3 de Dezembro de 2019

Ticiana Werneck em três contos

Posted in Biscoito Fino às 16:41 por sidneif

Ticiana Werneck nasceu no Rio de Janeiro em 1976, hoje mora em São Paulo. Aos onze anos, brincando com uma máquina de escrever, criou um jornalzinho de histórias inventadas. Nunca mais largou os teclados. Jornalista, escreve para revistas e portais de negócios, e continua cedendo ao impulso de fatiar a vida em histórias.

Autora de Trilhas para andar descalça ( Moinhos, 2018) e do ebook Ana não sabe nadar (plataforma Amazon), Werneck brinda a seção Biscoito Fino com três contos.

Neruda

“The Red Table” (1916), de Leon De Smet (1881-1966)

“Nunca gostei do som da minha voz”, ela me disse da sua mesa. Eu sabia que ela falava comigo, pois estávamos sozinhas no salão. Virei-me fazendo ranger a borracha da cadeira no chão. A ruiva apoiava o cigarro entre os dedos e me olhava absorta conforme soltava a fumaça em intervalos. Um transe, imaginei. Ela continuou: “Eu mesma assoprei as velas do meu barco, vago por aí catando as migalhas que a vida me joga”. Disse cada palavra sem pressa, saboreando. Seus olhos, por detrás da fumaça, aguardavam alguma reação minha. Em meu socorro, vi a porta da cozinha se abrir. Por ela, veio o garçon. Ele cruzou o salão, parou em frente à mesa da ruiva e, enquanto adicionava café à sua xícara pediu, com uma entonação que não soava inédita, para que ela não fumasse. A ruiva pareceu não perceber sua presença, deu um trago e em seguida apagou o cigarro no pires. Estaria chorando? Agora sem fumaça, posso ver que seus olhos estão inchados. Não tenho certeza. “Sabe”, ela disse de lá. “Hoje eu sinto um profundo desinteresse por tudo o que antes me despertava excitação. Como se eu estivesse inoculada pela invisibilidade ou envenenada”, completou. Eu pigarreei: “Depressão?” Ela deu um sorriso profundo, daqueles de doer o rosto, e estacionou ele no rosto mais tempo do que seria o esperado. Sua mão suspensa no ar como se segurasse um cigarro invisível, mostrava unhas vermelhas bem feitas. Sorveu um gole de sua xícara fumegante e com uma expressão vazia, puxou o ar de forma sonora com o rosto virado para o teto. Eu fiquei aguardando para ver se a conversa continuaria, se o fôlego renovado viria acompanhado de mais uma frase enigmática ou se podia voltar para meu livro. Neruda, Vinte poemas de amor, o título. Nessa época, eu andava numa fase romântica com a cabeça cheia de rimas e floreios. A ruiva me encarou, disse: “Tem coisas”, e parou como se buscasse no ar as outras palavras para engatar, “que ninguém nos ensina. É um daqueles mistérios da vida, simplesmente se sabe e pronto”, e estalou os lábios satisfeita com sua colocação. Fez-se o silêncio novamente, afinal, eu, deslocada naquela cena, não sabia o que dizer, e calculei que nenhum garçon viria novamente em meu favor.

“O que você está lendo aí?”, ela disparou. Eu levantei a capa do meu livro. Ela balançou a cabeça, como se concordasse comigo e inspirou fundo pelo nariz: “Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida. Pablo Neruda”, ela disse. Então a ruiva era do tipo que colecionava aforismos. Fiz um ar grave, vasculhei fundo nas minhas sinapses sem nada pescar e quase complementei sua citação com um “Grande Neruda”, para não parecer passiva demais. Me contive. Minha língua grande sempre me colocou em apuros e não seria agora que eu daria combustível para que com ele a ruiva atiçasse a fogueira. Me mantive agarrada ao meu ar grave, fitando ela de onde estava, dois metros a nos separar. Fiquei esperando seu próximo movimento, ali eu era apenas coadjuvante. Olhei aquela mulher faminta de companhia, toda ela exalava um cheiro de abandono, ocupada em alimentar seus monstros interiores. Com a respiração alterada, a ruiva engoliu em seco e voltou a falar, misturando as palavras como se usasse a colher de açúcar. “Não confie em ninguém. Muito menos em homens de perna fina”. Dito isso, se levantou erguendo a cadeira para não rasgar o chão em ruído. Passou por mim vagarosa, um pouco cambaleante, e tamborilou a minha mesa como se agradecesse pela “conversa”. Se eu fosse fluente em linguagem corporal diria que, apesar de tudo, ela estava confortável na própria pele. Eu a observei sair da cafeteria, seu sobretudo se arrastou no degrau quando ela atingiu a rua e de lá veio uma inesperada lufada de ar quente que invadiu todo o ambiente como uma corrente elétrica. A saída de minha interlocutora telúrica aumentou a sensação térmica do lugar obrigando-me a desvestir meu cachecol. Voltei, finalmente, para Neruda. Me arrumei na cadeira, saquei o marca-página do miolo e retomei de onde havia parado. Algo não parecia certo. Me voltei novamente à mesa da ruiva, agora vazia. A marca de batom na xícara, o cigarro amassado no pires, nenhum grão de açúcar deixado à esmo. Neruda naufragava na concorrência com a personagem ausente. Busquei a porta, na esperança que a ruiva voltasse em busca de algo que pudesse ter esquecido. Nada. Chamei o garçon e me fui pelas ruas, tentando, em segredo, refazer seus passos, entender seus mecanismos, desvendar suas frases. Um tempo após chegar em casa, ainda alvoroçada, atinei à falta em minha bolsa. Neruda.

Tempo quebrado

“As três idades da mulher” (1905), de Gustav Klimt (1862-1918)

“Tenho 45 anos e os órgãos de uma velha de oitenta”, dizia minha mãe quase todas as manhãs. Ela andava por aí arrastando sua sombra, queixando-se entre grunhidos enquanto tentava endireitar a postura com as mãos nas ancas.

Como se as mulheres pudessem reproduzir o poder de fêmeas animais que se cheiram e reconhecem seu ciclo, doenças e a chegada da velhice, eu senti quando minha mãe ia morrer. Seu modo de respirar mudou. Sua presença se alterou na casa. Um dia ela não acordou. O pai foi ver. Morta. O pai chorou um choro doído, escorre até uma lágrima de lembrar. O tempo nunca esgotou esse amor dos dois. Cuidei de tudo sozinha, o enterro, os documentos. O pai só chorava e andava se segurando nos móveis. Notei meu pai se esvaziando de si mesmo, as ideias embaralhando. Meses passados, o médico laudou: Alzheimer. O pai não lembrava mais de mim, não lembrava mais da mãe, do amor deles, estava livre do luto. Mais um pouco desgarrou da realidade para seu mundo solitário. Eu cuidei dele até o final, banhava, penteava, alimentava.

Meu irmão se foi bem antes, nunca foi bom filho. Por um punhado de moedas era capaz de qualquer maldade. Mãe não enxergava. Quando criança, era um menino muito magro, vivia agarrado na pipa. Mãe bulia: “ô menino um dia essa pipa te leva”. E não é que levou mesmo? Com dezessete anos sumiu para nunca mais. Eu nem lembro mais da voz dele. Mas não esqueço quando estragou meu presente, o único que ganhei na meninice. Mãe ganhou da patroa uma boneca usada, dessas americanas, que a filha não brincava mais. Mãe deixou a boneca deitada na minha parte da cama, me esperando. Mas quando eu cheguei da escola, a boneca estava quebrada. Aquele cão arrancou o braço da bichinha. Eu apertei a boneca tão forte entre meus braços como se pudesse abrandar os sofrimentos dela e o meu por ganhar uma boneca faltando um pedaço. Chorei alto. O pai veio ver o que estava acontecendo e com empurrões violentos empurrou meu irmão para o quintal, estalando o cinto no ar. Eu segurei minha boneca mais forte cobrindo suas orelhas, a protegendo do horror, do meu horror de ter um cabra assim como irmão.

O tempo passou por aqui e levou aquele dia. Ainda tenho a boneca guardada no armário lá em cima. Nunca consertei de volta seu braço, a manguinha do vestido sempre murcha de um lado, não ligava mais. Como se a falta daquele braço a tornasse mais humana. Como se a falta do braço apagasse um pouco daquele olhar congelado dela de boneca americana perfeita. De olhos azuis.

Cada dia me sinto mais solitária nessa casa. Ninguém me obrigou a ficar, mas eu fiquei. Me sinto segura aqui. Quase não saio. Largo as horas procurando ocupação nas sujidades do chão, nas poeiras que encaracolam no ar e grudam na grade da janela. Deixo tudo alvo, tenho muita disposição, mesmo com toda idade que acumulei. No espelho, avalio meu rosto. Ele é vincado exatamente onde as lágrimas passam, como se minha pele tivesse criado um rio pequeníssimo. A barriga distendida de perfil lembra uma grávida. Estou grávida de passado, do tempo que cresceu dentro de mim. É um sentimento que se perde no correr das horas mas não no passar dos anos. Quando tempo ainda tenho?  

Me admira você, Ângela

“O perfume” (1910), de Luigi Russolo (1885-1947)

Toda noite ela se encontrava com ele. No embolado do lençol entre declarações suspiradas na bruma, seu coração pulsava como se tudo fosse real. Recém saída do sonho, ela se armava de pequenas coragens: “se ele for à ‘Bloom’ darei meu número de telefone”. Simplesmente entregará aquele pedaço de papel, dobrado três vezes e guardado no fundo do bolso do uniforme.

Ângela trabalhava na loja de lingeries “Bloom”, já eram três anos de carteira assinada. Ah como era doce e mágico o cheiro daquele lugar. Tudo por causa do aromatizante de ambiente, FLORAL, marcado em letras maiúsculas na embalagem de um litro. Todos os dias, ao abrir a loja, era incumbência dela pulverizar o ambiente com o perfume e em seguida completar os frascos do produto espalhados pelas araras, prateleiras e provadores, virando de cabeça para cima os palitinhos de madeira espetados neles. Igual a uma flor, a “Bloom” desabrochava ao amanhecer deixando escapar seu cheiro, pensava Ângela durante a faina. Pensava também se ele viria. Se naquela sexta-feira, Carlos viria. Ele, o senhor dos seus sonhos, que aparecia sempre um pouco antes da loja fechar para comprar um “presente de última hora”, dizia. Débito ou crédito?, ela perguntava por perguntar pois sabia que ele sempre escolhia a primeira opção. Secretamente, lhe dava prazer imaginar que ele vinha para vê-la. Presente que nada.

Naiara, a gerente, era só elogios para a funcionária. Pontual, eficiente, fazedora, tão bem assentada no seu papel de boa moça, se referia a Ângela. Naiara, em plena menopausa, bem intervencionada esteticamente, esbanjava na energia e no ar condicionado. A “Bloom” estava sempre no inverno, não importava a estação lá fora.

Naquele dia, quando o sol enfraqueceu sua investida contra a vitrine, Ângela sentiu mais frio, mas manteve a pose. Era um dia fraco de poucas vendas. Precisou recorrer a motivações externas. “Faça acontecer” dizia o adesivo colado dentro do balcão do caixa. “Você tem coragem para ir atrás dos seus sonhos?”, perguntava outro, retirado de um livro de autoajuda. Estas frases sempre a faziam refletir. Perdeu os olhos no movimento da rua. Quando deixaria de ser criança? De se encantar por qualquer besteira? E quando começaria a correr atrás dos seus sonhos? Pensou na família no interior, na infância em cima das árvores, no descompromisso que tinha com o futuro. Um passado que deslizava tão silencioso pela tarde que Ângela se sobressaltou quando um vulto surgiu na porta, balançando o sino de entrada. Era ele. Prontamente, ela se colocou a postos ao lado da arara.

Simpático como sempre, Carlos pediu uma camisola tamanho M, para presente. Ângela sugeriu que ele levasse também a essência da loja, “campeã de vendas”, acrescentou ao final. Do balcão, Naiara aprovava a cena, com os olhos por cima dos óculos. Indeciso, Carlos colocou a camisola na frente do corpo de Ângela, “para ver como ficará na presentada que tem o mesmo corpo que o seu”, acrescentou. “Ela é nova?”, quis saber a vendedora. “Tem a mesma idade que você”, ele respondeu. “O que ela é sua? Você a ama?”, sua cabeça rodopiava numa realidade paralela. “Finge que me ama e compra um presente para mim”, rodopiava, rodopiava. A voz dele correndo pelas suas veias, coagulando seu sangue, aquela visão dele tão enorme na sua frente, a realidade esbofeteando seus sentidos. “Bota o juízo no lugar, Ângela”, pensou interrompendo o rodopio. Voltou. Carlos já aguardava a sacola com o cartão na mão. Agora era a hora. Naiara, entretida com a embalagem de presente não notaria se Ângela, após passar o cartão o devolvesse com o bilhete onde anotou seu telefone. E assim o fez. O cliente, discreto, guardou o cartão na carteira e o bilhete no bolso. Agradeceu e partiu, com o mesmo charme natural de sempre. Ângela, ficou lá, com o coração açoitando o peito, quase encontrando saída pela garganta. Do seu lado, nem imaginando tal turbilhão emocional, Naiara mirava o computador com aquela cara plácida de sempre, o creme antirrugas brilhando no rosto o cuidado diário no espelho. Hora de fechar a loja. A impiedosa chave encerrou a sexta-feira estalando a fechadura.

Os dias foram passando, um a um, como pedestres desinteressados na frente da vitrine. Quantas sextas-feiras depois daquela? Quem conta? E aquele eterno inverno? Um miserável clima de Rússia a congelar sua pele eriçando os pelos todo santo dia. E aquele cheiro fabricado que enjoava feito esgoto? “Odor frutado sensual” dizia a etiqueta. Mentira. Era um cheiro inebriante, um perfume de puta. Depois do dia do bilhete, Carlos nunca mais pôs os pés na loja. Ângela descolou o “Faça acontecer” da parede e o rasgou em minúsculos pedaços. “Me admira, você Ângela”, penitenciou-se.

12 de Junho de 2018

A pena maravilhosa de Leonardo Villa-forte

Posted in Biscoito Fino às 14:38 por sidneif

Leonardo Villa-Forte, escritor, professor e criador do projeto Páginário, presenteia os leitores do blog com um trecho do seu último livro — O princípio de ver histórias em todo lugar (Oito e Meio, 2015).

Cover - O principio de ver historias em todo lugar - Leonardo Villa-Forte“Semanas antes, eu havia lido uma reportagem sobre uma pesquisa cuja conclusão é a de que o elemento decisivo para duas pessoas se apaixonarem se chama geografia. Quanto mais perto moram, maiores são as chances de se apaixonarem. A mesma conclusão valia para as chances do casal permanecer junto. Metros e centímetros regem o afeto, diziam os pesquisadores. A disposição romântica, privada e íntima, seria proporcional à distância de bairros, ruas, quarteirões. Mais do que qualquer tarô, simpatia, reza ou macumba, um edifício construído ao lado do seu pode lhe trazer a pessoa amada. Assim você passa a ter mais chances de encontrá-la. Segundo a pesquisa, as pessoas se afeiçoam ao que elas se habituam. O hábito é frequência. O afeto, assim, é uma questão de repetição e proximidade. Basta repetir e estar perto para que se habitue, e basta se habituar para acabar gostando. Talvez o caminho inverso também aconteça: deixarmos de gostar de quem está longe. Afeto somado à distância resultaria em negativo. Dessa maneira, toda a ansiedade, a insegurança, o medo e a raiva, enfim, tudo o que eu sentia naquele momento por Cecília logo sofreria mudanças e, ao invés de ser incômodo, tornaria-se habitual.”