25 de Fevereiro de 2014

O rio da minha cidade

Posted in Ler faz crescer às 14:16 por sidneif

Por CHRISTINA DIAS*

The Scarlet Sunset circa 1830-40 by Joseph Mallord William Turner 1775-1851

“The Scarlet Sunset” (c. 1830-1840), obra de William Turner (1775-1851).

Moro numa cidade que tem um rio. Desde a minha infância a presença do rio toma conta do meu imaginário. Cresci assim. Duas coisas tenho a agradecer: viver perto da água e ter o horizonte para espichar o olho. Cresci e me tornei escritora tendo esse rio como cenário e inspiração.

Da janela do meu escritório, consigo ver o pôr-do-sol que a cada dia tem um jeito nesse rio. Já imaginei de tudo. Quantas histórias surgiram desse olhar sobre o entardecer? Gosto do final da tarde. É o momento em que temos certeza que a terra não está parada e nós temos a obrigação de seguir esse ritmo.

E foi num dia desses que, de tanto contemplar o sol sendo engolido pelo rio, uma história surgiu. A minha cidade, além do rio, tem algumas ilhas. Quando me dei conta que morava num arquipélago ( e o rio me ajudou a entender isso) foi uma libertação e um convite. Passei a me interessar imensamente por essa gente que vive nas ilhas. Saí para recolher histórias e conhecer realidades. Tinha muita tristeza (assim como eu, os governantes também não enxergam as ilhas, sorte que eu passei a vê-las), mas muita história linda também e, entre elas, a lenda da cobra que vive no rio. Quanto pescador criativo eu pude conhecer. Com quanta criança curiosa eu pude conversar. A lenda, embalada pelo movimento do rio, ganhou vida e eu não pude evitar escrever uma história que tem me dado muita alegria: O Monstro do Guaíba¹.

Esse livro é muito importante para mim, pois aproxima a minha infância da minha vida madura, me posiciona e me ajuda a redescobrir o lugar onde moro desde que nasci e que me inspira na profissão a qual  escolhi.

E cada vez que encontro uma criança leitora, percebo que o livro ajuda a acordar monstros nos outros também. E não existe nada melhor do que conhecer e dominar nossos monstros, não é mesmo?

Christina Dias, escritora gaúcha (Porto Alegre) de literatura infanto-juvenil.
www.christinadias.com.br
www.christinadias.blogspot.com
 
  1. O Monstro do Guaíba (editora Noz) é de autoria de Christina Dias e Ana Carolina Pinheiro.
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13 de Fevereiro de 2014

A essência de Mary Prieto

Posted in Brasil às 16:17 por sidneif

Essencia3_5546Essência (editora Giostri), primeiro livro da paulista Mary Prieto (cujo depoimento à seção Ler faz crescer está no post abaixo), deixa transparecer uma senhora certeza – a autora tem um caso sério com a vida.

Um caso que sobrevive a qualquer efeméride, impõe-se a qualquer revés. Não, Prieto não possui manual prático para encarar as tempestades humanas. Também não deixa de questionar a vida, o que a vida é.

Mas a autora não larga da vida. O motor dessa relação é o reconhecimento da essência humana entrelaçada com a busca incessante para entender e contemplar o que é ser feliz, associada com a urgência de liberdade. (Ou ser feliz e liberdade sejam a própria essência.)

Por ser livre, a terna poesia de Essência inquieta o leitor , Prieto  é inquieta  porque deseja ser  livre, mexer-se  é o compromisso da autora com a vida . “Liberdade é movimento”, como se pode ver no poema “Significado”.

Tudo muda quando nos mexemos.

6 de Fevereiro de 2014

A bailarina que virou borboleta

Posted in Ler faz crescer às 13:53 por sidneif

Por MARY PRIETO*

"A Primeira Bailarina" (1876), de Edgar Degas (1834-1917).

“A Primeira Bailarina” (1876), de Edgar Degas (1834-1917).

Assim que recebi o convite para contar a minha experiência na qualidade de leitora e soube do nome do projeto, fiquei pensando o quanto a frase é verdadeira. Ler faz crescer. Sem hipérboles, conotações, floreios ou letras miúdas. É concreto e literal.

A maneira com que enxergamos as coisas, por exemplo, já é um processo individual de leitura. À medida que crescemos, relacionamos fatores, e a “leitura do mundo” se torna mais expansiva e crítica, proporcionando ao sujeito cada vez mais conhecimento e atenção aos detalhes.

E digo isso não só porque tive muito bons professores: mais importante do que saber a teoria – ou nesse caso quase uma recomendação – é experimentar seus efeitos. Eu os experimento até hoje e tenho de confessar: a paixão pelas palavras (contraditória e intensa como todas) é um vício que gera virtude.

Explico melhor: acreditem ou não, a leitura pra mim se iniciou como piada. Literalmente. Um livrinho de piadas desses que se vendiam em banca de jornal. Depois, virou desafio: queria piadas novas para contar na escola e não sabia ler. Aí minha mãe ajudou nisso ao desafiar-me a aprender a ler sozinha. Fui conseguindo, aos poucos. E minha curiosidade de criança deslumbrada, então, queria ler tudo que fosse possível, e se conseguisse, de uma vez.

Nessa fase mesmo, tão pequena, já tive um marco de vitória. O conseguir ler não foi só uma prova de que eu era capaz de juntar sílabas, mas prova de que eu era capaz de me superar intelectualmente. Nasci de parto prematuro com falta de oxigenação no cérebro, ficando tetraplégica no nascimento. E muitos médicos achavam (durante muito tempo, aliás) que o diagnóstico de Paralisia Cerebral estava errado, justamente porque eu sabia ler.

A leitura me desenvolveu a tal ponto que, por volta dos 7 anos, eu já lia clássicos com voracidade. O primeiro que marcou minha vida foi uma versão infantil de A Odisseia¹, repleta de ilustrações que brilhavam naquele papel revista. Lembro que uma vez tive a sorte de levar o livro pra casa num final de semana, por meio de um sorteio que acontecia na aula. Quase acabei de ler o livro e, sinceramente, acho que nunca fiquei tanto tempo assim compenetrada e em silêncio, como naqueles dias de infância.

Também voei muito com Richard Bach e sua gaivota – e seus paraísos pessoais. Ler também é questão de liberdade. Tanto isso é verdade que, pouco tempo depois, por volta dos 8 anos, tive um “padrinho de literatura”. O querido Valdir Cimino², seu coração enorme e seu trabalho maravilhoso chegaram até mim em forma de borboleta. Uma vez, quando precisei passar por uma das tantas cirurgias que já fiz, ele leu para mim a história de uma menina cega que sonhava em ser bailarina e, no final, virava borboleta. Eu me senti mais leve também, pegando carona na pele da menina-bailarina.

Não tardou muito, ganhei um presente que definiria um norte para o resto da minha vida. Não é surpresa dizer que havia sido um livro, e um livro que juntamente com A Odisseia, determina outra das minhas maiores paixões: a filosofia. Esse livro era O Mundo de Sofia (Jostein Gaarder). Ainda lembro-me do conselho do próprio Valdir: “vá com calma, não precisa ler agora. Esse é um clássico que você vai ter pra vida inteira”. Também não é novidade que eu não segui o conselho. Li o livro aos 8 anos, depois aos 12, e novamente aos 16. E, quanto mais conheço do mundo, mais essa leitura me parece fascinante.

Alguns anos depois, quando tive a primeira aula de filosofia no ensino médio, deparei com trechos de um artigo da Marilena Chauí. A clareza, o vocabulário esplêndido e a capacidade de tratar um assunto complexo como se fosse simples me encantam até hoje e me “fazem”, por assim dizer. Hoje, grande parte de mim é filosofia, com trechos de poesia.

Com essa paixão que me alimenta, movimenta e, por que não dizer, fermenta, conheci grandes mestres. Cresci conhecendo suas palavras – e sua sabedoria. E me engrandeci conhecendo as pessoas. A própria Chauí, Marcia Tiburi, Mario Sergio Cortella, Paulo Arantes…e conforme a gente cresce, crescem também as reponsabilidades. Nesse ponto da vida eu já não conseguia mais absorver, somente. Tinha que por para fora. Comecei a escrever. Artigos, poesia e algumas poucas resenhas. Eu que já sabia do poder das palavras por experiência própria, passei a tomar ainda mais cuidado e ter mais atenção.

Desse esmero frequente, a poesia foi brotando e, crescente, se ocupou dos meus espaços, e silêncios. Finalmente, quando tudo em mim era palavra, publiquei meu primeiro livro, Essência. Hoje, faço jornalismo, e sou feliz em cada palavra que escrevo, e cada livro que leio. A palavra que tanta gente plantou em mim, criou raízes de pensamento, flores de poesia, frutos de escrita, e folhas de papel. E o meu crescimento também foi sempre para o alto, em busca da luz. Luz do conhecimento.

 * Mary Prieto, escritora, designer e responsável pelo sítio Considerando Inquietudes.
 
 
  1. A Odisséia, clássico poema épico da grécia antiga  atribuído ao poeta Homero.
  2. Valdir Cimino preside a Associação Viva e Deixe Viver, cuja maior atividade é capacitar voluntários para serem contadores de histórias para crianças e adolescentes internados em hospitais.