21 de Março de 2019

A arte de ler nacionais

Posted in Ler faz crescer às 16:54 por sidneif

Por BRUNA MENEGUETTI*

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“Scène brésilienne” (1937), de Di Cavalcanti (1897 – 1976)

Ler é um ato de escolha: toda vez que abri um livro estava escolhendo não abrir outro. Por isso mesmo, a arte de ler tem relação com a arte de escolher — que possui relação com gostos e referências. Assim, não é de se espantar que eu tenha demorado muito para começar a ler autores e autoras nacionais e que poucos dos que leem este texto tiveram contato com os brasileiros.

Talvez isso se explique pelo nosso complexo de vira-lata ou talvez seja apenas uma falta de incentivo, de conhecimento. As únicas referências que temos, quando adolescentes, são de autores brasileiros homens já mortos, cujas obras somos obrigados a engolir no ensino fundamental e colegial. Alguns poucos vão gostar dessa leitura, a maioria não. Mesmo os poucos irão achar, talvez por muito tempo, que a literatura nacional se resume àquela meia dúzia de autores antigos do vestibular.

Somamos isso ao fato de que a maioria das editoras não aposta nos autores e autoras nacionais atuais que escrevem ficção. Entra o dilema: não apostam porque vende pouco ou vende pouco porque não apostam? De qualquer forma, esses livros escritos por brasileiros dificilmente chegam à bolha do leitor, a menos que este seja incentivado ou levado ao acaso para sair dessa bolha. No meu caso, fui movida por uma curiosidade pessoal: quando comecei a escrever profissionalmente, não apenas como hobby, decidi procurar quem estava fazendo a literatura nacional hoje. Porém, quantos caminhos tortuosos como esse existem até alguém chegar a algum autor ou autora brasileira? Incontáveis, e talvez esse texto seja um deles.

Ler autores nacionais significa navegar por territórios pouco conhecidos, mesmo de pessoas já mortas, como Maria Firmina dos Reis, uma das primeiras escritoras negras do Brasil e primeira autora abolicionista da língua portuguesa. Com seu romance Úrsula, a autora escancara a escravidão convidando o leitor para saber mais sobre a história do país e como muitos dos pensamentos de antigamente ainda estão arraigados. Quem também fala sobre a história brasileira é Fred Di Giacomo, autor vivo, que conta em seu livro Desamparo sobre uma cidade brasileira sempre machucada pela violência.

Podemos ler ainda Deborah Dornellas, autora reveladora de uma Brasília recente, dos anos 90, em seu livro Por cima do mar. Nele, Dornellas demonstra claramente o que significa ser pobre e negro no Brasil, esmiuçando as diversas fases da vida de uma mulher. Também Maria Valéria Rezende, com seu livro A face serena, revela por meio de contos as etapas da vida: infância, adolescência, fase adulta e velhice são permeadas de um tom irônico incrível. Ainda na pegada dos contos, podemos ir atrás de outra autora maravilhosa e que demorou muito para despontar com edições de peso nas prateleiras: Lygia Fagundes Telles, com Os contos.

Para quem gosta de poesia, temos Pedro Tostes com Na casamata de si, que traz, principalmente, temas políticos. Já Geruza Zelnys fala sobre a nossa própria casa, uma morada interior também é desenvolvida no seu Quintais. Na parte de quadrinhos, temos o incrível Angola Janga, de Marcelo D’Salete, que conta a história do Quilombo dos Palmares. Ou ainda podemos falar de Alexandre de Maio, que fez jornalismo em quadrinhos, no livro Raul, para contar a biografia de um criminoso que aplica golpes bancários.

Foram livros como esses que me marcaram nos últimos anos e marcaram justamente porque eram vozes que falavam diretamente de dentro, de onde eu estou. Creio que o mesmo pensamento que Paulo Emilio Salles Gomes tinha sobre cinema pode ser transportado para a literatura, algo que poderia ser condensado na seguinte frase: “O pior livro brasileiro diz mais de nós mesmos do que o melhor livro estrangeiro”. Dizer isso pode soar demasiadamente determinista. Está certo que nem sempre é assim, mas o leitor deve compreender que, em algum momento, precisa encontrar vozes que falam do lugar em que ele está para poder construir um melhor pensamento crítico sobre esse mesmo local.  

São em livros de autores e autoras nacionais que surgirão muitos dos questionamentos sobre a sociedade atual brasileira, identificação com temas e personagens cujos problemas são os mesmos que os seus ou os vistos em sua família, ou vivenciados na rua da sua casa, com amigos. São textos assim que vão falar sobre a nossa política (algo de certo jamais visto em qualquer outro lugar do mundo num período tão curto de tempo); nossa cultura plural, que rende muito pano para manga em livros de fantasia; nossa língua, tão diversa e que sempre vai ter a sua maneira própria de expressar certas coisas; nossas ruas, locais de encontros e paraísos perdidos reais, que se tornam palpáveis e, muitas vezes, reconhecíveis para nós.

É importante lembrar também que os escritores e escritoras brasileiros são os responsáveis pelo registro da época atual e por olhar épocas passadas com o intuito de pensar sobre as recentes. Dessa forma, ler sobre as rainhas em seus castelos glaciais é interessante e, claro, traz muito conhecimento, mas não podemos negar as rainhas que tinham que lidar com a poeira e o calor tropical daqui, pois elas explicarão muito mais sobre como se formou a realeza, os papéis sociais e quais foram os seus desdobramentos.

Ler esses escritores e buscar mais sobre a literatura nacional foram experiências que me mudaram e que me moldam todos os dias. Muito do que escrevo e do que penso atualmente veio desses livros, de conversas com quem escreve também. Outro lado positivo de ler brasileiros é justamente essa possibilidade: as autoras, os autores estão próximos de você, é possível perguntar a eles sobre temas, conversar sobre a obras, participar de rodas de leituras em que essas pessoas estarão presentes. E, fico pensando, por que não aproveitar este privilégio? São escritores acessíveis, você pode abraçá-los, pegar autógrafos, prestigiá-los enquanto estão vivos.

Dê uma olhada nos autores mortos da sua prateleira, aqueles que desejaria ter conhecido. Pois bem, todo passado é feito do presente. Aproveite isso, esses artistas precisam de apoio em um país que incentiva tão pouco a cultura e em que tão poucos a consomem. Os editores que apostam nessas pessoas precisam de leitores e estão sempre lutando por um pouco da sua atenção. Lugares como Editora Patuá, Editora Reformatório, Editora Moinhos, Editora Penalux, Editora Nós, Não Editora, Editora Quase Oito, Giostri Editora, CEPE Editora, Faro Editorial, Editora 7Letras, Editora Quelônio, Editora Quase Oito, Confraria do Vento, Editora Illuminuras, Editora Veneta, Desconcertos Editora, Editora Oito e Meio, Editora Instante, Atêlie Editorial, Tinta da China, muitos dos quais já receberam diversos prêmios literários importantes por livros publicados, precisam ser cada vez mais notados e conhecidos.

Até mesmo editoras grandes com catálogos interessantes de escritores brasileiros e brasileiras, como Todavia, Companhia das Letras, Record e Rocco merecem ter seus autores e autoras nacionais percebidos com mais carinho. Com isso, deixo também uma boa lista de editoras que podemos seguir nas redes sociais e acompanhar os lançamentos, além de um pedido: na próxima vez que for praticar a arte de escolher livros, lembre-se da arte de ler nacionais.

*Bruna Meneguetti, jornalista e escritora. autora de “O céu de Clarice” (Amazon, 2017), “O último tiro da Guanabara” (Reformatório, 2019) e coautora do livro-reportagem “Corações de asfalto” (Patuá, 2018).

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A leitora que habita em mim

Posted in Ler faz crescer às 16:51 por sidneif

Por MAYA FALKS*

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“A taça de chá” (1935), de André Derain (1880-1954)

Parece estranho dizer, mas minha experiência como leitora começou bem antes da minha alfabetização. O batalhão das letras, meu primeiro livro favorito. Esse livro foi tão fundamental na minha formação como leitora e escritora que homenageei seu autor, Mário Quintana, com uma tatuagem do célebre verso “Eles passarão, eu passarinho”. Por essa época, minha incapacidade de ler me fazia criar minhas próprias histórias através das ilustrações.

No início da juventude, migrei para as histórias eletrizantes de Pedro Bandeira e os diversos autores da coleção Vaga-Lume, certamente os maiores responsáveis pela formação de leitores nas décadas de 80 e 90.

Aos 14 anos descobri Gonçalves Dias. Já desde antes tinha algum apreço pela poesia nas letras de Augusto dos Anjos e Manuel Bandeira, mas Gonçalves Dias virou meu mundo de cabeça para baixo. Lembro-me de que, uns poucos anos depois da descoberta, encontrei um livro de obras completas do poeta com capa de couro que custava praticamente o que eu ganhava por mês de salário, mas não hesitei na compra, e é até hoje meu livro de cabeceira.

Comecei a escrever minhas primeiras poesias muito antes de descobrir Gonçalves Dias e sofro até hoje muito mais influência de Augusto dos Anjos do que dele, mas o romantismo brasileiro deixou de ser meramente um período literário pra mim para ser meu grande divisor de águas.

Como jovem adulta, desviei do caminho dos clássicos e parti para a lista dos mais vendidos, os mais evidentes nas vitrines e gôndolas. Li Nora Roberts, Danielle Steel, Dan Brown até cair de paraquedas em Carlos Ruiz Zafón. A sombra do vento foi o primeiro livro que eu terminei incapaz de descrever o tamanho da experiência que eu tinha vivido. Logo depois dele veio uma leva de outros livros com esse mesmo sentimento que foram me levando, pouco a pouco, a um caminho muito mais artístico do que comercial.

Hoje, embora não tenha preconceitos com leituras, tenho me focado muito mais em conhecer o trabalho dos amigos que fui conquistando no mercado literário. Leio Natalia Borges Polesso, Jarid Arraes, Rosângela Vieira Rocha, Maria Valéria Rezende, Cinthia Kriemler, Aline Bei, Mariana Basílio, Micheliny Verunschk, Leticia Wierzchowski, Tiago Germano, Thiago Medeiros, Conceição Evaristo, Ana Miranda, Pilar Bu, Germana Zanettini, Débora Ferraz, Lilia Guerra, Fábio Fernandes, Deborah Dornellas, Andri Carvão, Daniela Arbex, Nil Kremer, Jaque Pivotto, entre muitos outros que vou conhecendo diariamente e que ocupariam uma página inteira se citados um a um (espero que me perdoem!).

O mágico da literatura — principalmente a contemporânea — é que há leitura para absolutamente todos os gostos. Os citados acima, por exemplo, são extremamente diversos, não atendendo apenas a um estilo literário. Tem contos, crônicas, poesias, romances, livros-reportagem, livro histórico, ficção científica e temas tão variados que torna a leitura, indo de um para outro, ainda mais fascinante.

É essa diversidade imensa que marca meu gosto como leitora a principal responsável pela minha escrita ser flexível. Embora meus textos tenham uma marca própria, é esse contato com tantos mundos diferentes que me permite brincar com as narrativas e tornar mais rica a minha literatura.

 

*Maya Falks, escritora, publicitária e jornalista. Autora das obras “Depois de Tudo” , “Versos e Outras Insanidades”, “Histórias de Minha Morte” e “Poemas para Ler no Front”.

Ler sem entender

Posted in Ler faz crescer às 16:43 por sidneif

Por LUCIANA CAÑETE*

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“The Reader” (1926), de Juan Gris (1887-1927)

Abrir um livro me acompanha como memória das mais antigas. Lembro-me do finado Círculo do Livro¹ e do vendedor que trazia uma mala cheia de desejos e capas coloridas, da minha mãe negociando e levando uma coleção inteira pra minha alegria e de minhas irmãs. Lembro da estante do quarto dos meus pais, de estar deitada na cama e ler, quase que diariamente, os títulos das lombadas sonhando com o dia em que teria idade para acessar as histórias escondidas ali. Alguns daqueles livros li e tenho na memória a sequência título/autor que passava e repassava mentalmente deitada na cama, como se as prateleiras fossem as linhas de uma página: Os Ratos –  Dyonélio Machado, Mutações – Liv Ullmann, A brincadeira – Milan Kundera, Mulher daqui pra frente” – Marina Colasanti.

Na minha experiência  singular e individual, como costuma ser toda a experiência de um leitor assíduo, poder ler sempre foi um desejo e representava um ritual de passagem, a cada etapa do amadurecimento, os livros iam ficando mais pesados, mais grossos, letras menores e menos imagens. Abrir um livro sempre foi um ato de coragem pra mim, como se me pusesse a atravessar um vasto mar desconhecido. Quanto mais desconhecido melhor. Ir cingindo, sentada entre as páginas abertas, ondas e mais ondas de frases às vezes fáceis, outras nunca compreendidas. Nisso sempre morou meu gosto pela leitura: muitas coisas que li nunca entendi, continuo sem entendê-las e ainda assim gostei de ter lido, gostei do mistério de não ter compreendido.

Saindo do geral e mergulhando no particular, algumas leituras em especial me marcaram e gostaria de falar delas. Algumas, porque em geral a leitura me marcava, a boa leitura deixa coisas e leva outras. Sem ordem cronológica, de maneira aleatória, vou falar das que me vierem livremente na memória, como flashes.

Lembro de que quando comecei a faculdade, me enfiei na biblioteca da Reitoria da UFPR [Universidade Federal do Paraná] e catei um livro bonito, uma capa com umas ilustrações tipo cordel: Manuelzão e Miguilim, Guimarães Rosa. Nunca tinha lido este ilustre autor nem sabia bem do que se tratava, só que era famoso. Comecei a esmo, por este volume, e depois li, reli e tenho (orgulho da biblioteca particular) a obra completa. Um deslumbre de linguagem, eu ia nadando naquela sintática e semântica sem compreender muito, quase me afogando. Eis que de repente, eu enxergava a cena, eu entendia o que se passava, eu me identificava com Miguilim. Havia algo de intuição no entendimento daquela maneira de escrever que eu nunca experimentara antes com a literatura.

Eu devia ter 9 ou 10 anos, meu pai era leitor voraz, e minha mãe também era. Mas meu pai era quem comprava livros. O título era Fernão Capelo Gaivota (de Richard Bach),  e foi a primeira vez, com honra e orgulho, que meu pai pôde me emprestar o livro que acabara de ler. Eu iria ler o mesmo livro que meu pai, adulto, homem, psiquiatra lera. Eu, uma menina de 10 anos. Entendi em partes, desentendi muitas frases, parágrafos inteiros, mas li. Depois discutimos sentados na mesa da cozinha a vida transgressora de Fernão, seu ímpeto de liberdade, e o que isso tinha a ver conosco. Para isso, também, passamos as horas de reclusão e solidão da leitura, para compartilhá-la depois. Falar da leitura é tão importante quanto ler, compartilhar a leitura é continuar o seu entendimento para além do objeto livro.

Tínhamos um armário no corredor de casa, de fórmica branca, com puxadores de metal quadrados. As portas faziam um barulho especial ao abrir. Ali ficava uma caixa com a coleção de livros que minha mãe comprou do vendedor do Círculo do Livro. A gente alcançava facilmente o armário, tirava todos os livros da caixa e os lia e relia. Lia e relia. Aventura no escuro (de Jane Carruth) era o meu preferido, Toquinho, o personagem principal se perdia na floresta e passava a noite lá. Via monstros que, ao amanhecer, se revelavam apenas troncos velhos de árvores. Que alívio! Eu vivia com Toquinho a alegria de vencer os medos.

Num certo momento da vida comecei a devorar biografias, coisa que nunca tinha me interessado antes. Li a da Maitê Proença por acaso, porque saindo às pressas para viajar percebi que não tinha separado nenhum livro e essa biografia estava sobre a prateleira do quarto na hora de sair. Li com certo preconceito e resistência, mas gostei. Gostei de mergulhar na tragédia do outro, gostei de ver a vida de outra mulher em palavras. Na sequência, li a da Frida Kahlo, a da Clarice Lispector, a do Oliver Sacks.

Recentemente, tenho lido muita poesia e histórias infantis (se é que existe isso…) para minha pequena leitora em formação. A leitura me ajudou. No bom sentido, a leitura é autoajuda. A gente se debruça sobre aquilo que lê e, no esforço de entender, se entende. A gente carrega o que não compreendeu de imediato e às vezes vivendo, numa epifania, vem a frase, a cena incompreendida e a vida nos ajuda a entendê-la. Ou ao contrário, num momento de incompreensão, nos assalta uma frase compreendida de uma leitura e nos pesca do nosso desentendimento. Ou ainda, morremos admirando uma fala de um personagem, sem nunca alcançar o seu real mistério. Porque nos fazer amar o incompreensível também é papel da leitura.

 

*Luciana Cañete, professora, tradutora e poeta. Autora de “Meu coração bate e às vezes me espanca” ( Multifoco, 2009,).

  1. Círculo do Livro foi um projeto formado pelas editoras Bertelsmann (Alemanha) e Abril que funcionava no esquema de catálogos. Iniciado em 1973 e encerrado na década de 1990, o projeto chegou a contar com 800 mil associados  no seu auge.

Nossa vida em muitas direções

Posted in Ler faz crescer às 16:33 por sidneif

Por PATRÍCIA NIEDERMEIER*

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“Das lesende Mädchen” (1848), de Johann Georg Meyer (1813–1880)

Eu amo os livros, eu gosto de tocar neles, de sentir o cheiro. Eu gosto do objeto, eu gosto de ter uma relação afetiva com o livro — de chorar junto com ele, de abraçá-lo, de carregá-lo na bolsa, de levá-lo comigo. Não consigo ler e-book e essas coisas porque eu, realmente, preciso ter essa relação física com o livro.

Eu sou apaixonada pelo [Franz] Kafka.  Fiz 3 trabalhos¹ de teatro inspirados na obra dele. Ele é uma grande influência na minha vida, uma inspiração. Ele sempre está comigo. Há até um capítulo do meu filme “Salto no vazio” que é todo inspirado na minha relação com o Kafka. No filme, eu o procuro em Praga. Ele me indica o caminho, existe todo um diálogo afetivo, uma geografia afetiva ali com Kafka, com a cidade dele, com os livros dele, com esse universo.

A Virginia Wolf é também uma grande influência na minha vida  artística, na vida pessoal, na minha alma. É uma grande escritora, uma feminista, uma mulher imensa, forte, inspiradora, corajosa. Eu amo também os livros delas, montei Orlando, que foi um grande desafio na minha vida, um grande desejo. A peça depois  virou um filme “Orlando — ou um impulso de acompanhar os pássaros até o fim do mundo!” (2012).

Posso dizer sim que Kafka, Virginia basicamente são os autores que eu amo. Também gosto muito do Paul Auster, mas é diferente a relação . Eu até encontrei -o em Nova York. Foi meio estranho porque você lê os livros da pessoa, você tem, com ela,  intimidade literária, ela fala da vida dela nos livros e aí você  a encontra.  Na verdade é um estranho. Mas eu adoro a literatura dele, acho o Auster um grande artista e também muito inspirador.

Os livros abrem caminhos, emocionam, abrem a nossa alma,  expandem a nossa vida em muitas direções, e agradeço a eles por isso. O  escritor [José Eduardo] Agualusa fala de uma livraria [Altair] na Espanha (Barcelona), que conta  com muitos livros, muitos atlas, acho que os livros levam mesmo a gente a lugares desconhecidos.

 

*Patricia Niedermeier, atriz e diretora.

  1. A atriz se refere as peças  A construção; Comunicado a uma academia Odradek. Ainda no universo de Kafka, Niedermeier participou, também,  de Construções, peça baseada no conto A toca.

15 de Março de 2019

Meus portais

Posted in Ler faz crescer às 17:08 por sidneif

Por APARECIDA VILAÇA*

downloadImaginando esse texto, oscilei entre contar algo sobre as leituras que me abriram o mundo dos livros ou falar daquelas que têm me fascinado nos dias de hoje. Optei pelos dois e me surpreendi com a continuidade de meus interesses ao longo de cinquenta anos como leitora.

Fiz parte de uma geração de crianças que não tinha à sua disposição muitos livros destinados a nós, com exceção de algumas enciclopédias, como O mundo da criança (Editora Delta, 1949), recheada de pequenas histórias, cantigas e poemas. Tenho até hoje todos os seus volumes guardados, em suas encadernações vermelhas com as lombadas listradas de vermelho, branco e preto, escritas em letras douradas; na capa, somente singelos desenhos coloridos, sem letras. Na minha memória, entretanto, eu não os lia diretamente, pois era pequena demais para isso, e me encantava ao ouvir os versos na voz de minha mãe, que me mostrava os desenhos que os acompanhavam. Havia um deles sobre “gatinhos sapecas que perderam as suas luvinhas” e outro sobre uma casa em uma bota, onde vivia uma numerosa família, de que não me esqueço.

Mas foi ao receber de presente Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, que meu mundo realmente se abriu, pois aos poucos me dei conta de que, bem devagarzinho, eu conseguia ler o que estava escrito ali. Era uma edição da Brasiliense, com uma capa dura de fundo amarelo quase totalmente coberta pelo rosto de Narizinho, olhando para cima, para um peixinho vestido de fraque, com quem ela havia se casado. Juntamente com Narizinho, Emília, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa, dona Benta e tia Nastácia tornaram-se tão reais quanto os meus vizinhos. Imaginava-os chegar um dia para viver perto de mim, do mesmo modo que os personagens dos contos de fadas e D. Quixote em pessoa chegaram um dia para viver no Sítio do Picapau Amarelo (aí já estou em outro livro, homônimo do famoso sítio).

Foram esses mesmos livros, já com suas capas desgastadas de tanto uso, os primeiros que li para os meus filhos, quando os colocava para dormir. Emocionava-me que eles despertassem em meus meninos, trinta anos depois, o mesmo fascínio, e volta e meia parávamos a leitura para falar um pouco de um ou outro personagem. Monteiro Lobato transformou a hora de dormir em festa na minha casa (as leitoras que são mães certamente compreendem a importância do fato). Anos depois, já no século XXI, com os meninos crescidos, encontrei em uma feira de antiguidades (sim, haviam se tornado antiguidades esses livros escritos nos anos 1930) a coleção completa do Sítio do Picapau Amarelo, encadernada e em ótimo estado. Não hesitei e carreguei para casa a minha preciosidade, que guardo junto com os meus originais de criança. Tenho esperança de que poderei lê-los um dia para os meus futuros netos e desconfio que eles vão gostar muito. Não posso imaginar uma criança que não fique fascinada por esse povo do sítio e seus mais incríveis visitantes.

Agora em domínio público (estamos em fevereiro de 2019), acho que as obras de Monteiro Lobato fizeram pelas crianças da minha geração o mesmo que J. K. Rowling com o seu Harry Potter e a escola de bruxaria fez por aquelas nascidas nos anos 1990: a revelação de que todo um mundo podia estar contido em páginas escritas, que não nos deixavam cansados mesmo sendo muitas. Se os primeiros livros que meus filhos escutaram foram os de Monteiro Lobato, os primeiros que leram sozinhos foram os de Harry Potter, que tinham o poder de tirá-los da frente da TV e de outros aparelhos eletrônicos. Era lindo ver aquelas crianças ainda pequenas, com um livro enorme aberto no colo, ou então deitadas de bruços no chão, com o volume aberto à sua frente, exatamente como eu fazia na idade deles.  

E chegamos então às minhas leituras atuais. Sou muito eclética, e devo elogiar, dos muitos livros que li recentemente, Só Garotos e Linha M, de Patti Smith, Uma noite, Markovich, de Ayelet Gundar-Goshen, e o espetacular 4321, de Paul Auster. Mas há para mim um autor especial, cujos livros e coletâneas literalmente devorei, e que me deixa aflita a cada vez que demora um pouco mais para publicar um livro novo: Haruki Murakami. Conheci-o com o Kafka à beira mar, edição da Alfaguara, que me foi emprestado por meu amigo Daniel. Fui tomada pela leitura de um modo arrebatador, e de Kafka segui por Minha querida Sputinik, Norwegian Wood, Crônicas de um pássaro de cordas (de todos, o meu favorito), Caçando Carneiros, e todos os demais, muitos deles não traduzidos ainda. Do que eu gosto nesses livros? De tudo, mas especialmente dos portais, passagens para mundos paralelos, disfarçadas nas mais corriqueiras paisagens, como um poço de água desativado, uma pintura à óleo, uma trilha na floresta ou uma rua. Ao fazer os seus personagens atravessá-los, Murakami nos leva a outros mundos possíveis, onde chovem peixes, e os gatos são parentes do gato encontrado por Alice ao atravessar o seu portal para o país das maravilhas. Muito falantes, perceptivos, inteligentes.

Foi somente ao escrever esse texto que percebi o quão próximos se encontram Monteiro Lobato e Haruki Murakami. Com as importantes diferenças de homens de civilizações diferentes e com um século de distância, ambos conseguriam despertar em mim o interesse em mundos paralelos, em possibilidades outras, não só de tamanho e forma, como de vidas, pensamentos, relações. Talvez Monteiro Lobato tenha, de algum modo, me levado à antropologia, e esta tenha me conduzido a Murakami. A imagem das aranhas costureiras que prepararam o vestido de noiva de Narizinho, feito de peixes vivos, que nadavam por ele, me parece o equivalente infantil de personagens de uma pintura à óleo que saíam do quadro para interagir com o protagonista, no novo romance de Murakami, O assassinato do comendador. Não é uma obra infantil, de modo algum. Murakami escreve para adultos, trata de questões complexas como a solidão, o abandono, as perdas, as guerras e a morte. Não se trata para mim, portanto, de reviver tramas infantis lendo Murakami. Mas de poder pensar novamente como uma criança, ainda capaz de habitar a multiplicidade constitutiva do mundo, disposta a seguir pelo primeiro caminho estranho e escondido que encontrar para ver aonde se chega. Pois é, existem sim esses mundos paralelos, e não só na floresta amazônica onde vivi. As letrinhas dispostas lado a lado nos livros, página atrás de página, são como o buraco onde cai Alice ou como o poço onde meditam os personagens de Murakami: segui-las implica entrar no portal que nos leva a esses mundos diferentes, que existem junto com o nosso. Neles, coelhos, gatos, peixes, porcos conversam como gente, mas isso não é o mais importante. O que vale à pena descobrir é que nesses mundos pensamentos radicalmente diferentes convivem e dialogam; a diferença é tomada como um valor e por isso não se quer transformar o outro em si mesmo.

 

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Aparecida Vilaça e Paletó

*Aparecida Vilaça nasceu no Rio de Janeiro em 1958. É antropóloga do Museu Nacional, especialista em etnologia amazônica. Autora de “Paletó e eu: memórias de meu pai indígena” (Todavia, 2018)

Eu, estátua!

Posted in Ler faz crescer às 16:59 por sidneif

Por STELLA MARGARITA*

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“The Library” (1905), de Elizabeth Shippen Green (1871–1954)

Estou surpresa com o “convite” [para escrever para a seção Ler faz crescer].  Fico bem feliz de saber que existe esse movimento em prol da leitura, porque ela, sabemos, abre universos, alarga o espírito… A possibilidade quase mágica de sermos por um tempo outras pessoas, imaginar outras paisagens, sentirmos em outros contextos, outros perfumes, longe de nossas realidades é, no mínimo, incrível.  A leitura nos oferece a possibilidade de ver o outro de uma forma diferente e, ás vezes, pode abrir um caminho à compreensão das diferenças que, sabemos, é  muito difícil.

Penso nas crianças, sobretudo naquelas que vivem numa dura realidade, o fato de terem acesso a um livro, a uma história contada por alguém, tem o poder maravilhoso de transportá-las para uma realidade melhor, e essa realidade fica e é ativada em momentos mais difíceis.

Tive minha época de leitora na minha infância e adolescência, e via o quanto ler era de suma importância para minha mãe.  Morávamos no interior no Uruguai, e lembro claramente os movimentos da minha mãe ao redor dos livros. Ia junto com ela na casa de um parente amigo que tinha uma grande biblioteca, lembro-me deles dois concentrados na escolha dos livros, ele ia tirando um e outro das estantes, falava suavemente a respeito do livro, eu, estátua! de pescoço esticado ( a biblioteca ia até o alto da parede) , sentindo a importância do que estava em jogo.  A atmosfera era tão deliciosamente especial que é, sem dúvida,  a melhor lembrança que tenho da minha infância. Hoje meu ofício é pintar, e posso sentir que essa vivência infantil de certa forma está presente, frente a uma tela em branco, assim como em vários momentos. Quando pinto sinto essa tensão maravilhosa da escolha, da decisão, da pincelada, da cor…do que ao igual que um livro não sabemos o final.

 Minha mãe aos 79 anos continua lendo, agora no Kindle, e tenho um neto de 6 anos que é um leitor voraz.  Quando o visito, ele que mora em outro país, e vejo o seu entusiasmo com a leitura, sinto-me muito feliz, e, o melhor de tudo, ele lê em voz alta para mim.

Estarei atenta ao blog, já li lindos depoimentos, quem sabe é um recomeço da leitura…

*Stella Margarita, artista plástica uruguaia. Vive e trabalha no Brasil. https://stellamargarita.46graus.com/

14 de Março de 2019

Trocas simbólicas

Posted in Ler faz crescer às 15:16 por sidneif

Por SILVIA SCHMIDT*

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Marilyn Monroe reading Leaves of Grass, 1952, fotografada por John Florea

Le] [R

 

banheiros leio até portas letreiros inteiros

o corpo que passa ligeiro bula cartaz local

catálogos de supermercado leio os silentes

 

signos em rotação apito de trem panfletos

leio o que pulsa das estrelas – reino porão

alcorão bíblias- palimpsestos dos escribas

 

a lei que nos descamisa e que nos obrigam

leio faixas nas esquinas que gritam-pão [pão não 

os cardápios nos guardanapos da estação

 

o sonho no presente pretérito imperfeito

calçadas da fama em que poucos passam

sorriso montado de políticos-paspalhos 

 

libras alfabeto o abcd do braile qual sinais [de batom

letras garrafais das publicidades vencidas

à sinfonia do tempo na lida desde criança

 

muros paredes classificados nobiliários ler

corpos amputados epígrafes e epítetos ti 

tu em movimento os sem-teto pixos nus

 

gritos feminicidas nos poemas das redes

os jardins os arames farpados sob rostos [desesperados

espelhos trincados em códigos de barra

 

tatuagens nas nuvens eletrocardiogramas

relógios atrasados que passam tristes fins

cartazes em neons em cidades tuteladas

 

o fim o começo mapas sem fronteiras 

na letra escravizada dos alfarrábios- além

mar de colonizados embusteiro como leio [sob lamas e noticiários

 

[cartas nas mangas baralhos caras tantas] de roma– mantras de fé

 

Legere significa escolha, segundo o dicionário etimológico da palavra ler em sua origem latina. Acabei de ler, em um blog, referência feita ao escritor Mia Couto sobre a possibilidade de escolhermos o que ler, e não exatamente ser escolha fácil, nas imposições verticais ideológicas.

Pois foi o que, exatamente, aconteceu comigo. Fui presa fácil, mais escolhida do que exatamente livre para escolhas literárias.

Vinda de uma família de classe média paulistana, eu não tinha livros em casa, mas uma bíblia e uma enciclopédia de 16 volumes, a Delta-Larousse, simplesmente porque meu pai investia seu tempo extra vendendo enciclopédias. Minha mãe era professora e foi secretária antes de se casar e ter quatro filhos, abandonando a profissão da época, ela sim tinha seus livros de anotações e poesias esparsas. Livros não tínhamos em casa. Fui conhecer primeiro fotonovela e novelas, assim que as televisões entraram em nossos lares, por volta dos anos 69/70, ainda na casa dos vizinhos , talvez por isso eu seja tão lisérgica, caleidoscópica. Fui iniciada pelos olhos de vidro, e eu particularmente uma menina curiosa, vivendo em cidade grande, mesmo que na periferia, a primeira leitura visual foi através do programa do Chacrinha na tv Globo — eu iria aprender as primeiras letras alguns anos depois, não havia sequer sido alfabetizada. Pensando aqui, que, talvez por isso, tenha desejado ser atriz como primeira opção profissional, descartada porque meu pai proibira, por idos dos anos 80, lembrando-me que “filha sua não faria teatro de rebolado”.

Assim, Letras ocorreu-me como possibilidade imediata por ser a Faculdade mais próxima de casa, não iria criar desavenças com a família católica tradicional em meus 18 anos. Repensei, então, o desejo inicial.

Aos 12 anos, tive meu primeiro encontro com a Literatura de ficção, e foi um arrebatamento. Mamãe havia falecido em 73 e , além de sua ausência ser dolorida, era insubstituível, porque ela era a referência de cultura, arte, artesania, voz e corpo da família. Mamãe, uma mulher extremamente comunicativa, afetuosa, criativa. Não imaginava a falta que me faria. A Delta Larousse, lida de A a Z, grossa, pesada, empoeirada em seus filetes dourados, continuou sendo pra mim, também, obra educadora-mater… Não deixava de ir a ela a cada dúvida. Assim, como a TV nestes tempos no centro da sala de jantar, o mundo descrito em ordem alfabética e a cores.

Memórias de um cabo de vassoura foi o meu encontro ontológico com a linguagem simbólica. Orígenes Lessa, Ediouro. Quanta emoção. Como pode levar-me para tal lugar? Sôfrega foi a leitura realizada através daquele pequeno objeto chamado livro, em meus 12 anos de idade.

Indescritível, porque além de me ativar a imaginação, fazia-me a companhia em dias de extrema solidão e excesso de responsabilidades domésticas, eu a única filha mulher. Domesticada. SQN.

Logo após Memórias de um cabo de vassouras, a obra que significou para mim espelhamento,  em que vi a força que a leitura teria em minha existência, foi: Éramos seis de Maria José Dupré. Não preciso nem lembrar o porquê!

A Literatura, a Leitura, em especial a de ficção, são um duplo, um portal sem a qual, penso e sinto, eu não teria conseguido, em minha pré-adolescência, empreender força para chegar até aqui, hoje professora, escritora, editora e livreira. A crítica com investigação muitos anos depois. Muitos.

Fiz-me literata por intensas trocas simbólicas, afetos e diferentes caminhos. E assim tem sido até então.

 

10468110_10205060976340851_4600161092050754411_n*Silvia Schmidt é natural de São Paulo. Formou-se Letras na FATEA. Comunicação e Semiótica na PUC/SP, Sociologia e Política/ USP, e Ontopsicologia em SC. Por 16 anos ministrou aulas de Literatura Brasileira. Em 2014 cria a editora para livros eletrônicos a Símbol@Digital quando lança seu romance de estreia DutyFree. Possui trabalhos inéditos em todos os gêneros literários e temática contemporânea bilíngue, crítica e universal.

contato: https://www.facebook.com/silviaschmidtt/

Um jeito de não enlouquecer

Posted in Ler faz crescer às 14:51 por sidneif

Por MARIA GIULIA PINHEIRO*

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“Leitura” (1892), de Almeida Júnior (1850-1899)

“O único jeito de suportar a existência é refugiar-se na literatura como numa orgia perpétua” (Flaubert).

Ler é exercitar a imaginação a ponto de criar a si mesmo. Ao juntar as imagens de um texto, costuramos em nós uma compreensão do mundo. Ler é um jeito de não enlouquecer, porque sei que existem muitas formas de compreender o mundo e nenhuma está correta: estão todas no papel.

Assim como Clarice Lispector, tenho uma preguiça moral de viver. Imposto de renda, trabalho, WhatsApp, a morte. Nada disso me atrai à vida. Mas o papel, a potência das verdades e narrativas criadas, isso, em si, é a vida.

Ter um livro é ter amigo, um caminho e um prazer.

 

*Maria Giulia Pinheiro é poeta e leitora voraz.

12 de Março de 2019

A escrita de Hendrickje, que nunca escreveu

Posted in Sem categoria às 16:47 por sidneif

Por ISABELA SANCHO*

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“A Woman bathing in a Stream (Hendrickje Stoffels?)” (1654), de Rembrandt (1606 – 1669)

Estava na livraria, após ter ganhado dinheiro de presente pelo aniversário de dezesseis anos, e perambulava indecisa — naquela época, eu passava tanto tempo na seção de pintura quanto na de romances. Então, uma capa apareceu na fronteira exata entre ambas: do fundo preto, iluminava-se uma mulher pintada a óleo, branca, dourada e sanguínea, alçando serenamente o seu saiote e olhando para baixo.

De imediato, “Eu, a puta de Rembrandt”, romance de Sylvie Matton, se escolheu para mim. Eu não sabia exatamente o que faria com a palavra puta na capa, como passaríamos incólumes juntas pelo ônibus e a minha casa. No entanto, essa questão precisava, definitivamente, ser considerada um detalhe menor para dentro do fichário. Já estava resolvido, eu querendo ou não, que aquele livro viria embora comigo.

Logo no primeiro parágrafo dos agradecimentos, Matton escrevia que esperava não trair Hendrickje Stoffels, a mulher tornada protagonista de sua escrita. Hendrickje, a criada que trabalharia na casa do pintor Rembrandt van Rijn, após a morte de sua esposa Saskia, e com quem passaria a dividir uma vida de casal; Hendrickje, que seria por ele retratada e com ele convocada aos tribunais da Amsterdã do século XVII, respondendo judicialmente por “relacionamento ilícito”; Hendrickje, a jovem de família modesta e religiosa, então caluniada, difamada; Hendrickje que, analfabeta, nunca teria escrito um livro – o que o tornava um belo contrassenso a ter em mãos.

No esforço inventivo de Matton, as palavras de Hendrickje tinham a fluidez de uma amabilidade que, com o pressionar de um desfecho, passava, mais e mais, a desembocar na torrente de suas aflições: não era apenas a maledicência da sociedade holandesa que lhe invadia a casa, mas a moléstia da peste que assolava a Europa e tomava também o seu corpo. Suas descrições se emendavam, sem aviso, no recitar de preces, aprendizados de antigos sermões.

Creio que “Eu, a puta de Rembrandt” me trouxe muitas das coisas que passei a amar ao encontrar na literatura, dali em diante: o intimismo dos diários (que buscaria, pouco tempo depois, em Anaïs Nin); a musicalidade de uma poesia silenciosa (que me faria paralisar diante dos poemas coletados de Paul Auster, do mais curto verso de Sylvia Plath); o devaneio a céu aberto das mulheres capazes de tocarem algo de divino (como Joana D’Arc, Santa Tereza D’Ávila, Marie Noël, Clarice Lispector); o registro de uma sobrevivência comprimida por um poder instituído e infernal (levada ao limite dos nervos com Herta Müller).

Abro o livro novamente, agora para escrever este texto. Há quatro datas registradas na capa, referentes aos momentos em que o reli, e uma anotação feita sete anos atrás: “Um dia, todas as linhas desse livro estarão grifadas”.

 

*Isabela Sancho nasceu no interior de São Paulo, em 1989. Estudou artes visuais e se formou em Arquitetura e Urbanismo na Unicamp. Integra o corpo de poetas da revista Fazia Poesia e é autora de “As flores se recusam” (Editora Patuá, 2018), livro de poemas que também ilustrou. Morou em Milão e vive em São Paulo.

Memórias de leitura

Posted in Ler faz crescer às 16:43 por sidneif

Por ÉRICA AZEVEDO*

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“Aprendendo a ler” (1889), de Simon Glücklich (1863-1943)

A minha paixão pelos livros foi aprendida com minha avó materna, Ester, que não sabia a leitura das palavras, mas era uma especialista na leitura dos desejos infantis dos netos e no exercício da imaginação. Dinha, como era chamada por quase todos os netos, sempre nos reunia num canto da casa para contar estórias. Eu ficava fascinada com suas narrativas. Muitas vezes, não deixava minha mãe em paz, insistindo para que ela fizesse como “Dinha” e contasse estórias para mim. Às vezes, ela não suportava a insistência e (re)contava com algumas alterações aqueles contos que reuniam os primos e eu ao redor de nossa avó. Minhas primeiras memórias de leitura são desta época!

Ainda na casa dos meus avós maternos, havia um cômodo no qual se guardavam os grãos da colheita anual e tudo que não se usava com tanta frequência, mas que não se conseguia jogar no lixo. Também era lá que se guardavam os materiais escolares que meus tios utilizaram! Eu, sempre que conseguia, visitava o “quartinho” e ficava olhando cartilhas, livros, cadernos… Assim, já cheguei leitora à escola! Depois de alfabetizada, (re)descobri muitas das estórias que ouvia da minha avó nos livros daquele quarto e da escola: eram contos populares e de autores como Monteiro Lobato.  

Com minha avó paterna, Júlia, tornei-me leitora e “transcritora” de cartas: traduzia as notícias vindas da capital paulista e dava forma aos pensamentos de minha avó em sua comunicação com os filhos distantes.

Nos ensinos Fundamental e Médio, tive colegas e professores que me emprestavam livros. Foi nesse período que minha relação com a literatura tornou-se mais íntima e prazerosa, conheci personagens que marcaram minha vida, como Macabéa, por exemplo. Assim, passei a “devorar” contos, crônicas, poesias, romances.

Muitos textos marcaram a minha experiência enquanto leitora, contudo vivenciei duas realmente inesquecíveis e que adoro repetir para meus alunos: quando terminei a leitura de O quinze, de Raquel de Queiroz, estava tão integrada ao ambiente do romance que saí do meu quarto e, chegando à porta da cozinha, tomei um “choque” ao ver que chovia. Foi uma sensação incrível! Anos depois, já na universidade, quando li Tabacaria, de Fernando Pessoa, senti cheiro de cigarro e, naquele momento, tive vontade de fumar.  

A leitura me conecta comigo e com o universo. Através dela posso me deslocar para lugares os quais a realidade não possibilita!  É uma experiência que me ajuda a sentir a dor e a alegria do outro, a me tornar mais humana.

 

 *Érica Azevedo, professora e escritora. Autora de “Vida em poesia” (MAC, 2002), “Outros eus” (Kalango, 2013) e “A chuva e o labirinto” (Mondrongo, 2017).        

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