5 de Outubro de 2009

Obrigado, Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 09:47 por sidneif

Chegou ao fim o especial Thereza Christina, um verdadeiro presente para este blogueiro.

Agradeço  à escritora Thereza Christina Rocque da Motta  a autorização  e  a confiança  depositada em mim   para publicar seus textos.

Se as publicações não estiveram à altura do imenso talento da autora, respeito e dignidade não faltou deste blogueiro para com os textos.

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2 de Outubro de 2009

Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 10:15 por sidneif

A literatura não apenas mudou, mas como fez a minha vida, me salvando da estagnação, do lugar comum e da depressão. A literatura pode mudar muitas vidas e acho que tem mudado a vida de muita gente e não sabemos. Várias vezes ouvi gente dizer que tomou esta ou aquela decisão por causa de algo que leu.

Ivana de Arruda Leite, escritora e que conheço desde 1980, comentou certo dia sobre o impacto que Reinações de Narizinho teve sobre ela, fazendo-a decidir se tornar escritora. Acho que todo mundo que escreve, ou gosta de ler, tem uma história para contar sobre viradas que a vida deu por causa de um livro que leram.

Nem eu mesmo sei como se dá isso, mas reconheço que tudo que li serve de base para tudo que faço ou digo.

Eu me apóio na literatura desde os primeiros livros que li, mesmo que não tenha sido de forma premeditada. E sempre tinha alguém para ler para mim algo que achou interessante.

Conheci pessoalmente grandes poetas que me ensinaram a ler meus próprios poemas e a lapidá-los. A visão estética deles me guiou desde o início. Surpreendiam sempre, por outro lado, da boa leitura que eu tinha de autores brasileiros, em vez de ter lido os estrangeiros. Mas a literatura apóia um todo que se transforma em dia-a-dia.

Na verdade, isto é algo que sempre fiz, recortar frases e trechos de livros e escrever sobre eles, porque faziam sentido para mim, uma bússola encravada no livro. Aqui, o norte. Então, vou para este lado.

Para mim, como escrevi em meu poema, livros são oásis onde buscamos nos refrescar, algo que nos responda às nossas perguntas, mesmo que não saibamos quais são.

Por outro lado, sempre foi o que li que me deu subsídios para dialogar com as questões emocionais mais complexas. Muitos livros que dei para pessoas que conhecia abriram para elas portas e janelas para sua alma. Também poemas que escrevi iluminaram pessoas, sem que eu soubesse. Sempre recebo de alguém até hoje a notícia de que algum poema meu a ajudou em determinado momento. Se meu poema respondeu à questão daquela pessoa, concluí que tenho as respostas mesmo sem saber as perguntas. E é isso que poesia faz por nós. Ou qualquer coisa que se leia.

Estes são os grandes temas para mim: amor, casamento, filhos. Eis o tripé de toda a existência humana. Todos os livros falam de relacionamentos. Raiva, despeito, vingança. Traição, negligência, abandono. Devoção, respeito, temor. Tudo passa por amizade, descobertas, existência: as pessoas concentram seus esforços em ser como os outros e poucas vezes como elas mesmas. Abre-se um leque de possibilidades ao longo da infância, adolescência, maturidade, velhice. A busca do amor. O encontro. A despedida.

As canções mais belas falam de amor. Os mais belos poemas. Os mais belos romances. As mais belas peças de teatro. Por que assistimos novamente a mesma história, lemos novamente o mesmo poema? Do que tentamos nos lembrar? Por que todos os escritores reescrevem o que foi escrito? Não bastou Shakespeare aos homens? Não bastou Dante, Camões? Ovídio? Homero? Se um livro impulsiona outro livro, então, um livro não contém tudo e o Homem é infinito repetindo-se ad aeternum.

Fernando Pessoa justamente tem um verso que diz que escrevemos porque não nos bastamos. Ferreira Gullar diz o mesmo. Não nos basta ser quem somos, temos necessidade de, continuamente, nos reinventarmos. A poesia alcança uma intra-existência que poucos atingem de outra forma. Os romances envolvem quem como um mito. E contos deixam o fim mais próximo ao começo da história. Vivemos em capítulos de novela, de folhetim. Periódicos da alma.

Li há pouco Fragmentos de um discurso amoroso e vou reler L’amour fou, de André Breton, que me foi apresentado por um poeta em 1981. Estou lendo cartas de Fernando Sabino e Clarice Lispector, e o primeiro volume de La recherche du temps perdu, que nunca havia lido. Tenho uma pilha de livros na cabeceira e mais livros e livros espalhados por toda casa e pelas estantes que nunca consegui sequer começar a ler, mas que ficam lá, à espera.

Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.

29 de Setembro de 2009

Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 08:17 por sidneif

Um país se faz com homens e livros. Mais uma vez Monteiro Lobato abre a picada para a criação do hábito da leitura. Ele que conhecia a fundo tudo que se escrevia ou se escreveu enquanto viveu, sabia ser muito, mas muito importante viver disso, ou seja, não importa o que você faça os livros sempre farão parte de sua vida.

Uma cidade poderá ser existir ou ter existido em qualquer parte que nunca se saberá, de pronto, quem a construiu, quem foi seu arquiteto, o engenheiro ou o mestre-de-obras, mas sempre se saberá quais os escritores, poetas e artistas que viveram nela. As paredes poderão não mais existir, ou haver ruínas, que ecoarão os versos e as máximas deixadas por esses homens e mulheres.

As obras de muitos autores se perderam, mas suas palavras foram reproduzidas nas obras de outros escritores que puderam lê-los em seu tempo e hoje sabemos o que foi dito ou o que disse algum deles porque sua frase vingou sobre o tempo.

Muitos repetem ditados e máximas que ouviram sem saber de quem são. E por vezes de uma obra inteira somente alguns deles ficaram. Ao repetir qualquer uma delas, o ouvinte abre um sulco nos ouvidos de outras pessoas que repetirão infinitamente o que lhes foi dito.

Mesmo lendo tão pouco, ou muito menos do que deveriam, as pessoas se referem a personagens como se tivessem vivido e livros como compêndios de História. Enquanto Tróia não foi encontrada, vivia apenas nos versos de Homero. Até que se escavasse a sétima Tróia os homens ainda duvidavam de seus cantos.

E o que Roma foi ao longo de mais de 2.000 anos de História ainda reverbera hoje como se vivessem entre as pedras do Fórum Romano. Mas o que ainda vive são os relatos de seus escritores, dos célebres oradores que acompanhavam os feitos de seus cidadãos.

Cristo sobreviveu na palavra de seus discípulos e no que se escreveu nos Evangelhos. Nãonenhum historiador que corrobore o que está escrito ali de modocientífico”. Criou-se a religião de maior dominação no mundo sem uma prova concreta senão a Palavra do filho de Deus escrita no Novo Testamento.

Um livro tem o condão de mudar destinos, ou de realinhá-los. Para o bem ou para o mal. Dependendo de quando lemos certos relatos, encontramos ou desviamos de nosso caminho, que é outro caminho também.

Se criarmos esse hábito da leitura, muitas visões se abrirão para nossa escolha.

Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.


25 de Setembro de 2009

Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 07:52 por sidneif

Para ser grande,
Sê inteiro; nada teu
Exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa;
Põe quanto és,
No mínimo que fazes.
Assim, em cada lago
A lua toda brilha,
Porque alta vive.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)


passagens que lemos que nunca se apagam de nossa memória. Quando menos esperamos, elas voltam, afloram em nossa mente como se tivessem acabado de entrar, como se continuássemos a ouvi-las.

Para ser grande, sê inteiro”. Fernando Pessoa, na pele de seu heterônimo Ricardo Reis, escreveu isso em uma ode, que minha mãe leu para mim quando eu deveria ter uns treze anos. “Sê inteiro”. O que queria dizer isso? Se quero ser grande, não posso perder nenhuma parte de mim para crescer até o máximo possível.

Nada teu exagera ou exclui”. Sendo inteiro, não posso aumentar nada em mim. Há uma lição de humildade na grandeza. Nem a falsa humildade é possível. Nada meu extrapolo ou elimino.

“Sê todo em cada coisa”. Ser todo. Se sou inteira, sou tudo que sou. Cada parte de mim espera que eu esteja inteira, incorrupta, indivisível.

“Põe quanto és no mínimo que fazes”. O máximo de amor em suas mínimas possibilidades. Se sou toda e estou inteira caibo minimamente em tudo que faço.

vem o Grand Finale: “Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive”. Viver alto, sonhar alto, transcender. Quão maior a altitude, melhor a visão do todo, do inteiro que somos, das coisas que fazemos, ummapa aberto no coração da floresta”.

Rio, 30/06/2005

Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.


22 de Setembro de 2009

Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 08:33 por sidneif

Convivemos com nossas próprias palavras. Habituamo-nos ao que dizemos a nós mesmos como uma fala contínua, ininterrupta. Ouvimos o silêncio das pausas e retomamos a palavra para repeti-la suavemente. Convivemos melhor com o que conhecemos. Assim, repita as palavras mais caras para que permaneçam como emblema de seu próprio conhecimento.

Rio, 29/06/2005

Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.

18 de Setembro de 2009

Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 10:08 por sidneif

Talvez por isso lemos.

Em momentos de trevas, voltamos aos livros

para encontrar palavras para o que sabemos.

Alberto Manguel, Os livros e os dias


O livro deve estar ao alcance da mão, quando não está em nossa memória. O convívio com o livro é um hábito que se renova a cada página, como se ler fosse muito fácil e assim se torne à medida que lemos.


Ler aos poucos cria fôlego para se ler mais, até não saber quanto se consegue devorar com os olhos. Tudo é minuciosamente escrutinado, à procura de sinais, baixos-relevos, inscrições apenas palpáveis, adivinhadas entrelinhas.


Ler algo que nos soa correto descortina um novo horizonte. Olhamos detidamente para o que descobrimos. É inaugurado um novo princípio, passamos à próxima leitura mais sábios e mais ávidos.


Livros podem ser olhados ao acaso, como se folheássemos algo que não nos pertence, mas que subitamente pode passar a fazer parte de nós. E uma vez que desvendemos esse segredo, jamais o perdemos, porém, o compartilhamos com quem também o desvendou.


O hábito da leitura tem de ser instalado aos poucos. Nada aos saltos perdura. Para fazer sempre é preciso constância, passos lentos para ir mais longe. Ler apenas o que agrada, acostumar o olho à página, até que se aprenda a suportar qualquer texto e saber recusar algum ao vê-lo de relance.


Não devemos nos forçar à leitura. A leitura não prazerosa torna-se automática. Nada fica. Impossível reter qualquer palavra. Ler durante o tempo que se tolera, imerso no texto como um peixe, nadar até ficar exausto.


Tentar ler o que nunca se pensou gostar. Inaugurar novos caminhos. Cada leitura conduz a um destino não planejado. E ao alcançá-lo, acreditar que não havia melhor lugar para se estar.


O livro é feito não apenas para os olhos, mas para o tato. Tocá-lo faz parte da leitura. Saber que o que emana dele recende a jasmim ou sândalo.


Deixamo-nos seduzir pelos sentidos. Um livro é sempre um objeto para o toque. O olho percebe o que as mãos sabem. E ao saborear palavras, sente-se repleto.

Rio, 10/06/2005

Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.


15 de Setembro de 2009

Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 08:49 por sidneif

“É preciso dar tempo ao tempo”, diz minha mãe. Com ela aprendi tudo que sei de filosofia. Ela foi exemplo em tudo que fez, mesmo errando. Ela é parte inalienável de mim como pessoa, modelo e ser humano. Pode ter tido seus defeitos e idiossincrasias, mas quem não os tem? É um grande exemplo de auto-superação. Ela soube dosar o amor em partes iguais para aprender a estar bem com todos, o tempo todo.


Não sei quando a literatura não esteve presente em minha vida. Desde o início, tudo foi letra e palavra, língua e expressão verbal, conto e história, relato e memória. Bebíamos sempre na fonte da palavra escrita, da oralidade, do causo contado, da narrativa mesmo iconográfica, cinematográfica, visualcomo contar o que se viu? As pessoas não sabem contar o que viram, cria-se o automatismo da imagem, o vazio cerebral, a falta de vida interior que pode ser proporcionado pela contação, pela confidência, pelo ouvir atento.


Eu nunca estou porque sempre tenho muito que ler e pensar. Há pessoas que não conseguem ficar sozinhas sem ter com quem conversar. Sofrem de solidão porque não sabem se fazer companhia. Eu sou uma companhia divertidíssima para mim mesma. Morro de rir com coisas que lembro ou com o que leio.


Quando converso com alguém, conto minhas histórias e ouço as delas, mas isso vai moldando um todo, em que as histórias se correspondem ou se interpenetram. fui muito ao cinema e ao teatro sozinha. Hoje prefiro ter uma companhia para conversar depois, mas toda vez que fiz isso aproveitei muito do fato de estar . Em casa, adoro ficar comigo mesma, para não ter que fazer outra coisa senão focar no que tenho de ler ou escrever. Às vezes, passo dias sem sair.


muito a ser feito. Hilda Hilst trancou-se em sua chácara em Campinas ficou por quarenta anos, porque dizia ter muito a escrever e pouco tempo para fazê-lo. Suas aparições públicas eram sempre celebradas. Deixou-nos uma enorme herança literária, tão importante quanto de Cecília Meireles ou Clarice Lispector.


Descobri como editora que o desejo mais íntimo de qualquer pessoa é escrever. Mesmo que não tenha lido muito, o sonho mais acalentado é ter um dia um livro publicado. Mesmo que nunca o publique, fica imaginando-o, como se fosse real. Por isso tantos autores ao publicar seu primeiro livro sentem-se transtornados. Materializar um sonho tão íntimo é mais do que desnudar-se, é render-se em holocausto.

Rio, 27 de maio de 2005

Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.



11 de Setembro de 2009

Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 09:03 por sidneif

Aos nove anos de idade, eu estudava no quarto ano primário do Chapeuzinho Vermelho, na Rua Prudente de Moraes, em Ipanema, uma casa toda branca, que, para mim, parecia enormeeu que tinha começado a estudar aos 5 anos, vinda de Montevidéu, onde morei com meu pai, minha mãe e meu irmão caçula.


Fiz uma rápida transição entre o espanhol, que aprendi numa escola inglesa no Uruguai e o português, ao entrar no Jardim da Infância de um colégio que marcaria minha vida até 1967. Havia uma grande ênfase no estudo através da leitura, em português e inglês, tendo sido alfabetizada nas duas línguas a partir dos sete anos.


Dois anos mais tarde, começaria a estudar também o francês, que falava desde dois anos de idade com minha babá suíça francesa (zelos de meu pai diplomata). Mas foram os textos que me passaram pelas mãos nessa idade que tiveram um valor inestimável.


Um dos momentos inesquecíveis foi ler “A arte de ser feliz”, de Cecília Meireles. Nesta crônica, Cecília relata as diversas paisagens que vira por sua janela: “Houve um tempo em que minha janela se abria sobre um jardim…” Ao descrever a imagem do pássaro sobre o globo de louça azul, eu podia vê-lo pousado no ar. Era a primeira vez que via a imagem do que era descrito por meio de palavras num texto.


Rio, 20 de maio de 2005

Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.


8 de Setembro de 2009

Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 07:33 por sidneif

Se fosse procurar um ponto para começar a contar a história, acho que foi aos quinze anos, quando li Uma aprendizagem, ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector, não sem antes ter passado pelos contos da Condessa de Séguir, a coleção de Monteiro Lobato, O Pequeno Príncipe, Demian e Sidarta, de Herman Hesse, O Profeta, de Kahlil Gibran e O Menino do Dedo Verde, de Maurice Drouen. Isso sem mencionar os contos de fada ouvidos na infância: Pedro e o Lobo, A vendedora de fósforos, Cinderela, João e Maria, O gato de botas, além de poesia, de Gonçalves Dias a Manuel Bandeira, de Guilherme de Almeida a Vinicius de Moraes, de Casimiro de Abreu a CDA*.


Acho que o livro de Clarice foi o primeiro grande impacto, algo que mudou a forma de “mever. Foi isso. Os contos de Clarice e Machado de Assis também mudaram minha visão de mundo. Fernando Sabino, um pouco antes, com Encontro marcado tinha sido um divisor de águas, mas lembro que li entre os 13, 14 anos. Clarice, aos 15, foi uma revelação.


Minha vida sempre foi cheia de acontecimentos. Dos menores aos maiores, dos pequenos detalhes aos grandes encantamentos, sempre havia algo que me pegava de surpresa.


Uma das reminiscências mais remotas foi ver, aos oito anos de idade, a foto de Monteiro Lobato, sentado num banco de praça, no álbum de família de minha mãe, na mesma época em que ela lia, para mim e meu irmão, as histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo, antes de irmos dormir.


Essas leituras constituíram, na verdade, sem querer, um ritual de passagem. Depois de dois anos ouvindo as peripécias de Emília, Pedrinho, Narizinho e o Visconde de Sabugosa, acompanhar a dedicação histórica de Dona Benta e a expertise culinária de Tia Anastácia, tive meu primeiro período menstrual, acompanhada de uma reação inesperada: eu não queria crescer. Pensei, na minha meninice, interpretando o que havia me informado minha mãe, que mulher menstruava”. Eu não era mulher, era menina, estava fora de perigo. Naquele dia, ao correr ao banheiro, interrompendo a leitura de minha mãe, descobri que eu também cresceria. E comecei a gritar:


Eu não quero crescer! Eu não quero crescer!


Eu estava tão feliz sendo meninaMas Monteiro Lobato me conduziu à adolescência, deixando intacta a minha infância.


Rio, 17-18 de maio de 2005

*Carlos Drummond de Andrade.

Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.


4 de Setembro de 2009

Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 08:01 por sidneif

Depois que meus filhos nasceram, eu não tinha mais tempo para ler.  Foi quando me dei conta que não estava lendo NADA. E eu que sempre li muito. espalhei livros pela casa para poder ter sempre um livro à mão (fora carregar um na bolsa para aqueles momentos em que não podemos fazer mais nada senão esperar). Escolhi livros que queria ler, assuntos que me interessavam, sobre coisas que gosto, e lia qualquer coisa, uma linha, um parágrafo, uma página, um poema, o que dava tempo de ler, até alguém me interromper. Adaptei este método do meu avô que era inventor, industrial e engenheiro mecânico e também tocava flauta divinamente. Um dia perguntaram a ele como ele conseguia tocar flauta tão bem sendo engenheiro, industrial, dono de fábrica e tudo o mais. Ele respondeu:


Quando tenho cinco minutos, toco cinco minutos; quando tenho meia hora, toco meia hora, mas toco todo dia.


Assim fiz o paralelo para os livros (que eu achava que não tinha tempo mais para ler). Se eu tinha cinco minutos, lia cinco minutos, se eu tinha meia hora, lia meia hora, até alguém gritarMamãe!”, mas lia todo dia, toda hora que eu me sentava em algum lugar e tinha um livro me esperando. Às vezes, um único poema fazia o meu dia. Era exatamente o que eu precisava ler naquele momento. Livros nas prateleiras não saltam na nossa mão. Descobri que desse modo eu não lia mais como ampliei minha capacidade de leitura, lendo não um, mas vários livros inteiros ao mesmo tempo. É questão de hábito. Meu pai, que era um leitor contumaz, dizia que de um livro não se tudo, mas apenas o que interessa, que pode estar em alguma parte do livro, ou nas orelhas ou na quarta capa.


Ao pegar um livro, olhe para ele sem procurar nada, olhe a esmo como se visse algo curioso, um brinquedo e descubra o que ele tem dentro, virando as páginas ao acaso.

De repente, você encontrará uma frase, um trecho, um poema, uma opinião importante para algo que está fazendo exatamente naquele momento. Isso se chama bibliomanciaabrir qualquer livro a esmo para que a informação necessária que está nele venha à tona. Às vezes, quando muito procuramos não encontramos nada. São nos momentos distraídos, em que não buscamos, que as informações nos encontram, quando estamos mais abertos para ouvi-las e não focados seja no que for.

Rio, 21/09/2007

Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.