17 de Outubro de 2013

O Prazer de não poupar tempo

Posted in Ler faz crescer às 16:14 por sidneif

Por MONICA BAUMGARTEN DE BOLLE*

"Alegoria do Tempo governado pela Prudência" (c. 1560-1565), obra de Ticiano.

“Alegoria do Tempo governado pela Prudência” (c. 1560-1565), pintura de Ticiano (c.1488-1576).

Imagine uma menina de grandes olhos negros, coberta por um casaco que claramente não lhe pertence, as mangas encobrindo seus pequenos punhos. Imagine essa menina, que não sabe de onde vem, que, quando perguntada quanto tempo está ali, responde que sempre esteve ali. “Ali” são as ruínas de um antigo anfiteatro romano, perdido no tempo, quase atemporal.

 A menina tem um dom extraordinário. Ela sabe ouvir. Ouve como ninguém. Ouve qualquer coisa. Ouve tudo aquilo que querem lhe contar. Quando faz isso, seus interlocutores se deleitam. Se estão tristes, a dor passa. Se estão aflitos, sentem alívio. Se simplesmente querem contar uma história, sabem que ela está sendo apreciada. Tudo parece perfeito, idílico. Todos os dias naquele anfiteatro com aquela menina que ouve. Ouve o vento, ouve o farfalhar do mato que envolve as ruínas, ouve os zumbidos dos insetos e o canto dos pássaros. Até que os homens de cinza chegam. Os homens que roubam o tempo. Os homens que forçam os outros homens a poupar tempo, apenas para ludibria-los. Os homens que acabam com o prazer de ouvir e de ser ouvido. Os homens que fumam as horas, enroladas em seus imensos charutos.

 O livro é Manu, a Menina que Sabia Ouvir, de Michael Ende (1929-1965). Esse foi o livro da minha infância. Li e reli incontáveis vezes essa história cheia de simbolismos. Manu foi minha grande companheira quando, aos dez anos de idade fui morar nos Estados Unidos com a minha família. Eu não falava inglês. Portanto, ouvia Manu.

 Degustar um livro, o provilégio de se debruçar sobre a história saboreando cada palavra, eis o verdadeiro prazer. O prazer de não poupar tempo.

*Monica Baumgarten de Bolle, economista, professora da PUC-Rio e amante da literatura desde… bem, desde sempre.

 

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16 de Outubro de 2013

O super poder

Posted in Ler faz crescer às 20:13 por sidneif

Por MARIANA CALTABIANO*

“Hércules e Hidra” (c. 1475), obra do pintor renascentista Antonio del Pollaiolo (c. 1431-1498).

O meu grande momento como leitora foi sem dúvida a primeira vez que consegui ler um livro inteiro sozinha. Era um livro de capa dura de Joãozinho e Maria¹. Tinha uma espécie de holografia na capa e os personagens eram bonecos de pano fotografados.

Aprender a ler é como receber uma espécie de super poder, capaz de te transportar para outros mundos. Para mim os livros são fontes inesgotáveis de prazer e aprendizado.

O cheiro de um livro novo é tão gostoso quanto o cheiro da casa de doces de Joãozinho e Maria.

*Mariana Caltabiano, escritora, diretora e roteirista da área infantil. É criadora do filme (posteriormente série) “As Aventuras de Gui & Estopa” (2008) e da produção 3D “Brasil Animado” (2011).
 
 
¹Joãozinho e Maria, conto de fadas de tradição oral resgatado pelos irmãos Grimm – Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859).

10 de Outubro de 2013

Sinal verde 10/10/2013

Posted in Sinal Verde às 18:49 por sidneif

Malala Yousafzai

A adolescente Malala Yousafzai, autora do blog “Diário de uma Estudante Paquistanesa”, é incansável defensora do direito das mulheres muçulmanas à educação. Tamanha “ousadia” da jovem paquistanesa a tornou inimiga do islã e, por consequência, vítima  de um ataque violento do talibã (movimento fundamentalista islâmico presente no Afeganistão e Paquistão). Malala, entretanto,  sobreviveu ao ato criminoso e não esmoreceu e continua estoicamente  a lutar pela educação.

A torpe cultura de opressão às mulheres ainda viceja no mundo e é alimentada por grande parte das religiões e  sua visão machista, na qual a subserviência feminina ao homem é exaltada.  Malala não o aceita.  A paquistanesa de 16 anos abraça a causa da educação e liberta mais um pouco as mulheres.

sinal vermelho 10/10/2013

Posted in Sinal Vermelho às 18:45 por sidneif

Autorização prévia para publicação de  biografias

Biografias ajudam a contar a história de uma país, de um tempo.  Cerceá-las é lesar a nossa própria história. Quem assome à cena pública e impacta à sociedade não pode ter a sua vida esquecida ou limitada a uma visão hagiológica. Qualquer injustiça feita ao biografado deve ser contestado nos tribunais.

Sim, a justiça brasileira é lenta, nada inspiradora  e termina por aumentar a aflição de quem se sente injustiçado. Mas apoiar a proibição de biografias não autorizadas é típico de ditadura, de quem apenas aceita uma única forma de pensar. Em vez de barrar livros,  é melhor reivindicar uma justiça que funcione direito – iniciativa típica de quem defende a liberdade de expressão.

8 de Outubro de 2013

As mil e uma noites com Sherazade ou dona Capitu

Posted in Ler faz crescer às 16:15 por sidneif

Por MARCELO DONATTI*

"Susana Acusada de Adultério" (1695-1696), de  Antoine Coypel (1661-1722).

“Susana Acusada de Adultério” (1695-1696), de Antoine Coypel (1661-1722).

Ainda menino, cursando a sexta série do que hoje chamam de fundamental II, tive toda a minha atenção de aluno amarrada a uma professora de português. E não falo aqui de um amor platônico entre aluno e sua mestra, o que nada tem de incomum. Falo de um encontro muitíssimo mais raro e profundo. Falo do encontro de um meninote inseguro com uma garota que, mesmo antes de nascer, carregava no olhar uns olhos de ressaca. E isso nem fui eu quem descobriu, mas Machado de Assis.

Bem, como eu dizia, logo no primeiro dia da “minha” sexta série, uma mulher entrou na nossa classe – uma das várias salas de aula de uma escola pública brasileira da década de setenta. Aparentando 50 anos, aquela quase índia com um longíssimo rabo de cavalo grisalho, trazia no rosto, ou melhor, nas maçãs do rosto, todo o excesso de uma maquiagem carregada e malfeita. Os olhos (mistério que ainda hoje mexe com a minha imaginação) nós, os alunos, nunca vimos, pois a professora, por todo o ano daquela sexta série, jamais tirou os enormes óculos escuros que sepultavam, como uma máscara mortuária, boa parte da sua face. Nariz e lábios grossos, essa figura estranha, logo na primeira semana de aula, enfeitiçou-me para sempre. E a bruxaria começou assim:

De costas para a classe, registrando na lousa uma série de conteúdos gramaticais, a professora, “distraidamente”, interrompeu a nossa cópia. Com movimentos largos, pediu licença ao grupo para falar sobre uma leitura que estava fazendo. Segundo ela, um certo livro não saía de sua cabeça. E mesmo ali, diante de uns meninos e de umas meninas que obedientemente copiavam e copiavam o saber para dentro dos seus cadernos, as personagens, Bentinho e Capitolina¹, não paravam de conversar com ela. Pois um rapazinho inseguro, sempre à sombra de sua mãe, apaixonou-se por uma menina que levava nos olhos um mar sem fim e em constante ressaca.

Após esse breve “desabafo”, a professora calou o andamento da história. Sem um mísero detalhe a mais a respeito da trama apresentada, a mestra seguiu com o preenchimento da lousa. E assim a cena se repetiu, dia após dia. Feito um conta-gotas encarnado, aquela mulher – na verdade, o meu primeiro encontro com Sherazade² – deixava escapar um pingo ou dois da história que aos poucos se desenrolava (ou enrolava sem parar).

A situação toda despertou em mim uma aflição de proporções tão asfixiantes que eu não tive outra saída: “Professora, como eu faço pra conseguir esse livro?” E ela, quase monstruosa: “Pra sua idade? O livro que estou lendo não serve pra você!” Humilde, humilhado: “É que eu queria muito ler esse livro! Sei lá, acho que estou gostando da história.” Ela: “Ah, não sei não. Acho que não é pra você.” Eu, súplice: “Por favor, como é que eu faço?” A minha Sherazade: “Bom, se é assim… Vamos ver se a escola dá um jeito.”³

Em suma, só tive o livro nas mãos quase um mês depois da minha “ousadia”. Quando eu quase desistia, num fim de manhã, Sherazade entrou na classe com um pacote, um embrulho feito com papel rústico cor-de-rosa, preso por um barbante ordinário. Ela: “Menino, parece que o seu livro chegou.”

Já com o pacote nas mãos, não tive coragem suficiente para abri-lo. Com Capitu em meus braços, eu me vi personagem de um conto de Clarice Lispector. “… e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. […] Saí andando bem devagar. […] Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. […] Aquela coisa clandestina… era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim.”

Terminada a sexta série, nunca mais vi ou ouvi falar da Dona Leny (o nome fictício usado pela minha Sherazade), que saiu da escola onde eu estudava.

Hoje, trinta anos depois, continuo sem entender por que Sherazade me escolheu para sultão. Entendo menos ainda por que um garoto, na sexta série, cismou com um livro que não era capaz de entender. Como se vê, o entendimento das coisas não é o meu forte. Entretanto, do fundo da minha alma desde há muito seduzida em uma escola pública brasileira, peço a Deus que a amada Dona Leny tenha direito a toda maquiagem que houver no paraíso. E que as suas histórias durem, pelo menos, mil e uma eternidades, exatamente da forma como ela fez acontecer em mim.

*Marcelo Donatti, escritor, autor do livro de poemas “Boatos do Corpo” (editora patuá). O depoimento acima, que faz parte do citado livro de Donatti,  foi sugerido pelo próprio autor à seção Ler faz crescer.

¹Bentinho e Capitolina (Capitu), personagens centrais de “Dom Casmurro”, livro clássico de Machado de Assis (1839-1908).
²Sherazade, personagem-narradora de “Mil e Uma Noites”, clássica obra de contos da literatura árabe.
³Trechos do conto “Felicidade Clandestina”, presente no livro homônimo de Clarice Lispector (1920-1977).

4 de Outubro de 2013

Mais gestão em saúde

Posted in Brasil às 19:41 por sidneif

brasilsaúde

A celeuma em torno da contratação de médicos estrangeiros só evidencia a tacanha gestão brasileira da saúde pública.

O grande problema da saúde, como é peculiar em todo mau serviço público brasileiro, é a falta de verdadeira gestão – que compreende o diagnóstico do problema, participação de especialistas da área, estudo de casos bem sucedidos, conjunto de medidas para corrigir as distorções e fiscalização contínua e implacável de todo o processo.

Mas a gênese política brasileira aponta para soluções paliativas, concebidas sem exigir muito do poder público e na medida para cabalar votos.

Uma política séria de saúde compreende prevenção, atenção às peculiares necessidades de cada região, capacitação dos profissionais (os cursos de medicinas são notórios pela quantidade e cada vez menos pela excelência), implantação de infraestrutura adequada ao exercício da medicina.

O programa Mais Médico é um bom exemplo da opção do poder público por ações isoladas e efêmeras.

A idéia do governo de trazer médicos de outros países (em especial de Cuba) já existia bem antes dos protestos que sacudiram o país no último mês de junho. Após a efeméride, junto com a promessa de mais investimentos em infraestrutura, virou programa de governo para acudir a saúde e satisfazer a opinião pública.

Haja vista a urgente necessidade de tais profissionais nas regiões carentes do Brasil, recrutar médicos estrangeiros – devidamente qualificados e, no caso dos cubanos, para o bem deles, sem a patrulha do castrismo – funcionaria como uma medida emergencial, à proporção que  ações  de médio e longo prazo,  destinadas a reerguer  a capacidade do país de cuidar da saúde de sua gente, fossem executadas.

O governo, contudo, reduziu o seu programa de saúde à importação de médicos e  à velha retórica de mais investimentos, sem garantir quando, onde ou de que forma serão aplicados. Nosso histórico de políticas mal sucedidas aponta para verbas públicas se perdendo no emaranhado burocrático ou engolidas pela voraz serpente da corrupção.

Bem longe das espúrias atitudes de hostilizar e boicotar os médicos do exterior, cabe-nos reivindicar e fiscalizar uma ampla e séria política de saúde pública. Médico algum sozinho desfaz o caos da saúde no Brasil, o  elixir de vontade e pressão da sociedade pode curá-lo.

3 de Outubro de 2013

A pessoa que lê enquanto escova os dentes

Posted in Ler faz crescer às 18:37 por sidneif

Por FERNANDA DE ALMEIDA CARNEIRO*

"A Calúnia de Apeles" (ca. 1495), obra de Sandro Botticelli (1444-1510).

“A Calúnia de Apeles” (c. 1495), obra de Sandro Botticelli (1444-1510).

Desde pequena gosto de ler. Leio qualquer coisa sobre qualquer assunto. Livros, revistas, jornais, textos da internet. Matérias sobre biologia, política, física, medicina, economia, fofocas de celebridades, tudo me interessa. Meu marido brinca que sou a única pessoa que ele conhece que lê até enquanto escova os dentes.

Acho maravilhoso o conhecimento que a leitura proporciona. Você se transporta para outros mundos, outras vidas, outras profissões. Aliás, o gosto pela leitura foi determinante na escolha da minha profissão. Prestes a concluir o ensino médio e sem ter ideia do que faria dali para frente, optei por um curso do qual a leitura seria parte fundamental. Cinco anos depois me formava em direito.

Quando escolhi em que área me especializaria, novamente fui influenciada pela leitura. Apesar de não ter sido o primeiro livro que li, o primeiro que realmente me marcou, ainda criança, foi O caso dos dez negrinhos, de Agatha Christie (1890-1976). Fiquei absolutamente fascinada pela história e credito a esse livro a opção pela área penal.

*Fernanda de Almeida Carneiro, advogada.

1 de Outubro de 2013

Sinal verde 01/10/2013

Posted in Sinal Verde às 18:02 por sidneif

Estado laico

Estado não tem religião. Estado existe para organizar a sociedade, assegurar saúde, educação e tudo mais que garanta ao seu cidadão – qualquer cidadão, independente de suas crenças – qualidade de vida. Religião quando se imiscui no Estado objetiva manipular a sociedade e  consolidar o poder autoritário.

Sinal vermelho 01/10/2013

Posted in Sinal Vermelho às 18:01 por sidneif

Radicalismo religioso

Em diversas crenças religiosas,  constata-se o abjeto radicalismo religioso a violentar direitos humanos em nome da fé. É compreensível o papel de conforto e esperança que as religiões exercem na vida das pessoas.  E devem se restringir a isso, sem lavagem cerebral nem exploração da fé. Religião não tem direito de discriminar mulheres, homossexuais, outras etnias e ideias fora do círculo religioso.