25 de Janeiro de 2019

Ler para compreender

Posted in Ler faz crescer às 15:44 por sidneif

Por LINDEVANIA MARTINS*

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“Psique e Cupido” (1823), de Victoria Martín de Campo (1794-1869)

Nasci na década de 70, em uma cidade do interior do Maranhão chamada Pinheiro. Minha família era pobre, e morávamos em uma casa sem energia elétrica. Daí que as noites eram cheias das sombras criadas pelas luzes de lamparinas e velas. Aos cinco anos, eu tinha alucinações noturnas que eram controladas com simpatias, sessões espíritas e Gardenal.

Cresci introspectiva, desconfiada, com certa tendência ao isolamento e à fantasia. Desconfiava dos meus pais que diziam que eu apenas sonhava e pareciam me deixar sozinha para lidar com o que eu não compreendia. Desconfiava especialmente de Deus que não salvava uma criança quando os monstros apareciam.

Minha experiência com os livros, desde cedo, foi minha tentativa de lidar com certa inadaptação que teve origem ali e responder a essas questões iniciais: os outros realmente não veem o que eu vejo? Por outro lado, eles veem coisas às quais eu não tenho acesso? Como lidar com esse Deus que tudo pode, mas não me livra dos terrores noturnos?

Perto dos meus 7 anos, meus pais fizeram o esforço de mudar para uma casa com energia elétrica por recomendações médicas: isso poderia me ajudar. Eu havia sido alfabetizado em casa por minha mãe, usando biscoitos de letrinhas, e, após a mudança, comecei a frequentar oficialmente a escola. Foi quando descobri a biblioteca. Imaginei que, naquela infinidade de livros, haveria algum que contasse uma história como a minha, com uma menina como eu, se fazendo perguntas semelhantes. Ela deveria ter as respostas que eu não tinha.

Nessa busca, fui me apaixonando pelos livros. As alucinações cessaram. O mundo dos livros me parecia mais acolhedor, seguro e divertido do que aquele que até então eu vivia.

Estava sempre na biblioteca e lia livros de todos os tipos: livros infantis, juvenis, gibis e tudo mais que estivessem por lá. Nas datas comemorativas, sempre pedia livros aos meus pais e, quando eles melhoraram financeiramente, ganhei uma enciclopédia e uma máquina de escrever.

No começo da adolescência, descobri os filósofos, e foi mais fácil aprender a lidar com as minhas descrenças. Não tive mais medo de ir para o inferno, se Deus existisse, por duvidar dele.

Os livros me permitiam penetrar profundamente na psique de outra pessoa, sem interrupções. Era como se eu pudesse conhecê-las profundamente, e conhecer esses de papel também era um modo de me conhecer e conhecer as pessoas que me cercavam. Ler era, então, minha tentativa de encontrar meu lugar no mundo. Mais tarde, escrever também passaria a ter essa função.

Contudo, pelos meus vinte e poucos anos, quando estava na faculdade, a minha relação com os livros entrou em crise: era um misto de amor, gratidão e ressentimento.

Durante muito tempo, um dos meus sonhos era ter uma vasta biblioteca para que eu não precisasse sair de casa em busca de livros. Mas agora percebia claramente que eu não tinha experiências de vida, que eu não me relacionava bem com pessoas, que eu não conhecia lugares, exceto as que me chegavam através dos livros. Percebia que as relações que eu estabelecia na vida real eram relações superficiais, que as pessoas que eu conhecia pareciam planas e que elas geralmente perdiam para aquelas dos livros, mais profundas e interessantes.

Percebi que eu precisava mudar minha relação com os livros. Eles não poderiam substituir o mundo e me colocar numa posição inerte perante a vida. Mas foram também os livros que me ajudaram a compreender e a encontrar uma solução para isso.

A leitura treinou meu olhar e me devolveu um mundo diferente. Nem sempre melhor. Nem sempre um mundo que fazia sentido. Mas me mostrou que era possível viver, encontrar pessoas com as quais se pudesse ter relações mais profundas e agir nesse mundo.

 

lindevania pb*Lindevania Martins é maranhense, escritora, defensora pública, mestra em Cultura e Sociedade e pesquisadora. Primeiro lugar por duas vezes consecutivas no Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, prêmio Odilo Costa Filho. Autora dos livros de contos “Anônimos” (2003), “Zona de Desconforto”(2018) e “A Outra” (Inédito). Integra o coletivo Mulherio das Letras. Possui contos e poemas publicados em diversas revistas e antologias. Anota coisas no blog Catálogo de Indisciplinas.

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Experiência de leitora

Posted in Ler faz crescer às 15:40 por sidneif

Por MARIA TERESA MOREIRA*

 

The Dweller in the Innermost c.1885-6 by George Frederic Watts 1817-1904

“The Dweller in the Innermost” (c. 1885-6), de George Frederic Watts (1817-1904)

Falar sobre minha experiência como leitora é falar sobre minha própria natureza e me causa uma imensa alegria!
Não sei dizer exatamente qual foi o primeiro livro que li, mas minha avó paterna e também uma tia se esmeraram em presentear-me com livros encantadores, que faziam-me voar na imaginação! Livros sempre fizeram parte da minha vida!
Posso dizer com segurança que minha maior influência como leitora é de Monteiro Lobato. Papai havia comprado com muito sacrifício toda a coleção dos livros infantis de Lobato, e eu devorei cada um, deliciada com o mundo do Sítio do Pica-pau Amarelo, sentindo-me íntima da Emília e da Narizinho, familiarizada com o Reino das Águas Claras, iniciada na mitologia grega e na busca de petróleo no país, cheia de ideias para reformar a natureza. Não me cansava e, embora eu levasse um bom tempo na leitura de cada livro, passava para o seguinte com avidez e entusiasmo. A leitura me fazia sentir participante da estória, mexia com minha imaginação, me ajudava a enfrentar situações de   que enfrentava na infância e adolescência — embora naquele tempo não costumássemos dar nome nem especial atenção a este problema.
Quando terminei de ler Monteiro Lobato, senti-me instigada a ler mais e mais, desejosa de descobrir novos mundos, de modo que “ataquei” a biblioteca do meu pai, que felizmente tinha uma variedade considerável. Li incontáveis livros dos mais variados e, desde então, não parei mais, ainda que haja fases em que não consiga ler muito. Aliás, não leio tanto quanto gostaria, mas consigo ler mais de um livro ao mesmo tempo — e geralmente o faço…!
Uma das coisas que acho mais interessante na minha experiência de leitora e que não posso deixar de pontuar é que parece que sou atraída para a o livro que mais preciso ler em cada momento de minha vida…! É impressionante! Sem que eu saiba, me sinto atraída por algum título, por uma capa, e, conforme vou lendo, vou sendo alimentada exatamente com aquilo que mais preciso para aquela fase pela qual estou passando!! É lindo!!
Por essas razões é que digo e repito  que falar sobre minha experiência como leitora é falar sobre quem sou, sobre minha própria natureza. Ler, para mim, tornou-se essencial e me ajuda a entender mais a vida, a mim mesma e aos outros!
Como é bom ler!!!

 

*Maria Teresa Moreira, poetisa. Edita a página 50 Tons de Menopausa.

18 de Janeiro de 2019

E onde estará Dulce Veiga?

Posted in Ler faz crescer às 16:40 por sidneif

Por PENÉLOPE MARTINS*

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“La Lecture” (1924), de Fernand Léger (1881 – 1955)

Tenho uma lembrança recorrente de Tia Maria me oferecendo livros. Ela foi minha professora no segundo ano primário e tinha uma presença marcante também como dona de uma livraria ao lado da escola.  A livraria “Corujinha” era minúscula mesmo pra gente pequena feito eu, na época com 8 anos. Eu insistia visitas constantes, esperando o transporte da escola pra casa, todos os dias. Metida entre prateleiras, ficava procurando, procurando, procurando livro por livro, palavra por palavra. Queria comprar tudo aquilo, até as estantes, mas eu nem podia um livro por mês.  Meu pai dirigia caminhão, minha mãe tinha um comércio no bairro em que morávamos. Se não tínhamos uma vida pobre, porque não nos faltava casa, comida, estudo, roupa e sapato para calçar, pena fazia nos faltar o dinheiro para a extravagância de comprar a “Corujinha” toda. Quando o dinheiro aparecia, esse sujeito ladino, a gente tinha que escolher, ou isto ou aquilo.

Conheci Cecília Meireles por Marilena, provavelmente, ou teria sido a mesma Tia Maria? De certa forma, minhas professoras foram tão boas mães que assumiram mesmo rosto na minha memória. Ou isto ou aquilo era leitura de sala de aula e que, mais tarde, passou a ser parte da minha biblioteca de valor inestimável. Mais tarde mesmo, a aquisição do livro veio no ensino médio, recordo encontrá-lo sempre entre minhas roupas no armário, amarelado pelo tempo que passou num sebo, a livraria de usados. Aquele exemplar do livro se perdeu, como outros tantos livros meus. É que eu me casei e mudei de casa mais vezes do que eu sonhava e queria, ou menos do que eu deveria, e muitos livros se perderam pelo caminho, até Onde andará Dulce Veiga, autografado por Caio Fernando Abreu, presente de um namorado que sabia da minha loucura pelo autor. Isso foi na Bienal do Livro de São Paulo, ainda no pavilhão do Ibirapuera. Caio estava sozinho, sentado à mesa. Achei tão perturbadora aquela cena. O meu autor favorito dos últimos anos — eu tinha 17, talvez — sozinho entre livros com preços nas capas. Meu namorado se aproximou dele e disse: “ela é sua fã, pode autografar?”. Eu morri de vergonha. Caio olhou pra mim, eu devia ter cara de 12 anos. Lembro que ele escreveu assim: “Penélope, de olhos lindos, cuidado com as feias, menina.”, depois me deu um beijo.

De repente, tenho a sensação que o perdimento de tantos livros pode ter me ajudado a me encontrar. Explico isso, em algum momento.

Onde andará meu livro da Dulce Veiga com a dedicatória-tira-urucubaca de Caio Fernando? Vontade de fazer uma campanha nas redes sociais só pra ver se alguém encontrou, encontrará… Curiosamente, hoje tenho como amigos pessoas que foram grandes amigos de Caio. Ganhei rugas, perdi os 17 anos há quase 30, comprei de volta Ou isto ou aquilo, outro dia chorei ao rever A Disciplina do Amor [Lygia Fagundes Telles]— e não tive coragem de abrir o livro. Virei saudosista, memorialista de mim, um fado de palavras perdidas que me garantem desejo ininterrupto pela busca.

Aliás, uma pausa para uma coisinha pouco interessante. Aqui no Brasil temos por hábito chamar sebo a livraria de usados. Quando eu soube que em Portugal eram alfarrábios, enterneci.

O meu vínculo com a palavra escrita nasceu muito antes disso tudo que contei. Peço desculpas. Acabo dizendo demais. Nasci numa família luso brasileira, pai português, de Miranda do Douro, mãe brasileira, filha de árvore com muitas origens, portuguesa, italiana, alemã e indígena, ao que se sabe. Por conta do pai, aprendi o vira. Na verdade, por conta do meu avô que tocava concertina e cantava e afirmava que eu era uma miúda muito gira e que deveria fazer assim com os pés e com as mãos para cima. Tenho fotos. Por conta de todos eles, os que citei e não citei, aprendi a ouvir música no tempo da vitrola, discos enormes e letras das canções.

Li Lamartine Babo, li Noel Rosa, li Caetano Veloso aos montes (coisa da tia portuguesa abrasileirada no melhor estilo bicho grilo).

Quando eu penso no meu processo como leitora, escuto as vozes da Maria, da Marilena, do avô Valentim, da avó Laura cantando a Casinha da Marambaia [música composta por Henricão/ Rubens Campos e gravada por Carmen Costa] naquela varanda encerada de vermelho que tingia a roupa da gente.

Essas vozes entravam pelos sete buracos de minha cabeça (bicho de sete cabeças) e se transformavam em imagens: palavras escritas. Quando eu fechava os olhos, conseguia ver as letras das canções desenhadas na minha memória.

Com pouca idade eu já sabia chorar com Samba em Prelúdio, ou com Barracão de Zinco. Com pouca idade, reconhecia— as tábuas do meu caixão…” [Povo que lavas no rio, fado composto por Joaquim Campos/Pedro Mello Homem e gravado por Amália Rodrigues].

Claro que, aos 8 anos, quando a Tia Maria abriu a livraria ( e logo fechou porque ela estava mais interessada em nos fazer ler do que vender algo que a sustentasse no comércio), minha imaginação pulou vendo o tanto de palavras guardadas ali naquelas páginas, inventando novos enredos. Eu tinha as palavras de memória, mas desejei aquelas gravadas em papel com sina de bem eterno.

Frequentei bibliotecas desde o primário até o final da faculdade. Foi engraçado quando encontrei a Márcia, bibliotecária da [Faculdade de] Direito São Bernardo do Campo, num dos meus passeios ultraesporádicos ao shopping (hahahahaha, detesto ir ao shopping, acho horrível essa palavra e estou dizendo-a aqui no meio de minhas memórias afetivas, hahahahaha, que ironia). Então, eu encontrei a bibliotecária, séria como ela me parecia a vida toda, e ela me cumprimentou pelo nome. Achei estranho, comentei: “sabe meu nome?”, “sim, claro” — ela me respondeu — , “ou você pensa que todos os estudantes passam os cinco anos frequentando a biblioteca”. Confesso que, num primeiro momento, eu me senti inconveniente, batendo ponto na biblioteca da Márcia. Todavia, eu recordo como me tocavam aqueles livros caríssimos e suas capas duras revestidas a couro. Que dó ver tudo aquilo . Devia ter custado imensa fortuna para servir de amparo ao pó nas estantes. Era por isso, também, que eu me apropriava deles.

Eu me formei bacharel, passei no primeiro exame da Ordem dos Advogados que eu fiz. O exame foi na manhã seguinte à festa do meu casamento. Eu tinha dormido duas horas ou pouco mais. Estava feliz, inocente de preocupações, por isso fiz o exame e fui a primeira a sair da sala. Lembro-me da caneta deslizando a peça processual que eu escrevia como quem canta uma canção para o papel. Ah, o tema da prova era lei do inquilinato, isso até combina com aquele samba, que eu adoro, “aluguei a casa um da vila, meu amigo mora em frente, e a mulher desse amigo, anda arranjando tempo quente” [Casa Um da Vila,  de autoria de Monsueto/Flora Mattos].

Não li os russos como deveria. Não conheço a poesia como poderia. Não sei uma linha de crítica literária. Não estudei a história da canção brasileira. Sou uma leitora em trânsito no tudo que me interessa. Acho o tempo pouco para fazer dele uma coisa só. E isso deve me fazer perder uns pontos na escalada para os prêmios de autoria, mas eu não me importo. A vida é breve e eu nunca serei mais original do que qualquer um de vocês, nem menos. No mais, o que tem me importado, agora, é ler mais mulheres, inclusive me perguntando por Dulce Veiga naquela dedicatória quase fofoqueira que Caio fez ao pé de mim numa sala rodeada por tantos livros que se diziam à venda mesmo sem valor algum para tantas pessoas…

Talvez eu fale demais para dar palavras de graça. E com o que se compra é preciso cuidado. Cuidado para não investir tempo pouco com palavra que ocupa demasiado espaço, juntando poeira.

Aprendendo a ler e perdendo livros para outras histórias encontrar, eu me reconheço em cada ser humano.

 

 

*Penélope Martins, advogada, escritora, narradora de histórias e edita a página Mulheres que Leem Mulheres.

Quase voo

Posted in Ler faz crescer às 15:14 por sidneif

Por MAYARA ALMEIDA*

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” Alegoria dos Cinco Sentidos” (1668), de Gerard de Lairesse (1644-1711)

Quero começar pelo fim — que, por si só, é o começo: ler é uma busca — ou uma bússola? A leitura, entre tantos caminhos provocados, é um processo de ativação de sentidos: toca o livro (tato), enxergar as palavras e além (visão), ouvir os personagens (audição), sentir os cheiros da imaginação (olfato) e o gosto das experiências lidas (paladar). Um processo de aproximação e recuo — começa, pára, volta a ler, fecha o livro, abre, marca, continua… Até que fique confortável esse movimento de se encontrar (e se perder) entre as leituras.

Ler me ajuda a renovar a credibilidade das coisas e pessoas. Me faz desejar um tempo novo. Ler me faz pensar que eu quase voo, e é um eterno retornar. É um ato de coragem e também de rebeldia. Um calculado absurdo. Grito sem barulho. É um [não] descanso da mente da gente. É um acesso ao curioso esquecimento. Ler é um silêncio necessário. Um respiro. Que não se alcança por completo, mas se tenta. Porque é preciso respirar.

*Mayara Almeida, psicóloga, psicanilsta e escritora. http://www.mayaralmeida.com.br/