19 de Fevereiro de 2015

Tempos líquidos

Posted in Brasil às 17:15 por sidneif

 Por POLLY D´AVILA*

Solve Sundsbo

Obra de Solve Sundsbo (fotógrafo norueguês).

A frase que parece ecoar com mais força, quando se pensa na aventura moderna, é aquela em que Karl Marx (1818-1883) diz: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado.” O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que reflete sobre temas atuais, fez a seguinte afirmação: “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”. Se relacionarmos o pensamento de Marx ao de Bauman veremos que têm algo em comum – a incerteza que paira sobre a vida humana nos últimos séculos.

Em sua citação, Marx referia-se ao momento pós-industrial na qual ocorreram mudanças sócio-econômicas significativas em alguns países. Com o rápido aumento demográfico, o indivíduo se viu imerso em uma multidão, em que precisava lutar cada vez mais por sua identidade. E isso, também, afetou o modo como o homem passou a lidar com tudo o que era “sagrado” – as relações humanas, a religião, a arte.

A multidão tornou-se massa. E logo ocorreu uma passagem da “fase sólida” moderna para a “fase líquida” pós-moderna. Quais seriam então os valores dos homens em meio as massas? Ou melhor, como podemos falar de valores quando não existem mais valores? Bauman questiona: “Como pode alguém viver a sua vida como peregrinação se os relicários e santuários são mudados de um lado para o outro, são profanados, tornados sacrossantos e depois novamente ímpios num período de tempo mais curto do que levaria a jornada para alcançá-los?” Ou seja, o homem é impelido a ser mutável, reage como um líquido para viver no mundo atual. E, assim como os líquidos, muda de forma rapidamente, incapaz de manter a mesma forma por muito tempo.

Entre os tipos humanos do nosso tempo, Bauman fala-nos do “turista” e do “vagabundo”. O turista baseia sua vida na mobilidade e na liberdade. Guarda para si a distância e impede a proximidade. Quando, para ele, não é mais cômodo estar em um determinado local ele se move. E é nesse ponto em que ele mesmo gera suas incertezas. Já o vagabundo vê o mundo como um ambiente inóspito. Ao contrário do turista, que vê o fascínio. O vagabundo é a vítima do mundo, se ele se move não é porque quer, mas porque não há outra escolha. Tratam-se de metáforas.

Se na pós-modernidade tudo está profanado, e o homem encontra-se dissociado, então não estaríamos vivendo um novo tipo de barbárie? É algo a ser refletido, já que toda barbárie é confusão e volta ao caos. Os noticiários de tv e os acontecimentos que vemos ao nosso redor ajudam-nos a aumentar essa sensação.

Desta forma, o que então pensar das relações afetivas? Os relacionamentos estão cada dia mais inconstantes e frágeis como bolhas de sabão que sopradas ao vento esperam por um fim. Bauman disse em entrevista que, na atualidade, mantemos relações enquanto houver satisfação. Quando esta não mais existe, substituimos-nas como fazemos com os nossos bens de consumo. Para isso ele alerta, “é bom lembrar que o amor não é um ´objeto encontrado´, mas um produto de um longo e muitas vezes difícil esforço e de boa vontade.”

Um outro filosófo chamado Jean-François Mattéi escreveu que já nascemos póstumos na sociedade atual, em meio ao fim das ideologias, do progresso, da história, da metafísica. O olhar do voyeur pós-moderno em relação ao mundo é um olhar de morte. Para ele, vivemos no “i-mundo”, que é o que resta do mundo quando o homem se vê em um lamaçal bárbaro, o qual chamamos de massa, e em que o pensamento individual se abisma.

Portanto, para o homem não ser tomado pela barbárie, precisa superar a prisão do eu. Precisa superar a cegueira, da qual nos fala Saramago por meio de metáforas em um famoso livro. O homem deve elevar-se, como acrescenta Mattéi, pois “todo pensamento é altivo porque se mantém à altura do ser, e para além dele”. Elevando-se, o indivíduo estará à altura da obra e, deste modo, não será um simples sujeito da história. Será um começo em si e um além de si.

Polly D´Avila, artista plástica. O texto foi originalmente publicado no Facebook e gentilmente cedido pela autora ao blog.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. O Mal-estar da Pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

MATTÉI, Jean-François. A barbárie interior. São Paulo: Editora Unesp, 2001.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

BAUMAN, Zygmunt. São Pulo: Isto é. Entrevista concedida a Adriana Prado. <http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/102755_VIVEMOS+TEMPOS+LIQUIDOS+NADA+E+PARA+DURAR> Acesso em: 19 de jan. 2015.

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6 de Agosto de 2014

Ir em direção ao outro

Posted in Brasil às 18:21 por sidneif

Por POLLY D’AVILA*

tempos fugit

Era um dia quente como inúmeros em minha cidade. Eu estava em uma pequena capela com um homem que tinha acabado de conhecer. Nas minhas mãos, havia um bloco de anotações e uma caneta. Conversávamos como se fôssemos amigos de longa data sobre espiritualidade, história da cidade, arte, arquitetura…

Então, ele parou o que estava dizendo e lançou:

– Existe uma tristeza no seu olhar.

Perplexa perguntei:

– Como assim? Então, ele continuou a falar e não demorou muito para eu compreender do que se tratava.

Nestas últimas semana três grandes escritores brasileiros morreram. Entre eles, o querido Rubem Alves (1933-2014). De modo saudoso, ontem peguei Tempus Fugit da estante. Foi relendo este livro que recordei a cena da capela. Um homem que não me conhecia, em um instante de sensibilidade, captou um aspecto da minha essência. Nos dias atuais, esse tipo de observação é raríssima, já que a rotina fatigou os corações humanos.

Captar a essência de outrem pode ser um sinal de generosidade. É uma lâmina imaginária que retira aspectos da alma. Um ir em direção ao outro. O artista Pablo Picasso (1881-1973), por exemplo, costumava efetuar esse exercício com as pessoas que representava. Em meio as geometrizações cubistas, que na verdade são distorções humanas, ainda é possível visualizar a essência do retratado. Já Amedeo Modigliani (1884-1920), quando não conseguia captar uma essência, decidia-se por pintar de cinza os olhos da pessoa . Era o mistério que pairava no ar.

Do mesma forma, o escritor Rubem Alves captava fenômenos naturais e essências humanas. Basta ler seus textos para perceber que ele fazia parte deste seleto grupo de pessoas. Ou seja, aqueles que visualizam detalhes, minúcias do cotidiano de modo aprofundado, a beleza nas coisas fugidias.

Talvez, um dia, você  comece a perceber que dentro de um recinto, a luz do dia faz os olhos das pessoas brilharem. Ou que uma flor nasceu em meio ao cimento da calçada por onde você passa todos os dias. Ou que aquela criança nos braços da mãe sorriu pra você. Ou que o cabelo ruivo daquele homem tem um tom que você nunca tinha visto antes…

Pensar na beleza efêmera é pensar no que não será mais. Loucura refletir sobre o tempo e sua fugacidade? Talvez. Só sei que o tempo que passa para seres mortais pode soar como morte. E é aí que a beleza apresenta o seu peso e sua tristeza no olhar.

Rubem Alves escreveu que “A vida é aquilo que fazemos com a nossa Morte”. Acrescento que a essência da pessoa é aquilo que ela faz com sua Morte. Pois todas as ações humanas estão imbuídas de tempo e morte. O que seria da arte e da literatura sem essas duas coisas? Milan Kundera também escreveu sobre isso. Como atingir leveza na vida, se o peso do tempo e da morte nos impulsiona para o chão? Para isto a resposta é clara e individual, está no trajeto de cada um.

* Polly D’Avila, artista plástica. O texto, originalmente publicado no Facebook, foi gentilmente concedido pela autora.

13 de Fevereiro de 2014

A essência de Mary Prieto

Posted in Brasil às 16:17 por sidneif

Essencia3_5546Essência (editora Giostri), primeiro livro da paulista Mary Prieto (cujo depoimento à seção Ler faz crescer está no post abaixo), deixa transparecer uma senhora certeza – a autora tem um caso sério com a vida.

Um caso que sobrevive a qualquer efeméride, impõe-se a qualquer revés. Não, Prieto não possui manual prático para encarar as tempestades humanas. Também não deixa de questionar a vida, o que a vida é.

Mas a autora não larga da vida. O motor dessa relação é o reconhecimento da essência humana entrelaçada com a busca incessante para entender e contemplar o que é ser feliz, associada com a urgência de liberdade. (Ou ser feliz e liberdade sejam a própria essência.)

Por ser livre, a terna poesia de Essência inquieta o leitor , Prieto  é inquieta  porque deseja ser  livre, mexer-se  é o compromisso da autora com a vida . “Liberdade é movimento”, como se pode ver no poema “Significado”.

Tudo muda quando nos mexemos.

4 de Outubro de 2013

Mais gestão em saúde

Posted in Brasil às 19:41 por sidneif

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A celeuma em torno da contratação de médicos estrangeiros só evidencia a tacanha gestão brasileira da saúde pública.

O grande problema da saúde, como é peculiar em todo mau serviço público brasileiro, é a falta de verdadeira gestão – que compreende o diagnóstico do problema, participação de especialistas da área, estudo de casos bem sucedidos, conjunto de medidas para corrigir as distorções e fiscalização contínua e implacável de todo o processo.

Mas a gênese política brasileira aponta para soluções paliativas, concebidas sem exigir muito do poder público e na medida para cabalar votos.

Uma política séria de saúde compreende prevenção, atenção às peculiares necessidades de cada região, capacitação dos profissionais (os cursos de medicinas são notórios pela quantidade e cada vez menos pela excelência), implantação de infraestrutura adequada ao exercício da medicina.

O programa Mais Médico é um bom exemplo da opção do poder público por ações isoladas e efêmeras.

A idéia do governo de trazer médicos de outros países (em especial de Cuba) já existia bem antes dos protestos que sacudiram o país no último mês de junho. Após a efeméride, junto com a promessa de mais investimentos em infraestrutura, virou programa de governo para acudir a saúde e satisfazer a opinião pública.

Haja vista a urgente necessidade de tais profissionais nas regiões carentes do Brasil, recrutar médicos estrangeiros – devidamente qualificados e, no caso dos cubanos, para o bem deles, sem a patrulha do castrismo – funcionaria como uma medida emergencial, à proporção que  ações  de médio e longo prazo,  destinadas a reerguer  a capacidade do país de cuidar da saúde de sua gente, fossem executadas.

O governo, contudo, reduziu o seu programa de saúde à importação de médicos e  à velha retórica de mais investimentos, sem garantir quando, onde ou de que forma serão aplicados. Nosso histórico de políticas mal sucedidas aponta para verbas públicas se perdendo no emaranhado burocrático ou engolidas pela voraz serpente da corrupção.

Bem longe das espúrias atitudes de hostilizar e boicotar os médicos do exterior, cabe-nos reivindicar e fiscalizar uma ampla e séria política de saúde pública. Médico algum sozinho desfaz o caos da saúde no Brasil, o  elixir de vontade e pressão da sociedade pode curá-lo.

25 de Setembro de 2013

A intrincada justiça brasileira

Posted in Brasil às 17:36 por sidneif

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Com a aceitação do recurso dos embargos infringentes pelo Supremo Tribunal Federal, a conclusão do processo mensalão é postergada sine die. Além da sensação forte de iminente impunidade, tal decisão dos homens de toga infunde a discussão sobre um processo justo, o amplo direito de defesa. Mas omite a falta de objetividade e acomodação do poder judiciário.

Julgar um réu é andar em ovos, qualquer negligência (pré-julgamento, abuso de poder e quejandos) esmaga a justiça e, por consequência, sedimenta iniquidades. Tais ovos quebrados podem ser evitados com o sagrado direito de defesa de qualquer cidadão envolvido em julgamento. Negá-lo é abrir precedentes para a manipulação da justiça em prol de quem tem ou está no poder. Ditaduras são exemplos clássicos (e trágicos) de justiça subserviente e unilateral. Portanto, o discurso de tantos juristas a favor da tradição brasileira de garantir o amplo direito de defesa é válida, desejável.

Acresce que a justiça brasileira cultua igualmente tradições indignas de quem prega o correto exercício do direito. É mais do que histórica a desigual aplicação da justiça no Brasil. Pessoas quem não ostentam caríssimas bancas de advogados  penam nos meandros do poder judiciário. O célebre ditado “rico não vai para a cadeia” não fica vetusto.

As grandes bancas , porém, não são apenas bem sucedidas por causa da destreza dos seus causídicos. Esbaldam-se com o notoriamente intricado direito processual brasileiro, o qual parece organizado para atravancar processos e referendar a total falta de objetividade.

Interpretações mil e conflitantes das leis sobre uma mesma questão, brechas jurídicas abstrusas e em profusão, que permitem número infindável de recursos, e a morosidade dos julgamentos compõe o caldeirão do direito processual verde e amarelo. O rescaldo são processos que se arrastam, crimes prescritos e a impunidade cada vez mais presente. “O direito processual brasileiro é um granítico monumento à impunidade e à inobjetividade”, escreve o cronista catarinense Sérgio da Costa Ramos.

A justiça brasileira foge da objetividade, esconde-se em uma selva de leis para chamar o direito que pratica de complexo. (Aliás, coisa típica dos serviços públicos prestados no Brasil, pois estes não podem ser simples e objetivos, não prescindem da assinatura e do carimbo de meio mundo.)

Em vez de se preocupar com a pomposidade dos seus discursos ( em alguns momentos cabotinos) e torcer o nariz para o que ocorre nas ruas, os homens de toga poderiam estudar e defender com veemência mudanças que torne a justiça brasileira célere e objetiva – a sociedade será uma parceira entusiasta de tal empreitada.

Mas a única alteração que se afigura ser defendida com entusiasmo por todo o poder judiciário é o aumento salário e regalias da corte.

O atual descontentamento gerado pelo desempenho do poder judiciário no julgamento do mensalão tem lastro. Ao longo de muitos anos, uma miríade de escândalos de corrupção e malversação do dinheiro público vem à tona no país, mas o número de réus condenados – exemplarmente condenados – é irrisório.

Mudar tal realidade é possível se a sociedade abandonar retórica “o Brasil é assim mesmo, não adianta questionar”  e o poder judiciário levantar-se das acolchoadas cadeiras da acomodação.

19 de Junho de 2013

O legítimo sentido da política

Posted in Brasil às 20:52 por sidneif

De súbito, as cidades entoam insatisfação. E não são tons desprovidos de sentido.

O sentido do protesto fundamenta-se no abismo que separa a classe política dos anseios da população. A casta política se fechou no seu círculo de poder e ignora olimpicamente os desejos de quem os elegem.

O descalabro com a saúde e a educação, a inflação se fazendo presente no bolso, a corrupção, desmandos e o cinismo dos políticos alcançaram o paroxismo da indignação com a insensata empreitada de sediar grandiosos eventos esportivos.

Assomaram pelo Brasil estádios – muitos deles, verdadeiros elefantes brancos – de custos questionáveis e bancados pelo erário. E a mais  elevada e impiedosa sensação de abandono e frustração assomou à alma de todo brasileiro vítima da negligência de quem dizia representá-lo. A desfaçatez com a qual construíram tais obras e continuavam a desprezar as necessidades da população alavancou o nobre e incandescente sentimento de indignação.

Cada canto de protesto é o legítimo exercício da democracia, é a nossa chance de recuperar o sentido da palavra política, do legítimo sentido de ciência da organização e administração de um Estado, da sociedade, tão imensamente distante do fisiologismo, casuísmo, corrupção e cinismo tão comum no mundo político brasileiro.

Um mundo que, com bravas exceções, aninhou-se nos braços da ditadura e continuou apegado ao poder nos tempos de democracia. Um mundo que viu brotar PSDB e PT, partidos cujos discursos pregavam um novo e honesto jeito de fazer política e que capitularam diante das benesses do jeito fácil de fazer política. A sede do poder e o cinismo prevaleceram.

Ouvidos moucos, porém, é impossível ao som do protesto do  mundo sério. O canto da indignação é capaz de desarmonizar os conchavos espúrios do poder, gerar a verdadeira mudança social à qual aspiramos.

Sim, todo o movimento que acontece é tão recente e não se tem ideia de qual será os próximos passos.  Entretanto, continuar a bradar nossa indignação é justo,  mesmo que sejamos neófitos, ainda aprendendo sobre a excelência e os dissabores da política, o ato de encará-los já nos faz vislumbrar um país melhor.

No mais, é aconchegar-se nas canções de Chico Buarque  e Caetano Veloso e, por meio das ricas letras desses gênios, entender e celebrar a importância da democracia, do direito de protestar.

4 de Junho de 2013

Minha visão de O Olho da Rua¹

Posted in Brasil às 17:25 por sidneif

Por ISMÊNIA NUNES*

Quando meu professor de Técnicas de Jornalismo disse que eu teria de ler um livro de 422 páginas, eu quase tive um treco. Como vou ler um livro tão grosso, professor? Confesso que não era treinada para leituras longas e ainda mais um livro de reportagens. Pensei: deve ser uma leitura cansativa reportagens tão longas assim…

Equivoquei-me, ler O Olho da Rua, de Eliane Brum, foi uma das experiências mais incríveis que tive com um livro e uma pessoa. A jornalista e escritora sabia como fazer uma reportagem com humanidade e com envolvimento entre repórter, leitor e personagem. Preocupava-me a assimilação das histórias e dos personagens, afinal eram tantos. Não costumava me prender a tantos personagens e tantos detalhes; e principalmente ter que descrevê-lo posteriormente como propôs o Professor Russo, como é conhecido o docente da disciplina em questão.

Semestre passado, já tinha lido o primeiro capítulo de O Olho da Rua quando outro professor dividiu o livro em capítulos entre a turma. Cada um iria descrever e falar de cada história, a minha foi a primeira de tantas que o livro pôde contemplar: “A Floresta das Parteiras”, de que, por sinal, gostei muito de ler. Aliás, foi a primeira impressão que tive do livro indicado.  Mas devido a não obrigatoriedade de lê-lo e a quantidade de leituras, estudos e trabalhos que a faculdade nos exigia, acabei deixando o livro de lado; e não li o restante. Mas quem disse que eu não iria mais ter notícias dele?

Novo semestre, novo professor e o livro agora volta ser  a indicação. Mas não de um capítulo, e sim do livro inteiro. Sim, 422 páginas iriam competir agora com inúmeros trabalhos, apresentações, provas e eu teria que conseguir ler a tempo da prova.

No início da leitura minha preocupação era de acabar logo, aliás, eu nem estava no meio e pensava: falta mais da metade, como vou ler este livro com tantas coisas para estudar, ler, com tantos trabalhos de faculdade para fazer? Mas para minha surpresa não se demorou para que eu me sentisse apegada ao livro, aos personagens e as histórias contatas por Eliane Brum, que antes de repórter é uma pessoa, e  teve toda a sensibilidade de trazer histórias reais aos leitores.

Em cada dia me via lendo mais e mais, ficava horas e horas lendo o livro que no começo parecia assustador. Acordava cedo, 6h, 7h da manhã para ler. E foi no dia 1º. de maio, num feriado, que finalizei a leitura do livro O Olho da Rua. E a ânsia por ler aquele livro, com tantas páginas foi tão grande, que eu já não era mais a leitora. Parecia que já fazia parte do livro e da história.

As histórias contadas por Eliane eram histórias diferentes de nossas realidades, mas iguais a vida de simplicidade e sentimentos que temos em nosso dia a dia. Eliane escreveu as reportagens de tal forma que nos fez sentir como parte daquelas histórias todas. Aliás, eu não diria que eram reportagens, se não soubesse sua profissão de jornalista,  ela trouxe-nos sim histórias reais em forma de textos que exalavam vida e sentimento humano. Mas como já dizia ao chegar ao final do livro, eu já não queria mais deixar que ele acabasse. Se no início da leitura, ele assustava, ao final, não queria mais que ele me deixasse. Tinha pena e me sentia apegada ao livro que agora terminara. E para não perdê-lo, li tudo dele. Os agradecimentos, a ficha técnica. Depois, pulei para a orelha onde falava da repórter, virei o livro e no outro lado da orelha uma frase me chamou a atenção; dizia: “Se as histórias contadas neste livro fossem publicadas como ficção, o leitor pensaria que o autor exagerou.”

Sim, Eliane Brum pode fascinar e prender neste livro. Mas eu não me conformava de ter terminado, eu queria mais. Reli a dedicatória, o sumário. Imagina, ler o sumário… Pulei para o prefácio, escrito pelo repórter Caco Barcellos, passei para a apresentação e foi quando me dei conta: estava lendo o livro de novo… Parei e disse a mim mesma: agora tenho que fazer um relato do que senti ao ler este livro maravilhoso da Editora Época, o livro que nos mostrou realidades e que tem por nome: O Olho da Rua.

*Ismênia Nunes, acadêmica de Jornalismo e blogueira.

¹Manifestação em prol da leitura do livro citado ( e qualquer empolgação em torno de livros é apoiada pelo blog). O texto foi originalmente publicado no blog da autora Ismênia Nunes.

13 de Fevereiro de 2013

Pequenas coisas, grandes lições

Posted in Brasil às 13:29 por sidneif

Por POLLY D’AVILA*

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“O Pássaro Azul” (1968), pintura de Marc Chagall (1887-1985)

Tenho várias histórias da minha mãe para contar aos meus filhos (quando eles vierem). A última delas aconteceu há poucos dias.

Ela chegou de uma viagem dizendo que tinha algo pra me dar. Curiosa, tentei adivinhar qual era a “surpresa”, mas errei todas as tentativas. Foi quando ela me mostrou um casal de pequenos pássaros cuidadosamente aquecidos em um papel toalha.

A princípio eu lhe disse que não queria cuidar deles, pois da última vez que eu o fiz um pássaro morreu e me apego facilmente a essas pequenas criaturinhas. Porém, com o passar dos dias eu acabei me apaixonando pelo casalzinho, sempre muito faminto e que depois de alguns dias começou a cantar.

Então, minha mãe disse-me toda a história: Ela estava no campo inspecionando um material em um dia chuvoso (ossos do seu ofício). E ao pegar umas frutas no chão, verificou um ninho de pássaros todo encharcado que havia caído de uma árvore. Os dois pássaros estavam a tremer de frio e não emitiam som algum.

Ela pegou um papel toalha e pediu ajuda de um colega para colocá-los novamente no ninho. Mas a árvore era alta, estava chovendo muito e, depois de algumas tentativas, decidiu trazê-los para casa. Disse-me que cuidaria deles até quando pudessem ser soltos na natureza.

Na verdade, tudo isso me deu uma grande lição, já que muitas coisas se explicam através de metáforas e analogias.

Assim como os pássaros, somos seres frágeis e que, em algum momento, passamos pelo mesmo processo de cuidados, até crescermos e estarmos preparados para desbravar o mundo.

E assim como os pássaros, a nossa verdadeira essência se desenvolve na liberdade. São nos pequenos atos que aprendemos muito com nossos pais. Por meio das pequenas coisas, aquelas que muitos consideram banais, podemos encontrar grandes lições na vida. Para isso, basta apenas saber olhar.

Lembro-me, inclusive, de um texto do Rubem Alves que li em 2007 chamado A Complicada Arte de Ver. Nele está escrito que “O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser apreendido.” A cegueira muitas vezes é formada em nossos olhos a partir da correria e dos problemas cotidianos.

Sobre o ato de ver, Santo Agostinho (354-430) também escreveu que certa vez dois homens olharam através da grade da prisão, um deles viu a lama e o outro o céu estrelado.

Aqui fica a mensagem.

Polly d’Avila, artista plástica. O texto, que foi cedido gentilmente pela autora, foi publicado originalmente no Facebook.

23 de Outubro de 2012

Rescaldo do mensalão

Posted in Brasil às 15:18 por sidneif

25 condenados no julgamento do mensalão.Tubarões na rede da justiça. Choradeira inaceitável de um lado, oportunismo do outro. Cabotinismo de ambos os partidos.

O veredicto do Supremo Tribunal Federal sobre o caso do mensalão merece ser venerado. O país tão acostumado com a impunidade ganha um sopro de dignidade e civilidade. Doravante o que se espera é a mesma postura intolerante da justiça brasileira contra o mau uso da máquina pública, a malversação e a prevaricação.

Consequência benéfica do julgamento do mensalão seria os partidos políticos repensarem suas condutas. Mas a julgar pelas reações dos maiores partidos do Brasil – PT e PSDB – estamos longe de uma nova consciência política.

O PT adota o discurso de “golpe dos meios de comunicação e da elite”, protagoniza a choradeira da suposta vítima, banca o mocinho e ignora evidências. O PSDB, por sua vez, usa o resultado do julgamento – resposta da justiça a crimes que lesam o país  – como atestado de condenação de um partido, um mero trunfo para angariar votos, reduzindo a importância da decisão do STF.

Petistas e pessedebistas deveriam deixar o cabotinismo de lado e se perguntar como dois partidos que surgiram  sob a bandeira de um novo jeito de fazer política (longe do fisiologismo, do balcão do negócios) foram capazes de alianças com velhas oligarquias políticas, de rasgar seus compromissos com os eleitores por causa da avidez pelo poder.

Os dois partidos, se ainda possuem algum resquício do ideário de uma nova política calcada na transparência e na lisura, precisam fazer autocrítica, reconhecer os seu erros e compreender que  o Brasil está , mesmo que lentamente, mudando.

11 de Abril de 2012

A acomodação da justiça

Posted in Brasil às 12:02 por sidneif

Um sagaz advogado, abstrusas decisões e lentidão dos homens de toga. Eis a infalível receita da impunidade .

Um “bom” advogado conhece todos os caminhos para protelar a decisão da justiça. Inúmeros recursos ( e chicanas) arrastam julgamentos até que crimes prescrevam, até que o desfecho seja inócuo.

Não bastasse isso, os homens de toga se especializaram em interpretações canhestras da lei. É impossível  entender, por exemplo, a decisão do Superior Tribunal de Justiça de absolver um homem acusado de  estrupo de três meninas porque as vítimas  já se prostituíam.

Pelo jeito, o STJ  acredita que  uma menina 12 anos não precisa de proteção. Virou meretriz?  Que arque com as consequências. (Comportamento típico de uma sociedade machista, na qual o homem é o predador, precisa fazer sempre  “o serviço”, pouco importa  se é uma menina,  que deveria estar na escola.)

E o mesmo Tribunal decidiu  que o motorista só poderá ser acusado ou punido pelo crime de dirigir embriagado se houver   teste de bafômetro ou  exame de sangue. Dois procedimentos das quais o motorista pode  se eximir.

Ou seja, a Lei seca  não vale nada. Ao motorista irresponsável, o direito sagrado de beber. Vamos comemorar, e com muito álcool.

Essas e outras  (ou falta de ) decisões da justiça brasileira podem até ter algum respaldo do mundo jurídico. Mas o que a toga brasileira parece nos mostrar é um senso de justiça  em que preponderam a acomodação e a  conveniência com os “altos” estratos sociais.

O Brasil que tanto almeja posição de líder no cenário mundial precisa ser o país da justiça que funciona.

Que as togas do bem não percam a voz e o bom  senso e, ato contínuo,  permitam o Brasil ainda acreditar na justiça – naquela justiça em que todos são iguais.

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