24 de Junho de 2014

A fome, a promissão, a seca

Posted in Ler faz crescer às 17:12 por sidneif

Por BERNARDO BUARQUE DE HOLLANDA*

"Criança Morta (Série Retirantes, 1944), tela de Candido Portinari (1903-1962)

“Criança Morta (Série Retirantes, 1944), tela de Candido Portinari (1903-1962)

Meus grandes momentos como leitor:

Vidas secas:

Este livro leva-me a uma das melhores lembranças de leitura, na adolescência. Eu começava a descobrir o universo literário nordestino e Vidas secas marcou minha memória, pois não conseguia parar de lê-lo. Li-o de uma só vez, da noite para o dia, praticamente sem interrupção. O mais impactante de tudo é que, ao narrar o drama histórico da fome no Nordeste brasileiro, através da saga de uma família desvalida, Graciliano Ramos (1892-1953) escreve à imagem e semelhança da paisagem. Seu estilo de escrita é seco, austero e inclemente. É fiel, portanto, à terra que retrata. Que o leitor preste atenção a um de seus mais comoventes personagens: uma cachorrinha, de nome Baleia.

Canaã:

O autor desta obra, Graça Aranha (1868-1931), já foi muito comentado, por ter sido o fundador da Academia Brasileira de Letras e por ter contribuído, com uma conferência, para a eclosão do modernismo no Brasil. Mas já esta na hora de voltar a ler seu livro, cujo título bíblico sugere nos levar à terra da promissão. Esta terra não está longe. No início do século XX, quando a obra foi lançada, a promissão representava o próprio Brasil. Para o nosso país, milhares de indivíduos, das mais diversas nacionalidades, entre italianos, espanhóis e japoneses, vinham atraídos, no fluxo da migração. Com Canaã, peça de ficção, é possível mergulhar na experiência migratória das famílias alemães, em sua aclimatação aos trópicos, em meio a aspirações, anseios, choques culturais e frustrações.

O Quinze:

Muitos atribuem ao livro A Bagaceira, de José Américo de Almeida (1887-1980), a renovação estética do romance nordestino. Mas é a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) que deve ser lembrada quando se fala na geração de escritores do Nordeste que inaugurou e projetou uma nova forma – o romance social – de se escrever prosa de ficção no Brasil. Lançado em 1930, e logo premiado, O Quinze faz alusão ao ano de 1915, quando uma estiagem causticou o Nordeste, de janeiro a dezembro. Sabe-se que as secas não eram novidade desde o século XIX, haja vista a ausência de água estendida pelo triênio de 1877, 1878 e 1879. Aquele ano, no entanto, marcou especialmente a memória da menina Rachel, então com cinco anos de idade, que teve de fugir de sua terra natal. Passados quinze anos do drama, a jovem escritora publicaria esta obra que, para além do memorialismo, revela uma narradora capaz de criar personagens complexos e densos, sem reduzi-los ao meio físico, mas com profundo senso de consciência social.

*Bernardo Buarque de Hollanda, historiador, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
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