28 de Janeiro de 2010

Um livro por companhia

Posted in Ler faz crescer às 16:12 por sidneif

Por MARIA MANUEL MAGALHÃES*

A minha infância sempre foi povoada de livros. Os meus pais, sobretudo a minha mãe, incutiram-me, desde muito cedo, o gosto pela leitura. Nessa altura eu sabia que não podia fazer mais nada senão ler. A minha mãe recorda a altura em que, ainda sem saber ler, havia um amigo da família que levava banda desenhada1 da Disney e passava tempos a contar-me histórias. Quando estava sozinha olhava para as imagens e entretinha-me a recriá-las. Portanto, penso que a minha paixão vem daí. Até que mais tarde, depois de ter aprendido a ler, nunca mais deixei de ter um livro por companhia. Acompanhava-me, assim como acontece agora, para todo o lado (nunca se sabe quando teremos um tempinho livre para desfrutarmos da sua companhia.)

Surge, então, O Principezinho2 de Saint-Exupéry, oferecido por uma tia. Apesar de numa primeira leitura não ter entendido o significado de todas as coisas, prendeu-me bastante. Anos mais tarde, voltei a lê-lo e descobri novos significados que me prenderam ainda mais ao pequeno príncipe.

A leitura que se segue e que me prendeu deveras foi Chocolate à Chuva de Alice Vieira, que li quando andava no primeiro ano do ciclo preparatório. Essa altura marcou-me muito porque, devido à profissão da minha mãe (professora do ensino básico), vi-me deslocada do meu ambiente, da minha terra, e tive de me adaptar a uma nova cultura e novos amigos. Aí, também os livros foram os meus melhores amigos. Foi aí que conheci a biblioteca itinerante da Gulbenkian3, e comecei a requisitar livros dessa forma. Apesar da temática de Chocolate à Chuva falar da separação/divórcio dos pais, e não estar relacionada com a minha vida, no fundo a minha estada num outro concelho4, numa outra região, fazia-me rever na história de Mariana, nas mudanças que se faziam sentir nela e em mim.

Chegada a adolescência os livros de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães estiveram sempre presentes e ajudaram-me a interessar-me ainda mais pela História de Portugal.

Dos livros de Uma Aventura parti para os clássicos portugueses, desde vários livros de Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós  – que comecei a ler com O Crime do Padre Amaro -, Poemas e Diário de Miguel Torga e A Morgadinha dos Canaviais que me levou a conhecer depois a restante obra de Júlio Dinis.

*Maria Manuel Magalhães, portuguesa, jornalista e responsável pelo blog Marcador de Livros.


1banda desenhada – história em quadrinhos, gibi.
2O Principezinho – o título do livro O Pequeno Príncipe em Portugal.
3Gulbenkian – Fundação Cultural Calouste Gulbenkian, sediada em Lisboa, foi criada com a herança  do empresário armênio naturalizado britânico Calouste Sarkis Gulbenkian .
4concelho – município.
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22 de Janeiro de 2010

Haiti, o país que não existe

Posted in Mundo às 18:00 por sidneif

Furações e terremotos castigam os haitianos. A ambição do homem também.

O Haiti foi pioneiro ao ter libertado seus escravos e conquistado sua independência. Inspiração para outros povos da América. Uma ameaça ao sistema escravocrata. O país caribenho pagou caro por isso.

A forte agricultura foi boicotada pelo mercado internacional. A título de indenização, a França (Metrópole) arruinou os cofres do país.

A piorar sua penúria, o Haiti conviveu ao longo dos anos com intervenções dos Estados Unidos, sucessivos golpes do estado e mergulhou em sangue com a ditadura da família Duvalier – Francois (Papa Doc) e Jean-Claude (Baby Doc) apresentaram o inferno aos seus conterrâneos.

O corolário é um país sem economia, sem instituições democráticas sólidas. O governo não existe de fato. O que reina em solo haitiano é a trágica combinação de miséria e violência.

Agora, o recente terremoto faz o mundo voltar os olhos ao Haiti. Por ora, a primeira grande missão é aplacar a fome dos haitianos. Mas o futuro precisa ser pensado. Reconstruir o país significa a restauração das instituições democráticas. O Executivo, o Legislativo e o Judiciário precisam renascer. Lutar por tais metas deve permear todas a iniciativas de qualquer país que queira ajudar o Haiti.

O triste é a iminência de virarmos a página do terremoto relegando o Haiti ao limbo. Afinal, trata-se de um país sem importância, não oferece perigo a ninguém. O mundo pode voltar à vidinha de sempre. Até a próxima tragédia.

Os haitianos sabem disso. Outros países cujo povo é vítima da miséria e da violência também sabem que estão em segundo plano. Só difere se for algum aliado. Então, vale fazer a política de conveniência. Legitima-se até a ditadura.

Como a esperança é caracterizada pela resistência, que a civilidade fale alto ( completamente oposta a voz burra que reduz o discurso à vilania imperialista), e a História conte outra realidade.

18 de Janeiro de 2010

Certo dia tropecei num livro

Posted in Ler faz crescer às 09:47 por sidneif

POR MARCELO KUNDE*

Nasci em meio a uma família do interior gaúcho com poucos leitores, onde uma caixa escura quando ligada ao interruptor reproduzia vozes, músicas, imagens e falava de um mundo distante. Esta caixa escura era e continua sendo o centro de muitas atenções em minha família. Cresci na frente desta janela do mundo, onde sonhos fantasiei e lágrimas derramei vendo muitos filmes. Era uma de televisão antiga, amarela por fora e apenas com imagens preto e branco. Regular a antena sempre fora uma briga, pois o sinal era fraco e a tecnologia da caixa escura também não ajudava muito.

A ciência (e não só ela) diz que o meio em que as pessoas vivem influencia, e muito, as nossas vidas. Concordo parcialmente, uma vez que fui muito influenciado pela linguagem televisiva, talvez pela falta de leitores assíduos no meio familiar. Mas, além disso, de minha infância, guardo inúmeras lembranças que só os garotos que viveram no interior sabem dar valor – que posso falar com mais detalhes outrora.

Não me lembro de ter fantasiado as histórias de Emília e sua trupe frente ao livro, mas assisti, possivelmente todas, frente à televisão. Vi, antes de ler, O pequeno príncipe e me emocionei.

Tempos mais tarde descobri o livro… por meio de uma grande amiga. Até hoje não comprei este livro, apesar de já ter lido quatro vezes.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Minha mãe assinava uma revista que lembro com muito carinho, chamada Nosso Amiguinho, mas foi bem mais tarde que descobri o prazer da leitura, por meio de um escritor bastante polêmico: Paulo Coelho. Hoje seus livros não me chamam atenção, mas lembro de ter devorado pelos meus 18/19 anos As Valquírias, Diário de um mago, O alquimista, O monte cinco, Verônica decide morrer… talvez tenha mais algum esquecido pela curta memória.

Depois ri muito com O analista de Bagé e me apaixonei pelo pai de Luís Fernando Veríssimo, o grande Érico Veríssimo. O tempo e o vento, que fala de uma guerra, de um romance, do passado da minha terra e foi lido parágrafo por parágrafo até o último tomo: “escuta… O vento!”.

E a partir daí fui descobrindo diversos autores… Gabriel García Marques fez-me navegar com seu Amor nos tempos do cólera e me sentir encharcado em meio ao dilúvio de Macondo e literalmente viajar com seus Doze contos peregrinos. Impressionei-me com a riqueza de detalhes descritos nos livros de Saramago, e recentemente percebi que Tolkien também esbanjava talento no quesito descrição.

Embarquei no expresso Hogwarts com Harry Potter em todos os livros da série numa espécie de relaxamento mental, assim como O senhor dos anéis, O caçador de pipas, Sete anos no Tibet, O centauro no jardim… entre tantos outros. Porém, vou confessar o que poucos sabem: nunca cheguei ao fim de um Machado de Assis, nem cheguei a ler Clarice Lispector. Por quê?

Bom… acho que quando peguei esses livros na mão pela primeira vez ainda não estava preparado para esses grandes escritores. E agora? Talvez. Atrevi-me a iniciar Os irmãos Karamasovi e estou adorando… quem sabe quando terminar este não escolha um livro intimista com DNA bem brasileiro.

Por fim, gostaria de deixar aqui registrado que descobri e aprendi cedo muitos valores da vida, como correr descalço na grama molhada, jogar taco com a gurizada, tomar banho de chuva e de riacho sem poluição, subir em árvores para colher frutas e comê-las sentado em um galho lá em cima (parecido com No tempo das tangerinas), pescar, ajudar os pais… outros porém tive que descobrir ao longo da vida, muitas vezes aos tropeços. Hoje agradeço a Deus por todos os valores aprendidos e experiências vividas; mais ainda por um dia ter tropeçado num livro.

*Marcelo Kunde é designer gráfico e aprendiz da vida. Também responsável pelo blog que leva seu nome.

15 de Janeiro de 2010

Hora de expiação

Posted in Brasil às 15:33 por sidneif

E começamos o ano falando de um monstrengo. Criatura típica de produção mambembe.

O  Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH) tem em seu bojo agressões à liberdade de expressão, uma clara tentativa de controlar os meios de comunicação.

Para aumentar a bagunça, o PNDH ganhou rótulo de crise após a insurgência das Forças Armadas. Em foco a Comissão da Verdade para apurar o ocorrido durante a ditadura militar.  A grande imprensa trata a questão como mais uma trapalhada do atual governo, um revanchismo tácito que incitou a sanha dos militares.

Revanchismo à parte, há nessa briga uma questão maior a ser discutida: o porquê da insistência em enterrar nosso passado manchado de sangue.

Não é para definir heróis e vilões (chega de maniqueísmo, não sejamos refém do pensamento único), o que  importa é trazer a verdade à tona. Não só como  alento a familiares das vítimas, mas como exemplo às novas gerações.

Independente de ideologias, o que se viu durante a ditadura militar foi um atentado aos direitos humanos, crime de lesa-humanidade. Esconder a verdade para debaixo do tapete legitima tais ações, como se fossem possíveis praticá-las outra vez em “defesa da pátria”.  Uma pequena faísca a ameaçar qualquer ideologia, lá estará de  prontidão um torturador ou um terrorista.

As Forças Armadas deveriam ser os primeiros a quererem a expiação. É uma necessidade dessas sérias instituições, que precisam da confiança da nação para qual servem.

Mas parece que nosso caminho é sempre esconder, defender uma frágil aparência de correção e justiça. Tenho força, sou absolvido, garanto meu atestado de idoneidade.

Assim vamos a alimentar a impunidade…

2010

Posted in Notas às 10:08 por sidneif

Novo ano, novas ideias, os mesmos princípios.

Este blogueiro começa o ano  motivado. Cheio de projetos.

No momento trabalho no projeto Agenda, cujo objetivo é discutir o futuro do  país – ainda mais em ano eleitoral. Minha ideia é apresentar relevantes temas ( educação, saúde, economia etc.) sob a ótica de vários convidados. Uma ótima oportunidade para  refletirmos sobre o Brasil que queremos, prioridades as quais  devemos cobrar dos candidatos e dos futuros eleitos.

Além de projetos novos, o blog continuará a expor suas opiniões sobre o que acontece no Brasil e no mundo ( espero poder escrever com mais frequência). E renova seu compromisso com a seção Ler faz crescer – a busca por experiências ligadas a arte de ler não para.

Espero conseguir colocar em prática os novos projetos, como o supracitado Agenda. Não faltará determinação deste blogueiro. Nem o compromisso do blog com a liberdade de expressão.

Feliz 2010.