29 de Maio de 2012

O prazer de ler¹

Posted in Ler faz crescer às 12:21 por sidneif

Por CRISTIANE GRANDO*


“A minha casa é guardiã do meu corpo/ E protetora de todas minhas ardências…” (versos de Hilda Hilst musicalizados por Zeca Baleiro).


Em minha casa, há sempre uma biblioteca. Não falo da minha casa feita de tijolos, cimento e cal. Nem da biblioteca de estantes, livros, prateleiras. Falo da minha casa como o meu próprio corpo – e a minha mente.

Em todas as minhas casas – as que têm tetos e paredes -, há pelo menos duas bibliotecas: uma enorme, com livros de várias áreas e em diferentes línguas; outra, um pouco menor, mais próxima do chão e que mais prazer me provoca, com livros alegres, coloridos, livres como foi a minha infância no interior de São Paulo.

Na minha infância, descobri as obras de Ana Maria Machado, Lygia Bojunga Nunes, Ruth Rocha… e um sítio que parecia ser meu, onde eu podia conviver com personagens fascinantes criadas por Monteiro Lobato. Essas leituras, muitas delas recomendadas pelas professoras, marcaram a minha vida.

Emprestando livros das bibliotecas, descobri o prazer de ler. Daí a importância das bibliotecas nas escolas e universidades, nos bairros. Mas, não menos importante é incentivar a criança a ter a sua própria biblioteca. Uma biblioteca começa a ser formada a partir de 5 ou 6 livros. Podemos facilmente criar bibliotecas para os pequeninos, incentivando-lhes o amor pela leitura e pelos livros.

A mãe, o pai e os professores deveriam ser o modelo para as crianças, lendo diariamente, carregando livros em suas bolsas, escolhendo bons sites de Internet para leitura. Uma imagem que jamais sai da minha memória é a das minhas professoras na infância, tirando a cada dia um livro de suas bolsas: liam em voz alta um poema ou um conto. Nós também líamos em voz alta! Hábitos que deveriam ser resgatados: ler em grupo; ler poesia em voz alta; ler diariamente, em especial se somos mães, pais ou educadores; ler livros impressos, porque transmitem algo especial por seu formato, ilustrações, tipo e cores do papel, tamanho e forma das letras…

Há professores que marcaram minha vida de leitora por suas aulas fascinantes, entre eles: Cinira Módena no Ensino Fundamentel e Médio (1º e 2º Graus na minha época), Joaquim Aguiar, Philippe Willemart e Nelly Novaes Coelho na USP, Marisa Lajolo e Jorge Coli na Unicamp… pela ordem que os conheci.

Tão fascinante e enriquecedor quanto ler bons livros é conviver com grandes mestres!

*Cristiane Grando, escritora, tradutora, Doutora em Literatura (USP, São Paulo), com pós-doutorado em Tradução (UNICAMP, Campinas). 

Blog “Fluxus: poesia ilustrada”
Blog “Papeles volantes, de Cristiane Grando”
Revista “Benfazeja”,
Página Web em espanhol: ttp://www.letras.s5.com/archivogrando.htm.
 
 
¹ Uma parte deste texto foi apresentada na palestra “La mujer en el ámbito de la literatura: el placer de leer” no Centro Cultural Brasil-República Dominicana em 2 de março de 2012. Fundado em março de 2009, o CCB-RD – situado na Calle Hermanos Deligne, 52 (Gazcue, Santo Domingo, República Dominicana) – abriga a Biblioteca Hilda Hilst, formada por livros de literatura e cultura brasileira.
Anúncios

24 de Maio de 2012

Os Livros em mim

Posted in Ler faz crescer às 10:40 por sidneif

Por ANDREA BUZATO*

Foram os livros de Monteiro Lobato que inspiraram minha infância e pré-adolescência. Tentava reproduzir nas ruas de Itajaí, com meus amigos, todas as cores que ele pintava, todas as aventuras vividas pelos personagens que trago na lembrança.

Sempre gostei de gente e por isso, logo cedo, descobri as biografias. Histórias de vida de pessoas especiais e, ao mesmo tempo, tão humanas como nós. Li sobre Henry Ford, Isadora Duncan, Marylin Monroe e muitas outras que abarrotam até hoje minha cabeceira. (Tem uma autobiografia que, aliás, nunca sai do meu lado, Mutações, da atriz Liv Ullmann).

Na escola, me apresentaram aos escritores brasileiros e suas grandes obras. E desde sempre me apaixonei pelas crônicas de Mário Prata, Rubem Braga, Millôr Fernandes, Fernando Sabino, Rubem Fonseca. Da biblioteca da minha casa pincelei best-sellers, romances, obras que me encantam até os dias atuais pelo caráter cinematográfico, como As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Livros que fortaleceram minha vontade de ser atriz e vivenciar todos estes papéis memoráveis. Já vivendo no Rio e fazendo teatro, um novo mundo literário se abriu a minha frente. Apaixonei-me por Nelson Rodrigues, conheci Martins Pena, bebi tudo que pude de William Shakespeare, entendi Samuel Beckett, pirei com Antonin Artaud, chorei com August Strindberg e Henrik Ibsen. Da estante da minha irmã psicóloga (com quem eu vivia), li as obras de Freud, Reich e Lacan, que muito me serviram na profissão que escolhi. Foi ela também quem me apresentou aos poetas todos e ao meu guru das letras, Fernando Pessoa.

Hoje, a cada novo trabalho, seja no cinema, na TV ou no teatro, vou aos livros pesquisar e entender minha personagem e a obra que vou representar. Estou em cartaz no Rio de Janeiro com a peça Uma Sociedade, um texto adaptado de um conto de Virginia Woolf, escritora inglesa por quem estou fascinada.

E me despeço, lembrando de todas as mulheres escritoras que, mesmo nas adversidades, conseguiram deixar um legado tão rico. Viva Safo, Jane Austen, Clarice Lispector, Raquel de Queiroz, Cecília Meirelles, Simone de Beauvoir e tantas outras que merecem nossos aplausos.

*Andrea Buzato, jornalista e atriz.

23 de Maio de 2012

A alma humana

Posted in Ler faz crescer às 12:32 por sidneif

Por NANA MORAES*

Meu maior momento como leitora foi estudar a obra humanista de Fiódor Dostoiévski!

Foi com este autor que descobri ser possível desvelar a alma humana.

*Nana Moraes, fotógrafa.

21 de Maio de 2012

Abertura para a vida

Posted in Ler faz crescer às 11:59 por sidneif

Por FABRÍCIO LOPEZ*

Tenho  muito interesse na prática de leitura e em como isso se desenvolve em vários contextos.

Recentemente li  dois livros da antropóloga francesa Michèle Petit : A Arte de Ler ou Como Resistir à Adversidade e Os Jovens e a Leitura, ambos publicados pela Editora 34.

A obra de  Petit é muito boa porque  traz diversos relatos tanto na América Latina quanto na França sobre processos de resolução de conflitos, individuação e reinserção social de imigrantes através da prática de leitura  – seja por intermédio de bibliotecas, de grupos de leitura ou simplesmente de forma solitária.

Dois grandes momentos meus  com leitor foram obras de Rainer Maria Rilke¹ e Jorge Luís Borges².

Com Rilke, a abertura para a vida adulta por meio de  Cartas a um Jovem Poeta. Depois vieram toda produção de poesias e alguns outros romances como Os Cadernos de Malte Laurids Brigge.

Borges foi sempre fascinação e arrebatamento, no momento releio Ficcões e O Livro de Areia.

*Fabrício Lopez, artista plástico.

¹Rainer Maria Rilke (1875-1926), poeta austro-húngaro.
²Jorge Luís Borges (1899-10986), escritor, poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário argentino.

2 de Maio de 2012

A literatura é um achado

Posted in Ler faz crescer às 09:52 por sidneif

Por AURORA BERNARDINI*

Minhas experiências e meus grandes momentos como leitora são contínuos: não bastaria uma vida.

Mas , como professora, vou elucidar aqui alguns pontos referentes à leitura que considero importantes.

1. A leitura de ficção é uma experiência virtual de vida e de vida virtual. Grande frase de Ruy Coelho¹ que era tido como o scholar mais erudito da USP. Ou seja: lendo, aprende-se a viver. Na arte ( é óbvio que estou me referindo aos livros de valor indiscutível) tudo se passa com uma intensidade e com uma coerência muito mais compactas do que na vida corrente em si, que é vaga e cheia de lacunas e, principalmente, de “acomodações”que obscurecem o seu significado. As lições que se tiram da literatura são essenciais, no bem e no mal.

2. Quando Bakhtin² teve a brilhante idéia de desmembrar a escritura de Dostoiévski nas diferentes vozes dos protagonistas de seus romances e contos, vozes essas não redutíveis à voz dele, Dostoiévski, talvez não imaginasse a grande liberdade que com isso presenteava os escritores. Ele como que oficializou a liberdade de escrita. Os críticos conservadores ( aqueles que procuram nas vozes dos protagonistas a voz do autor) são uns limitados: quando nascem, as personagens subjugam o autor e dele se desvinculam ( como muito bem viu Pirandello³). Com isso a obra respira e se ergue acima dos rótulos, das convenções, dos modismos corretos e não corretos e faz com que qualquer leitor possa se identificar com qualquer um dos discursos: por isso a literatura é importante. Cada vez mais importante, acrescento, nesse nosso mundo que nos arrasta para a massificação, o discurso único, o discurso oficial, o medo de ser diferente, o interesse pessoal subliminar, a falsidade como tábua de salvação, o cálculo mesquinho, o toma-lá-dá-cá, enfim.

3. Quando a obra literária é uma obra de arte, seu leitor não apenas se enriquece. Quando consegue penetrar nos seus meandros, descobrir os seus procedimentos, atingir a sua unidade o leitor se eleva a um nível superior e de lá contempla sua própria e tão desvalida humanidade, até então, e sente o estímulo, sente a vontade de se superar. A leitura é uma busca. A literatura, um achado.

*Aurora Bernardini, ensaísta, escritora, tradutora e professora da Universidade de São Paulo (USP).

¹Ruy Coelho (1920-1990), antropólogo brasileiro.
²Mikhail Bakhtin (1895-1975), filósofo, crítico literário e semioticista russo.
³Luigi Pirandello (1867-1936), dramaturgo, poeta e romancista italiano.