19 de Fevereiro de 2015

Tempos líquidos

Posted in Brasil às 17:15 por sidneif

 Por POLLY D´AVILA*

Solve Sundsbo

Obra de Solve Sundsbo (fotógrafo norueguês).

A frase que parece ecoar com mais força, quando se pensa na aventura moderna, é aquela em que Karl Marx (1818-1883) diz: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado.” O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que reflete sobre temas atuais, fez a seguinte afirmação: “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”. Se relacionarmos o pensamento de Marx ao de Bauman veremos que têm algo em comum – a incerteza que paira sobre a vida humana nos últimos séculos.

Em sua citação, Marx referia-se ao momento pós-industrial na qual ocorreram mudanças sócio-econômicas significativas em alguns países. Com o rápido aumento demográfico, o indivíduo se viu imerso em uma multidão, em que precisava lutar cada vez mais por sua identidade. E isso, também, afetou o modo como o homem passou a lidar com tudo o que era “sagrado” – as relações humanas, a religião, a arte.

A multidão tornou-se massa. E logo ocorreu uma passagem da “fase sólida” moderna para a “fase líquida” pós-moderna. Quais seriam então os valores dos homens em meio as massas? Ou melhor, como podemos falar de valores quando não existem mais valores? Bauman questiona: “Como pode alguém viver a sua vida como peregrinação se os relicários e santuários são mudados de um lado para o outro, são profanados, tornados sacrossantos e depois novamente ímpios num período de tempo mais curto do que levaria a jornada para alcançá-los?” Ou seja, o homem é impelido a ser mutável, reage como um líquido para viver no mundo atual. E, assim como os líquidos, muda de forma rapidamente, incapaz de manter a mesma forma por muito tempo.

Entre os tipos humanos do nosso tempo, Bauman fala-nos do “turista” e do “vagabundo”. O turista baseia sua vida na mobilidade e na liberdade. Guarda para si a distância e impede a proximidade. Quando, para ele, não é mais cômodo estar em um determinado local ele se move. E é nesse ponto em que ele mesmo gera suas incertezas. Já o vagabundo vê o mundo como um ambiente inóspito. Ao contrário do turista, que vê o fascínio. O vagabundo é a vítima do mundo, se ele se move não é porque quer, mas porque não há outra escolha. Tratam-se de metáforas.

Se na pós-modernidade tudo está profanado, e o homem encontra-se dissociado, então não estaríamos vivendo um novo tipo de barbárie? É algo a ser refletido, já que toda barbárie é confusão e volta ao caos. Os noticiários de tv e os acontecimentos que vemos ao nosso redor ajudam-nos a aumentar essa sensação.

Desta forma, o que então pensar das relações afetivas? Os relacionamentos estão cada dia mais inconstantes e frágeis como bolhas de sabão que sopradas ao vento esperam por um fim. Bauman disse em entrevista que, na atualidade, mantemos relações enquanto houver satisfação. Quando esta não mais existe, substituimos-nas como fazemos com os nossos bens de consumo. Para isso ele alerta, “é bom lembrar que o amor não é um ´objeto encontrado´, mas um produto de um longo e muitas vezes difícil esforço e de boa vontade.”

Um outro filosófo chamado Jean-François Mattéi escreveu que já nascemos póstumos na sociedade atual, em meio ao fim das ideologias, do progresso, da história, da metafísica. O olhar do voyeur pós-moderno em relação ao mundo é um olhar de morte. Para ele, vivemos no “i-mundo”, que é o que resta do mundo quando o homem se vê em um lamaçal bárbaro, o qual chamamos de massa, e em que o pensamento individual se abisma.

Portanto, para o homem não ser tomado pela barbárie, precisa superar a prisão do eu. Precisa superar a cegueira, da qual nos fala Saramago por meio de metáforas em um famoso livro. O homem deve elevar-se, como acrescenta Mattéi, pois “todo pensamento é altivo porque se mantém à altura do ser, e para além dele”. Elevando-se, o indivíduo estará à altura da obra e, deste modo, não será um simples sujeito da história. Será um começo em si e um além de si.

Polly D´Avila, artista plástica. O texto foi originalmente publicado no Facebook e gentilmente cedido pela autora ao blog.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. O Mal-estar da Pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

MATTÉI, Jean-François. A barbárie interior. São Paulo: Editora Unesp, 2001.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

BAUMAN, Zygmunt. São Pulo: Isto é. Entrevista concedida a Adriana Prado. <http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/102755_VIVEMOS+TEMPOS+LIQUIDOS+NADA+E+PARA+DURAR> Acesso em: 19 de jan. 2015.

Anúncios