19 de Outubro de 2018

Meu amor aos livros

Posted in Ler faz crescer às 16:34 por sidneif

Por ELOÍSA ARAGÃO*

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“Hora de leitura” (s/d), de George Goodwin Kilburne (1839-1924)

Hoje é um dia particularmente doloroso, e eu havia recebido o pedido de escrever porque a leitura e os livros são importantes para mim. Desse modo, volto-me às páginas da Vida para contar. O que hoje faz meu dia ser uma noite desassossegada é que uma pessoa querida perdeu alguém que lhe acompanhou por uns anos numa relação vivida a dois. Não sei se é essa a melhor forma que encontro para narrar que esta figura também me foi cara, confesso, com pesar e um traje de luto cultuado um pouco a distância, até mais por uns dissabores do que alegrias. Além disso, pesa-me a força da ressaca que se abateu sobre nós, que amamos a democracia, e temos de fazer um grande esforço para não nos deixarmos tomar pela enfermidade da depressão civil.

Mas é dessa matéria de escândalos e caos que me ergo para contar sobre os livros. Talvez porque a minha lembrança sobre ouvir histórias tenha vindo da infância quando minha mãe lia, a mim e à minha irmã, contos de fadas e histórias de um livro com capa dura, marrom e cujo título era grafado com letras levemente douradas. Tenho-o guardado como a prova de que ele me vale mais do que as fotografias.

Em certo dia, bateu à porta um vendedor de livros. Era tão diferente aquela visita, e boa. Minha mãe  comprou a coleção de contos de fadas, com ilustrações grandes e brilhantes que me fizeram praticamente entrar num universo onírico. Deve ter pagado em prestações. A generosidade se fazia presente, mas não a medida do dinheiro, que nos tinha mau gosto.  O homem vestia-se de modo formal, uma camisa de mangas compridas e usava gravata. Pensei que era alguém como o próprio diretor da escola vindo ao nosso portão sugerir que os livros oferecem alentos para mulheres e crianças.

Havia muitas dificuldades à nossa volta, não somente materiais, mas uma espécie de assombro do que poderia ser o dia seguinte. Então, ali criança e interessada nos sopros cotidianos de novidade, eu assistia a tudo sem ainda me fazer tantas perguntas. Até mesmo porque meu espanto era maior do que a possibilidade de formular alguma resposta. Nesse universo paralelo em que eu me salvava, havia o momento mágico em que a minha mãe abria o livro e lia-nos poemas e histórias curtas, fábulas. Sentia que para ela igualmente o mundo se transformava, sua voz tornava-se mais pausada e melodiosa, como a fazer um ritual solene à entonação do mundo. A mãe ursa brincando com os filhotes, vendo-os  dar cambalhotas.  

De um modo secreto, percebi que os poemas eram como  jujubas. Era preciso ouvir e deixar a sensação se formar na mente para depois se revelar, como o doce que tem o sabor mais definido quando a bala está quase no final. Foi assim que me lembro do quanto me tocaram poemas de Cecília Mereiles, Florbela Espanca e de Manuel Bandeira. Até certo momento — hoje dou risada de como eu idealizava os poetas e escritores, numa idade mais avançada, ainda perto de 12 ou 13 anos, eu piamente acreditava que não fosse possível aos escritores terem uma vida concreta, acorda, toma banho, toma café, vai trabalhar, tem direito a férias.

Em seguida, revejo os conceitos e penso que o certo mesmo é que Clarice, Machado, Eça, Sophia, Virginia, Guimarães Rosa, Pessoa, Cortazar, Borges, Sartre, Simone de Beauvoir  e tantos outros que me deram e darão tantas horas tão felizes — como uma trupe contemporânea que é fantástica — têm todo o direito de viver num mundo à parte, a seu gosto, no melhor estilo que tenho chamado “fez a fama, deita na cama da tapera odara”. (Odara é como eu chamo tudo o que é lindo e alegre. Um dia, num desvario, pedi que quando eu morresse deveriam tocar no meu enterro “Odara”, de Caetano Veloso.)  

Àquela altura da infância, os contos e as fábulas eu os associava à atenção de um dia desejado, a chegada do aniversário, a festa e o momento de partir o bolo. Outra coisa inesquecível é que, desde aquela época, eu sabia que os animais falavam. Fato que foi se comprovando à proporção que cresci. Tenho por eles a maior amizade porque desde sempre conversamos e eu já duvidava de pessoas que não entendessem a linguagem deles. O cachorro, o gato, a lebre, a tartaruga, a águia, o cavalo, o macaco, a festa inteira no céu. E sempre o leão, enjubado e selvagem, lendo os capítulos das estações com seu poder ruivo. Assim, posso comprovar que a arte de ler é também uma arte de entrar na floresta e conversar com os bichos.

Voltando-me às leituras não ficcionais, meu interesse começou nas aulas de História, a disciplina que me explicava a origem de muitas coisas que me intrigavam. E essa pesquisa sobre fatos, agentes e contextos sociais  aumentava à medida que a minha visão de adolescente notava que vivíamos num país muito conservador, cheio de interditos, de um sistema de dominação que eu percebia ao meu redor e intensa e vertiginosamente me incomodavam. Foi por isso que, desde a época da minha graduação, passei numerosas temporadas debruçando-me em livros de História, Sociologia, Teoria Literária e afins e me tornei historiadora.

Não foi por outro motivo que depois da formação universitária, entre outras possibilidades em que teria de investir, abracei o desempenho na área editorial. Finalmente, eu poderia ganhar a vida na realização de um ofício que eu sempre amara: as leituras e o aprendizado. Ali naquele ambiente ordenado do trabalho, quieta e inquieta, eu poderia entrar no universo dos livros — e, ainda, num futuro que se tornou realidade, ver meu nome nos créditos de uma variedade de obras. Quem trabalhou com  impressos por anos sabe o gosto que tem essa conquista, sortida pela textura e pelo cheiro de um livro que acaba de sair da gráfica. Quando é o nosso que chega, então, nem se fala. Até os pulsos palpitam.

É costume da Vida nos colocar em bifurcações, em dúvidas. Mas quanto a essa escolha nunca hesitei: a arte de amor aos livros e às leituras. Ela só me trouxe coisas boas, como a sorte de um dia ter trabalhado com livros para crianças e adolescentes, elaborando catálogos e editando textos. Li tantas obras criativas e outras clássicas, algumas adaptadas, que fizeram minha criança exultar.  A criança que eu fui, muitas vezes insultada por um ambiente hostil, entre impulsos de conflito e de conciliação recebeu colo nas páginas dos livros e ali se aninhou numa ternura inesgotável.

 

*Eloisa Aragão é mestre e doutora em História Social pela USP. É autora de Censura na lei e na marra: como a ditadura quis calar as narrativas sobre suas violências, São Paulo: Humanitas, 2013; Teresa do jardim encantado, São Paulo: Com-Arte, 2012, e de artigos acadêmicos. Tem vários anos de experiência na área editorial, desempenhando trabalhos de edição e elaboração de textos. Mantém a página no Facebook: Sophia de Mello Breyner Andresen – Militância Antifascista < https://www.facebook.com/Sophia-de-Mello-Breyner-Andresen-Milit%C3%A2ncia-Antifascista-182085276004477/?modal=admin_todo_tour >

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3 de Outubro de 2018

Oráculos

Posted in Ler faz crescer às 09:45 por sidneif

Por DENISE SCHITTINE* 

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“In the Library” (1923), de John A. Lomax (1857-1923)

Costumo dizer que temos uma família afetiva de escritores. Uma árvore genealógica que acusa nossos gostos de leitor, influencia nas nossas escolhas de textos, nos ajuda na leitura do mundo. Escolhemos nossos parceiros ancestrais e criamos, ao longo da vida, uma relação sólida e duradoura com eles. Com o tempo, esses escritores se tornam amigos próximos. Pedimos conselhos a eles. São oráculos. Nunca deixei de tomar uma decisão importante em minha vida sem antes abrir uma página de Borges, Guimarães Rosa, Gabo, Graciliano, Sartre, Manguel, Dostoiévski, João Cabral ou James Joyce. Eles me inspiram, me alentam e, sem perceberem, me oferecem respostas, nas entrelinhas, nas orações, nas inflexões de seus personagens… nos versos. São uma família com opiniões díspares, nem sempre em concordância, com personalidades fortes e pontos de vista únicos. Mas, como todas as famílias, é a ela que recorro quando quero me sentir em casa. Alberto Manguel disse uma vez que a combinação da cama com um livro concedia a ele uma espécie de lar ao qual ele sabia que podia voltar, noite após noite, sob qualquer céu. Se eu pudesse viver nos meus livros, habitá-los, já saberia em qual canto de minha biblioteca me recolheria para ouvir as últimas histórias antes do sono.

Comigo começou tarde. Eu já me considerava perdida para leitura quando o professor de literatura do segundo grau entrou em sala, postura desafiadora, recitando o último capítulo de Ulisses. Ele nos olhava sem censura e repetia o hipnotizante monólogo de Molly Bloom. Eram tantos “sins” misturados a uma descrição de paisagens, flores, aromas, perfumes, texturas, vacas, campos, paisagens… A primeira vez que senti uma personagem viva, pulsante, vibrante: com o fluxo de pensamento livre. Saí da sala de aula embriagada pela experiência sensual de Molly. Quis ler o livro. Precisava saber como ela havia chegado ao seu pico de prazer. Então, perdi alguns meses na trama longa e complicada de James Joyce. Foi muito difícil, em alguns pontos, incompreensível. Mas não desisti.

Então, depois dessa primeira experiência finalmente eu tinha encontrado uma das raízes da minha família. O segundo grau foi a minha celebração com a literatura e o encontro com alguns dos personagens que mais me marcaram e emocionaram. Chorei, ainda choro até hoje, com a morte da cachorra Baleia em Vidas Secas: tão corajosa com a cabecinha encostada na pedra depois de perder o que restava da saliva e sonhar com preás. Fabiano, impossibilitado de lidar com as próprias palavras; vítima da violência da vida, da agressividade do soldado amarelo e de sua própria incomunicabilidade. Macabea, uma estrela apagada, mas com brilho interno tão, tão forte, que me gerava uma empatia espontânea. Era uma ingênua, inocente, e eu sempre enxerguei a verdade e a beleza nas pessoas capazes de serem simples. Clarice Lispector era uma descoberta principalmente pela facilidade com que discorria sobre todos os sentimentos, inclusive os meus: o romance A hora da estrela vinha na frente. Mas Clarice era excepcional nos contos. “Feliz aniversário” era o xeque-mate de uma matriarca talvez esquecida, talvez envelhecida, mas com o espirito crítico aguçadíssimo. “Uma galinha” me fez ter pena de todas as angustiadas galinhas que existiam no sítio da minha família. Mas o maior afeto era pelo conto “Felicidade clandestina”: ter a felicidade, ainda que clandestina, de ler um livro proibido era o meu sonho de leitora.

Depois veio o mestre Guimarães Rosa. Mais lágrimas ao final de Grande Sertão Veredas. Não havia amor maior do que o de Riobaldo e Diadorim. Quantos desencontros, quantos desejos nunca mencionados. Era como na vida, o amor dependia do encontro, do momento: deixar passar uma oportunidade poderia significar perder um grande amor. Rosa sabia disso, como sabia de tantas outras coisas. Sabia a linguagem dos valentes vaqueiros, das mulheres esquecidas no sertão, das orações, das superstições e dos medos. Com ele eu aprendi a amar essa região inóspita que brindou o Brasil com a mais bela literatura. E depois dele veio João Cabral, Euclides da Cunha, Ariano Suassuna, Ronaldo Brito. O sertão corre nas minhas veias literárias de uma forma inexplicável. Sertão é o rio São Francisco: percurso inevitável de Severino, em Morte e vida Severina. Um dos poemas mais lindos da nossa literatura, impossível de ser lido sem pensar na música de Chico Buarque e na trajetória do sertanejo que encontra todo tipo de morte em seu percurso até entender que é possível, sim, ao final de tudo, encontrar vida: ainda que pequenina e Severina. Sertão é a oralidade divertida de Ariano Suassuna, que nos faz lembrar dos cordéis e repentes, das feiras de rua do nordeste do país, dos emboladores de coco, carpideiras… contadores de histórias que forjaram a nossa História.

Mas, nesse meio tempo, fui morar fora do Brasil. E, na França descobri a beleza particular dos romances de Sartre. Li com carinho A idade da razão, A náusea e Sursis. Mas as peças eram uma fatia muito especial da obra do escritor e entre elas inegavelmente A prostituta respeitosa e Huis Clos (Entre quatro paredes). Vi montagens de Huis Clos na França e no Brasil e sempre me impressionou a visão do Inferno de Sartre: uma sala fechada com três pessoas que mal se conhecem, mas são obrigadas a conviver pela eternidade. A peça me perturba até hoje. O inferno são os outros? Não, o inferno somos nós. Mas o meu livro de cabeceira sartriano chama-se As palavras, meu oráculo de Delfos. Essa autobiografia, pequena e delicada, sobre a infância do escritor e a sua descoberta das bibliotecas, dos livros e da beleza das palavras é sem dúvida um dos textos mais bonitos que já li. É inesquecível o momento em o pequeno Sartre descobre que os livros têm “vida própria”. Ele pede à mãe, Anne-Marie, ler uma história: “Minha mãe ausentara-se: nenhum sorriso, nenhum sinal de conivência, eu estava no exílio. Além disso, eu não reconhecia sua linguagem. Onde é que arranjava aquela segurança? Ao cabo de um instante, compreendi: era o livro que falava”. Pela linhagem francesa viriam outras leituras, tão importantes: Jean-Pierre Vernant, que só aprofundou o meu amor pela mitologia, o controverso Georges Bataille, Flaubert, principalmente o conto “A legenda de São Julião Hospitaleiro”, Georges Perec e seu W ou le souvenir d’enfance, sempre desafiando o leitor com jogos, ideias e pensamentos. Mas o mais marcante foi Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, uma protagonista irresistível: mulher numa França provinciana do princípio do século XX, Thérèse é indomesticável, genial, entediada e bastante cruel. Uma anti-heroína, uma mulher complexa, amarga, culpada, mas ao mesmo tempo capaz de purgar seu próprio pecado com um doloroso exame de consciência.

Não demorou muito para eu ir estudar literatura e o meu maior medo, como escritora e leitora: a cegueira. Foi com essa tocha que me embrenhei no escuro da obra de Jorge Luis Borges para encontrar um dos escritores que mais escreveu sobre livros, bibliotecas, espelhos, tigres, labirintos… Era uma profusão de assuntos que me encantavam: livros de areia, objetos mágicos, seres imaginários, bibliotecas infinitas, senhas para a eternidade, jogos de espelhos e de palavras, duplos, sonhos, dentro de sonhos, dentro de outros sonhos… Borges era, e é, um caleidoscópio de invenções e referências. A prova de que a realidade é repleta de ficção. Eu tinha chegado aonde queria.

E foi Borges quem me abriu as portas para o meu olhar para América Latina. Morar em Rosário me fez encarar o que havia do outro lado do rio Paraná. Com ele vieram Adolfo Bioy Casares, María Esther Vázquez, Cortázar, Erneste Sabato. O estudo da língua espanhola me permitiu explorar mais: ler Gabriel Garcia Márquez no original, visitar a Colômbia e buscar Macondo em cada cidade e um Buendía em cada esquina. Dormir embalada pelas histórias de Maria Vargas Llosa: Pantaleão y las visitadoras, O elogio da madrasta. Visitar o Chile de Germán Marín, o México de Héctor Abad Faciolince, a Colômbia de Evelio Rosero. Com essas leituras, meu mapa literário estava pronto. E ele ainda é formado de pampas, sertão, rios, cidades imaginárias, caminhos que se bifurcam, labirintos e muitas, muitas bibliotecas: grandes ou pequenas; abertas ou fechadas, mas sempre infinitas.

 

*Denise Schittine, editora de ficção e não-ficção nacional , doutora em em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e Universidade Nacional de Rosário (2011). Autora de  “Ler e escrever no escuro: a literatura através da cegueira” ( Paz e Terra, 2016) e “Blog: comunicação e escrita íntima na internet (Civilização Brasileira, 2004)”.