21 de Agosto de 2014

Ler é Crescer – Diário de Bordo (05/08/2014)

Posted in Projeto Ler é crescer às 19:32 por sidneif

Projeto Ler é Crescer*

Escola de Ensino Médio Vereador Oscar Manoel da Conceição

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Lindo dia de inverno em Florianópolis (SC). O sol em traje de gala parecia prever as boas novas que estavam por vir.

Falar da importância da leitura e aplicar um questionário para saber o que os alunos pensam do tema. Era o começo do projeto “Ler é Crescer” na escola pública estadual localizada no aconchegante Rio Tavares (bairro do sul da Ilha de Santa Catarina).

Este blogueiro flertava com a ansiedade ao entrar na escola cheio de perguntas. Como reagiriam inúmeros adolescentes diante de um desconhecido que lhes faria apologia das vantagens e da beleza da leitura? Haveria jeito fácil de convencê-los? Intimidaria-me com o ímpeto de garotos e garotas na flor da idade?

Respostas não surgiam e a resolução era adentrar a sala, (tentar) abandonar as hesitações do lado de fora e deixar o coração defender a bandeira da leitura.

Mas adolescentes são humanos. E humanos são apaixonantes quando nos livramos da hipocrisia e expomos sem restrição a emoção que sentimos. Isso me ficava claro já na primeira sala visitada – senti-me nas nuvens quando uma portadora de síndrome de down, ao afirmar seu interesse pela leitura, ergueu confiante o seu livro “A Menina que Roubava Livros” (Markus Zusak). O espontâneo ato da aluna poderia ser o presságio de que a paixão pela leitura me levaria para mais próximo de pessoas tão especiais.

A minha alegria aumentou exponencialmente ao descobrir o aluno que estava a escrever um livro, a aluna que já o fez e pedia-me para ajudá-la a contatar uma editora, o menino das poesias e crônicas, outras meninas que também seguem a toada da escrita. O rapaz que cantou um rap baseado na sua vida cotidiana (e que gosta de idéias originais) também cativa. Saio das salas com promessas de receber mensagens (e até um conto) dos alunos. Não poderia sair de lá mais feliz.

Claro que a chegada de um desconhecido a defender a leitura causou curiosidade, estranheza, alguma dificuldade para levar a sério, sobretudo naqueles alunos pretensamente avessos à leitura (este blogueiro é contumaz em dizer que, em algum momento, gostamos de ler). Mesmo assim, nos seus semblantes, há sinais de que sabem da importância da leitura.

Terminei o dia certo de que o projeto vingaria e transformaria a vida de muitos jovens da escola. Absolutamente certo era também que eu não era agora o mesmo que entrara de manhã na escola. Os alunos cheios de adrenalina renovaram-me a fé  nas boas coisas que a vida pode oferecer, na capacidade humana de cativar.

*O projeto visa a intensificar o envolvimento dos alunos desta escola com a leitura, para que eles usufruam amplamente benefícios tais como aumento de vocabulário, qualidade de escrita, maior capacidade de argumentação e de expressão, senso crítico, criatividade, crescimento pessoal e profissional. O Plano de ação do Ler é Crescer abarca a elaboração de um questionário para montagem de um banco de dados para avaliações e tomadas de decisões de atividades, organização da biblioteca, criação do jornal e do blog da escola ( ambos com participação direta dos alunos), disponibilização do blog Tabacaria  para divulgar e desenvolver trabalhos e eventos dos alunos, sessão de narração de histórias, encontro com escritores, profissionais de diversas áreas, semana de poesia, do autor ou de algum outro tema, concursos de poesia e prosa, organização de espaços para leitura. A partir de hoje, o blog Tabacaria publica o diário de bordo do Ler é Crescer.
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19 de Agosto de 2014

Mundos imaginários, reais e interiores

Posted in Ler faz crescer às 14:45 por sidneif

Por ROSALY SENRA*

"Eu e a Aldeia" (1911), de Marc Chagall (1887-1985).

“Eu e a Aldeia” (1911), pintura de Marc Chagall (1887-1985).

Meu amor pela literatura começou cedo, dentro de casa. Fui criada em casa de vó e tinha uma tia que para mim lia, antes de dormir, as histórias de Monteiro Lobato (1882-1948). Começou com Reinações de Narizinho, depois Caçada de Pedrinho, A Chave do Tamanho e todos os outros. Lia-as e me fazia imaginar cada passagem da história, contando o que imaginava quando ela a lera pela primeira vez. Para ela, o Reino das Águas Claras era um lugar real, onde costumava passar as férias, na fazenda de sua avó, minha bisavó. E ela contava e me fazia imaginar aquele lugar mágico, que ela conhecia de fato. Eu ficava muito fascinada. Hoje ela me conta ainda que, quando criança, lia escondido os livros do Monteiro Lobato, proibido e censurado pelo Governo Vargas.

Quando já sabia ler, fui ganhando livros. Um dos primeiros que lembro ter ganhado (a Coleção do Monteiro Lobato era da minha tia) foi a história do Rique-roque¹, o ratinho que queria comer a lua. Eu achava muita graça daquele ratinho guloso.

Eu tinha uns 10 anos quando começou a ser lançada a Revista Recreio. Eu ajuntava um dinheirinho e esperava chegar o sábado. A revista rendia brincadeira e história durante toda a semana. Fui crescendo nesse ambiente.

Na época de escolher um curso superior,  titubeei entre Comunicação e Biblioteconomia. Gostava também de História, Arqueologia, mas acabei cursando mesmo Biblioteconomia. No início achei meio maçante, até que descobri a literatura, a poesia, a história da literatura.

Comecei a estagiar no carro-biblioteca e me encantei outra vez com as histórias infantis, juvenis… aqueles autores mágicos que eu voltava a encontrar. Sim, os autores que estavam publicando nessa época eram aqueles da Revista Recreio:  Ruth Rocha, Joel Rufino dos Santos, Ana maria Machado, Sonia Robatto e tantos outros.

Depois a vida me levou para outros cantos e encantos, mas o amor pelos livros já estava impregnado em mim. Acabei também cursando jornalismo e radialismo, e na época em que a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ganhou sua rádio, me transferi pra lá. Um programa de literatura no rádio, com entrevistas e conversas com agentes de leituras, autores…. outra vez, depois de um hiato, novo contato com aqueles autores maravilhosos da minha infância e com os da nova geração.

Descobri lendo que a literatura, não importa para qual público, é sempre algo que nos faz crescer, que amplia universos, mapas, horizontes… nos faz conhecer mundos imaginários, reais e interiores, além de trazer os mundos desconhecidos da natureza humana.

Eu consegui ajuntar o gosto com o estudado, afinal, bibliotecária jornalista fazendo programa de rádio, conversando com autores diariamente dá um prazer imenso, mas exige leitura constante, atualizada e permanente. Minha sorte!

*Rosaly Senra, bibliotecária, jornalista. Apresenta o programa “Universo Literário” na Rádio UFMG.
 
 
 
  1. “Rique-Roque, O Ratinho Sonhador”, Livro de Maria Thereza Cunha de Giacomo.

6 de Agosto de 2014

Ir em direção ao outro

Posted in Brasil às 18:21 por sidneif

Por POLLY D’AVILA*

tempos fugit

Era um dia quente como inúmeros em minha cidade. Eu estava em uma pequena capela com um homem que tinha acabado de conhecer. Nas minhas mãos, havia um bloco de anotações e uma caneta. Conversávamos como se fôssemos amigos de longa data sobre espiritualidade, história da cidade, arte, arquitetura…

Então, ele parou o que estava dizendo e lançou:

– Existe uma tristeza no seu olhar.

Perplexa perguntei:

– Como assim? Então, ele continuou a falar e não demorou muito para eu compreender do que se tratava.

Nestas últimas semana três grandes escritores brasileiros morreram. Entre eles, o querido Rubem Alves (1933-2014). De modo saudoso, ontem peguei Tempus Fugit da estante. Foi relendo este livro que recordei a cena da capela. Um homem que não me conhecia, em um instante de sensibilidade, captou um aspecto da minha essência. Nos dias atuais, esse tipo de observação é raríssima, já que a rotina fatigou os corações humanos.

Captar a essência de outrem pode ser um sinal de generosidade. É uma lâmina imaginária que retira aspectos da alma. Um ir em direção ao outro. O artista Pablo Picasso (1881-1973), por exemplo, costumava efetuar esse exercício com as pessoas que representava. Em meio as geometrizações cubistas, que na verdade são distorções humanas, ainda é possível visualizar a essência do retratado. Já Amedeo Modigliani (1884-1920), quando não conseguia captar uma essência, decidia-se por pintar de cinza os olhos da pessoa . Era o mistério que pairava no ar.

Do mesma forma, o escritor Rubem Alves captava fenômenos naturais e essências humanas. Basta ler seus textos para perceber que ele fazia parte deste seleto grupo de pessoas. Ou seja, aqueles que visualizam detalhes, minúcias do cotidiano de modo aprofundado, a beleza nas coisas fugidias.

Talvez, um dia, você  comece a perceber que dentro de um recinto, a luz do dia faz os olhos das pessoas brilharem. Ou que uma flor nasceu em meio ao cimento da calçada por onde você passa todos os dias. Ou que aquela criança nos braços da mãe sorriu pra você. Ou que o cabelo ruivo daquele homem tem um tom que você nunca tinha visto antes…

Pensar na beleza efêmera é pensar no que não será mais. Loucura refletir sobre o tempo e sua fugacidade? Talvez. Só sei que o tempo que passa para seres mortais pode soar como morte. E é aí que a beleza apresenta o seu peso e sua tristeza no olhar.

Rubem Alves escreveu que “A vida é aquilo que fazemos com a nossa Morte”. Acrescento que a essência da pessoa é aquilo que ela faz com sua Morte. Pois todas as ações humanas estão imbuídas de tempo e morte. O que seria da arte e da literatura sem essas duas coisas? Milan Kundera também escreveu sobre isso. Como atingir leveza na vida, se o peso do tempo e da morte nos impulsiona para o chão? Para isto a resposta é clara e individual, está no trajeto de cada um.

* Polly D’Avila, artista plástica. O texto, originalmente publicado no Facebook, foi gentilmente concedido pela autora.