27 de Agosto de 2010

Agradecimentos e novidades

Posted in Notas às 12:44 por sidneif

Depois de realizada a primeira etapa do projeto Agenda, cabe a este blogueiro prestar os devidos agradecimentos.

Agradeço imensamente  aos profissionais Catarina Iavelberg, Francisca Rasche, Sérgio Rizzo e Heloísa a confiança dada ao meu blog e ao meus propósitos.  Gratidão idem a todos que visitam e colaboram com este espaço.

Este blogueiro espera apresentar em breve um novo tema, sempre pautado pelo debate livre e rico de ideias.

Enquanto isso não acontece,  o blog terá outras novidades – semana que vem, estreiam sinal verde e sinal vermelho.

Trata-se de alusões (negativas ou positivas)  que este blogueiro fará a fatos ou a pessoas.

Sinal verde para ideias e fatos edificantes, para biografias dignas, pessoas que transformam o mundo.

Sinal vermelho, é lógico, para o oposto disso.

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20 de Agosto de 2010

Agenda da Educação para o Brasil que queremos

Posted in Agenda Educação às 08:20 por sidneif

Por HELENA SINGER*

A agenda da educação para o Brasil que queremos passa por:

1. Resgatar o sentido educativo da escola: estruturá-la para o conhecimento. Espaços e tempos voltados para o trabalho colaborativo que caracteriza a pesquisa, compartilhamento entre todos das responsabilidades pelo bom uso dos equipamentos e recursos, participação ativa da comunidade na gestão escolar, promoção do vínculo entre educador e estudantes e de ambos com o conhecimento.

2. Recriar os ambientes escolares sobre a base da pluralidade, da sustentabilidade e da inovação: Pensar a educação de forma inovadora passa necessariamente por promover ambientes de aprendizado plurais e sustentáveis, sejam eles escolas ou não.

3. Governança participativa e autonomia das escolas: O primeiro passo é passar a gestão da escola para as mãos dos estudantes, professores, funcionários, gestores e pais.

4. Inclusão de todos talentos e habilidades nas escolas: as questões suscitadas pela proposta da inclusão incidem sobre os aspectos essenciais da tão falada qualidade de ensino, a saber, o papel do educador e a estrutura escolar. A escola inclusiva é necessariamente solidária, cooperativa e participativa.

5. Inclusão de todas as culturas e experiências no nível superior: Abrir as portas da universidade para a população tradicionalmente dela excluída pode também significar um real enriquecimento do conhecimento ali produzido, a partir do diálogo entre os saberes científicos, os saberes tradicionais e os saberes das diversas culturas que compõem este imenso e diverso país.

6. Avaliação dos estabelecimentos de ensino por seus usuários e participantes: Estudantes, professores, funcionários, gestores e pais deveriam responder de forma direta e objetiva sobre o seu grau de satisfação em relação ao desempenho dos professores, funcionários e gestores, ao aprendizado dos estudantes, à participação da comunidade na instituição.

7. Qualidade: O sucesso da escola dependerá, portanto, da sua abertura para efetiva participação de seus atores em sua gestão, desde o planejamento pedagógico até a avaliação final. Para tanto, é preciso que as escolas tenham autonomia para elaborar seu projeto pedagógico e gerir seus recursos financeiros, que os gestores e professores respondam à comunidade escolar, sendo por ela selecionados e avaliados, e que, finalmente, os estudantes tenham condições para desenvolverem interesse pelo mundo que os rodeia, iniciativa e competência para elaborarem e realizarem projetos próprios.

*Helena Singer, Socióloga com pós-doutorado em Educação, Diretora pedagógica da Associação Cidade Escola Aprendiz. O texo aqui apresentado é uma compilação – elaborada pela própria autora – de ideias suas explanadas no Portal Aprendiz.

19 de Agosto de 2010

O amanhã fica logo ali

Posted in Agenda Educação às 07:43 por sidneif

Por Sérgio Rizzo*

Quem já não ouviu dezenas de vezes a frase “o Brasil é um país jovem” pronunciada como se fosse justificativa para a persistência de nossos maiores problemas? Sendo jovem, o Brasil ainda raciocina como jovem, e não como adulto. Acredita que o tempo caminha devagar, que o amanhã fica muito longe e que, dessa forma, é melhor deixar para pensar nele mais tarde. Com as habituais exceções, tanto na esfera pública quanto na privada, não se valoriza o planejamento de longo prazo.

Sem um olhar cuidadoso (e rigoroso) para os próximos 10, 20 ou 30 anos, não se estabelecem metas; sem objetivos específicos a alcançar, corre-se o risco de caminhar em direção a lugar nenhum. No campo da educação, é preciso lembrar que esforços empreendidos nas últimas duas décadas contribuíram para alterar o cenário. Foram adotadas, por exemplo, políticas de avaliação vinculadas a índices de desempenho desejável.

Com antecedência no mínimo razoável, também foram estabelecidos compromissos, tarefas e obrigações, como a expansão do ensino fundamental para nove anos. Mas a nossa cultura do descuido, a de “deixar para depois”, ainda compromete o acompanhamento sistemático do que se faz (ou se deixa de fazer) durante os anos que se seguem à definição das metas. Em muitas ocasiões, só quando o prazo final se aproxima é que as atenções de fato se voltam para examinar o estado das coisas.

Claro: temos o hábito de acompanhar diariamente telenovelas, “reality shows”, resultados de futebol e das loterias, mas não fazemos o mesmo com os indicadores sociais e educacionais. De tempos em tempos eles aparecem, circulam pela mídia, provocam debates. Em seguida, são esquecidos.

A formulação e o monitoramento sistemático de indicadores de varejo – os que dizem respeito a uma rede de ensino, a uma escola ou a uma turma – estão ao alcance de todos os profissionais de educação, e deveriam figurar obrigatoriamente entre suas atribuições. Indicadores de atacado, referentes ao país, já existem, como os reunidos pelo web site do movimento Todos pela Educação (1).

Criada em 2006, essa campanha em defesa da qualidade do ensino básico brasileiro estabeleceu para o simbólico 7 de setembro de 2022, quando se comemorará o bicentenário da Independência, o alcance de cinco metas fundamentais: “toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola”; “toda criança plenamente alfabetizada até os oito anos”; “todo aluno com aprendizado adequado à sua série”; “todo jovem com o ensino médio concluído até os 19 anos”; “investimento em educação ampliado e bem gerido”.

Quatro anos atrás, 2022 era apenas um ponto difuso no futuro do país. Bem divulgado em seu lançamento, o Todos pela Educação foi sendo esquecido aos poucos. Já estamos em 2010. Daqui a pouco vem a Copa do Mundo no Brasil, as Olimpíadas do Rio, e então estaremos no fim de 2016. Dali a 2022, um pulo. Adultos sabem que o tempo passa assim, muito rápido. Jovens têm a sensação de imortalidade – até que um dia a ficha cai.

*Sergio Rizzo, Colunista das revistas “Educação” e “Escola Pública”, Professor da Universidade Mackenzie, da Faap e da Casa do Saber . Este artigo – sugerido pelo próprio autor ao Projeto Agenda – foi originalmente publicado na revista “Escola Pública”, edição 14.

18 de Agosto de 2010

O Brasil que desejamos!

Posted in Agenda Educação às 07:38 por sidneif

Por FRANCISCA RASCHE*

Hoje quero pensar no Brasil que desejamos. Vou começar pelo Brasil que eu desejo. Peço que me permitam, em alguns momentos no texto, usar a terceira pessoa do plural porque falo, ouço, vejo muitos por aí com aspirações muito próximas às minhas. Se eventualmente você discordar, considere que o que ocorre na verdade é apenas a manifestação de um outro ponto de vista e essa eventual discordância é  resultado de diferentes formas de ver, de sentir, de expressar-se, de querer, é algo salutar para um diálogo.

O certo é que todos nós queremos um Brasil que nos permita sorrir mais, apaixonar-se por este lugar, viver com alegria, realizar sonhos nesta terra, usufruir das riquezas disponíveis, construir história, fazer acontecer todo o potencial que vislumbramos.

Alguém pode simplesmente dizer: mas eu vivo tudo isso! Ora, então já tens o Brasil que desejas. Mas será que todos nós já temos esse Brasil ou a simples noção de que podemos tê-lo? Parece-me que ainda falta a clareza de que o Brasil que temos é o Brasil que coletivamente construímos. Logicamente essa construção é por demais complexa, mas cada um, de um jeito ou outro, participa dela, tem sua parcela de autoria ou responsabilidade.

Eu vejo algumas vezes, crianças nos sinais, vendendo balas ou algum produto qualquer. Em geral, estão de pés descalços e tenho certeza que este não é o Brasil que quero. Eu sei que pago muitos impostos e que trabalho mais que quatro meses no ano apenas para pagá-los. Penso que trabalho bastante e sei que ele é produtivo e gera riquezas. Acredito que, você leitor, também considera o fruto do seu trabalho valioso. Quantos brasileiros estão trabalhando mais do que quatro meses ao ano para pagar em dia nossos tributos? Será que não arrecadamos juntos o suficiente para colocar todas as crianças na escola?

Não podemos esquecer que se queremos ter o Brasil que desejamos precisamos rever alguns conceitos. Vejamos… Ouvimos eventualmente na mídia e nós mesmos pronunciamos vez ou outra, que somos um país democrático e de direito. O que isso significa? Quer dizer que o Brasil é um país no qual o povo formula e cumpre suas próprias leis. Em outras palavras, somos um país no qual as leis são formuladas por representantes do povo, escolhidos por este povo, e que aqueles elaboram leis que todos, eleitos e eleitores se comprometem a cumprir, a respeitar. A Constituição Federal, nossa lei maior, é um exemplo disso. Em 2010 é fundamental lembrar este conceito, afinal se aproxima um novo pleito, no qual mais uma vez escolheremos representantes.

Que sejamos sábios para escolher, que saibamos também criar mecanismos para acompanhar mais de perto cada um dos escolhidos. Que o gesto de votar não seja uma simples outorga ou uma simples procuração em branco. Talvez este seja o primeiro passo para termos o Brasil que desejamos, escolher pessoas com uma mentalidade voltada para a construção de um projeto de crescimento e desenvolvimento coletivo, evitando atribuir poder a indivíduos que só vislumbram um lugar para colocar em prática projetos pessoais e egoístas.

Diante disso, me parece que o mais importante para se conseguir  o Brasil que se quer é construir uma consciência de que somos, um país rico e  participes do que o quê se faz ou se deixa de fazer com toda esta riqueza. Neste aspecto basta observar nossa natureza, como o sol (energia solar), aquíferos (reservatórios de água doce), pré-sal (reservas de petróleo no subsolo), florestas (Amazônia), muitas extensões de solo para a agricultura e assim por diante. Parece lógico que riqueza não é o que nos falta. Se analisarmos pesquisas e estudos em diferentes áreas, especialmente no aspecto econômico, veremos que a tônica do coerente e consciente aproveitamento de todas essas riquezas reside no conhecimento, a ser construído, compartilhado, aplicado, e sem dúvida, nas decisões políticas que permeiam todo esse processo.

Nessa hora é oportuno falar em educação. Temos visto muitos programas para qualificação profissional no país. A todo o momento ouvimos que falta mão de obra qualificada. Isso é valioso, mas é preciso, sobretudo realizar um projeto educacional que busque mais qualidade na educação escolar, a começar pela educação básica, nas séries iniciais. Se queremos um Brasil que sabe usufruir de suas riquezas, por certo precisamos de mais cientistas realizando pesquisas em prol de todo esse projeto. Pesquisadores do futuro, do Brasil que queremos, são aqueles educados com valores éticos, responsáveis quando da aplicação do conhecimento. Responsáveis na condução de seus estudos. Sabedores de que a ciência aplicada a soluções que melhorem a vida do coletivo tende a ser boa para todos, inclusive para o planeta.

Em uma época em que a natureza mostra toda a sua força, não há como negar a necessidade de trocar velhos hábitos por práticas novas, por uma nova consciência social e coletiva. Será que o futuro está nas crianças? Se queremos que as crianças de hoje usufruam de um projeto de Brasil melhor amanhã, precisamos abrir caminhos para que isso aconteça, começando hoje.

Em se tratando de preparar o caminho, falando em educação e pesquisa não podemos esquecer uma palavra, digamos quase mágica neste cenário: a informação! Por anos escolas foram construídas considerando que seu corpo físico tinha prioridade apenas salas de aula. Atualmente, presenciamos a sanção da Lei 12.244 de 24 de maio de 2010, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas escolares, prevendo que, em um prazo de 10 anos, cada escola tenha uma biblioteca, respeitando a profissão do bibliotecário. Isso significa que finalmente a educação escolar terá como efetivar propostas educacionais em que o estudante possa usufruir da informação registrada nos mais diversos meios de difusão do conhecimento registrado. Até então, quantos de nós fomos educados levando-se em conta apenas a informação contida em livros didáticos? Finalmente se reconhece que a educação escolar não é apenas papel de um professor e um livro didático, com todo o respeito aos professores que fazem um excelente trabalho. Temos porém, que considerar que um projeto educacional de qualidade requer uma biblioteca e apoio de um profissional qualificado para dinamizar e colaborar com o docente e estudantes no uso dos recursos informacionais.

Esse é o Brasil que desejamos, com bibliotecas em escolas, quebrando paradigmas de que só alguns são merecedores de informação.  Não basta apenas a distribuição das riquezas “físicas” é preciso também distribuir o intangível, a informação o conhecimento, grandes propulsores da sabedoria.

Se fizermos só isso, já somos o Brasil que desejamos!

*Francisca Rasche, Mestre em Ciência da Informação, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Palestrante sobre políticas públicas  para bibliotecas escolares no Brasil.

17 de Agosto de 2010

Por uma Escola Big Bang

Posted in Agenda Educação às 07:51 por sidneif

Por CATARINA IAVELBERG *

Amigos, familiares, professores e pesquisadores costumam perguntar por que razão me tornei educadora. Acredito que muitos colegas de profissão já se depararam com essa questão ou a formularam para si mesmo. Não sei se sou capaz de responder por que me tornei educadora, no entanto, sei exatamente porque sigo educadora.

É preciso resistir. Resistir à dominação da cultura do consumo, à colonização do mundo da vida, aos espetáculos midiáticos, à banalização da miséria e da violência, ao individualismo, ao cinismo, ao racismo, à ausência de crítica, às relações de poder opressoras…. Enfim, a lista é longa.

Não tenho dúvidas que a escola é, sobretudo, o lugar da reprodução e adaptação a tudo aquilo a que resisto. Porém, a escola também pode ser o lugar da construção, da criação, da inovação. É esse espaço conflituoso, tecido de contradições, o promotor de um encontro excepcional: o do sujeito com diferentes linguagens. A escola pode e deve introduzir o aluno em diferentes linguagens (matemática, escrita, visual, poética, cênica, musical, corporal, etc.), expandindo assim as possibilidades da atuação de seus sentidos.

Permaneço educadora para contribuir com a expansão do universo de crianças e jovens. É razão de alegria e satisfação testemunhar os alunos construírem novos sentidos para a expansão. Uma expansão que não é apenas deles, mas de toda a humanidade. Quando um homem se expande, o universo se expande com ele.

Educadores ou não, todos temos um compromisso com a emancipação humana. Seja lá qual for o trabalho ou a atividade exercida é preciso construir e ocupar novos espaços onde uma sociedade outra seja possível.

*Catarina Iavelberg,  Assessora Psicoeducacional especializada em Psicologia da Educação, Articulista da revista Nova Escola.

16 de Agosto de 2010

Projeto Agenda

Posted in Projeto Agenda às 09:30 por sidneif

O festejado Brasil de economia forte ainda convive com distorções. Ainda vivemos com grande concentração de renda, poucos tem acesso à educação de qualidade, a uma estrutura de saúde digna e tantos outros direitos.

Todos concordam que é outro Brasil que queremos – um pais cuja economia forte seja sólida reflita em igualdade de oportunidades e de direitos do cidadão respeitado.

Mas qual é exatamente o Brasil que desejamos? E o que precisamos fazer para alcançá-lo?

São respostas para essas indagações que o blog pretende buscar e debater através do projeto Agenda.

Dividido em temas, o projeto apresentará textos de convidados envolvidos com o assunto ora discutido.

O primeiro tema será a educação, e os textos começarão a ser publicados a partir de amanhã. Abaixo o calendário:

  • 17 de agosto – Catarina Iavelberg – assessora psicoeducacional especializada em Psicologia da Educação, articulista da revista Nova Escola.
  • 18 de agosto – Francisca Rasche – Mestre em Ciência da Informação, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Palestrante sobre políticas públicas para bibliotecas escolares no Brasil.
  • 19 de agosto – Sérgio Rizzo – colunista das revistas “Educação” e “Escola Pública”, professor da Universidade Mackenzie, da Faap e da Casa do Saber.
  • 20 de agosto – Helena Singer – socióloga com pós-doutorado em Educação, é diretora pedagógica da Associação Cidade Escola Aprendiz.

Cabe que esclarecer que o projeto não possui viés político. O máximo de pretensão do blog é um debate livre e rico de ideias.

    3 de Agosto de 2010

    A beleza e a contemporaneidade

    Posted in Brasil às 11:37 por sidneif

    Por POLLY D’AVILA*

    O homem contemporâneo tornou-se excessivamente dependente da imagem para formar conceitos, inclusive aqueles acerca da beleza. E como hoje em dia somos constantemente bombardeados por informações, estamos também à mercê de imagens ilusórias. Caso não saibamos distinguir o que é de bom proveito ou não para nossas vidas, estas imagens nos deixariam vítimas de nosso próprio labirinto mental. Como numa sociedade em que se prefere acreditar nas sombras a realidade.

    Um grande exemplo disto é a Internet, pois sabemos da relação Real x Ilusão que ela possui. Como ferramenta ela é muito boa para aproximar as pessoas, porém pode ser alienante se for mal utilizada. Qualquer um na Internet pode aparentar mais beleza, mais simpatia e inteligência do que realmente tem. Qualquer um na Internet pode moldar-se da forma que achar mais conveniente. O que importa em nossa época é aparecer, mesmo que essa aparência não conduza a realidade. E ainda mais, se você aparece e não agrada aos outros, o problema é dos outros e não (mais) seu! Os valores foram invertidos, o feio, o desagradável, o diferente de ontem é o bonito de hoje.

    Então, o que será a beleza nunca sociedade em que se perderam os paradigmas? Duchamp colaborou para tais questionamentos quando nos apresentou no século passado sua obra-prima, um mictório, exposto numa galeria de Arte. E como era de se imaginar, esta ação gerou espanto nos espectadores. Afinal de contas o quê um mictório fazia numa galeria de Arte? Estaria Duchamp tirando sarro de seus espectadores? Estaria Duchamp questionando alguma coisa?

    Certa vez li sobre uma cena em um livro. Uma mulher religiosa entra num local e vê uma pintura do Cristo crucificado. Imediatamente ela fica em êxtase com a beleza daquela pintura, com sua técnica, com suas cores, suas formas e exprime um elogio ao artista que o fez. Se analisarmos melhor, percebemos como a Arte tem o dom de inebriar as pessoas. Esta mulher sendo religiosa, certamente saberia que toda cena de Cristo crucificado nos remete a dor, a chagas, a sangue e a sofrimento. Entretanto, no primeiro instante ela esquece imediatamente disto e aquela obra de Arte torna-se bela, apesar de triste e “feia”. Era acerca disso que Duchamp havia iluminado nossos olhos…

    Imaginemos: Se todos os espelhos do mundo fossem quebrados, para onde dirigiríamos nosso olhar para obtermos respostas acerca da nossa própria imagem? Simples. Para os olhos dos outros. Apenas mudaríamos a direção do nosso olhar.

    A Arte mudara, o conceito de beleza mudara, o próprio artista e seus espectadores mudaram. O espectador hoje em dia faz parte da construção da obra. É o que vemos constantemente nas bienais espalhadas pelo mundo, onde o espectador pode ouvir, manusear, cheirar, comer o objeto artístico.

    E essas mudanças de paradigmas foram aos poucos tomando conta do nosso cotidiano e hoje claramente fazem parte dele. Você “só existe” no seu ambiente de trabalho e na sua vida social a partir dos olhos dos outros. Por isso, algumas pessoas estão vivendo numa luta desenfreada para “aparecer”, o que me faz lembrar aquela célebre frase de Andy Warhol sobre os “15 minutos de fama”. Pois, não querer “aparecer” em nossa sociedade tão narcisista, é como declarar suicídio a auto-imagem…

    Pensemos sobre isso.

    Marcel Duchamp e sua modelo

    O Mictório

    * Polly D’Avila, artística plástica, uma apaixonada pelo idioma francês e pela arte de escrever.  Este texto surgiu de um desafio proposto – o tema era o “belo” –  à artista por este blogueiro.

    2 de Agosto de 2010

    Entre a fé e a razão

    Posted in Brasil às 10:40 por sidneif

    No início, o homem não sabia explicar os fenômenos naturais.  Por que havia o sol? Donde surgia a chuva? O que era o barulho do trovão?   Forças divinas eram as repostas que o prosaico humano tinha na ausência da ciência. Foi isso que este blogueiro, quando muito jovem,  ouviu de  um professor acerca da origem da religião.

    Nada mais lógico. Pois  a  ciência se firmou, e  as respostas às dúvidas surgiram – ou em alguma hora aparecerão. Não há incertezas que a razão não ilumine.

    Acresce que o ser humano não é apenas razão. Emoções o conduzem. Angústias o cercam.  Reveses precisam de culpados ou de contrapartida. A vida precisa de um sentido maior que o esquema “respirar, comer, dormir, reproduzir e, então, o fim”.

    São inquietações inerentes ao Homo sapiens, a quais a  ( tão abstrata) fé se encarrega de amenizar. Nem os ditos ateus abrem mão de certa “espiritualidade”, um alívio a ideia de sermos apenas um conjunto de células.

    Todavia, a fé aparentemente capaz de lograr conforto é execrável quando alavanca indústrias de milagres e dízimos, perniciosa ao cerrar os olhos para a razão – inadmissível rejeitar o avanço da ciência (chega de obscurantismo), toler a liberdade de expressão, roubar e ignorar o livre arbítrio ( ninguém é dono de ninguém).

    Essa explanação a respeito da fé talvez arrefeça a surpresa deste blogueiro quando leu o livro Trilha Inca: em busca do coração perdido (Hb Editora), de Walmor Lange Jr. Jamais imaginaria que da pena de um militar e psiquiatra (aliás, um exímio profissional) sairia uma obra fundamentada no ocultismo. Nos vãos da ciência, o autor procura respostas sobrenaturais.

    A história gira em torno da viagem de dois amigos – o psiquiatra Artur  e a ginecologista Lívia – ao Peru, precisamente a cidade de Cuzco. Lá o leitor descobre que a viagem não é por acaso, é apresentado a um xamã e a um certo mago escarlate. Então segue um desfile místico: kardecismo, Hermetismo, Apometria…

    Este blogueiro navegou pelas páginas  do livro sem fincar âncora em questões sobrenaturais, preferiu a fantasia. É melhor assistir à metafísica se ocupar de discutir tão abstratos temas.

    De concreto ( concreto mesmo) é a constatação de que a editora foi infeliz na edição do livro. A impressão que fica é a obra não passou por revisão.

    (Depois de virar leitor assíduo dos textos da escritora e editora Thereza Christina Motta, cheguei à conclusão que editar é uma verdadeira arte.)

    De resto, cabe afirmar que este blogueiro crê na ciência. Agnóstico? Talvez. Mas é fato que este mesmo  crente da razão não consegue cerrar os olhos totalmente à fé.