30 de Agosto de 2016

Passeio no jardim

Posted in Ler faz crescer às 14:13 por sidneif

Por RENATA CRUZ*

Mulhees no jardimmonet

“Mulheres no Jardim” (1866),  de Monet (1840-1926).

Se eu tivesse que escolher um livro importante para mim, seria a primeira parte de Em busca do tempo perdido, de Proust. Li em espanhol “Por el caminho de Swann”.  Eu tinha mais ou menos 27 anos.

O que permaneceu da leitura foram aqueles relatos e análises das sensações e emoções do personagem em paralelo com pequenos acontecimentos do cotidiano. Como um simples passeio no jardim era capaz de abarcar tantas experiências internas legítimas.

A delicadeza e intensidade de como ele vivia cada momento e sua capacidade de criar mundos a partir de pequenas situações me abriram para uma construção pessoal que me acompanha até hoje.

Fiz na época uma série de gravuras de um homem com sua xícara e usei fragmentos do texto para fazer um livro de gravura também.

Um jardim que tinha em casa me evocava a presença daquele livro e cuidava dele pensando na possibilidade dessa construção que queria para mim.

Acredito que alguns comportamentos e escolhas de vida e do trabalho, surgiram desse livro, descobertas que nenhuma outra pessoa ainda havia me proporcionado até então.

Depois li mais outros dois livros da série e outros de Proust. Parei quando achei que havia compreendido o que me movia a lê-lo. Mas mesmo não o lendo há muitos anos, ele me acompanha até hoje.

A organização do meu tempo pessoal em relação ao mundo e de alguns hábitos e escolhas, só a literatura pôde me dar – e Proust é um desses autores.

*Renata Cruz, artista plástica. http://www.renatacruz.net/

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As mil perguntas

Posted in Ler faz crescer às 13:55 por sidneif

Por MAURÍCIO EDUARDO GRAIPEL*

criançacomcarneiroportinari

“Criança com Carneiro”(1954), obra de Cândido Portinari (1903-1962)

Quando penso em um grande momento que vivi nesse mundo mágico da leitura, lembro de muitos livros que li e também das muitas dissertações que escrevi. No meio de tantas lembranças e aventuras vividas, que se misturam entre o mundo real e o mundo da literatura, surge um momento que foi único.

Mas para chegar a esse momento aconteceram tantas coisas… Eu era criança e estava nos fundos da casa onde cresci. Acabara de plantar uma goiabeira e estava olhando para ela com o peito estufado de tanto orgulho. Nesse momento lembrei de um clichê que adorava. Agora só faltava ter um filho e escrever um livro. Naquele terreno eu viria a plantar muitas árvores, que um dia se transformariam em um pequeno bosque. Quando surgiu a Internet percebi aquela mancha verde no meio de uma cidade, cheia de bichos e cercada de casas.

Meu primeiro desejo eu havia alcançado e ido além. Mas nesse tempo já não era mais criança. Já havia me formado biólogo e nem lembrava mais do filho que um dia desejei, nem do livro que um dia quis escrever. Quando me casei, minha esposa não podia mais ter filhos, e eu só tinha tempo para trabalhar em minhas pesquisas com bichos selvagens.

Alguns anos depois, respondendo ao pedido de ajuda de uma aluna que não conseguia segurar uma gambá muito grande, muito brava e cheia de filhotes, tive que responder umas mil perguntas. Chegando em casa, comecei a escrever a história de vida de um corajoso gambá, uma espécie que eu estudava há muitos anos.

Na madrugada daquela noite, ao terminar de escrever, percebi que todos os meus desejos haviam se realizado. Ao responder as mil perguntas de meu filho adotivo, que levara para ver a furiosa gambá, eu acabara escrevendo meu livro¹ esquecido.

*Maurício Eduardo Graipel, biólogo, pesquisador e escritor.

¹Saru, o Guerreiro da Floresta, ed. Cuca Fresca.