27 de Agosto de 2009

Relações públicas

Posted in Brasil às 09:38 por sidneif

O médico Roger Abdelmassih, proprietário de famosa clínica de fertilidade, está preso sob acusação de abusos sexuais contra pacientes. Cerca de sessenta mulheres afirmam terem sidos vítimas dele. O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) abril 51 processos éticos contra Abdelmassih.

Seu advogado entra em cena. Ao evocar a biografia do médico, fala em inocência. Critica a atitude da Cremesp. Suplica pela liberdade do cliente.

Justiça não combina com açodamento. Condenação antecipada pode tornar-se injustiça, mesmo diante de muitas evidências. Entretanto, a postura do defensor não é recomendada.

A Cremesp fez o que se espera dela, ainda mais com a avalanche de denúncias contra Abdelmassih. E biografia, por mais respeitada e ilustre que seja, não deixa ninguém acima do bem e do mal. Às vezes, seu brilho ofusca o lado podre dos humanos.

Se preferisse advogar, em vez de exercer a função de relações-públicas, o famoso advogado evitaria tais equívocos.

Democracia e direito andam juntos. São dois pilares do ideal de sociedade justa.

E por justo entenda-se que todos são iguais perante a lei. Todos tem direito à defesa, afim de garantir um julgamento justo. Por mais hediondo que seja o ilícito.

Isso, entretanto, não dá prerrogativa a um advogado de querer beatificar seu cliente. Hoje é cada vez mais comum causídicos assumirem o papel de relações-públicas. Não se cansam de dar entrevistas, nas quais exaltam a inocência e as qualidades do cliente. Pouco lhes importa a gravidade e as evidências do delito.

E viram celebridades quando conseguem absolvição de gente fadada aos rigores da lei. Honorários nas alturas. Pouco lhes importa se, no final do processo, alimentam a impunidade ou devolvem escrotos à sociedade.

Advogar não significa inocentar.

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22 de Agosto de 2009

Contar histórias

Posted in Ler faz crescer às 12:12 por sidneif

Por FELÍCIA FLECK*

Vivo de contar histórias – literalmente! – e para tal, passo uma parte significativa de meu tempo buscando o que contar. Embora também conte o que escuto, minha maior fonte, sem dúvida, é o registro escrito. Já que meus ouvintes costumam ser as crianças – de todas as idades, bem entendido – a literatura infantil e infanto-juvenil acabam sendo os alicerces de meu trabalho.

À procura de inspiração, encontro livros. E o livro, na definição da poetisa Maria Dinorah “é aquele brinquedo, por incrível que pareça, que, entre um mistério e um segredo, põe idéias na cabeça”.

Para mim, a alegria de contar é semelhante à alegria de ler. Contar é compartilhar, talvez uma tentativa de intensificar e comunicar uma experiência prazerosa de leitura.

Ler e contar. Contar e ler. Ler para descobrir. Ler para entender. Contar para encontrar. Ler para experimentar. Contar para expressar. Ler e contar para aguçar o olhar. Ler para viver. Ler por prazer. Ler e contar para crescer.

*Felícia Fleck, bibliotecária, mestre em Ciência da Informação, contadora de histórias, ministrante de oficinas de construção de brinquedos de sucatas e contação de história.

Coisas estranhas

Posted in Ler faz crescer às 11:49 por sidneif

Por ANDRÉ ABUJAMRA*

Desde pequeno leio coisas estranhas.

Claro que tudo do Monteiro Lobato, quando criança.

Mas depois, como músico comecei a ler muitas coisas sobre música.

Os livro ques mais li foram o Tratado de Harmonia de Schoenberg e o Tratado de Instrumentação e Orquestração Moderna de Berlioz.

Gosto muito de ler sobre astronomia também.

Apesar de ser um cara intuitivo, leio muito livro técnico de música.

*André Abujamra, ator e músico.

20 de Agosto de 2009

As acepções da privatização

Posted in Brasil às 10:34 por sidneif

Boa parte dos brasileiros tem  ojeriza à privatização. Alguns a consideram uma blasfêmia.

Talvez seja nossa tendência de querer sempre um afago do Estado. Estamos endividados? O erário que nos socorra. Precisamos de emprego? Uma vaguinha no setor público cai bem.

Empresários também são loucos por uma benevolência do governo. Dívidas astronômicas? “Renegociamos” em condições suaves (e promíscuas). Os negócios não vão bem? A viúva que trate de lhes providenciar oxigênio. Gestão séria é coisa de monografia.

Privatização bem sucedida supre as limitações do Estado, oferece as pessoas serviços de qualidade a um preço justo. Isso ocorre porque o setor privado dispôe de capital para inversões, sua gestão passa longe do aparelhamento político ( empregos são para quem tem currículo profissional, não para apadrinhados) e há agências reguladoras, sem vínculo com interesses políticos, que o fiscaliza.

Não é o que acontece com o Brasil. A despeito de alguns bons exemplos, o cenário é de exploração do cidadão e de muitas regalias aos consórcios vitoriosos das privatizações.

Basta ver o descaso das operadoras de telefonia para com os clientes. Será laureado com uma medalha aquele que  souber de um cliente satisfeito com o atendimento dispensado pela operadoras. Pelo jeito a habilidade delas aflora em outro campo, como arrancar das autoridades lei favorável à aquisição de concorrentes.

E as rodovias? Concessionárias primeiro nos cobram pedágios. Estradas decentes ficam para depois. Resumo da ópera: pagamos por um serviço que ainda não existe.

Ademais, as agências reguladoras viraram feudos de partidos políticos. Os interesses dos cidadãos são solenemente ignorados.

Privatização, então descobrimos, tem outra acepção. É o meio fácil de auferir lucro durante longos anos, sem preocupação com qualidade dos serviços oferecidos. Quando não puder sugar mais, no melhor estilo “toma que o filho é teu”, devolve-se o “presente” sucateado ao Estado.

7 de Agosto de 2009

Velhos vícios

Posted in Brasil às 19:24 por sidneif

Haja estômago. O Senado não existe mais, no seu bojo abriu-se uma ferida que não para de jorrar lama, dissimulação.

José Sarney insiste em se manter na presidência da casa, mesmo com tantas denúncias. Em vez de se recolher, dar algum exemplo nessa altura da vida, prefere ceder à vaidade, não aceita que o poder escorregue das suas mãos.

Para defendê-lo, o antes inimigo Lula coloca o PT sob jugo, a tropa de choque liderado por Renan Calheiros entra em campo para destruir qualquer chance do político maranhense ser destituído. Um senador “biônico” já ocupa a presidência do Conselho de Ética. Tudo como manda o figurino da impunidade.

Porém, a tropa de choque quer mais. Resolveu partir para ameaças escancaradas. Quando interpelaram o senador Pedro Simon, defensor insistente do afastamento de Sarney, Collor ( outrora um detrator do veterano político de Maranhão) e Renan (sempre com aquele ar de deboche) abusaram da truculência e da falta de educação. Era intimidação o tempo todo. O senador de Murici, aliás, comporta-se como dono do Senado. Sua discussão com o senador Tasso Jereissati não deixa dúvidas, Renan levou a contenda para abaixo da cintura, expressões chulas pulularam sem o menor constrangimento.

O mais triste é a falta de grandes lideranças nesse país capaz de promover uma nova política brasileira, enterrar os velhos vícios . Lula, que vestia essa esperança, despiu-se rapidamente. A oposição, bem a oposição…

A oposição anda a espernear, mas lhe falta contudência, vontade de querer mudar. Não é atitude de quem quer mudar o jeito de fazer política , o silêncio de seus principais nomes para representá-la na corrida presidencial. Como bem lembrou o jornalista Elio Gaspari sobre José Serra e Aécio neves, “ganha uma passagem de ida e volta a Paris quem souber de uma palavra de qualquer um dos dois condenando a crise do Senado e as malfeitorias praticadas no Congresso.”

Talvez Renan Calheiros volte a ser ministro da Justiça.

Ler é crescer

Posted in Ler faz crescer às 10:49 por sidneif

Por THEREZA CHRISTINA MOTTA*

Que livro marcou a sua vida? Não um, mas quais mostraram o caminho para que seu pensamento trabalhasse nas soluções que buscou para a sua vida? Que coisas foram trazidas, assim, por palavras escritas num romance, num poema, num conto, casualmente expostas como narrativa despretensiosa de um autor não mais pretensioso?

Trafegamos em nossa vida por livros que nunca se fecham, que sempre recordamos, voltando àquela frase, àquele verso, àquela citação que não poderíamos ter esquecido. Esses livros, escritos há milênios, séculos ou décadas, por incansáveis lavradores de palavras, pessoas curvadas sobre o papel, recontando, ao seu modo, como veem a vida, como viveram, ou como viveram seus personagens, reais ou imaginários, mas que, uma vez escritos, tornam-se eternos, retornando toda vez que abrimos as páginas do livro.

Será que Capitu realmente existiu? Ou Bentinho? Qual dos personagens de Machado de Assis não tem traços verdadeiros de algum rosto? O que se soma à vida depois que são criadas as histórias? Tudo é ficção e, ao mesmo tempo, a vivemos como peça em que encenamos as nossas cenas.

Shakespeare cunhou os mais belos sonetos e personagens para os seus dramas e comédias a partir da observação atenta a tudo que o cercava. O autor escreve o que vê e como vê e, desse modo, empresta a nós a sua narrativa sobre fatos tão verdadeiros, que, mesmo que nunca tenham acontecido, aconteceram ali, no livro.

Diante disso, o que para nós é contado como ficção, nos moldou e forjou nosso íntimo, aprendemos imitando os mais sábios, os que vieram antes, mesmo sem tanta inteligência. Às vezes, a pureza de um personagem nos comove. Sua confusão nos ilumina, pois vemos o que ele não vê.

Aprendemos melhor vendo os outros enfrentarem os seus perigos, para que, quando vivermos nossos dramas e conflitos, eles passem como a página de um livro. Ou ainda, na alegria desmedida e inesperada, possamos nos refletir nos amantes que lemos, sôfregos, esperando que eles sobrevivam.

Os contos de fada na Idade Média eram contados para adultos para que aprendessem que, por mais difíceis que fossem as agruras, vividas no imaginário de pessoas tão crentes, em fadas, bruxas e dragões, o herói ou a heroína sempre se salvavam.

Vêm da antiga mitologia grega os embates com seres indescritíveis, animais de sete cabeças, minotauros, gigantes, ciclopes, deuses vingativos e pragas de deusas mal amadas. E os gregos construíram uma civilização a partir deles. Assim como os romanos ergueram seu império com todos os deuses que puderam arrebanhar de todos os povos que conquistaram.

Mesmo que sejam tantas lendas, o ser humano é o mesmo, que descreve, à sua forma, o que vê, sente e pensa. Se, para São João, no Apocalipse, o que ele via eram gafanhotos gigantes, hoje sabemos que poderiam ser helicópteros sobrevoando a ilha de Pátmos, em sua mente. Mas o que fica de tudo que é escrito é a lição de que viver faz parte da missão do homem, não apenas o que ele faz, mas como o faz. E ele só pode aprender como fazê-lo, se o aprender com mais alguém.

O mestre nem sempre é encarnado. Ele pode estar encadernado num livro.

*Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.