31 de Julho de 2013

A beleza da escrita erótica

Posted in Ler faz crescer às 15:23 por sidneif

Por MARIANA BLAC*

"A virgem" (1913), obra do pintor austríaco Gustav Klimt (1862-1918).

“A virgem” (1913), pintura do austríaco Gustav Klimt (1862-1918).

Leitura e prática do Jornalismo deveriam andar sempre de mão dadas.

O interesse pela leitura como hobby (e, depois, como compromisso profissional) começou bem cedo. Mas foi na época da faculdade que autores famosos pela escrita erótica entraram no meu repertório literário.

Tudo começou com Nelson Rodrigues (1912-1980), consagrado pela inteligência e pela habilidade de tratar os relacionamentos de maneira tão peculiar. Depois de ler alguns de seus títulos, passando até pelas excelentes crônicas futebolísticas – não por acaso, Nelson era irmão de Mário Filho (1908-1966), jornalista esportivo homenageado no Rio de Janeiro ao dar nome para o Estádio do Maracanã -, comecei a assistir vários episódios transportados para a TV de suas histórias recheadas de erotismo, sacanagem e muitas relações amorosas – e sexuais, é claro… – mal resolvidas, com boas pitadas de trios amorosos bem construídos, que deram o que falar!

O exercício de ler os romances rodriguianos e de vê-los interpretados na televisão fazia parte de uma interessante disciplina da faculdade: Comunicação Comparada. Para continuar as discussões do semestre, o professor sugeriu estudarmos outras obras. E, como não poderia deixar de ser, vieram Vladimir Nabokov (1899-1977) e seu Lolita, em livro e em filme.

Mais recentemente – um tanto por curiosidade, porém mais por obrigação profissional mesmo – mergulhei nos 50 tons¹. Cheguei a terminar o segundo livro da trilogia, mas confesso não ter tido a mínima paciência para engatar a leitura do desfecho de uma história mal contada, permeada por obviedades e exageros desnecessários. Grey é irresistivelmente sedutor, mas é um chato; Ana é um acúmulo de estereótipos, tantos que a deixam inverídica. Os dois juntos formam um casal para inglês ver…

Decepcionada com o sucesso fenomenal do insosso 50 Tons, procurei consolo no surpreendente Pornopopeia, um dos melhores livros que tive o prazer de ler. Reinaldo Moraes, o autor, é inventivo, rápido, inteligente e criativo; sua imaginação fértil nos transporta para cenários, situações e descobertas de maneira fluida, sem chatices. A única contraindicação ao livro é o sentimento de pena que temos pelo protagonista. Se você não cair no erro de querer vê-lo se dando bem ao menos em uma linha da obra, se jogue de cabeça no universo de sexo, orgias, traição e pura putaria que Moraes narra como ninguém!

Além de se divertir com as trapalhadas de Zeca, o protagonista, e se espantar com seu infinito apetite sexual, aposto que você vai aprender muitos truques interessantes para melhorar o seu relacionamento. A parte da “surubramane” é, para mim, a melhor do livro. Surreal e engraçada, é a tradução pura de aonde o ser humano pode chegar a fim de saciar seus desejos e fantasias mais obscuros.

Depois de Pornopopeia, montei uma lista enorme de livros que ainda precisam ser resenhados com cuidado para o Sexônico. Só clássicos, capazes de nos ajudar a desvendar os mistérios e meandros do comportamento humano. Mas isso é assunto para um próximo relato…

*Mariana Blac, jornalista do buscador de produtos eróticos Sexônico.
 
¹Triologia “Cinquenta Tons de Cinza”, da escritora britânica E. L. James. A resenha completa da jornalista Mariana Blac sobre a triologia pode ser lida nesse endereço: 
http://www.sexonico.com.br/sex-shop/livros-eroticos/romance-erotico
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29 de Julho de 2013

Inquietude com o mundo

Posted in Ler faz crescer às 16:18 por sidneif

Por MARI VALADARES*

O Grito (1893), obra do pintor norueguês Edward Munch (1853-1944)

“O Grito” (1893), obra do pintor norueguês Edward Munch (1853-1944).

Abrir um livro é mexer com as sensações. Os olhos brilham pela história que está por vir, o olfato aguça com o cheirinho de livro novo, o ouvido escuta os sons da imaginação. Minha paixão por livros não é de hoje, nem de ontem. É de sempre. Quanta informação acumulada! Essa inquietude com o mundo é “culpa” do meu hábito de ler.

Incentivo de família foi primordial. Mãe e pai com Lobato e sua Emília¹, com as aventuras de O Cachorrinho Samba (Maria José Dupré, 1898-1984) e com a Coleção Vaga-Lume. Meu tio Alfredo (in memoriam) não perdia a oportunidade de me dar livros de presente.

Ter o papel na mão é tão importante para mim, que não consigo me acostumar com e-books. Gosto de ler livros de história, política e biografias. A escola me afastou dos clássicos. Como é ruim ler um Machado de Assis (1839-1908) por obrigação! Mas ao relê-lo, sem a pressão das avaliações, outra opinião prazerosa permanece.

Tenho história recente sobre a minha paixão pela leitura. Em novembro de 2012, o destino me levou a Fortaleza. Além das belezas naturais do Ceará, um evento que me fez escolher a cidade foi a Bienal Internacional do Livro do Estado. Saí de lá carregada de experiências e, claro, de livros e livros.

Finalizo com Malba Tahan² – “A pessoa que não lê, mal ouve, mal fala, mal vê.”

*Mari Valadares, jornalista e mantenedora do blog Poucas e Boas da Mari.
 
¹Emília, personagem clássica dos livros infantis  de Monteiro Lobato (1882-1948) ambientados no Sítio do Pica-pau Amarelo.
²Malba Tahan, heterônimo do escritor e matemático brasileiro Julio Cesar de Mello e Souza (1895-1974).

19 de Julho de 2013

Salvador de almas

Posted in Ler faz crescer às 17:31 por sidneif

 Por DANIEL WARREN*

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Acho que posso dizer que tive momentos incríveis com livros desde pequeno.

Minhas primeiras lembranças são da coleção Taba, que apresentava sempre uma historinha muito bacana, escrita e ilustrada por grandes artistas,  ainda por cima tinha a parte sonora, um disquinho com músicas incríveis de grandes nomes da MPB.

Depois veio a coleção Vaga-Lume  – lembro-me de tardes inteiras lendo livros misteriosos e perdendo a noção do tempo…

Acho que no meio do caminho tive algumas desilusões, não por culpa dos autores, mas muito por causa da inadequada orientação de leitura por parte do Ministério da Educação, que me fez decifrar sofrivelmente, na época dos meus 12 anos, um Álvares de Azevedo (1831-1852), sem nenhum tipo de contextualização… Foi  algo difícil… mas nada que um O Apanhador no Campo de Centeio (J. D. Salinger, 1919-2010) não me fizesse esquecê-lo e retomar minha vida literária!

Depois veio Machado de Assis (1839-1908), Eça de Queirós (1845-1900), Euclides da Cunha (1866-1909), entendi o Álvares de Azevedo, vieram Gabriel Garcia Marques, Aldous Huxley (1894-1963), George Orwell (1903-1950), Fernando Pessoa (1888-1935), William Shakespeare (1564-1616), Samuel Beckett (1906-1989) e tantos outros.

O que posso dizer acerca disso? Que um bom livro é um salvador de almas. E eu continuo sendo salvo…

*Daniel Warren, ator, professor, produtor e  atualmente apresentador do programa infantil “Click”, do canal pago Gloob.

10 de Julho de 2013

Almas de papel e tinta

Posted in Sem categoria às 18:03 por sidneif

Por ELOÍ ELISABETE BOCHECO*

As tecedeiras ou a lenda da aranha (1657), de Diego Velázquez (1660).

“As Tecedeiras ou a Lenda da Aranha” (1657), de Diego Velázquez (1599-1660).

Desde que o descobri, há mais de meio século, o livro tornou-se meu par preferido em todas as estações da vida. Na alegria ou na ruína, não saberia viver sem este companheiro por perto. Refiro-me, especialmente, ao livro literário.

Tomar parte dos destinos inventados – “reais” enquanto transcorre a leitura – acompanhar a travessia dos personagens que se levantam de dentro das palavras é, para mim, um dos grandes baratos da literatura. Por horas, dias, meses, anos, é um gosto segui-los páginas adentro, suas almas expostas, às voltas com acertos, equívocos, aviltezas e tudo o mais que lhes cabe nas linhas e entrelinhas.

É o leitor quem assopra-lhes a brasa encoberta a fim de que se movam e se cumpram como criaturas feitas de palavras. Atrás de si vão deixando marcas indeléveis, algumas à flor das palavras, outras fossilizadas nas entranhas do dito.

Basta o olho encontrar a primeira frase do livro Quincas Borba: “Rubião fitava a ensaeada”, para o sangue literário começar a circular nas veias do personagem. Então é segui-lo da glória à decadência, parando para dar conta do espanto, das máscaras que caem, das epifanias que resultam da leitura desta obra excelsa de Machado de Assis (1839-1908).

Se alguns personagens tornam-se criaturas fictícias de prestígio, é por conta do leitor ( de notório saber ou não) que, ao descobri-los, proclama aos quatro ventos as emoções provadas durante o prazeroso encontro. Não só proclama como, também, volta a visitar às moradias inventadas que lhe são caras.

Em verdade, estas mágicas criaturas – os personagens – mudam-se do livro para as moradias espirituais do leitor e ali permanecem a provocar visões, e a virar e revirar o território íntimo, sem cerimônias: já então são de casa, não precisam pedir licença para nada. Sobem pelas escadas da imaginação, sentam-se à mesa, caminham pelo assoalho, teto, paredes; embrenham-se por regiões que o próprio leitor desconhece.

Dom Quixote¹, por sinal, há quatrocentos anos, profetizou a própria glória e imortalidade: “Ditosa idade e século ditoso, aquele em que hão de sair à luz as minhas famigeradas façanhas, dignas de gravar-se em bronze, esculpir-se em mármores, e pintar-se em painéis para lembranças de todas as idades”. Não sei de profecia que tenha se cumprido tão ao pé da letra como esta. Gravado a sonho, o Cavaleiro da Triste Figura continua a transitar pelas terras sagradas, a espada em riste contra os inimigos da imaginação.

Uma vez estabelecidos nos domínios primaciais, os personagens viram almas e juntam-se à do leitor que fica, assim, povoado de almas e nutrido de recursos simbólicos para a travessia no mundo real, mundo este que oferece, o tempo todo, almas de plástico, sob medida, no varejo e no atacado.

Se o leitor os põem em pé, os personagens não fazem por menos: são bons companheiros em dias de chumbo e treva. Alguns livros têm o dom da cura. Tenho certeza de que Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto (1474-1533), e Metamorfoses, de Ovídio (43 a. C. – 17 ou 18 d. C.), pertencem a esta linhagem.

Os livros que realmente importam conseguem, como diz Edmond Rostand (1868-1908), “exaltar com o lirismo, moralizar com a beleza, consolar com a graça e, enfim, dar lições de alma” , ou nas palavras de Barry Lopes: “a tarefa da ficção é nos ajudar com discernimento e nos curar”. E nem importa se os personagens saem dos mosteiros da idade média, do mundo da cavalaria ou se são contemporâneos do leitor. O que importa é que sejam movidos à seiva artística.

Um amigo, que já partiu deste mundo, me disse uma vez que “para a prática da leitura, a vida é muito curta”, querendo dizer que uma vida não chega para ler tudo que queremos e, principalmente, reler nossos autores prediletos, pois, como já foi dito, e eu repito, há livros que nunca terminamos de ler, porque são inesgotáveis, como uma fonte eterna.

*Eloí Elisabete Bocheco, escritora.
http://wwwsaladeferramentas.blogspot.com.br 
 
¹Dom Quixote, personagem do clássico livro homônimo do escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616).

4 de Julho de 2013

Alicerces para a vida

Posted in Ler faz crescer às 17:38 por sidneif

Por SILVIO CELESTINO*

alicerceslivros

A leitura é um caminho infinito, pelo qual as descobertas são melhores compreendidas com o passar do tempo. Um caminho bem alicerçado nos permite caminhar de forma consciente pela vida que desejamos .

 Para mim, as leituras mais importantes começaram quando meu pai abandonou minha família, e então uma pergunta surgiu em minha cabeça: o que vou fazer para me educar?

 À vista disso comecei a estudar sobre a vida, o que me levou, de forma pouco apropriada, a ler alguns livros de psicologia e a obra de Carl Jung (1875-1961) – claro que, com 11 anos, temo que tenham sido leituras prematuras. A busca por livros sobre a vida me fez conhecer autores que falavam sobre amor e, na década de 80, li todos os livros de Leonardo Felice Buscaglia (1924-1998), o único professor da Universidade do Sul da Califórnia que teve a audácia de fazer um curso chamado “Amor 1A”.

 Conforme a vida foi avançando, na esfera profissional fiz o percurso que me levou da carreira técnica para a carreira de negócios. Em termos de estratégia, sigo os pensamentos de Al Ries e Jack Trout relativos a posicionamento e os de Peter Belohlavek sobre complexidade. Também sigo os trabalhos de Shaun Smith sobre marketing da experiência do consumidor e os de Carolyn Taylor sobre gestão da cultura organizacional.

 Em coaching, são tantos livros que seria uma indelicadeza mencionar algum autor. Sou coach de executivos há mais de 10 anos, e isso exige a leitura de muitos livros sobre liderança e metodologias para desenvolvimento humano.

 Com relação à transcendência, o percurso começou com a Bíblia, já que minha família é de origem católica, passou por trabalhos como os de Alan Kardec (1804-1869) e, finalmente, chegou à obra de Joseph Campbell (1904-1987) . Também li o livro de uma avatar chamada Sai Maa Lakshmi Devi.

 Além disso, biografias como as de Martin Luther King (1929-1968), Akio Morita (1921-1999), Steve Jobs (1955-2011) e Lee Iacocca.

 Penso que os livros são os alicerces sobre os quais construímos uma vida consciente.

 Uma vida sem livros é uma vida sem alicerces.

*Silvio Celestino, coach de executivos,  colunista do jornal “O Globo”, consultor organizacional e senior partner da Alliance Coaching.
http://www.silviocelestino.com.br

2 de Julho de 2013

Contar histórias

Posted in Notas às 16:26 por sidneif

O mundo encantado das histórias tomará conta de Florianópolis (SC).

Em agosto, A escritora e  contadora  de histórias Cléo Busatto, cujo depoimento à seção Ler faz crescer está no post abaixo,  será a atração da Oficina Literária  Boca do Leão.  Confira abaixo:  

curso Cleo Busatto

Eu, leitora

Posted in Ler faz crescer às 16:25 por sidneif

Por CLÉO BUSATTO*

Arvores_e_livros

Eu e as palavras sempre andamos de mãos dadas. Um caso que se iniciou nos primeiros três anos de vida. Nasci num povoado no interior de Santa Catarina. Ainda pequena seguia os passos da minha mãe, a qual ia lecionar acompanhada de um periquito que cantava o Hino Nacional com os alunos. Ela lecionava na escola multisseriada do vilarejo. Poucas crianças, suficiente para encher a única sala.

Minha mãe era um sujeito transdisciplinar antes mesmo de Piaget (1896-1980) cunhar o termo. Cruzava conhecimentos e afetos; misturava português e matemática com teatro; praticava literatura na coroação de Nossa Senhora; ensinava história ao nos fazer bordar colchas maiores que nós. Ensinava a gente a viver bem naquele mundo pequeno, ainda que gigante nas oportunidades. Ali nos descobrirmos vivos e felizes com o que tínhamos. À noite, eu a ajudava a criar o material pedagógico para suas aulas: recortava, colava, folheava revistas, criava. Desse universo para a leitura foi um pulo.

Nasci numa família leitora. Era uma menina rica porque tinha dois armários de livros. O primeiro, grande e amarelo, no quarto de trabalho da mãe, com seu material da escola, gibis, as revistas Seleções e o Almanaque do Pensamento (esses dois últimos pertencentes ao pai). O segundo, menor, ficava na sala. Dentro dele morava Victor Hugo (1802-1885) e seu Os Miseráveis, que li aos 8 anos e me fez chorar. Robson Crusoé¹, que instigou meu espírito aventureiro; enciclopédias com mitos de povos distantes; contos de fadas e de princesas que eu lia sentada na cadeira de balanço da varanda. E sonhava. Eu podia ser tudo. Uma menina que morava num castelo nas nuvens. A heroína perdida na selva. A artista de cinema.

Um dia a mãe escreveu um texto no quadro-negro e pediu a um aluno que o lesse. Eu o li. Tinha três anos e meio. Aos quatro fui visitar minha irmã no colégio onde ela estudava, na cidade vizinha. A mãe contou à madre diretora que eu sabia ler. A mulher me levou à sala dos professores, tirou um livro da estante de madeira escura e pediu que eu o lesse. Ao abrir o livro me encantei com as gravuras e mergulhei na história. No instante seguinte já não estava diante da autoridade que testava minha capacidade leitora, e sim no alto do cinamomo que havia atrás da janela da cozinha da casa onde eu morava. Estava na copa da árvore, com a galinha dos ovos de ouro embaixo do braço. Para fugir do ogro descia rapidamente e me escondia no quarto.

Lia João e o Pé de Feijão². Só mais tarde, ao ressignificar minha história, é que fui me dar conta de que o tesouro conquistado era a leitura – a condição que a literatura nos oferece de transcender os limites do provável, para entrar no campo das possibilidades infinitas. Naquele momento nascia a escritora, a narradora de histórias (ainda que eu não tivesse essa consciência). E, nesta trajetória de vir a ser o que sou, segui o chamado, a vocação. Ouvi a voz do coração. A palavra falada e escrita foram as pedrinhas de brilhantes que coloquei no caminho por onde passa o meu amor.

*Cléo Busatto, escritora e contadora de história.
http://www.cleobusatto.com.br
 
 
¹Robson Crusoé, personagem do livro homônimo do escritor britânico Daniel Defoe (1660-1731).
²João e o Pé de Feijão, fábula de origem inglesa.