28 de Fevereiro de 2010

Castelos e cavaleiros na estante

Posted in Ler faz crescer às 13:00 por sidneif

Por ANA ESTELA DE SOUSA PINTO*

Quando eu tinha sete anos, peguei uma pneumonia, da qual ficaram duas lembranças muito fortes. A primeira é das doloridas injeções diárias, especialmente a primeira delas, que me pegou desprevenida. A segunda, ao contrário, não é de dor.

Por causa do meu estado deplorável e dos cuidados que ele exigia, tive que me mudar do quarto que dividia com minha irmã para um quarto de costura em que havia uma estante com coleções de livros que haviam sido da juventude de minha mãe. Eu dormia num sofá forrado de veludo verde e, como não podia sair do quarto, devorava os livros quando estava acordada.

Eram histórias fantásticas: meninas em castelos que se perdiam em passagens secretas escondidas por pesadas tapeçarias, crianças pegas de surpresa no tumulto da revolução francesa, cavaleiros da Arábia, camponesas e nobres enamorados.

Não foi ali que me apaixonei pelos livros. Já era daquelas que lê todos os rótulos –até hoje gosto disso. Já havia terminado e começado outra vez toda a coleção do Monteiro Lobato, sem contar inúmeras revistinhas da Mônica, todos os manuais da Abril –manual do escoteiro, da Maga e Min, do Tio Patinhas, do Peninha…– e as séries do Tintim e do Asterix.

Mas acho que, ao me curar da pneumonia, estava incuravelmente viciada em leitura. Cinco ou seis anos depois, ainda levava broncas de uma tia que me levara para uma temporada na praia: depois do almoço, em vez de sair com a garotada da minha idade, eu me deitava no sofá com quatro ou cinco romances sobre a barriga e não levantava dali por nada.

Mesmo agora, quando escrevo este texto numa noite de plantão na Redação da Folha, às 23h49min, um livro me espera dentro da minha pasta. Sinto-me incompleta –e irritadíssima– se por acaso me esqueço de levá-los comigo a uma consulta médica, ou num trajeto de ônibus, ou a qualquer lugar em que tenha que ficar esperando: sem os livros, as esperas são estéreis e massacrantes. Com eles, às vezes até me pego torcendo para que os semáforos demorem para abrir ou que meu convidado demore a chegar.

Uma de minhas maiores frustrações é que minha filha de 12 anos ainda não tenha se apaixonado pela leitura. Não perdi as esperanças: ela escreve muito bem e adora histórias; acredito que, quando descobrir como é bom ler, como é libertador e enriquecedor, ela também vai se apaixonar. Enquanto espero –livros ajudam na espera, lembra?–, aproveito para ler também aqueles que compro para ela e que se acumulam, desprezados, nas prateleiras brancas do seu quarto.

*Ana Estela de Sousa Pinto, jornalista.

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4 de Fevereiro de 2010

Megalomania e esporte

Posted in Brasil às 17:29 por sidneif

A megalomania dos dirigentes esportivos é conhecida alhures. Seja na Europa, nos grotões da África ou na rica América, a ganância e a sede de poder deturpa valores esportivos. Autoridades esportivas não admitem questionamentos e passam por cima de direitos do cidadão.

Em países onde lei é lei e a justiça funciona tais desmandos são devidamente combatidos.

Não é o caso da Terra de Vera Cruz. Aqui o torcedor é tratado como gado . É obrigado a conviver com a violência das torcidas organizadas, sofre com as péssimas condições dos estádios. Condições que já levaram a tragédias, pelas quais ninguém foi punido. Talvez, pelo que a justiça brasileira sugere, o culpado é o infeliz que resolveu ir a um  estádio de futebol. Quem manda o torcedor imaginar que os dirigentes zelam pela segurança dele?

Junte a isso a gestão imprudente dos clubes e das entidades. Tanto no futebol como em outros esportes. Os dirigentes se eternizam no poder, adoram verbas públicas, mas jamais se responsabilizam pelas consequências dos seus atos. Enquanto isso, atletas são tratados como mercadorias ( especialmente os  do futebol) ou ignorados – sem a mínima condição de praticar seu esporte.

E como senso de ridículo não consegue vencer a megalomania dos dirigentes brasileiros, o Comitê Olímpico Brasileiro quer  impedir a publicação do livro Esporte, Educação e Valores Olímpicos da respeitada docente Kátia Rúbio. O COB tem a desfaçatez de alegar que, no território brasileiro,  são exclusivamente de seu uso as expressões ‘olímpico’, ‘olímpica’, ‘olimpíada’, ‘Jogos Olímpicos’ e suas variações.

O mesmo COB que acha natural contratar o ex-primeiro ministro Tony Blair. O homem que ajudou a inventar uma guerra é, agora, ideal para orientar o projeto olímpico brasileiro. Nada poderia ser mais enobrecedor para o esporte.