalho, Gonçalves Dias e também Camões. Minha vida era lavada pelo épico, isso me impediu de me assumir poeta mais cedo, pela certeza que jamais escreveria algo tão retumbante e dramático, mas eu achava lindo.

Meu avô, um rábula misterioso, tinha uma Biblioteca enorme, uma parede inteira em seu escritório. Eu amava aqueles livros de capa cor cinza — O Tesouro da Juventude. Passei um tempo enorme desvendando o mundo. Na Escola, em plena época de ditadura militar, nas aulas de Português, serpenteavam clássicos que a gente lia: José de Alencar, Monteiro Lobato, Machado de Assis.

Aos dezesseis anos, iniciei minha vida de trabalhadora com carteira registrada e relógio ponto. Trabalhava oito horas/dia e estudava nas noites. Finais de semana para passeios, mas nesta agenda apertada tentei não ignorar meus amigos livros e me filiei ao Círculo do Livro e tentava encontrar novidades na única livraria da cidade — a Livraria Roma, em Campo Mourão. Meu pai, ao tempo que me deslumbrava com suas histórias e récitas, questionou minhas escolhas independentes. Eu comprei Para uma menina com uma flor, de Vinícius de Moraes, e ele fez um discurso inflamado contra o Vinícius. Meu pai não gostava de comunistas. E ouvi outro discurso quando fiquei encantada com os poemas de Pablo Neruda. De comunista em comunista eu fui levando, ele sempre preocupado com minha rebeldia. Comprei o best-seller [Manson: retrato de um crime repugnante] escrito pelo agente do FBI que prendeu a família Manson. Meu pai achou normal ler o livro de Vicent Bugliosi e detalhes do assassinato da Sharon Tate, com filho no ventre e tudo. Sempre tive esta tendência a tentar entender mentes que matam.

O que superou os crimes, as biografias, os livros de Harold Robbins e Sidney Sheldon do Círculo do Livro foi me mudar para Curitiba, no início dos anos oitenta. Nessa mudança os meus hábitos de leitora tomaram outro rumo. Livrarias, bibliotecas e conhecer os poetas. O horizonte ampliou infinitamente. Cada tempo de férias era para ler um autor, e de verão em verão eu vivi ao lado dos gênios, minha vida nunca mais foi a mesma, e minha Poesia ficou mais rica quando entendi que é possível criar mundos e situações, que é possível ser qualquer coisa dentro de um poema. Isso eu aprendi com os Mestres.

Impossível nominar todos os poetas que li, minha vida era emprestar livros na Biblioteca Pública, ler poesia russa, espanhola, descobrir os mitos. Nada pode ser mais lindo que um verão com Jorge Luis Borges, ou um inverno com Emily Dickinson. Um tempo infindo lendo Fernando Pessoa. Fernando Pessoa e Emily Dickinson disputam o pódio da perfeição no meu coração. Ela é tão incrível que passei meses ao seu redor.

Não dá para enumerar aqui todos os autores que li nestes últimos trinta anos. A gente envelhece, os olhos se cansam, aquela fúria abranda, mas ainda acho que é uma espécie de nirvana abrir um livro e ser sacudida por ideias, versos e narrativas. O poder da palavra, esta que eu amo e com a qual me relaciono com cuidado.

Ler me ajudou a entender o mundo, as pessoas e a minha própria vida.

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Foto: Isaias de Faria

*Bárbara Lia, Poeta e Escritora. Nasceu em Assaí (PR). Vive em Curitiba (PR). Publicou os livros de poesia: “O sorriso de Leonardo” (Kafka/2.004), “O sal das rosas” (Lumme/2.007), “A última chuva” (Mulheres Emergentes/2.007), “Tem um pássaro cantando dentro de mim” (2011), “A flor dentro da árvore” (2011), “Respirar” (2014) e “Forasteira” (Vidráguas/2016). Publicou os Romances: “Solidão Calcinada” (Sec. da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná/2008), “Constelação de Ossos” (Vidráguas/2010), “As filhas de Manuela (Triunfal/2017) e “Não o convidei ao meu corpo” (Kazuá/2018).

O pequeno leitor

Posted in Ler faz crescer às 14:45 por sidneif

Por MARIA AMÁLIA CAMARGO*

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“A New Fairy-tale”, de 1891, de Nikolai Petrovitch Bogdanov-Belsky (1868 – 1945)

“Livros? Livros não.”

Como uma instituição que cuida de crianças carentes não aceita doação de livros infantojuvenis? Pior foi ouvir que “as crianças já praticam esportes e cantam no coral, não têm tempo para ler. No final do dia estão muito cansadas”. Essa conversa pelo telefone aconteceu há um mês. Passei o final da tarde e o resto da noite em estado de choque. Aliás, volta e meia me lembro das palavras da senhora, que apesar de não gostar de livros, tinha a voz da fada-madrinha da Bela Adormecida. Ainda a imagino assim.

Talvez as crianças dessa instituição nem saibam quem é a Bela Adormecida. Talvez não saibam o que é uma fada-madrinha ou nem sequer tenham escutado algo que comece com “era uma vez”. Não consigo imaginar uma criança sem acesso a livros, privada de fantasia, de cultura. Certamente nas horas de folga elas brincam de faz de conta, mas deve ser um faz de conta diferente do das crianças que são incentivadas a ler e têm um repertório de histórias e personagens povoando a imaginação.  

Sempre me perguntam a importância da leitura para uma criança. Além do enriquecimento do vocabulário, da capacidade de compreensão de texto, a leitura propicia a reflexão, o desenvolvimento do pensamento crítico. O pequeno leitor pode exercer a capacidade de julgar o que é certo e errado, justo e injusto. Além de tudo, a criança se depara com sentimentos e emoções pelas quais virá a enfrentar e a sentir no futuro. Ah! E o mais importante: um livro é um mundo a ser explorado. Quem lê viaja sem sair do lugar.  

Meus grandes momentos como leitora foram na infância. Ficaram guardados na memória sem que eu me desse conta disso até começar a escrever profissionalmente. Lembro-me que meus livros preferidos eram protagonizados por personagens rebeldes, criações da Fernanda Lopes de Almeida e da Ruth Rocha. Princesas e meninas contestadoras que serviram de inspiração para muitas das minhas personagens, em especial a Emília Ercília do livro A ervilha que não era torta, mas deixou uma princesa assim (Caramelo, 2012).

*Maria Amália Camargo, formada em Letras pela USP, é escritora e tradutora de literatura infantojuvenil. De vez em quando também se arrisca a ilustrar. Ministra oficinas de criação literária em escolas e bibliotecas, onde aprende mais do que ensina.

As histórias dos livros, a vida

Posted in Ler faz crescer às 14:30 por sidneif

Por EDNA BUENO*

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“Grupo de meninas brincando” (1940), de Candido Portinari (1903-1962)

Nasci numa casa cheia de livros e de gente gostando deles. Numa estante enorme, que ocupava um corredor, os livros para crianças ficavam numa prateleira ao nosso alcance. Li muitos contos de fadas, Perrault, Grimm, uma coleção chamada Reino Infantil. Duas outras coleções me encantavam, Mundo da Criança e Tesouro da Juventude. Palavras e imagens, mistérios. Gibis e uns livrinhos de pano inesquecíveis que comprávamos no jornaleiro. Minha mãe lia as histórias fazendo diferentes vozes para as personagens, desconfiava daquilo e quis aprender a ler. Curioso que foi ela, minha mãe, quem me ensinou.

Sabendo ler, mergulhei no Sítio do Picapau Amarelo. Encantador, como na fazenda em que passávamos as férias. Era um grande pedaço de terra que tinha sido do meu avô paterno, que tinha tido seu tempo áureo, e na minha infância era lugar de brincadeira e descoberta. Era aquela imensidão, uma casa de muitos cômodos e sem luz elétrica. De noite, a prata das folhas das embaúbas. Tudo como no sítio de Monteiro Lobato, eu imaginava. Juro que tinha saci. E como era incrível aquilo de vida no livro se cruzar com a vida fora dele, tão igual. Livros feitos de uma vida que eu, de algum modo, conhecia.

Mais tarde, moramos nesse lugar. Perto do Rio de Janeiro, de onde saímos. Nessa época o seu Paulo, dono de uma venda, pediu para deixar um burro pastando em frente à nossa casa. Meu pai batizou o tal de “Teu Retrato” e eu e meus dois irmãos nos divertíamos. A cada pergunta de como se chama o burro, muitas risadas. Eu tinha uns onze anos e não suspeitava que, alguns anos depois, iria abrir o livro Sagarana, de Guimarães Rosa, e encontrar lá a cachorrinha “Sua Cara” e as folhas prateadas das embaúbas. A confirmação: as histórias dos livros, a vida.

Penso que essa leitura na infância, esse cruzar de livros e vida, influenciou o meu jeito de olhar o mundo, de estar nele. Aprender a ler também me deu o gosto pela poesia. Lia poemas em voz alta, adorava, até hoje gosto. A poesia é um jeito de olhar.

Uma alegria foi ler para meu filho quando pequeno. Não fiz vozes para as personagens, já que um dia não gostei disso, e eis que ele me pediu que fizesse. Cada leitor é único, aprendi. Para ele, o texto ganhava cores quando ganhava vozes. Um leitor livre, que se entregava às histórias sem desconfianças. E, então, com ele conheci a cadela basset “Sua Avó” no livro Os bichos que tive, de Sylvia Orthof. Como rimos. Mais uma vez os livros me trazendo essa surpresa, eu vendo que as leituras vão se esticando, passando de um para o outro, meu pai e Sylvia Orthof passando adiante a leitura de Guimarães Rosa.

Transbordei, um dia. Digo que transbordei a partir da fala de Ana Maria Machado, em uma palestra a que assisti, mais ou menos assim: “de tanto ler, um dia acontece de transbordar e escrever. A escrita vem da leitura”. Hoje escrevo. Depois de ter trabalhado anos na engenharia — me graduei em engenharia química —, finalmente me encontrei: as palavras são minha paixão. Ler e escrever me dão sentido, são a minha sintonia.

*Edna Bueno, nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em Engenharia Química, mas sempre esteve muito próxima das letras, uma vez que, desde pequena, todos em sua casa gostavam de ler. O livro “Entre os Bambus” foi publicado no Brasil depois de ter recebido o Prêmio França-Brasil de Literatura para crianças. O outro livro, “A Ingrid Veio Ver o Mar”, ganhou em 2002 o Prêmio Adolfo Aizen, importante premiação na área infantojuvenil.

6 de Setembro de 2018

Sobre a leitura

Posted in Ler faz crescer às 16:38 por sidneif

Por KATIA GERLACH*

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“Duas meninas lendo” (1934), de Pablo Picasso (1881-1973)

Antes do alfabeto, os gestos, os olhares, as almas, os céus, os mares. Antes das páginas, as sensações do corpo, os batimentos, os passos, os contornos. Antes dos livros, as ideias, as emoções, as digressões.

De modo consciente ou não, não paramos de ler. Acordamos e, com alguma memória, lemos as nossas noites passadas. Não há nada mais encantador do que ler os olhos de alguém, estabelecer um laço ótico que se traduza na possibilidade de páginas e páginas escritas. Ou o mistério da leitura da palma da mão, as linhas do destino assimilando os desenhos da vida. Portanto, a experiência da leitura é intuitiva, orgânica, humana, força criadora, inevitável.

Aprendi a ler através da letra “v” aos quatro anos. Senti pressa em ler. Era urgente perder aquela espécie de cegueira. Quis decifrar as letras para que o mundo não me enganasse, para que eu pudesse checar nas enciclopédias aveludadas os fatos.

A Nazaré cuidava de mim naquela época. Foi a minha terceira avó, levava o pó de café usado para casa a fim de tostá-lo de novo no forno, concertava bonecas e vestia-as como ninguém, às vezes enlouquecia e desaparecia para voltar ao mesmo lugar dias depois.

Lembro das mãos da Nazaré, as unhas pintadas cor de rosa, impressão digital nos documentos de identidade e a inutilidade dos dez dedos que teriam em segurar um livro, folhear páginas. Naná morreu analfabeta, com os bolsos cheios de bilhetes com números de ônibus, e eu continuo a ler por nós, para que possamos aproximar os nossos universos.

 

*Katia Gerlach, escritora. Natural do Rio de Janeiro e radicada em Nova York, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law, e professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas. Corpo docente da Universidad Desconocida do Brooklyn sob a reitoria de Enrique Villa-Matas. Participação no Disquiet International Program em Lisboa através de estipêndio pela Fundação Luso-Americana, FLAD. Agraciada pelo programa da New York Foundation for the Arts, Artes Literárias.  Publica no Jornal Rascunho e na Revista Cenas (Centro Cultural Raimundo Carrero).  Colunista da Philos – Revista de Literatura da União Latina. Autora de “Jogos (Ben)ditos e Folias (Mal)ditas” (Editora Oito e Meio, 2017), “Colisões Bestiais (Particula)res” (Editoria Oito e Meio, 2015), “Forasteiros” (Dulcineia Catadora, 2013), “Forrageiras de Jade” (Dulcineia Catadora, 2009).

Bons livros, a gente escala

Posted in Ler faz crescer às 16:36 por sidneif

Por CARLA BESSA*

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“La liseuse” (Ca 1880-1890), de Jean-Jacques Henner (1829 -1905)

Há uma passagem em O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, na qual o protagonista diz: “O que realmente me impressiona é um livro que, quando você acaba de lê-lo, você deseja que o autor que o escreveu fosse um amigo incrível seu e que você pudesse ligar pra ele quando sentisse vontade. Isso não acontece muito, no entanto.”

De fato, para mim, gerar essa intimidade e cumplicidade com um bom livro é como encontrar um amigo de verdade, alguém com quem se pode dividir o silêncio sem medo, com quem se pode estar junto e ao mesmo tempo só. “Não acontece muito, no entanto.”

E, assim como ocorre com amigos, há livros que você reconhece de cara, a simpatia é imediata e vocês já vão saindo de mãos dadas. Caminham juntos por um tempo, voltando a certas frases e espreitando as entrelinhas com a voracidade do reconhecimento. Depois, e quase sem que se perceba, cada um segue seu rumo e quando vocês se dão conta, já se perderam de vista. Mas pode muito bem acontecer de se reencontrarem anos mais tarde e retomarem o fio daquela meada que ficou pela estrada. Então, o livro já não é só o texto escrito ali, mas um verdadeiro diálogo com o tempo, e isso tem a força de uma epifania. Mas “não acontece muito, no entanto”

Atualmente, dois desses “amigos” vêm me acompanhando pelos meus descaminhos, carrego-os para cima e para baixo, na maior parte do tempo nem conversamos, mas sei que estão ali e o seu silêncio me ampara e me guia. São eles: Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato e Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues. A linguagem desses dois autores foi para mim um susto e um encantamento, me pegou em cheio, me incomodou, me desnorteou. (O mesmo ocorreu com Guimarães Rosa).

Gosto de livros que são como terrenos pedregosos ou montanhas altas, são difíceis de escalar, mas quando se chega finalmente lá em cima, a vista é mais vasta. Gosto de leituras que não entendo de cara como simpatizo com pessoas complicadas e malcomportadas. Porque me levam a repensar o que se tornou óbvio, a trocar de perspectiva, a questionar a norma. Acho que é isso que procuro nos livros. “Não acontece muito, no entanto.”

*Carla Bessa , Tradutora literária e escritoraEstudou teatro no Rio de Janeiro. Em 1991 emigrou para a Alemanha onde trabalhou por 15 anos em teatros alemães, austríacos e suíços como atriz e diretora. Atualmente, vive entre o Rio e Berlim e é tradutora literária e escritora. Seu primeiro livro de contos, “Aí eu fiquei sem esse filho”, foi publicado em 2017 pela editora Oito e meio, do Rio de Janeiro. Além disso, tem contos publicados em vários blogs literários e revistas online como a Revista Lavoura, Revista Gueto e Revista LiteraLivre. Como resenhista, colabora regularmente com o Jornal Rascunho.

O que a memória ama fica eterno

Posted in Ler faz crescer às 16:31 por sidneif

Por ALESSANDRA BARCELAR*

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“Beatrice” (1896), de Marie Spartali Stillman ( 1844–1927)

Geralmente, quando a pergunta é sobre livros marcantes em minha vida, costumo evocar a mais antiga memória ou o que tenho dela.

O Inicio é algo gravado e começa, acredito eu, com 7 ou 8 anos, quando descobri Coração de Vidro, de José Mauro de  Vasconcelos, não que antes nunca havia visto uma fábula ou história, mas o mergulho, a viagem e a inquietação, com certeza, aconteceram com esse livro.

Não sei ao certo se isso ocorreu por o ambiente ser narrado em uma fazenda ou pela realidade crua. Mas o tom melancólico dos contos me inquietaram, foi a primeira vez que chorei, ali percebi qual era realmente a função da leitura, através da percepção da natureza humana.  Lembrei-me de um amigo que citou uma frase de Rubem Alves ao falar desse livro: “ Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno”.

Outro livro que me marcou profundamente, até pela precoce leitura, foi  Exodus, de Leon Uris, digo precoce porque ele me chegou quando ainda era muito jovem, 13 ou 14 anos. É um livro de quase 900 páginas, na época que li eram divididos em 3 volumes, porém não recordo editora. A importância de Exodus para mim foi por ser meu primeiro livro histórico.  O  livro conta a formação do Estado de Israel, e a capacidade de Uris contar histórias fez da obra algo inesquecível para mim. Foi através desse livro que comecei entender a necessidade de recorrer a outros recursos para compreender uma história e me localizar no tempo e espaço da narrativa. E, de modo consequente, o livro foi o “embrião” para a escolha acadêmica anos depois.

Claro que depois disso, vieram muitos, vários outros livros excelentes, necessários, importantes, já que procuro estar sempre envolvida em trabalhos com leituras, mas esses dois realmente foram um marco, o primeiro pela descoberta do poder da leitura e o segundo pela identidade.

11160672_1079890318693756_2536729381978102914_n*Alessandra Barcelar é Historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, e atua na área de Gestão Hospitalar e Economia da Saúde. Publicou em algumas revistas literárias do Brasil e Portugal . Colaborou com a “Antologia Mitos Modernos I”, a qual foi premiada com o Prêmio Le Blanc de Arte Sequencial, Animação e Literatura Fantástica , livro esse com previsão de lançamento em 2018. 

24 de Agosto de 2018

Cheiro de gente

Posted in Sem categoria às 15:44 por sidneif

Por NEYD MONTINGELLI*

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“Kizette em rosa” (1927), de Tamara de Lempicka (1898-1980)

Na época dos meus 9, 10 anos, minha mãe alugava uma casa na praia para as nossas férias. Claro, férias de julho, pois o dinheiro era curto. Era um frio danado, mas eu e meus irmãos não nos importávamos. Estar na praia era a glória! Pela manhã íamos passear na areia e, apesar do tempo feio, entrávamos na água. Com os lábios roxos e tremendo de frio, disputávamos a única toalha e corríamos para casa. Nova disputa pelo chuveiro quente e então um almoço bem gostoso de um prato só, pois na casa só tinha fogão à lenha e, para facilitar, minha mãe levava um minifogão a gás de uma boca. Na mesma panela, ela cozinhava arroz, legumes e a carne. Era uma delícia.

Depois de lavar a louça, chegava a melhor parte da praia: deitar na cama de casal e ler revistas, gibis e livros com a minha mãe! Isso sim eram boas férias!

Meu irmão desaparecia, pois não queria saber de ler nada, preferia brincar com os meninos da rua. A irmã era pequena e sempre dormia.

Na semana da viagem, minha mãe juntava o pouco dinheiro que tinha e a ia até um sebo comprar nossa leitura de praia. Gibis, revistas Mistério Magazine de Ellery Queen e livros da Aghata Christie. Todos bem velhos, surrados e com cheiro de gente.

Em silêncio, as duas deitadas embaixo das cobertas, líamos um pouco da cada. Eu devorava os gibis, depois passava para as revistas com contos policiais e livros. Quando estava lendo algum conto que minha mãe já havia lido, ela fazia perguntas sobre a trama. Eu adorava aquilo.

Depois das férias, eu queria continuar a ler aqueles livros e revistas, mas tinha que estudar. Muitas vezes minha mãe me apanhava lendo escondido, tarde da noite. Era a mesma frase: “Largue esse livro e vai dormir.” Era difícil para mim.

Virou um vício.

Agora ficou pior. Além de ler, passei a escrever também. Já publiquei 28 livros solo e participo em mais de 140 antologias, coletâneas e e-books.

A minha vida literária é assim: leio o que outros escrevem e escrevo para outros lerem.”

*Neyd Montingelli, escritora. Tem 18 livros publicados e participa em várias antologias. Foi premiada em vários concursos literários de contos, crônicas e poesias. Membro da Academia de Luminescência Brasileira/Araraquara, do Núcleo de Letras e Artes de Buenos Aires e da Embaixada da Poesia. Recebeu troféu Cecília Meireles; Medalha Melhores Poetas da Magico de Oz, o certificado de Responsabilidade Cultural Semeador de Livros e Amigos da Juruá Editora e o Certificado de Responsabilidade Cultural do Instituto Memória Piá Bom de História.

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