10 de Agosto de 2020

Propósito de vida

Posted in Ler faz crescer às 16:17 por sidneif

Por ROSE ALMEIDA*

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“Amaryllis e Henrietta” (1952), de Vanessa Bell (1879-1961)

Nasci em 1980, em Belo Horizonte, no alto das montanhas de Minas Gerais, terra de grandes escritores e poetas. Quando criança adorava ouvir as histórias contadas pela minha mãe na hora de dormir. Na adolescência, o meu contato com os livros aconteceu na maior parte do tempo na escola. Dentre os livros que li, O menino do dedo verde, de Maurice Druon, foi um dos que me marcaram nessa fase da vida.

Após concluir o ensino médio, meu contato com os livros diminuiu. Hoje, após a maternidade, voltei a ter contato com os livros e descobri o meu propósito de vida: traduzir em palavras escritas aquilo que não sai de minha boca através do som de minha voz.

Nessa caminhada, os livros Somos todos responsáveis (de Pedro Bloch) e Quero colo (de Stela Barbieri e Fernando Vilela) foram responsáveis por confirmar esse meu desejo de colocar as idéias no papel transformando-as em livros.

Surge então a Rose mãe que escreve, inspirada no universo infantil, nas histórias do cotidiano e em Deus, com a missão de tocar o coração dos leitores com suas lindas histórias.

 

*Rose Almeida, escritora, casada, mãe de uma linda princesa. Descobriu através da maternidade uma forma de usar “o dom de escrever que Deus me deu”. Não tem muito tempo que começou a escrever, “lutar com as palavras”, mas começa com tal cuidado, lucidez e preciosidade em suas escolhas que chamou a atenção das crianças para quem escreve. Acredita que as histórias existem para serem contadas e seu lema é: leia para uma criança, nem que seja a sua criança interior!

4 de Agosto de 2020

Minha paixão pela leitura e escrita

Posted in Ler faz crescer às 17:12 por sidneif

Por REJANE AQUINO*

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“Moça lendo” (1970), de Di Cavalcanti ( 1897-1976)

Minha paixão pela leitura e escrita começou na infância. Sempre fui curiosa e afeita ao mundo das palavras e ao que eu descobria através do universo das letras. Os livros sempre me rodearam apesar de ter crescido em um bairro periférico. Minha avó ( aquela que me criou) sempre insistiu e investiu para que eu estudasse e me apaixonasse pelo mundo da leitura – e assim foi.

Na adolescência, os livros, tal como a escrita, sempre foram minha maior companhia, refúgio e alento. Além disso, as histórias orais de minha avó sempre me marcaram, e, influenciada por essas narrativas e pelo amor ao livro escrito, ingressei no curso de Letras. Fui extremamente polida e influenciada pelas obras e autores que conheci (sejam eles contemporâneos ou não).

Ao longo da minha jornada existencial,  a Bíblia Sagrada e Ensaio sobre a cegueira foram as duas obras que marcaram minha vida de maneiras singulares. Através da Bíblia, pude conhecer a imensidão do amor de Deus por nós e como esse aprendizado nos alicerça para enfrentarmos os desafios da vida. Com o livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, pude perceber o quanto nossa fragilidade humana transforma, também, quem nós cerca .

Por último, tenho me dedicado à leitura e à escrita de textos de autoria feminina, atividades com a qual tenho aprendido a importância do ” lugar de fala de mulheres” e como esse lugar se cruza quando dirigido a estereótipos e imposições sociais sofridas ao longo de uma história marcada pelo machismo e patriarcado.

 

*Rejane Aquino, escritora, autora de ‘’Carolina através do espelho’’ (Mondrongo, 2018). É integrante da Confraria Poética Feminina, do Grupo O Sarau, do Mulherio das Letras e do Projeto Versos de Mulher e membro da Academia de Cultura da Bahia.

31 de Julho de 2020

William Shakespeare – o escritor de todos os tempos 

Posted in Ler faz crescer às 17:49 por sidneif

Por JOEMA CARVALHO*

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“A reconciliação de Oberon e Titânia” (1847), de Sir Joseph Noel Paton (1821-1901)

Participei do projeto Quarentena Literária, organizado pelo Prosa Nova Produções Culturais, onde escritores de Curitiba – PR comentaram, em lives, sobre os seus autores preferidos¹. Escolhi William Shakespeare, autor que mexe muito comigo. Já assisti a diversas peças e filmes baseados em suas obras. Seus textos são poéticos, envolventes e muito intensos.

William Shakespeare nasceu em 26/04/1564 e faleceu em 23/04/1616, em Stratford-upon-Avon. Conhecido como o Bardo de Avon ou Cisnei de Avon e Poeta Nacional Inglês, maior dramaturgo de todos os tempos, atemporal e transdisciplinar. Foi dramaturgo da companhia Lord Chamberlain, depois chamada de Homens do Rei. Escritor de grande rapidez intelectual, percepção e poder poético. Sua agudeza da mente foi aplicada a seres humanos e sua gama completa de emoções e conflitos²

Em função do projeto, fiz um mergulho nas obras de Shakespeare. Em determinados dias, seguia até a madrugada lendo este autor e só parava porque o sono não permitia continuar. Iniciei lendo os sonetos, mas tive necessidade de aprofundar mais na literatura dele, então li Sonhos de uma Noite de Verão, Rei Lear e Hamlet, que são peças de teatro.

Como sou engenheira florestal, observei, na primeira peça, um trecho que se relaciona com a minha área de atuação. Em Sonhos de uma Noite de Verão, encontrei a descrição de consequências do evento “Mudanças Climáticas” em função da interferência humana no planeta, impacto ambiental tão comentado atualmente e, há 500 anos, presente em uma passagem onde a Titânia responde a Oberon, Rainha e Rei dos Elfos respectivamente: “Tudo isso é o ciúme….. deixaram túmidos os rios, que as margens inundaram, de orgulhosos… Em tamanha desordem vemos as sazões trocadas… A primavera, o estio, o outono procriador”. Esta peça é uma comédia, uma confusão atrás da outra. Deliciosa para este momento de isolamento social, onde precisamos de algo agradável.

Rei Lear é considerada a peça mais sanguinolenta de Shakespeare. Porém, ele consegue através de um personagem, em determinados momentos, quebrar esta tensão, no caso, o bufão. Na minha leitura, esse personagem é como se fosse uma espécie de consciência do rei Lear. Facilmente, relacionamos a peça com contextos atuais dentro de famílias, considerando a relação das filhas do rei Lear com ele e o forte contexto político de tramas e de traições visando o poder, sem escrúpulos.

Hamlet supera em densidade, profundidade e força. Desse drama consta o texto considerado o mais poético de todos os tempos: “Ser ou não ser… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se”. Existem leituras em que Hamlet é considerado esquizofrênico, uma vez que ele falava com o pai já morto. Minha leitura foi de que ele era um adolescente, com uma sensibilidade muito acima do normal, com grau de mediunidade. Em função disso, conseguia captar as tramas do poder e passou a incomodar quem estava no controle. Assim como em Romeu e Julieta, o casal Hamlet e Ofélia representava a beleza, o amor e a pureza. Nas duas situações, adolescentes que morrem de forma precoce e trágica, refletindo o ambiente denso que habitamos, onde a frequência do amor é impossibilitada de coexistir. Aos poucos, os personagens vão sendo caracterizados e, no final, ganha muita intensidade. Depois que li, precisei parar, o conteúdo foi sendo absorvido aos poucos. Dentre os textos mais fortes e fantásticos que já li. 

 

*Joema Carvalho, de Curitiba – PR, engenheira florestal, doutora, perita. Autora do livro Luas & Hormônios, selecionado e editado pela Secretaria do Estado da Cultura (2010). Colunista do Portal Mhario Lincoln do Brasil e do Observatório de Comunicação Institucional. Participação em coletâneas: Conexão IV, Nogue Editora (2018); Literarte Celebra a Região Sul. Coletânea da Associação Internacional de Escritores e Artistas (2019); Parnaso Poético III (2019), Porquê Somos Mulheres. Antologia Digital – Poesia, Selo Editorial da Revista Ser MulherArte (2020). Coletânea do Mulherio das Letras – Portugal (2020). 

¹QUARENTENA LITERÁRIA. Disponível em: https://prosanova.com.br/quarentenaliteraria/ 

²2WILLIAM SHAKESPEARE. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/William-Shakespeare#ref232300

28 de Julho de 2020

A Sofia humana de Sílvia Schmidt

Posted in Biscoito Fino às 17:10 por sidneif

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Foto de Bárbara Santos

Sílvia Schmidt é natural de São Paulo, morou no Nordeste e Sul do Brasil, saindo de Florianópolis em 2000 em voos mais ousados para Inglaterra e EUA, com o objetivo de estudar o idioma inglês. Formou-se Letras em Lorena-SP, Especializações em Comunicação e Semiótica na PUC/SP, Sociologia e Política/ USP, e Ontopsicologia em SC. Por 16 anos, ministrou aulas de Literatura Brasileira. Em 2014, cria a editora para livros eletrônicos Símbol@Digital, quando lança seu romance de estreia Duty Free (2000) em formato ePub durante residência artística na CASA DO SOL, em Campinas, no IHH (Instituto Hilda Hilst). Participa como mediadora em eventos literários com temas como crítica interseccional. Também faz parte, com poemas, contos e ensaios,  de    antologias e revistas literárias. Seu segundo romance Made in Brasil (2020) foi recém-lançado de modo virtual pela Livraria Mulherio das Letras – espaço de entrevistas, divulgação e vendas de obras da Literatura Brasileira contemporânea realizada por mulheres desde 2018. 

 

A seção Biscoito Fino* recebe um belo presente de Sílvia Schmidt. Abaixo, segue trecho de Duty Free (Símbolo Artesanal, 2014), romance de estreia da autora, e de Made in Brasil (Símbolo Artesanal, 2020).

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Duty Free

OkStart, meus documentos, não, notepad é mais fácil… – falava consigo mesma na solidão do dia 31 de dezembro de 1999 às 22 horas, enquanto começava a dar forma à sua criação.

UM CASO DE AMOR 

 Por Sofia Mello

1 # EXT. PARCIAL PONTE HERCILIO LUZ/ 31 DEZ 1999 – NOITE

Ouvem-se músicas e fogos de artifício em comemoração ao final do ano 2000.

2 # EXT. PORTÃO DE ENTRADA DA 4ª DP/ RUA NEREU RAMOS CENTRO – NOITE

Ouvem-se o portão fechando e a música de fundo finalizando, com narração feita por jovem de 35 anos, inominado, rosto largo, olhos castanhos claros, sobrancelhas grossas, cabelos cacheados, corpo esbelto de atleta, 179 cm, com sotaque de Ilhéus e gírias, num tom de escárnio e deboche:

Caralho, será que esses caras lá fora não veem que não dá pra falsear a realidade com brilho e champanhe? Tá bom, tá bom, não vou mais reclamar, gritar ou chantagear, não foi essa a sentença? Vou é escrever um livro, tô nem aí com literatura não, ler e escrever pra mim nada a ver, correção sei lá, acho que os editores fazem isso… O que eu quero nesta cela de escuridão úmida e fétida é poder deixar meus relatos e, quem sabe, onde quer que esteja Aivilis, todos que me acusam de ter matado ela possam saber que eu não matei ela não, brother, não matei.

3 # INT. CELA ESPECIAL – NOITE

Deitados em seus beliches dois prisioneiros podem ser vistos: prisioneiro nº 1, narrador, encostado ao travesseiro, com ar pensativo; prisioneiro nº 2, dormindo. A cela possui uma mesa com cadeira, um banheiro com a porta semiaberta. Luzes dos fogos penetram por vidraças acima da parede lateral. Prisioneiro nº 2, alto, magérrimo, negro de cabelo raspado, dentes fartos e brancos, vestido em roupas de prisioneiro. O Prisioneiro narrador se levanta da cama de baixo com agilidade, dirigindo-se até as grades da cela, gritando:

Prisioneiro nº 1(com agressividade): 

Alguém aí? Alguém pode me ouvir, cacete?!

Corte 

4 # INT. SALA DOS CARCEREIROS – NOITE

Ouvem-se ao longe berros vindos da cela especial e o tilintar dos ferros das grades. Entra o sargento de plantão, erguendo o zíper de suas calças, sonolento e se espreguiçando, numa sala de delegacia simples: mesa, cadeiras de espera, telefone, guarda de plantão à porta.

Corte

5 # INT. CORREDOR DO QUARTEL – NOITE

Sargento dirige-se até a cela especial com arrogância e, lentamente, encarando o prisioneiro nº 1, que demonstra grande impaciência por detrás das grades, diz:

Ô, seu fodido, quer parar de berrar? Porque aqui não tem nenhum surdo! E vá logo dizendo o que tu queres!

Papel e lápis… seu rato pervertido! – responde o prisioneiro nº 1.

O telefone toca, distante.

Por quê? Vais escrever cartinha de amor pra algum veadinho amante seu? Se quiseres eu te como gostoso… – provoca o sargento.

Encaram-se com nítida agressividade.

Corte

6 # INT. MESA DA CELA ESPECIAL – NOITE

Ouvem-se com mais intensidade os fogos de artifícios e vozes na rua, o prisioneiro nº 1 está sentado com os papéis e lápis em cima da mesa. Com seriedade começa a redigir. Em primeiro plano aparece o papel e suas mãos escrevendo “VAGABUNDO” Inicia-se a narração, feita com acentuado regionalismo pelo ator.

Vagabundo”… Assim é que me viam numa família de doutores, dos cinco irmãos somente eu parei na graduação, não sou nenhum tolo, tudo porque deixava as aulas de Administração na Federal para ir surfar, a vida me deu outra inteligência, velho, a percepção rápida do abstrato, das coisas ocultas, o que me serviu foi, e muito, na malandragem necessária para a sobrevivência, saber rabear a onda do inimigo, roubar dele o prazer da manobra e ouvir lá na praia a galera me dando a maior moral. Eh E he (no ritmo de Ilhéus)… Como explicar isso pros velhos? Eles não entenderiam… Quem sabe aqui nesse relato? Acho também que as letras ficariam honradas, vejo até as manchetes: “ADMINISTRADOR DE EMPRESA ACUSADO DE MATAR COMPANHEIRA ESCREVE LIVRO SOBRE DROGAS, SEXO E CORRUPÇÃO.”

Sofia ficou completamente envolvida e, pelo menos até o romper do ano, escreveria seu roteiro. Não ouviu os fogos nem os trovões que anunciavam uma forte tempestade de verão, não ouviu os latidos do cachorro, nada fez com que ela se desviasse de seu objetivo. Pensou em Richard e sentiu-se orgulhosa por ter resistido a passar o ano junto com ele, que podia ser apenas uma paixão passageira, mas sua carreira não, por anos a fio fora seu ganha pão e prazer. Fizera relativo nome no meio artístico numa cidade completamente apática para a produção cultural. Sim, estava orgulhosa. Tomou sua última taça de vinho e, como começou, terminou parte de seu projeto e…

Start, turn off…

Made in Brasil

Capítulo 1

Oregon Portland EUA, novembro de 2002

Quando Sofia pisou o chão da América, no estado do Oregon, na cidade de Portland, ela não pensou que seria definitiva a sua separação de Mr. Richard, embora zangado e irritado com a mulher que planejava despojar-se, ela pensava em retomar a relação assim que seus ânimos se arrefecessem da crise dos dias que antecederam sua ida aos EUA. Ele permitira que Sofia viajasse para, apenas como combinado, ir ao encontro de seu irmão e cunhada no momento de nascimento de seu sobrinho. Não pensou ele, como homem, que teria passado seus limites ele, um cavalheiro inglês, o velho capitão da fragata. Sofia, tão intensa e passional, voltaria a se comunicar assim que chegasse, ele confiava nisso. Era o que pensava ali, entre as suas anotações diárias e afazeres domésticos, sentado em seu gabinete, em seu corpo firme e ereto. Estivera durante a semana com seus filhos e dera a entender que retomariam a relação, que não se preocupassem quanto a isso. Não procurou pela amiga, Neusa, sentindo que não seria compreendido, além de que, sem muitas informações sobre Sofia ou sobre o que ambas tinham conversado a respeito da ruptura, dos mal-entendidos e, por fim, da inesperada viagem de Sofia para a América a pedido do irmão, sentia-se inseguro. Deixou assim, que o destino os aproximasse naturalmente.

Meu irmão, que voo magnífico eu fiz! Cortar o Atlântico e todos estes estados em uma única viagem, deixando o Reino Unido tal qual uma formiguinha lá para trás, é realmente a forma mais prática de aprender geografia. Um voo diurno cinematográfico. E que alegria ver você, parece-me cansado. Ah, e aquelas montanhas geladas, este deserto imenso que cortei até aqui, o Pacífico… Quero conhecer tudo, por favor.

Assim, de modo eufórico, o encontro entre irmãos se dava muito além de em um espaço familiar, mas um espaço além-fronteiras. Ambos caminhantes.

 

*Biscoito fino é um espaço novo para publicações de textos ou outros trabalhos artísticos (inéditos ou não) de escritores ou de quem queira expressar sua arte. Informações: sidneif@gmail.com

 

24 de Julho de 2020

O que somos, o que fomos e o que podemos ser

Posted in Ler faz crescer às 17:27 por sidneif

Por ALANA LIAL*

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“As três idades da mulher” (1905), de Gustav Klimt (1862-1918)

 

Uma das imagens mais marcantes que tenho da minha infância é da sala da casa da minha avó. Casa onde me criei junto com minha mãe, tios e tias. Naquela casa grande, que ficava naquele bairro bucólico do Recife, que se chamava Casa Forte. Não à toa. Mas a sala da casa na Casa Forte tinha uma imensa estante marrom escura de madeira boa e que ocupava uma parede inteira, Ela transbordava livros, a única coisa que habitava ali naquela estante que não fosse para ler, era um elefante branco, de porcelana, bem cafona e com a bunda para rua, para garantir sorte e algum dinheiro. 

Não posso dizer que a minha relação com a literatura veio desde a infância, mesmo com um acervo em casa a meu alcance, meu lance sempre foi o agito. Preferia mil vezes andar de bicicleta a sentar o “rabo” na cadeira, como dizia “voinha”, e ler um livro. Lia, basicamente, os livros que a minha escola mandava e muita revista Capricho. Revista de adolescente, na década de 80, era uma verdadeira febre, a ponto das pessoas a colecionarem. Sim, eu fui uma dessas. A propósito, foi lendo aquelas revistas que eu comecei a querer escrever. Mas meu primeiro “rebento” escrito foi um livro de poesia, feito a mão e guardado até hoje. Curiosamente a poesia, hoje em dia, é um dos gêneros literários de que menos gosto. Cruel? Não sei, mas quase sempre não abro mão da sinceridade.

Quando comecei a estudar teatro, com 16 anos, descobri Nelson Rodrigues e também uma coleção chamada de Literatura Comentada que tinha na estante de casa, entre Clarice, Manuel e Drummond tinha Nelson. E foi aí que descobri o cheiro dos livros. E foi aí que devorei aquela estante marrom. Comecei a gostar de ler, li tudo sobre Nelson Rodrigues e escrevi meu primeiro texto teatral chamado Cartas, livremente inspirado no universo “rodrigueano” e que acabou sendo montado. Mas mesmo já gostando de ler e mais ainda de escrever, confesso que ainda não tinha sido picada pela literatura na sua grandiosidade. Até 100 anos.

Foi em um sebo barato no centro do Rio de Janeiro que me deparei com a solidão. Com os 100 anos dela. Por Cem anos de solidão, paguei na época o que se paga hoje para comer uma coxinha. Cheguei em casa feliz com a preciosidade que trazia na mochila. Seria intenso dizer que devorei o livro em uma dentada só, mas aquilo era tão bom que degustei em doses homeopáticas, noite por noite. Não queria que tivesse fim.

Cem anos de solidão, escrito por Gabriel García Marquéz (vencedor do Nobel de literatura em 1982), narra a história da família Buendia através das gerações e vai muito além de um livro de drama familiar. Cem anos de solidão é um retrato do que somos, do que fomos e do que podemos ser. Algumas pessoas falam que não é um livro fácil, já eu acho que viver não é fácil. Exige, sim, concentração e entrega. Mas te garanto que, depois, alguma coisa muda – nem que seja por cinco minutos. 

De lá pra cá, muita coisa mudou no mundo e em mim. Me formei um jornalismo, profissão que sempre quis e que, no passado, exerci intensamente. hoje posso escrever o que quero e quando quero em uma coluna. Escrevi alguns textos teatrais, alguns encenados e outros na fila, e me aventurei a escrever meu primeiro romance chamado Só não choro para não borrar meu rímel, feito do qual, três anos atrás, não me achava capaz. Descobri que envelhecer te deixa cara de pau. 

O que eu escrevo me move e, com sorte, ajudo a mover o mundo. Minha escrita é para todos, não quero agradar meia dúzia de pseudosintelectuaisneoricohypes. A minha palavra é para a emoção, o choro, o riso, a cólera. A sensação já é por si só forte, ela se basta. Eu quero criar sensações, quero que o outro se veja nos meus personagens, quero que o outro torça, quero que o outro queira mais. E enquanto eu tiver alma, alma eu darei a tudo que escrevo. 

 

*Alana Lial é atriz, dramaturga, jornalista e escritora. Também assina uma coluna, no site Pau Pra Qualquer Obra , que leva o seu nome. 

  

21 de Julho de 2020

Um caso de amor

Posted in Ler faz crescer às 16:51 por sidneif

Por SANDRA LANE*

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“Capuz azul ou a lição” (1945), de Oszkar Glatz, (1872-1958)

Os contos são fragmentos espalhados pelo chão de uma joia que se quebrou, e só olhos perspicazes podem descobri-los.

                                                              (Irmãos Grimm)

Como muitas crianças, enfrentei a dor da separação dos meus pais. Para ajudar na sobrevivência, minha mãe teve de trabalhar longe de mim, e, por esse motivo, morei durante alguns anos de favor em uma casa onde viviam mais quatro crianças. Por ser a mais velha, caía sobre os meus ombros a responsabilidade de olhar as demais. Eu tinha de ser o porquinho ajuizado Pedrico da história Os três porquinhos. Mas, na verdade, eu estava mais para Palhaço ou Palito, os porquinhos que só queriam brincar.

Ainda bem que vivíamos em um tempo em que criança tinha também a rua enquanto extensão do quintal da sua casa. Assim, meus amiguinhos de infância e eu podíamos recolher nas ruas saquinhos de leite, jornais velhos e estrume para serem trocados por picolés de Ki-suco ou até mesmo pão para o lanche da tarde.

 Nessas andanças, com a astúcia de Pedro Malazarte, eu encontrava partes de um grande tesouro espalhado pelo chão: objetos velhos e sujos que automaticamente passavam a ser protagonistas de histórias que somente a minha imaginação e a da minha pequena plateia conseguiam ver. No quintal de terra batida, à sombra de um limoeiro, eu distraía a meninada contando histórias recriadas da radionovela que às vezes eu escutava pelo radinho de pilha que tinha na casa.

Recordo-me que os meus amigos de aventuras topavam a brincadeira e enxergavam comigo diamantes nos caquinhos do para-brisa quebrado, olhos mágicos   de um cavalo dourado em botões enferrujados e até mesmo uma fivela antiga virava um cinturão mágico de um rei gordo e poderoso.

As radionovelas e os objetos encontrados nas ruas fizeram parte do portal para encantamento, até o dia em que entrei para a escola e ganhei da minha professora um livro; lembro-me do seu cheiro, textura, peso, formato…

Eu tinha sete anos e mesmo sem saber ler, descobri através das páginas daquele livro uma “chave” para uma outra dimensão. Essa “chave” abriu para mim um mundo de infinitas possibilidadesApesar de não decodificar as palavras, eu “li” as ilustrações e decorei a história daquele livro ao ouvir a professora fazendo a leitura em voz alta.

Um dia, chegou uma visita ilustre na nossa sala de aula; adivinha quem leu alto e bom som alguns capítulos do livro? “Euzinha!” Naquele dia vivi momentos de glória. Como diz o ditado “felicidade de pobre dura pouco”, descobriram que eu só tinha decorado, mas isso é outra história.

Apesar de tudo isso  ter quase cinquenta anos, ainda sou apaixonada pelo Jujuba do livro O Cachorrinho Fujão e grata pela mineira Elisa Barbosa Campos, que criou personagens sensíveis como Marcelo, Susana, Cidinha e o cachorrinho Jujuba. Ah! Outra coisa incrível era poder colorir o livro. Quando algum colega me emprestava um lápis de cor, “nusga!” (claro, depois de duras recomendações para que eu não fizesse ponta nele), eu sentia um prazer indescritível em dar cor às páginas do meu tesouro e, assim, me sentia coautora.

Quem me conhece sabe que sou desapegada de bens materiais, entretanto não é o caso desse meu primeiro amor. Descaradamente plagiando a Clarice Lispector, em “Felicidade Clandestina”, posso afirmar que, com o meu livrinho paradidático, longe de ser um clássico da literatura, senti que eu não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

 

*Sandra Lane, contadora de histórias, escritora e atriz sombrista.

http://www.sandralane.com.br/

17 de Julho de 2020

Leitura de encantamento do livro Aparição do clown, de L. Ruas

Posted in Ler faz crescer às 18:04 por sidneif

MARTA CORTEZÃO*

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“Autorretrato com máscaras” (1899), de James Ensor (1860-1949)

CAPARUAS

Todo o texto é uma máquina preguiçosa que pede ao leitor que faça parte do seu trabalho.

Umberto Eco, em Seis passeios pelos Bosques da Ficção, 1994, Companhia das Letras.

O poeta L. Ruas marca a sua estreia literária com a publicação de uma das obras mais importantes da literatura amazonense. Trata-se de Aparição do clown, um inquietante livro de poesia. Sim, de poesia, pois trata-se de um único poema, desdobrado em várias sequências. Alias, as várias sequências do poema são a chave da sua compreensão. Ao analisarmos a estrutura, percebemos se tratar de um roteiro de iniciação aos mistérios insondáveis da existência. Expressão de suas preocupações místicas, o livro reproduz simbolicamente o itinerário de Cristo na Terra, a promessa de redenção do mundo; a busca do homem, um palhaço no palco da vida, à procura de sua verdadeira face, sua tentativa de reencontro com o divino, o sagrado.

Tenório Telles, no prefácio de Aparição do clown, 1998, Valer Editora.

Minha modesta “leitura de encantamento” se debruça sobre o tão apaixonante e poético poema Aparição do clown, de L. Ruas, pseudônimo de Luiz Augusto de Lima Ruas, que nasceu em Manaus, em 1931, e faleceu, em 2000, também na cidade de Manaus. Aos seus 11 anos, inicia seus estudos no seminário em Fortaleza, para logo depois dar continuidade a eles no Rio de Janeiro; mas foi em Manaus que o Padre Ruas exerceu seu sacerdócio e também sua atividade literária: foi poeta, escritor, jornalista, professor, radialista e crítico de literatura e cinema. Ruas escreveu quatro livros, o primeiro deles, de 1958, foi Aparição do clown (poema-livro), o segundo, de 1970, é Linha d’Água (crônicas e poemas), o terceiro, de 1979, Os Graus Poéticos (ensaios) e o quarto, de 1985, Poemeu (poemas/poesias), vencedor do prêmio estadual (Amazonas) de 1970, publicado apenas 15 anos depois. Foi membro do Clube da Madrugada (1954/Manaus), formado por um grupo de intelectuais que tratava de discutir a Literatura no Amazonas e que procurava romper com “o excesso de tradicionalismo impresso e estampado nas produções” (PEREIRA: 2018;114) da época, movido pelo desejo de “atualizar esteticamente as artes e as letras no Amazonas”, cujos “integrantes demonstravam uma preocupação em pesquisar e construir uma obra articulada com as manifestações” (PEREIRA: 2018;115) artísticas da Semana de Arte Moderna de 1922, que avançavam por todo o território brasileiro. O ensaísta Rogel Samuel afirma que L. Ruas foi “um dos maiores poetas deste Brasil e um dos mais desconhecidos”; Mendonça  o situa, em relação ao contexto histórico-literário-brasileiro, na

linha de frente do modernismo amazonense, já em razão da participação no movimento madrugada, desde as primeiras horas, já pela notável contribuição expressa em sua poesia. Como ocorre com todos os verdadeiros artistas, poetas e escritores, L. Ruas deixa impresso, definitivamente, em toda a sua experiência convertida em expressão artística, o selo pessoal da identidade própria, chancela sem a qual ninguém pode aspirar à cidadania universal que as letras e as artes conferem a seus representantes.

E eis que sigo minha peripécia literária trazendo outra importante observação que faz Roberto Mendonça, em seu blog, a respeito da leitura da primeira obra, Aparição do clown, de L. Ruas, publicada em Manaus, em 1958, por Sérgio Cardoso Editora; depois de afirmar que a obra discorre sobre um poema crístico, ele enfatiza 

que não se trata de um poema fácil, que logo se entregue à nossa fruição. Ao contrário. Diria mesmo ser este um texto tremendamente difícil e labiríntico em seu maravilhoso hermetismo, visto que os seus vários segmentos luminosos podem, com efeito, confundir-nos (numa leitura menos atenta) e fazer-nos caminhar por seus desvios, afastando-nos, consequentemente, de seu núcleo, de seu tema fundamental, de sua significação humana e divina, assim como se, em vez da estrada real, tomássemos por atalhos que apenas nos deixassem perceber, ao longe, o rumor e as luzes da festa…

Entretanto, minha leitura caminha pelas veredas do “encantamento”, de diálogos que trago na bagagem de meus conflitos com a vida, das experiências, das vivências guardadas na “canoa do tempo” que singra rios e mares na distância de mundos. E, no intuito de lograr tal peripécia e não me desviar da “estrada real” e/ou cair nos “atalhos”, clamo à crítica literária Lourdes Louro (2014) que conforta-me a alma de leitora empírica, quando observa que 

a dialética da poesia (…) é gerada na força argumentativa e na significação que se estabelece entre leitor e texto. Também é necessário admitir que o aprofundamento da interpretação literária se dê na leitura quando os leitores são mais experientes. O texto é um grande jogo de intenções e oportuniza o leitor de experimentar sentimentos, conhecimentos, experiências ao que Umberto Eco chama de leitor empírico, porque lemos (…) com variada significação, uma vez que não há lei que determine como um texto deva ser lido e, ou interpretado.

Partindo destas observações, acima citadas, que me enchem de responsabilidade e, com base em alguns estudos literários observados, os quais serão citados no decorrer do texto, é que os apresento esta minha “leitura de encantamento”, que inicia com comentários gerais a respeito da obra em estudo, para logo passar à análise das três partes do poema por mim selecionadas: descoberta, legado e despedida. Vamos lá!

O próprio título do livro de L. Ruas, Aparição do clown, já é um convite para um mergulho nas veredas do mistério, vez que a etimologia do vocábulo “aparição” nos remete a significados como “aparição repentina”, “fantasmagórica”, ou ainda à “epifania” que abraça os conceitos de “imaterialidade sagrada” e de “manifestação do sagrado”; por sua vez o termo “clown” – que aparece no título da obra e, logo em seguida, na primeira parte do poema (descoberta) e depois é retomado nas duas partes finais da obra (doutrina e despedida) e que, nas demais partes da obra, o termo dá passo ao “palhaço” – segundo Rodrigues, em sua dissertação Aparição do clown: de um mito racional-cristão ao nascimento da poesia

equivale à expressão inglesa clod, que adaptada para o português, pode ser entendida como algo rústico, bronco, relacionado a terra, ao camponês. A expressão palhaço por sua vez, vem do termo italiano paglia, em português palha, material de que era feita a roupa de certo tipo de comediante, e tal comediante se desdobra em paggliaccio, um tipo de pessoa cujos argumentos não são levados a sério.

L. Ruas, em entrevista concedida ao O Jornal, em 10 de fevereiro de 1955, esclareceu que a escolha do termo clown se deveu ao caráter universal desta figura/personagem que, apesar de se relacionar com a figura do poeta, também faz referência a outros artistas, como escritores, pintores e teatrólogos e ainda acrescentou que esta obra “seria uma tentativa de exprimir o poético no homem” (que o homem redescubra a poesia em seu interior e a possa manifestar) , apesar de que um poema não é para ser explicado, mas para ser entendido (RODRIGUES: 2012;10). 

O livro-poema de L. Ruas, Aparição do clown (1998) está constituído por 18 partes (descoberta, discurso, resposta, aviso, romance, martírio, canção, viagem, apóstrofe, o dragão e a flor, prelúdio, coral, nênia, ressurreição do baile, retorno, legado, doutrina e despedida), as quais se complementam entre si, compondo a unidade semântica da obra; esta, por sua vez, atravessada por conceitos ideológicos cristãos, filosóficos e artísticos que se plasmam na poética dos dramas espirituais humanos através de “um discurso maduro, pleno de arquétipos e símbolos “que vão cruzar os sentimentos mais altos e mais terrenos por entre imagens escolhidas” (PEREIRA:2018;116) com o fim de canalizar importantes vozes que surgem no decorrer do poema, como o eu, o clown/palhaço e o pássaro ferido, por exemplo. André Araújo, no prefácio Interpretação do clown”, datado de 1958, que consta no livro Poesia Reunida, organizado por Mendonça, nos diz que

O milagre do destino das palavras está no mistério de seu sentido expressivo. E, no aparente obscuro dessa mística de expressão, estão a claridade dos símbolos criados e a beleza da matéria expressiva que o pensamento cria. E tudo é símbolo na vida. Quanto maior for a intimidade das forças em conflito, no homem e na humanidade, mais profundo será o mistério de cada um de nós, mais trágico será o drama da humanidade e, portanto, mais simbólica e mais mística será sua representação […] Os conflitos, as lutas, os desesperos humanos, a ânsia pela existência, todas as forças angélicas e demoníacas, têm intimidade nos mistérios de nossos destinos.” 

É nesta linha de pensamento que se baseia minha modesta leitura da obra: a dos dramas humanos, deste homem/clown que não se sacia em si mesmo, que se busca, se frustra, se alegra, comete inúmeros erros e acertos também, se desespera, se perde, se encontra para novamente dar-se o prazer de perder-se ou descobrir-se mistério e/ou poesia, um ser inconformado por natureza em contínua peregrinação pelos caminhos do mundo e que se vê refletido naquele Prometeu acorrentado em alto penedo ou no Narciso atormentado pelo reflexo do outro/ele mesmo nas águas, como tão bem observou Rogel Samuel, em seu estudo Pássaro em voo:

A descoberta do clown é a descoberta de si. O ver-se no espelho da face do outro levanta desde logo a questão reflexa do igual, que se recolhe no lago. O corpo do outro recolhe o meu mesmo transformar-se, o seu corpo de barro, seu corpo de estrelas, entre o céu e o chão se fundem o alegre riso e o triste pranto. O tempo é de metamorfose no lago da lua, tempo mítico do luar. E a referência é da Metamorfose de Ovídio, mas com a lua cheia e o lago espelho da face onde o palhaço aparece: um anti-Narciso.

Cito aqui as três partes do poema, sobre as quais me debruçarei para continuar minha leitura:

descoberta

foi no tempo do luar pois não existe sol

no velho parque − tempo não maduro –

que encontrei o sempiterno clown.

queria ver-lhe a face. e sua face

era imenso lago azul parado

onde a lua se repetia. lua.

queria ver seu corpo – um chafariz

era seu corpo de barro modelado

aljofrando de estrelas e de pérolas

o céu e o chão banhados em azul.

apenas vi o velho clown beijando

uma boneca. e beijando-a chorava.

e ria ao mesmo tempo que

o destino dos palhaços é fundir

à luz da lua o alegre riso e o triste pranto.

e vendo ser inútil o meu esforço

de descobrir integralmente o clown

eu suplicante lhe falei assim

Em descoberta, primeira parte do poema, trata do processo ou efeito de revelar algo, ou ainda aquela primeira experiência ou vivência; neste poema se dá o mistério, a descoberta que é uma ação comum à mentalidade humana. Aqui sucede a epifania do “ente sobrenatural”, o sempiterno e misterioso clown que não se revela em profundidade, pois o que ele revela é a existência do mistério não o mistério. Ele surge num tempo mítico, num tempo primitivo, num lugar sagrado: “foi no tempo do luar pois não existe sol/ no velho parque – no tempo não maduro –”, um tempo distante, indicado pelo verbo no passado “foi”, porém um tempo muito presente, indicado pelo verbo “existe”, e que é vivido pelo “eu” (com traços de homem arcaico-religioso, o que encontra (ou encontra-se) o (no) clown) através de um ritual sagrado, porque estes versos iniciais sugerem uma ideia cíclica que se repete no tempo e é capaz de regenerar o mundo. A figura do clown pode representar o princípio e o fim deste ritual, baseado em suas “aparições” no poema (RODRIGUES: 2012;29).

Esse clown (não o palhaço), capaz de fazer uma revelação, que carrega sutilezas e possui aspectos de sacralidade, é uma das primeiras fases do ritual, da qual surgirá o palhaço, já que se entende que o clown é a colocação do mistério e o palhaço, a construção. Movido pela curiosidade, o “eu” narcísico deseja ver a face do clown, porém, o que se vê é apenas o reflexo de sua face no azul parado de águas, onde a lua também se refletia (repetia), talvez uma tentativa de unir um elemento celeste (lua) a um elemento terrestre (a face do outro): “queria ver-lhe a face. e sua face / era imenso lago azul parado / onde a lua se repetia. lua. / queria ver seu corpo – um chafariz / era seu corpo de barro modelado / aljofrando de estrelas e de pérolas / o céu e o chão banhados em azul”. Esse clown é a intuição do infinitamente simples, é a intuição de uma ideia. O Autor só procurou dizer uma coisa a partir desse infinitamente simples e tentou expressar essa intuição que será capaz de gerar conceitos diversos que chega a satisfação experimentada, pelo leitor, do artista poeta. Penso que a satisfação que a arte nos fornece chega ao privilégio da filosofia assim entendida a cada instante lido com o gozo nesse mero procedimento verbal.

A aparição misteriosa do ente sobrenatural surge diante do olhar passivo do “eu” em conexão com o feminino, por meio do beijo na boneca, que, para Rogel Samuel, seria “a feminidade pansexual do velho clown (que) se contagia da “boneca” que ele beija: apenas vi o velho clown beijando / uma boneca. e beijando-a chorava. / e ria ao mesmo tempo que / o destino dos palhaços é fundir / à luz da lua o alegre riso e o triste pranto.”

Nos três últimos versos do poema, o “eu” assume uma posição mais distanciada daquilo que vê, mas, ao mesmo tempo desejoso de continuar com sua descoberta, ainda que seja consciente de sua fracassada tentativa: “e vendo ser inútil meu esforço / de descobrir integralmente o clown / eu suplicante lhe falei assim”, a partir daqui o “eu” se dirige ao clown através de um discurso conflitivo. Sobre este episódio final do poema descoberta, Rodrigues percebe que há 

a necessidade de descoberta, de conhecimento sobre algo. O clown enquanto clown parece incapaz de conduzir à unidade, à verdade, pois, como sabemos, ele é apenas a superfície, a primeira fase do ritual ou primeiro estágio do palhaço. Assim, faz-se necessário passar à outra fase, o palhaço, onde a verdade e o possível restabelecimento da ordem, a unidade, pode se encontrar.

E a verdade continua escondida. As gradações presentes no poema “seiva, água, lama” em referência ao sangue do palhaço; “carne de elefante, néctar de bonina, alma de passarinho” revelam, no primeiro caso, a passagem de um ponto positivo a outro negativo, no segundo caso, o aspecto material ao espiritual, numa indicação de que “sangue” e “carne” do palhaço refletem uma verdade que se deseja alcançar. Os símbolos presentes no poema-livro, como a “estrela” podem significar o anúncio da vontade divina, a vida eterna dos justos e ascensão celeste; o pássaro seria a promessa de alcançar o divino, onde se encontra a verdade (RODRIGUES: 2012;40). 

discurso

faz mistério palhaço

e ri teu riso esbandalhado.

gargalha palhaço e faz sofrer

os que contigo riem e sofrem

e vivem.

canta a tua ideologia tirânica 

ó clown sentenciado

para fazer chorar os que riem.

ninguém entende tua vida mascarado

que se esconde atrás da cortina

das pinturas e das vestes.

onde está tua face palhaço onde?

além do além do horizonte

nas nuvens ou atrás da máscara?

onde está teu riso palhaço onde?

no pranto que improvisas

ou na dor que não gargalhas?

palhaço.

(…)

 

todos beberiam porém teu sangue

seiva das árvores água dos rios lama das sarjetas

e comeriam tua carne que não ofereces.

carne de elefante néctar de bonina alma de passarinho.

(…)

tu gargalhas no palco o que choramos na vida.

embora te odiemos te amamos

pois te pareces com o menino que somos

e com o inferno que não deixamos de ser.

poeta de risos e de cabriolas

diametralmente opostas

teus trejeitos são a mais perfeita rima

que já encontrei para os poemas

que não escreverei.

somos crianças palhaço diante de ti

sou criança que não aprendi ainda

o que é o belo e o feio

o pranto e a galhofa.

o que é ser e o que é não ser.

pois tu és homem palhaço tu és homem.

clown desengraçado

(…)

 

legado

asas somente isso. angústia

de fugir ao destino das raízes.

túrgidas velas singrando aberto espaço.

velas do destino de colombo

partindo em quilhas quase loucas para

o mistério das virgens descobertas.

asas de ícaro vencidas pelo sol

incauto ícaro não sabias que

não é dado a palhaços ver o sol?

ah. o vôo de ícaro presente

na dança de nijinski.

asas, somente isso. desespero

de ser barro e ao mesmo tempo seta.

asas apenas sugeridas

nas curvas nos voejos nas volutas

nos mantos e nas vestes do barroco.

asas de anjos de querubins de touros

assírios. asas custódias da arca da aliança.

asas nos calcanhares de mercúrio.

asas romanas. gregas. bizantinas asas.

asas egípcias. asas de papel crepon

dos anjinhos meninas das procissões.

asas até sim asas de avião.

asas do padre bartolomeu de gusmão.

asas em queda.

pois até para cair é mister possuí-las.

belzebu tem asas. sim. belzebu tem asas.

no céu e no inferno ruído de asas tatalando.

 

asas nos pés da bailarina tola do café noturno. 

antigo sonho. desejo antigo. eterna tentação.

asas. panos soltos ao vento. gazes leves.

e os braços que se erguem as mãos que gesticulam

asas as torres ogivais as fadas e as bruxas.

asas sonoras sibilando esses

verdes azuis amarelas incolores

brilhantes e opacas grandes e pequenas

das borboletas das garças das abelhas

das plumas dos polens do orvalho

asas imponderáveis e asas de granito

dos arcanjos que guardam mausoléus.

asas. geometria rude esboço mal riscado

pelos bandos erradios de pássaros selvagens.

asas no chão. asas no céu.

asas ensaiando vôo. é somente isso

o rebento verdolengo ao romper

a espessa placenta da terra dura e seca.

asas de águia em vôos altaneiros.

asas quietas pousadas em silêncio.

Na décima sexta parte do poema, legado, o homem aparece subordinado pela força divina, vive a sina de ser pássaro sem poder voar, pássaro-homem provido de “asas em queda. / pois até para cair é mister possuí-las”. Eis o conflito humano, embora este palhaço/homem seja um ser feito a imagem e semelhança divina, este homem carrega em sua essência algo demoníaco, pois até “belzebu tem asas. sim. belzebu tem asas. / no céu e no inferno ruído de asas tatalando.” É impossível ultrapassar o limite humano, impossível descobrir o nome do pássaro ferido. E eis que o nascimento da poesia surge em despedida, última parte do poema, onde o palhaço volta a ser clown, nela o “eu” diz: “e o velho clown partiu beijando ainda / o brinquedo que a criança abandonara / no velho palco parque ou tempo sem memória”. A narrativa cíclica retorna ao ponto de partida onde tudo começou, no tempo dos primórdios, indicando que o mito foi narrado e encenado neste mesmo “palco parque”, que pode ser o palco de nossas vidas, encenadas e protagonizadas por nós mesmos. Após o término do ritual, o equilíbrio se instala e a vida pode continuar seguindo seu curso.

despedida

e o velho clown partiu beijando ainda

o brinquedo que a criança abandonara

no velho palco parque ou tempo sem memória.

No decorrer da leitura fui recolhendo tesouros, pérolas na verdade, como estas: “ser livre em essência é ser cativo”, “a ilusão é mais mortífera do que a desesperança”, “tu és homem palhaço tu és homem / (…) tu és verdadeiramente homem”. Há maiores verdades que estas ditas pelo pena do poeta? Um homem verdadeiro capaz de construir sua própria existência porque é consciente de suas fortalezas, mas também de suas fraquezas, aquele homem que é corpo, mas alma também, que é farsa e também verdade, aquele Ulisses astuto, mas que erra pelo mundo em busca do caminho de volta a casa, que é razão, mas também emoção, que olha para trás, mas que também para a possibilidade desejada de um futuro. É com esta reflexão, a de ser talvez, esse “anjo caído” e, ao mesmo tempo alado, esse “Ulisses astuto”, mas errante, que busca o equilíbrio existencial, na tentativa frustrante de unir dois polos adversos da mesma matéria, o divino e o humano, é que concluo minha “leitura de encantamento”, contextualizando com a poesia Odisseu Errante, do livro Banzeiro manso¹, de Marta Cortezão, que aborda as inquietudes pelas quais nossas vivências estão atravessadas e expostas, em viva carne, no palco da vida:

Odisseu Errante

Quando a escuridão em mim se faz,

ainda que o sol desponte radiante

perco o sono, perco o tino e a paz.

Sinto-me o Odisseu mais errante

dentre todos os mortais.

 

Cansado de astúcias e guerras,

de tantas naus e saqueios perdidos,

de tantos sonhos caídos por terra,

Odisseu de sentimentos oprimidos,

dessa grande vida procela.

Sem Destino, sem timão,

exilado em um submundo,

desprovido de toda ilusão,

Odisseu do Hades profundo

decrépito, de amargo coração.


Levianas juras e vãos amores

esvaíram-se tal água pelos dedos

carrego do mundo as dores

Odisseu dos tormentosos segredos,

isolado em belicosas torres.

 

Castigado pela ira netúnia

atormentado pelo abandono do lar

largado à própria sorte, à penúria.

Odisseu sem porto aonde chegar

e de grandes glórias estapafúrdias.

 

Onde perdi o poder da imortalidade?

Quando os triunfos viraram fardos?

Por que me abandonaram as divindades?

Odisseu de trêmulos e vagos passos,

por que tudo em ti é fatalidade?

O peso da idade me consome,

tal como ao leal amigo Argos.

Quiçá as forças não me abandonem,

quero voltar a retesar o arco,

ser Odisseu caído, mas Homem,

e reerguer-me sublime e cauto.

*Marta Cortezão é professora, escritora, tradutora e poeta. Nasceu no coração do estado Amazonas, cidade de Tefé. Participou de várias coletâneas nacionais e internacionais. Em 2017, lançou seu primeiro livro de poesias e poemas, cujo título é Banzeiro Manso. Em 2019, traduziu para o espanhol a obra O Amante das Amazonas², do escritor, ensaísta e poeta Rogel Samuel. Em 2020, tem previsto o lançamento de seu segundo livro intitulado Amazonidades Poéticas: cultura e identidade. É membro da Associação Brasileira de Escritores e Poetas Pan-amazônicos – ABEPPA e da Academia de Letras do Brasil – Amazonas – ALB/AM. Cortezão apresentou, para a seção Ler faz crescer (com algumas modificações para melhor se adaptar ao blog),  o texto com o qual participara do “Círculo Literário” sobre os vinte anos de morte de L. Ruas, no Portal Entretextos. Publicação original:

(https://www.portalentretextos.com.br/post/leitura-de-encantamento-do-livro-aparicao-do-clown-de-l-ruas?fbclid=IwAR3yzGG5q4sO4xg3flYOkrdoYMF0jyimJhBk0aHLkc8Zv5eE9n0sRUPNTww

BIBLIOGRAFIA

CORTEZÃO, Marta B. Banzeiro Manso. Gramado (RS): Porto de Lenha Editora, 2018.

ECO, HUMBERTO. Seis passeios pelos Bosques da Ficção. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

LOURO, Francisca de Lourdes Souza. Do grego Hesíodo ao Amazônida Élson Farias: mito e realidade nas camadas populares da Amazônia. Revista Decifrar. Vol. 2, n. 4, 2014.

MENDONÇA, Roberto. Aparição do clown: intérprete. Disponível em http://catadordepapeis.blogspot.com/2016/12/aparicao-do-clown-interprete.html. Acesso em: 24/06/2020.

PEREIRA, Catarina Lemas. A literatura no Amazonas: 1954-2000 – Volume II / Org. Rita do Perpétuo Socorro Barbosa de Oliveira, José Benedito dos Santos, Kenedi Santos Azevedo, 1. ed. – Rio de Janeiro: Letra Capital, 2018. 

RODRIGUES, José Alexandre Serrão. Aparição do clown: de um mito racional-cristão ao nascimento da poesia. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Amazonas (UFAM), 2012.

RUAS, L. Aparição do clown. Manaus: Valer Editora, 1998.

RUAS, L. Poesia Reunida. Org. Roberto Mendonça. Editora Travessia, 2013.

SAMUEL, Rogel. Pássaro em voo. Disponível em https://portalentretextos.com.br/post/rogel-samuel-passaro-em-voo. Acesso em 24/06/2020.

TELLES, Tenório. A poesia como metáfora do sagrado. Prefácio “Aparição do clown”. Manaus: Valer Editora, 1998.

 

¹http://www.portodelenha.com.br/
²https://traductionmartacortesao.blogspot.com/

8 de Julho de 2020

Eu, leitora e meu amor pelos livros

Posted in Ler faz crescer às 18:03 por sidneif

Por TEREZINHA MALAQUIAS*

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“Mulher Lendo” (ca.1885), de Edgar Degas (1834-1917)

O meu amor pela leitura vem desde que eu era menina. Na adolescência, sempre preferi gastar meu tempo vendo arte e lendo livros em vez de sair para comprar roupas, sapatos e bolsas. Por isso, adorava e ainda amo ir às livrarias, aos teatros, às exposições. Melhor do que ir a shopping centers.

Logo não preciso dizer que, no meu quarto, a quantidade de livros sempre foram infinitamente maior do que qualquer outra coisa. E boa parte deles ficavam, pode-se dizer, acima da minha cabeça. Isso porque coloquei estrategicamente uma prateleira na parede onde se posicionava a cabeceira da minha cama. Assim, era mais fácil de pegar um livro antes de dormir.

Quando criança, meu pai pedia para eu e meus irmãos e irmãs lermos para ele. Nesse momento, não era permitido gaguejar, e ele, ao fim das leituras, nos avaliava para ver quem estava lendo bem ou não. Detalhe: meu pai era um homem semianalfabeto, mas isso não o impedia de saber quem estava desenvolvendo melhor a leitura e quem precisava treinar mais e mais, visto que, apesar do pouco estudo, ele era dotado de inteligência e sabedoria natas.

Fui entender, um pouco mais tarde, o quanto era bom esse jeito de ser de papai, já que, na época quando tomava nossa leitura, eu, menina, não compreendia a dimensão da importância daquele gesto nobre e grandioso do meu saudoso e amado Décio Malaquias. Sou grata pelo aprendizado que tive, o qual fez com que crescesse e ampliasse a minha capacidade de entendimento e de crítica construtiva sobre tantas coisas.

Tenho, entre minhas companhias, os livros. E como amo os impressos, em todos os lugares que ando no meu lar, lá estão eles. Costumo ler mais de um ao mesmo tempo, já que, juntos e misturados, os diferentes estilos literários não me atrapalham. Gosto de marcar, com canetas coloridas, as partes que fizeram eu refletir ou lembrar de outras referências, de pegar os livros e sentir a textura, de folheá-los livremente e de pensar como foi todo o processo, da escrita ao momento que passou pela gráfica até chegar ao público.

Imagino quem escreveu ao receber o seu livro:  ver ali sua cria recém-nascida, tocá-la com as próprias mãos pela primeira vez. É muita emoção! Bem sei. Eu, como autora, publico desde 1985, tenho por enquanto seis publicações e mais dois para lançar em breve, um sobre a minha trajetória no mundo das artes na performance nesses últimos trinta anos e outro infantojuvenil, que fala de diversidade de raça pela percepção de uma menina de nove anos (sempre tenho essa mesma sensação).

Adoro tanto ler que o meu maior problema, quando volto do Brasil para a Alemanha, onde vivo, é que a mala vem abarrotada de saberes. Só lamento que sejam tão pesados, já que as companhias aéreas, para evitar os exageros, limitam o quilo das bagagens, e como infelizmente papel pesa, deixo de levar mais. Por isso e pela praticidade, leio cada vez mais E-books. Então, onde quer que eu vá, levo o meu Kindle. O bom é que nele cabe muito mais livros do que caberia em qualquer mala, sacola ou bolsa que possa carregar comigo. Quem sabe um dia, talvez, com o tempo, aprenda a gostar dele tanto quanto gosto dos impressos. Isso, só o futuro dirá.

Moro em Freiburg e sinto falta de poder ouvir meus sobrinhos e minhas sobrinhas lerem, assim como o meu pai fazia comigo e meus irmãos. De levá-los às livrarias e aos eventos literários, como a Feira e a Bienal do livro de São Paulo. Aqui, anualmente vou sozinha a Feira do Livro de Frankfurt.

Desde que comecei a escrever, sempre procurei estimularas pessoas a lerem e a escreverem. Principalmente as crianças e os jovens. Eles são o futuro, e é fundamental que tenham discernimento para construírem uma sociedade mais igualitária e plural. Afinal, quem ganha somos nós com essa prática saudável e necessária.

Um dos motivos do meu bem-querer aos livros, à leitura e, claro, à escrita é justamente o incentivo ao conhecimento. Pois creio que ele impulsiona o exercício de se pensar de forma crítica para que lutemos e exerçamos a nossa liberdade e cidadania, para que ocupemos espaços e debatamos sobre determinados temas que são cruciais a tanta gente. Além do mais, agrega, organiza ideias, gera sentimentos e criatividade, quebra barreiras comportamentais. Fora o prazer que dá ao percorrer narrativas de vidas vividas, sonhadas ou contadas.

Todo esse meu amor pelos livros também expresso, como artista plástica e performer, ao levar para as artes que faço as minhas inquietações e dores que ainda nos dias de hoje são embates universais. Para tanto, tento dar vasão a diversas formas de representatividade, a começar por mim; eu, mulher num corpo negro que só pelo fato de o ser é político, porque existi e resisti num mundo machista, misógino e racista. Logo, o meu atuar e tudo que escrevo e executo retratam a realidade que vivo e vejo cotidianamente. Logo, os meus atos-ações dilaceram no ensejo que me enxerguem, que me ouçam, porque a reivindicação não é só minha, mas de milhares de pessoas que foram e são invisibilizadas, que são colocados à margem, e às quais procuro dar voz. E elas são a força motora que fazem com que eu grite, em versos e com o corpo, as injustiças que vivemos.

 

*Terezinha Malaquias, escritora, poeta, modelo vivo, performer e pintora. É Artista formada pela Edith Maryon Kunstschule Freiburg, na Alemanha, onde vive atualmente.

29 de Junho de 2020

Os semblantes da palavra

Posted in Ler faz crescer às 17:14 por sidneif

Por JENNIFER TRAJANO*

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“Figura de Mulher” (1954), de Djanira (1914-1979)

Os mundos possíveis proporcionados pela literatura abarcam de tal forma o nosso imaginário que rimos, choramos, nos identificamos com o enredo, assinamos com toda a nossa bagagem o que Umberto Eco chama de pacto ficcional. Há livros que nos envolvem durante o ato de leitura, porém não submergem de forma profunda, não a ponto de nos fazerem lembrar certos detalhes e associar — muitas vezes sem querer — fatos externos à ficção após tantos anos. 

De todos os romances lidos até agora, mesmo tendo passado pela utopia de Don Quijote (Miguel de Cervantes), percorrido as Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), entendido A desumanização (Valter Hugo Mãe), chorado com as esperanças de algumas Vidas Secas (Graciliano Ramos) e subido no trem da Contravida (Augusto Roa Bastos); nenhum desses mundos marcou da mesma forma que os passados Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. 

Lembro a época em que li, ficando encantada com a ideia da árvore genealógica posta antes do início narrativo, com tantos nomes parecidos e ligações complexas. Só pelo título já fui “direcionando” o imaginário, afinal, gostaria de saber de quem ou do quê eram os cem anos. Já na primeira linha há spoiler (“Muitos anos depois…”) e fiquei curiosa a fim de descobrir sobre o Coronel Aureliano Buendía, como ganhou tal patente, por que seria fuzilado, por qual motivo lembrou da tarde com seu pai, que gelo seria aquele. Obviamente fui associando, mas outras ligações eram distantes, portanto não percebi no primeiro momento, só na sempre surpreendente segunda leitura.  

Escolho esse romance por ser cheio de “vazios” — termo utilizado pelo teórico literário alemão Wolfgang Iser —, pois deixou lacunas, não ditos, e até hoje ainda me impressionam alguns trechos sem respostas explícitas, mesmo que o narrador tivesse avisado ser o assassinato de José Arcádio “um mistério que nunca se esclareceu” ou, em caso análogo, as mortes de todos os Aurelianos.

O enredo me teceu de maneira tão peculiar que, por exemplo, quando vejo alguma borboleta amarela hoje em dia associo ao anúncio da presença do personagem Mauricio Babilonia, por quem Meme se apaixonou. Não consigo mais vê-las voando por acaso, pois sempre a memória amarela do livro vem à íris, cheia de cor. Isso porque a palavra possui muita força, carrega faces. Essas são capazes de fitar os olhos do imaginário e mostrar, marcar a alma.

Já li muita coisa de escritores europeus, africanos etc. e a última autora de literatura norte-americana que conheci foi Toni Morrison. A busquei, vale ressaltar, por ter visto uma frase num texto de Homi Bhabha (O local da cultura) sobre identidade: “Quero que você me toque no meu lado de dentro e me chame pelo nome”. Menciono tal trecho porque as ficções que mais me chamaram pelo nome são latino-americanas. É uma fuga inevitável. Elas convidam, olho e vou com todo meu repertório. É um toque mesmo, num tom silencioso, a ponto de só me ouvir sentida pelo nome. 

Constato, desse modo, que existe alguma coisa nos escritos feitos ao sul do Equador capaz de movimentar o meu silêncio. Talvez o belo esteja nisso. Cem anos de Solidão movimentou e às vezes me encara novamente, me chama pelo nome, assim como as borboletas amarelas anunciavam à Meme a chegada de Mauricio Babilonia, em sensação difícil de descrever.

 

*Jennifer Trajano, Natural de João Pessoa e autora do livro de poemas “Latíbulos” (Editora Escaleras, 2019), Jennifer Trajano é paraibana, professora de língua portuguesa e revisora textual. Faz parte de antologias poéticas nacionais: “Senhoras Obscenas” (Editora Benfazeja, 2016); “Damas Entre Verdes” (Edições Senhoras Obscenas, 2018); “Haicais e poemas curtos” (Editora Venas Abiertas, 2018); “Um girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco” (Quintal Edições, 2018).   

25 de Junho de 2020

Memorial de leitura

Posted in Ler faz crescer às 17:09 por sidneif

Por ROBERTA COLEN*

1952.046

“Narradora” (fim da década de 1880), de Walther Firle (1859-1929)

Meu nome é Roberta Colen Linhares, tenho 42 anos, nasci em Belo Horizonte, sou a filha mais velha, tenho um irmão e uma irmã. Sou casada, tenho um filho de 18 anos e uma filha de 16 anos. Este memorial é o relato do resgate da minha experiência leitora desde a mais tenra idade até os dias atuais. 

As anedotas do meu pai foram o meu primeiro “leitinho literário”, as narrativas sarcásticas povoadas de juízo de valor, que eu não sabia que eram preconceitos. Eu não identificava o racismo porque não sou negra, então eu ria. Eu ria do estereótipo afeminado do homossexual, porque não sou gay. Eu achava engraçado associar a burrice ao povo português, porque eu não sabia que eu também descendia deles. Eu ria da piada da loira, do aleijado, do gago, do cego, do retardado. Até que um dia, eu me descobri mãe de um filho com autismo. Ele me ensinou que não preciso ser negra, loira, deficiente, imigrante, gay ou ter algum familiar que seja para não achar engraçadas as piadas sem graça do meu pai.

Desde criança tive acesso à leitura literária, ganhava livros de presente dos meus pais, tenho alguns até hoje em perfeito estado e me emociono quando estou com eles! Quando entrei no Jardim de Infância Girafinha Feliz, a “tia” da escolinha percebeu que eu estava lendo. Em comum acordo com minha família, decidiram que eu deveria avançar para o pré-primário e, antes dos seis anos de idade, eu fui alfabetizada pela querida Professora Arilza. Diariamente, assistia, pela TV, a Dona Benta contar histórias no Sítio do Picapau Amarelo e a Bia Bedran no programa “Senta que lá vem história”, e era um deleite! O Caminhão Biblioteca visitava o meu bairro (que não tinha biblioteca pública) de quinze em quinze dias, e eu era feliz demais lá dentro! Ficava ansiosa para ler e trocar os livros por outros quando retornassem! Na catequese católica, conheci superficialmente alguns trechos de textos bíblicos e percebi a minha falta de intimidade com aquelas palavras e com o contexto histórico da época. Esses fatores me impediram uma leitura mais profunda, e, apenas na idade adulta, alguns textos me impactaram, me interessaram ao ponto de eu iniciar a leitura de algumas obras escritas por padres. Um desses livros é Oração de amorização, do padre Alírio José Pedrini. 

No primário, eu era a aluna que gostava de ler em voz alta quando a Professora pedia para alguém ler. Adorava a coleção Vaga-lume, e o livro que mais me marcou foram O caso da borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida, no ginásio mergulhei em Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva, no segundo grau o universo da leitura me apresentou obras como Triste fim de Policarpo Quaresma,  de Lima Barreto, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, Dom Casmurro, de Machado de Assis, além das leituras técnicas voltadas ao exercício do magistério, como A importância do ato de ler, do nosso grande Paulo Freire. 

No período de 1991 a 1994, estudei no Colégio Municipal de Belo Horizonte como aluna do curso de Magistério, e foi lá que ouvi pela primeira vez que a leitura de mundo antecede a leitura de letras e palavras. No pátio do colégio, havia uma árvore grande, e em volta do seu tronco, junto ao piso, um banco de concreto. Um dia, uma das nossas Professoras levou a turma para o centro do pátio, e nós fizemos o exercício de leitura do mundo. Lemos cada porta, janela, cadeira, árvore, corredor, placa, quadra, escada, cada cantinho daquele lugar, ela dizia que era para imaginarmos uma etiqueta, na qual estava escrita a palavra que nomeava cada uma daquelas coisas, e depois ela seria mentalmente fixada como se fosse um crachá. O ensino público do colégio era muito bom! Lembro com saudade das aulas de Francês e Música tocadas no piano do Auditório! Tínhamos Professores excelentes, pena não me recordar do nome de todos, apenas do brilhante Professor Rogério, de História, e da Professora Eliane, de Biologia!

Sempre amei os sons das letras, as pausas, as onomatopeias, vírgulas, reticências, tinha facilidade para leitura, escrita e interpretação de texto, porém, desde os quatro anos de idade, meu pai me levava ao escritório em que ele trabalhava e me colocava sentada na cadeira atrás da mesa dizendo: “Um dia você será minha secretária!” Eu, criança, sorria. Ouvi essa fala durante toda a infância, era como se o meu destino já estivesse traçado. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, respondia prontamente: “Secretária”. Aos 12 anos, fiz Curso de Datilografia no Centro Social Urbano do meu bairro, era gratuito, e meus pais me inscreveram nele pensando no meu futuro. Não tinha máquina de escrever, mas a habilidade de datilografar, com certeza, foi muito válida para, posteriormente, aprender a digitar com rapidez. Então, aos 17 anos, no 1° vestibular, escolhi Secretariado Executivo e Bilíngue, acho que para não decepcionar ao meu pai e cumprir a sentença dada. Fiz estágio com auxiliar administrativo, o que me possibilitou realizar um curso de computação muito bom e custear meus estudos. Não consegui concluir a graduação, não era o que eu queria, me sentia um peixe fora d’água apesar de gostar muito das aulas de Sociologia do Professor Flávio Sapori.

Voltei a ter contato com a leitura literária quando me tornei mãe, lia para as crianças todas as noites no ninho, e o nosso primeiro livro juntos foi A casa sonolenta, de Audrey Wood, depois vieram muitos outros (ainda temos todos guardados como um baú de tesouros!). Há três anos, conheci, por meio do meu filho mais velho, Arthur, o conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”, do livro Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa. Recentemente, eu e minha filha caçula, Isis, estávamos lendo Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus. Há alguns anos, lemos juntas toda a série de livros Fala sério, da Thalita Rebouças.

Em 2012, o foco da minha leitura passou por uma mudança brusca a partir do momento em que o autismo invadiu nossas vidas sem a menor delicadeza, submergi no ambiente virtual e me dediquei a ler tudo que havia na Internet a respeito do Transtorno do Espectro Autista. Não sabia o que era e nunca havia ouvido falar. Nessa pesquisa insana, encontrei textos variados, artigos, leis, relatos pessoais, obstinada em encontrar uma espécie de manual de como ser mãe de uma criança autista. Não encontrei. Não existe. Com o passar dos anos compreendi o que o grande Educador Paulo Freire escreveu: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra.” (p.9) Era preciso primeiro “ler” o meu filho, decifrar “aquele mundo”, porém sem um código de barras, sem rótulos, sem regras, sem padrão. A partir daí fui emergindo de volta à superfície do cotidiano, ampliando meu olhar, e minha leitura de mundo nunca mais foi a mesma.

No ano de 2014, soube que havia curso para aprender a Arte de Contar Histórias no Instituto Cultural Aletria, e fazê-lo foi como me reconectar comigo mesma. Desde então, tenho o privilégio de estar em contato constante com a literatura infantojuvenil, a tradição oral mundial e de pesquisar contos, poesias, histórias para sensibilizar a inclusão social da pessoa com autismo. Neste sentido, há algumas leituras que tenho um carinho especial: Meu amigo faz iiiii, de Andréa Werner, Daniele, Asperger, de Victor Mendonça, A vaca que botou um ovo, de Andy Cutbill, além de alguns textos de Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés, e das poesias de Manoel de Barros. Sinto que encontrei meu lugar de fala.

De 2016 a 2019, estudei Letras EAD pelo Centro Universitário Claretiano e, dentre diversos autores, tive acesso a críticos literários como o nosso grande Antônio Cândido, porém não me sentia preparada o suficiente para a responsabilidade da docência. Em 2020, meu filho mais velho, Arthur, passou no vestibular na PUC Minas, iria começar a estudar no primeiro semestre do ano, e quis o destino que o curso de Letras e o de Ciência da Computação fossem na mesma unidade e no mesmo turno. Não pensei duas vezes, me matriculei na modalidade presencial e aqui estou a me desafiar novamente, a me reinventar como aprendiz, estudante, encantada pelo saber e pela leitura!

Para encerrar peço licença para fazer uma citação: “Para o crítico literário Jorge Luís Borges, ao definir o ato de ler como um processo produtivo de novos significados, ele reavalia a noção de autoria, colocando o leitor como coautor. A leitura é uma forma de reescrita interminável, pois cada leitor cria novos significados para cada obra. A obra adquire vários significados nos diversos atos de leitura. O significado de uma obra acontece na relação com o leitor” (GAIA, 2018).  É nisto que eu acredito.

Referências: 

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989. 

GAIA, C. Literatura Comparada. Batatais: Claretiano, 2018. Unidade 1.

 

*Roberta Colen, mineira, contadora de histórias, forma com a arte-educadora Tatiane Moreira o grupo Filhas da Terra – Contadoras de histórias e é graduanda do Curso de Letras da PUC-Minas. O texto acima foi escrito originalmente para a disciplina Leitura e Escrita do mesmo curso e foi, gentilmente, indicado pela autora para fazer parte da seção Ler faz crescer.

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