30 de Março de 2020

Voracidade, fuga & outras cositas más

Posted in Ler faz crescer às 17:14 por sidneif

Por LAURA NAVARRO*

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“Woman reading in the Forest” (1875), de Gyula Benczúr (1844-1920)

Quando Sidnei me fez o convite para falar da minha experiência como leitora, eu  me lembrei da Laura de dez anos. Uma criança agitada, faladora e imaginativa, que só conseguiu ficar mais de dez minutos sentada quando leu O gênio do crime, de João Carlos Marinho. Comecei a devorar os livros infantis de casa e da livraria Nobel que tinha no bairro, e ganhei o título de leitora voraz pelo livreiro. Um pouco como aquele movimento traçado por Norval Baitello quando ele diz que devoramos as imagens e somos devorados por elas. No caso, eu devoro a forma como um autor X ou Y escreve, que me cativa ou não. Sou sinestésica, creio que existem livros para serem lidos em certas condições climáticas (ex: dia nublado, dia ensolarado, noite na praia, etc) e com certas cores à disposição.

Parafraseando um pouco Giuseppina Burigo, que escreveu aqui há pouco, eu assumo essa dificuldade de falar sobre algo que há tanto tempo faz parte de minha vida. Então eu prefiro tecer essas imagens, as imagens da voracidade. Eu era uma criança magra, mas tinha fome do mundo. Fome das ilustrações, dos personagens que faziam coisas inimagináveis. Tipo aquele livro da vaca voadora, ou, mais para frente, das três mulheres que não se desvencilham do terror soviético d’As vacas de Stálin (Sofi Oksanen). Eu preciso devorar, preciso conhecer, preciso empatizar com o mundo que há fora de mim. O que é o mundo? eu gritava para mim mesma. E, em algumas páginas, eu tinha a resposta. Estava satisfeita. Eu não precisaria ir à Ditaduras Africanas para conhecê-las em suas minúcias. Um prazer furtivo, como o de conhecer novas palavras do nada. Um prazer que me deixava de encontro com o crescimento intelectual e até mesmo emocional. Eu virei adulta por meio dos livros.
Só que, conforme fui crescendo, e passei a escrever poesia, descobri uma nova função secreta escondida dentro da literatura: a de fugir junto com os personagens. Com as descrições. Com as páginas. Até o cheiro dos livros era uma viagem à la Aldous Huxley. Lembro de contar nas rodas escolares sobre férias a respeito das minhas viagens com livros — muitas vezes feitas juntas a viagens demoradas de carro. Ver a paisagem cansa. A palavra, não. Eu fugia um pouco das monotonias e das pequenas violências encarceradas em nosso dia a dia. Fui fazer jornalismo para escrever sobre os livros; para fugir e para devorar. Observação: ao longo da minha vida, vários blogs com resenhas de todos os tipos foram criados por mim. E eu mantenho esse movimento, de extravasar o que eu acabei de devorar. Um pouco antropófaga, diria.
Aos vinte anos, decidi, em uma aula de Design de minha faculdade, que queria trabalhar com livros. E então aconteceu uma outra reviravolta em minha vida. Eu passei a ser uma obsessiva com capas, diagramações, etc. Presto atenção às fontes. Devoro essas informações que antes não percebia. A imagem de uma boa literatura tem a ver com a imagem de algo que dá vontade de fugir junto, isto é, uma boa edição. Então os livros passaram a ser um pouco pequenos xodós cotidianos – sua identidade toda me é analisada. E, com isso, conheço um pouco mais da Laura leitora que começou com dez anos, eu vejo as dificuldades da Laura, os sonhos da Laura. Eu os alimento. E cresço. Por isso me é tão caro o nome da seção do blog: Ler Faz Crescer.

*Laura Navarro é escritora e estudante de jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero.

6 de Março de 2020

Ler: um mundo de possibilidades e encontros! 

Posted in Ler faz crescer às 16:12 por sidneif

Por GIUSEPPINA BURIGO*

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“The Young Eastern Woman” (1838), de Friedrich Amerling (1803-1887)

Que missão me foi dada quando Sidnei convidou-me a escrever um relato para esta seção. Uma missão difícil porque o livro e a leitura são presentes na minha vida há muitos anos e em situações diversas — leio para desestressar, para passar o tempo e nos momentos mais difíceis, nos mais felizes, nos mais tristes, nos mais solitários encontrei-me sempre nos livros, uma janela que abria-me caminhos para mundos diversos e, dentre tantas possibilidades, o principal mundo: meu mundo interno.

 Ao ler um conto, um romance, uma história, encontro, nas personagens, nas situações vividas pelas personagens, alegorias de mim mesma e de situações que vivencio e, por isso, um mesmo livro sempre tem algo a acrescentar: seu texto é fixo, gravado pelas letras no papel; mas a experiência do ler sempre é modificada, pois, eu, leitora, estou sempre transitando, sempre modificando e, assim, sempre acabo por notar novas nuances numa mesma fonte. 

Lembro-me de diversas experiências com a leitura, essa pratica tão intima que faço por prazer, por trabalho — e que sorte a minha trabalhar com algo que me permita estar sempre em construção e poder sempre dizer: “estou lendo esse conto incrível por conta do meu trabalho!” —, por vontade e por encontro.

 Quero frisar, então, a pratica da leitura que me leva ao encontro (já que ela acontece toda vez que leio algo): encontro-me com a capa, com o título, com o release, com a maneira de escrever do autor; o material físico produzido por tantas mãos e olhares encontram meu olhar e reverberam em meu ser de alguma maneira que me faça retirar o livro da estante (eu ainda sou dessas pessoas que preferem ler o livro físico), o artigo do repositório ou da revista, etc…

E no encontro é que a gente cresce! E como cresce!!! No encontro com outras pessoas em nosso cotidiano, no encontro com as culturas diferentes da nossa, no encontro com outras criações… no encontro com cada texto literário, eu encontro a rica possibilidade de tocar o imaginário de outra pessoa, de tocar a cultura, os aspectos culturais e sociais desta outra pessoa que generosamente colocou um pouco de si no mundo. No encontro com cada um destes mundos posso encontrar-me a mim mesma novamente, redescobrir e recriar-me, crescendo em conhecimento, em experiências (quem nunca chorou, sorriu, torceu e praticamente viveu junto com um personagem?) e, assim, cresço um pouquinho mais a cada encontro! 

 

*Giuseppina Burigo, narradora de histórias, atriz, cantora e educadora.

Porto de abrigo, porta para outras realidades

Posted in Ler faz crescer às 15:59 por sidneif

Por MARCELO VIANA*

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“Job Lot Cheap” (1878), de William Harnett (1848 – 1892)

O primeiro Livro

Comecei a ler muito cedo. A minha mãe era professor do ensino primário e, por falta de alternativa, levava os filhos para a escola. Então fui educado, sobretudo em leitura e matemática, por “osmose” na sala de aula.
Com quatro anos, li o meu primeiro livro “de verdade” (muito texto, poucas figuras).
Ainda lembro do enredo e do título: Bambi e o Vagão cor-de-rosa (trata-se de um menino, não do personagem da Disney)

A biblioteca

Quando eu tinha 8 anos, a minha mãe me inscreveu numa biblioteca local, onde eu podia retirar livros gratuitamente e levar para casa. Eu devorava livros, devolvia, pegava mais. Acho que nesse período lia uns três livros por dia…

Leituras que marcam

Foram muitas. Ainda na infância, li O Hobbit, de J. R. R. Tolkien. Foi um imenso mundo de imaginação que se abriu de repente. Mais tarde, no ensino médio, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, ajudaram muito a moldar meu modo de ver o mundo.
Não ficção também: História da filosofia ocidental e Por que não sou cristão, ambos de Bertrand Russel.
Mais recentemente, Sapiens: uma breve história da humanidade e Homo Deus: uma breve história do amanhã,  de Yuval Harari, e Subliminar: Como o inconsciente influencia nossas vidas, de Leonard Mlodinow: olhares extremamente perturbadores sobre o que somos, e no que estamos nos tornando.

A mesinha de cabeceira

Não posso conceber a vida sem leitura. Tenho um monte de livros na minha mesinha de cabeceira, que vou lendo na medida da disponibilidade de tempo. A pilha só cresce, porque continuo comprando.
Também me tornei usuário de e-books, pela praticidade e disponibilidade. A leitura é fonte de prazer e informação, porto de abrigo, porta para outras realidades, no tempo e no espaço.

*Marcelo Viana, matemático, diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e colunista da Folha de São Paulo. Primeiro brasileiro e primeiro matemático do mundo  a receber o Grande Prêmio Científico Louis D., principal premiação científica da França, oferecido pelo Institut de France.