26 de Abril de 2013

A sina da leitura

Posted in Ler faz crescer às 16:11 por sidneif

Por ARMINDO TEODÓSIO*

destinolivroMinha relação com os livros nunca foi fácil. Filho de professora e de pai amante das artes, sobretudo da literatura, nossa casa sempre foi povoada por livros de todos os tipos, temas, jeitos, cores, cheiros … Porém, passei a maioria do tempo da infância fugindo desse rico acervo que me cercava, só me dedicando a ele quando alguma tarefa imperiosa da escola me obrigava a consultá-los e lê-los.

Quando me mudei para a casa dos avós maternos para continuar os estudos, coleções de literatura da minha tia me rondavam. Sempre dava uma folheada nos livros, mas raramente me dedicava a um deles inteiramente.

Ironia do destino, tornei-me professor e a sina da leitura virou meu hábito cotidiano, a ponto de não poder sequer ficar um dia sem nada ler. Devoro tudo nas leituras e sinto falta do tempo perdido, sobretudo em não ter lido os chamados clássicos da literatura.

Porém, nunca é tarde para descobrir a magia dos livros. E, se for para indicar apenas uma obra, para mim a mais sublime forma de escrita, sintética e profunda, simples e complexa ao mesmo tempo é agora As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino (1923-1985).

Boa leitura, meus amigos!

*Armindo Teodósio, doutor em Administração de Empresas e professor de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC – Minas).
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Transcendência e humanidade

Posted in Ler faz crescer às 16:10 por sidneif

Por MARCELO DEMARZO*

lervoar2Para mim os momentos de leitura são momentos de transcendência e de humanidade (no melhor dos sentidos). Em suma, momentos de felicidade plena.

*Marcelo Demarzo, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

16 de Abril de 2013

A ideia de fazer arte

Posted in Ler faz crescer às 17:00 por sidneif

Por KATHERINE FUNKE*

poemasartesComecei a ler livros ainda criança, sentada manhã após manhã na cadeira de balanço que ficava em um jardim interno da casa dos meus pais.

Era um lugar bem silencioso, apartado do cotidiano, com um enorme céu aberto e umas poucas plantas. Eu me perdia em contemplações ali às vezes, mas na maior parte do tempo lia e balançava, balançava e lia – e me deixava embalar pelo que lia.

Lembro de alguns títulos que marcaram as primeiras descobertas: da coleção completa do Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato (1882-1948); das muitas aventuras e viagens de Júlio Verne (1828-1925); da série autobiográfica de Laura Ingalls Wilder (1867-1957); de Pollyanna e Pollyanna Moça, de Eleanor Porter (1868-1920); de Júlia dos Sete aos Dezessete, de Irene Hunt (1907-2001); e, de que mais?… Pedro Bandeira também estava lá, tenho certeza…

Ainda antes destes – que nem me pertenciam, eram dos irmãos mais velhos – houve muitos outros livros, dos gêneros infantil e infanto-juvenil. Eu amava, sobretudo, os gibis com histórias de Pato Donald, Zé Carioca, Mickey e Pateta. Sim, eu amava as histórias do Pateta.

De criança pequenina, guardo uma mostra das aventuras do Rei Rolo, uma narrativa engraçada – visual, praticamente sem palavras – de David McKee.

Franz Kafka (1883-1924), Ernst Hemingway (1899-1961), Érico Veríssimo (1905-1975), Charles Dickens (1812-1970) e João Ubaldo Ribeiro marcaram minha juventude de um modo bastante precoce.

Para mim, lê-los era um ato um pouco subversivo, pois ficavam nas estantes dos livros adultos, os títulos da minha mãe e do meu pai…

E quando eu pegava um Sartre (Jean-Paul, 1905-1980) ou um Saint-Exupèry (Antoine de, 1900-1944) e levava para ler na cama, com a luz do abajur reduzida por uma camiseta, então!… Aí, eu era a própria protagonista de um outro livro que amei na minha juventude, este bem mais bobo, Mulherzinhas, de Louisa May Alcott (1832-1888), sabem, aquele que virou filme, com a Wynonna Ryder no meu papel, digo, no de Jo?…

Também havia ali um pouco de Oscar Wilde (1854-1900), Virginia Woolf (1882-1941), Clarice Lispector (1920-1977) e algumas antologias esparsas com muitos contos de autores reunidos de modo quase aleatório e impressos em papel-jornal; publicações bem baratas lá pelos anos de 1960 a 1975, época em que minha mãe os comprava em bancas de jornais e revistas.

Eu amava de um modo especial esses libretos de contos tão simples e tão leves de carregar. Eles me traziam histórias de William Shakespeare (1564-1616), de Katherine Mansfield (1888-1923), de Gustave Flaubert (1821-1880), de Anton Tchekhov (1860-1904), de Nicolai Gogol (1809-1852)  e de outros grandes autores da literatura mundial.

Gostava tanto desses contos, tanto, tanto, que nunca dei bola para o Fausto, de Goethe (1749-1832), ou para os tantos volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust (1871-1922). Eu sei – um dia os lerei – mas por ora ainda permanecem distantes de mim, pelas estantes da casa da minha mãe e todas as outras estantes…

Foi mais ou menos por aí que a literatura me pegou de vez e decidi que não queria ser outra coisa da vida, que não escritora. Nas escolas e, depois, na faculdade onde cursei jornalismo, pude conhecer mais de poesia – Paulo Leminski (1944-1989), Waly Salomão (1943-2003), Arnaldo Antunes, Fernando Pessoa (1888-1935) e Charles Baudelaire (1821-1867) são meus amigos desde o “ginásio” (equivalente ao quinto ou sexto ano do atual ensino fundamental).

Conheci fora de casa, também, obras não exatamente fáceis de classificar, como as cartas de Van Gogh (Vincent, 1853-1890) a seu irmão Theo (Theodorus Van Gogh, 1857-1891)  ou uma biografia de Marcel Duchamp (1887-1968), ou um ensaio de Arthur Schopenhauer (1788-1860), por exemplo – todos peças de algum modo literárias, mas mais do que isso; livros que me deixaram apaixonada por algo ainda maior do que o desejo de me expressar com palavras – deixaram-me  fascinadas pela ideia de fazer arte.

Hoje em dia estou promovendo uma espécie de clube da leitura em Florianópolis, ao mesmo tempo em que escrevo um romance intitulado Viagens de Walter. É um projeto que estou desenvolvendo com apoio da bolsa Funarte¹ de Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura.

Essa espécie de clube da leitura, na verdade, são encontros em que conversamos sobre livros, sempre aos sábados de tarde, na biblioteca Barca dos Livros², localizada no LIC³ , na capital catarinense (mais precisamente no bairro da Lagoa da Conceição). Também há saraus realizados dentro da embarcação da Barca dos Livros, em um passeio na Lagoa da Conceição.

Na lista de leituras do Viagens na Barca, sugiro aos participantes especialmente mais atenção à literatura contemporânea. Trago títulos de autores como Daniel Galera, Verônica Stigger, Angélica Freitas, Joca Reiners Terron, Luiz Bras, Reginaldo Pujol Filho, Paloma Vidal, Ondjaki, Noemi Jaffe, entre outros.

O projeto tem sido bem bacana e atraído um público interessado em conversar sobre livros e também em se atualizar, o que me deixa bem contente e esperançosa sobre o futuro da literatura. Convido os leitores deste blog a saberem mais, clicando neste link: http://viagensnabarca.wordpress.com .

*Katherine Funke, jornalista e  escritora.

 
 
¹Fundação Nacional de Artes, instituição (vinculada ao Ministério da Cultura) de  incentivo à cultura.
²Biblioteca comunitária (link à direita, no menu Biscoito fino) mantida pela “Sociedade Amantes da Leitura”. 
³Lagoa Iate Clube, entidade privada de recreação e de atividades culturais.

4 de Abril de 2013

Sobre alguns companheiros silenciosos

Posted in Ler faz crescer às 14:41 por sidneif

Por ANA RÜSCHE*

 imaginacao3Viajar para locais incríveis sem sair da cadeira. Creio que essa ideia, com certo dedinho do Júlio Verne (1828-1905), foi a que mais me atraiu para ser leitora ávida. Sempre fui devoradora de livros. Tamanho da letra ou número de páginas eram detalhes para principiantes.

Lia num estilo feroz, selvagem, tudo o que me chegava às mãos – rótulos das latas de Neston e de Nescau, coleções inteiras como as do mencionado Julio Verne, livros de culinária, de ponto de cruz, qualquer história de ficção científica – e me frustrava com a dificuldade dos livros em inglês, como a Enciclopédia dos Mares, de Jacques-Yves Cousteau (1910-1997). Creio que só com uns 20 anos fui criar um mínimo de senso sobre esta prática: a leitura.

Hoje leio bem menos, talvez com mais qualidade, com mais calma, mais foco, embora não me divirta tanto quanto antes, enfim, revezes do senso crítico. Cheguei ainda à conclusão que não se viaja com livros e sim, com o corpo inteiro, munido de nariz, paladar, olhares e todos os sentidos (e, claro, com um bocado de histórias sobre aquele destino turístico na cabeça e com um bom livro no bolso).

Contudo, sigo firme sobre a principal vantagem da leitura: provocar a imaginação. Trazer um espaço em branco, cuja imensidão deve ser preenchida com outras possibilidades, muito além do que existe. Vibrar as cordas do “impensável” dentro de cada um. Esse exercício silencioso de desfiar os próprios pensamentos em fios dos pensamentos dos outros.

Seja como for, até hoje, há poucas coisas que goste tanto de fazer quanto sentar preguiçosa no sofá, abrir um bom livro, acolher meu cachorro quentinho no colo e ler durante uma tarde inteira. Recomendo.

*Ana Rüsche, escritora. www.anarusche.com