14 de Novembro de 2018

Minhas leituras

Posted in Ler faz crescer às 15:25 por sidneif

Por VERA IONE MOLINA*

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“O Pobre Poeta” (1839), de Carl Spitzweg (1808-1885)

Comecei a pegar livros por minha conta e risco aos 12 anos, de forma totalmente anárquica. Lembro da casa antiga onde morava e do barulho que meus pés faziam nas tábuas do chão, enquanto me deslocava até as estantes. Minhas avós e minha mãe liam muito e eu ia pegando os livros que elas soltavam. Minha avó materna e minha mãe liam romances e minha avó ia ao cinema todas as noites, não havia televisão na minha infância. Havia quatro cinemas na minha terra, mas dois deles eram os mais frequentados, próximos à praça central, frequentei matinés e, mais tarde, as sessões noturnas.

Na minha cabeça havia muita mistura de cinema com literatura. Primeiro minha avó contava os filmes nas tardes em que passávamos reunidas num círculo formado por ela própria, uma irmã dela (minha tia-avó), minha mãe, eu e minhas primas mais velhas. Guardo cenas inesquecíveis que disputaram espaço com os livros na minha formação.

Nasci em 1953, em Uruguaiana, fronteira com Argentina e Uruguai, zona de Segurança Nacional. Além de não ter televisão, não tinha nem eleições para prefeito depois de 1964. Mas eu não me interessava por política e não sentia falta, embora a casa de meus avós fosse muito frequentada por políticos, conhecidos até nacionalmente. Meu avô participara de revoluções e tinha página dele no livro com capa de couro dos membros do Partido Republicano Castilhista (de Julio de Castilhos).

Para terem uma ideia, fora o Erico Verissimo, que na minha casa era discutido como se convivesse e discutisse seus personagens conosco, fui conhecer literatura sul-rio-grandense nos anos 1980. Vou citar alguns autores bem misturados.

  1. Erico Verissimo;
  2. Honoré de Balzack;
  3. Pearl Buck (lia-se muito essa autora nos anos 50-60);
  4. Jorge Luis Borges. (e outros argentinos como Mujica Lainez, Julio Cortázar…);
  5. Scott Fitzgerald;
  6. Manuel Puig (paixão);
  7. João Cabral de Mello Neto;
  8. Machado de Assis;
  9. Gabriel Garcia Márquez;
  10. Aldyr Schlee;
  11. Adélia Prado;
  12. Mario Benedetti (e outros uruguaios, como Mario Arregui).

Tudo misturado, alguns dos meus escolhidos têm muito valor para mim, talvez não constem em listas de intelectuais e estudiosos de literatura. Leio por fruição e profissão, depois de aposentada do magistério público. No final dos anos 1980, ministrava aula de inglês na escola pública e simultaneamente ministrava oficinas de criação literária em prosa de ficção. Embora leia e escute poesia desde sempre, nunca publiquei um livro de poemas, não me considero uma grande poeta, mas às vezes acerto. Os poemas estão guardados.
Gosto muito de poesia norte-americana, principalmente aqueles textos narrativos do tempo dos beats, black mountains, e gosto também de poemas mais imagéticos. É muito difícil discutir e produzir poesia.

Heminghway, Edgar Allan Poe, Scott Fitzgerald eu viria a conhecer no curso de Letras – Português, Inglês e suas respectivas literaturas. Balzak foi culpa da minha mãe. Por isso gosto de narrativas longas, contões e novelas. Os livrões traziam várias histórias que Paulo Rónai chamava de contos. Mas tinha também romances com vários núcleos de personagens que se cruzavam.

Tenho uma relação mágica com a literatura infantil e infantojuvenil. Só conhecia os clássicos, escutava em discos. Então minha mãe começou a ler para minhas irmãs menores O Sítio do Picapau Amarelo, e eu escutava do meu quarto. Quando comecei a escrever, achei que ia me dedicar somente a esse tipo de literatura, então comecei a ler todos os bons autores da época. Ruth Rocha, Ana Maria Machado, depois Sergio Capparelli, Ligia Bojunga.

Não havia a cultura da literatura do meu estado, Rio Grande do Sul, até eu começar a assistir palestras e entrevistas com escritores e professores sobre os gaúchos. Gosto muito de aprender através do sentido da audição. Então comecei a conhecer Aldyr Schlee, Lya Luft, Sergio Faraco, José Eduardo Degrazia por meio de de palestras e painéis sobre suas obras. Nos anos 1980 havia uma promoção de atividades culturais muito rica em Porto Alegre.

Em 1990 fui fazer mestrado. Fiz todos os créditos e não escrevi a dissertação, assim fiquei com o título de especialista. Cansei daquele mundo acadêmico e fui me dedicar mais à escrita, com prejuízo financeiro, mas com uma escolha da qual nunca me arrependi.

 

*Vera Ione Molina, escritora e crítica literária. Graduada em Letras (Português, Inglês e respectivas literaturas) e pós-graduada em Teoria da Literatura. Publicou livros ( omais recente:  “Catarina Abre um Caminho de Magia”, editora Bestiário, Porto Alegre, 2018), ensaios e artigos em  diversos jornais e revistas e integrou várias antologias de poesia e contos. Finalista em diversos concursos literários ,  venceu o Concurso Estadual de Literatura Infantil Escreve, Professor! CPERS, 1989, RS.

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