23 de Agosto de 2013

Decorado por dentro

Posted in Sem categoria às 15:09 por sidneif

  Por IVAN MARTINS*

"Criança Geopolítica Observando o Nascimento do Novo Homem" (1943), de Salvador Dalí (1904-1989).

“Criança Geopolítica Observando o Nascimento do Novo Homem” (1943), pintura de  Salvador Dalí (1904-1989).

 

A Leitura na Minha Vida

A leitura foi fundamental na definição do que eu sou. Ela abriu meus horizontes existenciais, morais e culturais. Moldou os meus valores. Deu-me abrigo quando as circunstâncias eram duras. Ensinou e continua me ensinando. Sem a leitura o sujeito que eu sou não existiria. Neurologicamente, inclusive. Zilhões de sinapses não teriam ocorrido e moldado meu cérebro como ele é. Nem consigo imaginar quem eu seria se não houvesse todos aqueles livros para me decorar por dentro. Aliás, o que pensa alguém que não pôde ler? Difícil concebê-lo.

O Jornalista e a Arte de Ler

Como jornalista, meus hábitos de leitor sempre me serviram muito bem. A leitura dá segurança no trato com assuntos diversos, produz ideias e ajuda a olhar criticamente para a realidade. Sobretudo, ensina a escrever. A leitura entra na carreira também de uma outra forma, indireta. Em geral os jovens se apaixonam pela leitura, escrevem um pouquinho e descobrem que têm vocação paras o jornalismo – depois sofrem. Lembro de uma amiga de profissão que dizia, rindo de si mesma: “Quando eu decidi ser jornalista eu gostava de ler, não de escrever”. Escrever é bem mais trabalhoso e cansativo do que ler, mas uma coisa não existe sem a outra. Ou melhor, existe. Há jornalistas por aí que eu suspeito que não leram um livro inteiro na vida, mas, milagrosamente, escrevem. Em alguns casos, bem.

Livros Que Marcam

São tantos livros, ao longo de tanto tempo. Não consigo separá-los assim. Os livros de aventura da infância – Caçadas de Pedrinho¹, Robinson Suíço², As Mil e Uma Noites³ – como se pode avaliar a sua influência? Estão lá, estarão até o último suspiro, povoando a imaginação. Cada fase da vida tem um conjunto de livros e um grupo de autores. Deixemos assim.

 *Ivan Martins, editor executivo da revista Época.

¹Caçadas de Pedrinho, livro clássico (dentre outros ambientados no fictício Sitio do Pica-pau Amarelo) de Monteiro Lobato (1882-1948).
²Robinson suiço, livro do escritor suiço Johann David Wyss (1743-1818).
³As Mil e Uma Noites, clássica coleção de contos árabes escritos entre o século XIII e o XVI.
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21 de Agosto de 2013

Asa da palavra

Posted in Ler faz crescer às 16:57 por sidneif

Por CLÁUDIO BENTO*

"A Liberdade Guiando o Povo" (1830), de Eugène Delacroix (1798-1863).

“A Liberdade Guiando o Povo” (1830), de Eugène Delacroix (1798-1863).

ASA DA PALAVRA¹

Meu povo tem fome de comida e livros

Não existe solidão para quem lê

Um livro pode conter

Rios montanhas alegria esperança ruas cidades países

A liberdade

Mora na asa da palavra

 
*Cláudio Bento, poeta e compositor. 
 
¹Do livro inédito “Solo De Flauta Doce”, o poema “Asa da Palavra” foi indicado pelo autor para a seção Ler faz crescer.

20 de Agosto de 2013

Comunicação de emoções

Posted in Ler faz crescer às 17:48 por sidneif

Por FABIO MECHETTI*

"O concerto" (c. 1665), do pintor holândes Johannes Wermeer (1632-1675).

“O concerto” (c. 1665), do pintor holandês Johannes Wermeer (1632-1675).

O Papel da Leitura na Minha Vida

Para mim, a leitura é quase tão essencial como a música, que é a minha vida. Estou sempre lendo, relendo, escrevendo e busco na literatura inspiração, subsídios, fortalecimento, questionamento, afirmação para aplicar de maneira prática no meu modo de viver.

 A Leitura e a Profissão

Ser maestro é, acima de tudo, ser um pensador. Nós não fazemos diretamente sons com nossas mãos. Quase todo o nosso trabalho é, de certa maneira, intelectual: análise das partituras, enquadramento destas sob a ótica técnica, histórica, filosófica, étnica, psicológica. Alia-se a isso a função do artista como instrumento de emancipação da sociedade no momento em que contribuímos para o seu legado cultural. Nada disso seria possível sem uma fundamentação muito grande baseada naquilo que outros pensadores, historiadores, sociólogos, propuseram. Todas as artes interagem entre em si em busca de uma melhor concepção da comunicação de emoções. Mas, de todas elas, a literatura é a que mais se aproxima da música e, portanto, estar imerso nela é fundamental.

Livros em Minha Vida

São tantos livros que aqui não teria espaço para citá-los e justificar a importância deles . Mas alguns são realmente fundamentais.

O Dom Quixote, de MIguel de Cervantes (1547-1616), por exemplo, é, por natureza, a definição daquilo que é ser artista e ,portanto, tem uma profunda e direta mensagem que nós artistas carregamos em nossa vida profissional e mesmo na privada. É a ideia de que “não existe nada mais louco que ver o mundo como ele é e não como deveria ser”. Essa é a própria definição da função da arte, da boa arte, a constante busca de uma proposta para um mundo melhor.

Sou um racionalista convicto e vivo lendo e relendo as obras de Immanuel Kant (1724-1804), que me parecem ideias infelizmente um tanto esquecidas na vida moderna, mas que deveriam ser revisitadas para que pudéssemos entender melhor as questões da vida contemporânea e ver, até com certo deslumbre, a visão ousada e ainda relevante que Kant propõe em suas obras.

Mesmo sendo um racionalista é sempre importante contrapor e harmonizar isso com posições inteligentes expressas por outros escritores que propuseram outras visões de mundo. Para isso, valho-me muito das profundas ideias expressas nos ensaios de Ralph Waldo Emerson (1803-1882), na exploração emocional de uma humanidade imperfeita refletida nos dramas de Shakespeare (1564-1616), na perspicácia social manifestada nas obras de Machado de Assis (1839-1908) e de Eça de Queirós (1845-1900), no virtuosismo de José Saramago (1922-2010), na fantasia pragmática de Gabriel García Márquez. Enfim, há muito lido e a ser lido.

Agora mesmo estou lendo um livro de Mario Vargas Llosa recém-lançado e que resume muito bem uma preocupação muito grande minha,  expressa em entrevistas e nos artigos que escrevi, acerca do abismal e precipitado declínio cultural de nossa sociedade. Chama-se A Civilização do Espetáculo: leitura obrigatória a todos aqueles que se interessam por Cultura.

 *Fabio Mechetti, diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.