27 de Abril de 2018

Livro, a potência das palavras materializada

Posted in Ler faz crescer às 15:33 por sidneif

Por LAÍS BARROS MARTINS*

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“Mulher nua a ler” (1915), de Robert Delaunay (1895-1841)

Eu não cresci rodeada por livros; fui me cercando deles à medida que crescia. Da cabeceira às prateleiras da estante, a presença dos livros transformada em companhia. As sensações de histórias lidas desde cedo me percorrem, cavam e se escondem dentro, acumuladas. Como desconhecesse que são irreversíveis, deixo que se instalem. Além da coleção bonita de sensações que mantenho em mim, os livros lidos vão sendo catalogados também em formato de lista, costume acatado por sugestão de uma professora. Recomendo a experiência: um registro das transformações a que estamos sujeitos a cada leitura.

Laís Barros Martins_Crédito Guilherme Tichauer

 

*Laís Barros Martins,  jornalista e escritora. Jornalista formada pela Unesp e especialista em mídia, informação e cultura pela USP, é colaboradora de publicações diversas da imprensa nacional. Como escritora, teve seus textos publicados em revistas literárias, como a Raimundo e a InComunidade, e lançou seu livro de estreia, “A infância dos dias”, pela editora Laranja Original, em 2017.

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26 de Abril de 2018

Meu rosto na protagonista

Posted in Ler faz crescer às 16:54 por sidneif

Por MÔNI LONGO*

Las Meninas

Sempre gostei de ler. Na adolescência podia ler um livro por semana. As histórias me embalavam e eu podia me perder nelas. Na faculdade me deparei com os livros técnicos e foi aí que percebi que minha paixão é a literatura! Gosto de histórias! Gosto de me imaginar nas situações e lugares descritas! Gosto de ver meu rosto na protagonista do livro! Hoje faço parte de um Clube de Leitura, em Itajaí, onde os próprios integrantes decidem os livros que serão lidos. E o critério para escolha é a curiosidade por autores novos, mas, sobretudo, o prazer de ler.

*Môni Longo, atriz, bonequeira e produtora.

Escrever é consequência

Posted in Ler faz crescer às 15:31 por sidneif

Por PATRICIA TENÓRIO*

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“Mulher escrecendo uma carta” (c.1655), de Gerard ter Borch (1617 – 1681)

Para mim a leitura é o mais importante de tudo. Se tivesse que escolher entre ler e escrever, sinceramente, preferiria ler. Escrever é consequência – consequência necessária, é verdade, mas que vem depois da leitura. E leio desde que me entendo por gente, a princípio best-sellers, tais como Agatha Christie, J. M. Simmel, Sidney Sheldon, até ir aprimorando nos clássicos ficcionais (Hermann Hesse, Thomas Mann, Henry James, Fiódor Dostoiévski, Clarice Lispector, Oscar Wilde, Adolfo Bioy Casares, Walt Whitman, John Keats…), até chegar aos teóricos da literatura e outras artes e áreas de conhecimento (Walter Benjamin, Roland Barthes, Henri Bergson, Sigmund Freud, Jacques Lacan…).

*Patricia Tenório, nascida em Recife, PE (1969), escreve desde 2004 contos, poemas, fábulas e agora acaba de escrever uma novela, publicou onze livros, com prêmios no Brasil e no exterior, mestre em mestrado em Teoria da Literatura na UFPE e doutoranda  em Escrita Criativa na PUCRS., responsável pela página Patricia Tenório. Em 2018, ministra em Recife e Porto Alegre um curso de Escrita Criativa (confira material de divulgação aqui). 

 

 

20 de Abril de 2018

As palavras, esses bichos

Posted in Ler faz crescer às 15:56 por sidneif

Por PALOMA FRANCA AMORIM*

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“O menino e os bichos” (1925), de Vicente do Rego Monteiro (1899-1970)

O primeiro livro da minha vida foi “A Mulher que Matou os Peixes” da Clarice Lispector. Minha mãe era leitora voraz de Clarice, já investiu num fogo-amigo para fazer com que eu me apaixonasse de primeira pela atividade da leitura. Depois veio Lygia Bojunga Nunes, também com suas prosas de bichos e gentes – acabei tomando gosto por ver os bichos como iguais, porque grande parte da literatura infanto-juvenil faz isso, né? Expande o mundo das pessoas, da fauna e da flora em significados de reveladora humanidade. Assim, posso dizer que sempre gostei mais de livros infantis que tratassem da natureza – as princesas e os heróis eu deixava pra depois.

Em “A Mulher que Matou os Peixes” a Clarice começa pedindo mil desculpas porque é ela mesma a assassina, daí começa a contar para nós leitores como se deu o crime. Entre vários contos de animais, chegamos à história da macaquinha Lisette que eu reli há poucos dias como que em busca de um ato para desafogar o interno. É batata. Termino a última frase desse conto com os olhos embotados de lágrimas. Desde criança tenho esse aperto melancólico na alma e os livros sempre me ajudaram a lidar com ele.

Toda vez que a Clarice se dá conta que a doçura da macaquinha Lisette não é um traço de personalidade e sim a expressão de um adoecimento silencioso e fatal, eu também me deparo com a morte. E se releio essa cena duzentas vezes, são duzentas vezes que eu cruelmente permito que Lisette fique doente e sorumbática. Como leitora me tornei mais do que uma testemunha, fiz-me cúmplice dessa mulher que mata os peixes, a todo instante, mesmo sem querer. Duzentas vezes aprendo a lidar com essa faceta da vida que envolve a contradição da dor e do prazer num mesmo gesto estético.

Ando brigada com Clarice, por razões políticas, mas não recuso sua poética em minha história como leitora.  

Em “A Bolsa Amarela” da Lygia Bojunga, que roubei da minha irmã ainda aos seis anos de idade, a personagem Raquel abriga na bolsa o galo Rei (depois renomeado Afonso) que se torna seu companheiro de aventuras. O Rei tinha um problema, era um galo de rinha, só sabia brigar. Só sabia brigar porque certa vez costuraram em seu pensamento essa ideia fixa.

Pois a imagem de costurarem algo no pensamento também se tornou pra mim uma ideia fixa, e eu podia ver a violência cerzida na cabecinha do galo, linha e agulha pesadas, podia desejá-lo esgarçando aquele pano velho, arrancando pra fora o império do pensamento único para enfim alcançar a liberdade especulativa, pulsão de vida à qual todos nós deveríamos ter acesso.

As palavras sempre foram ferramentas que me ajudaram a interpretar a vida por um prisma que desvia do pragmatismo e das resoluções imediatas que uma sociedade liberal-desenvolvimentista como a nossa impõe. Costumo dizer que meu trabalho como escritora não tem finalidade alguma, apenas sentido. Muito sentido, espero eu.

Aos vinte anos achei Julio Cortázar mencionando seu gato Teodoro W. Adorno no brilhante ensaio “Do Sentimento do Fantástico”. Ao fisgar a atitude do bicho tentando capturar algo invisível no ar, hábito muito comum dos gatos – sabe-se lá por quê, Cortázar desenha com inteligência uma analogia entre o alvo que só Adorno pode ver e a idéia de um ponto vélico pressuposto na literatura fantástica.

Acho sensível como o autor homenageia seu filhote. Nas fotos de Cortázar tem sempre um gatinho por perto, um gatinho e um trompete.

Ele mesmo é um gigante jazz de olhos felinos, não é não?

Chego até a me esquecer da bronquite asmática que trago faz anos no peito quando leio Cortázar. O pelo do gato arde mas o sopro de trompete alivia.

Por fim, estava uma vez em Lisboa, em uma viagem solitária e triste – aos modos de um romance de formação todo próprio – quando fui parar em uma livraria muito bonita chamada “Ler Devagar”. Eram tantos livros em tantas prateleiras que eu fiquei exausta de excitação, mesmo antes de manusear uma única capa. Mas não tinha muito dinheiro então fiz o que faço em todas as livrarias caras que frequento: tento ler o máximo de coisas sem pagar. Falo isso sem culpa. Livro é pra ser lido, lucro é prosa pra outro texto .

Na hora de ir embora pus os olhos no primeiro tomo de uma tal “Autobiografia” de H. Maria Gris (que demorei anos para saber que era uma autora e o primeiro nome era Hibou). Uma edição simples, artesanal, fininha, em preto e branco. Abri aleatoriamente e caí num poema que propiciou uma pequena cura em meu coração (àquelas eras ferido por um apaixonamento em vias de término). Sete euros. Comprei sem pensar muito. Trouxe-o comigo para o meu país.  

Às vezes quando quero – que é melhor do que quando posso – dedico-me a essa “Autobiografia” que parece ter sido feita na medida da minha vida. E mesmo depois dos trinta anos ainda me pego fascinada pela retórica dos bichos, como se aquela menininha de seis jamais tivesse passado daqui de dentro – apesar da insistência de um pretensioso ideal de amadurecimento do intelecto que nos costuram no pensamento fazendo-nos desvalorizar a experiência da infância.

Hibou Maria Gris, daquela vez em Portugal, disse-me assim:

(PIANO)

Quando o coração é enorme

Só um piano e um cão

o podem guardar.

    

Aqui no Brasil não sei se é verdade, mas fico tomada de amor só por ousar achar que, sim, pode ser verdade.     

 

*_MG_0052Paloma Franca Amorim nasceu em Belém do Pará em 1987 e mora em São Paulo desde o ano de 2006. É autora do livro de contos “Eu Preferia Ter Perdido Um Olho” pela Alameda Casa Editorial (2017). Publica semanalmente crônicas no jornal O Liberal, do norte do país. É editora do blog de literatura “Diários Incendiários” e integra a roda de samba de mulheres “Sambadas”. 

6 de Abril de 2018

Passeio pelas estantes

Posted in Ler faz crescer às 16:19 por sidneif

FOTO.GM_PARADA_PERFIL__TRAPor GIOVANA MADALOSSO*

Durante muito tempo, li com disciplina, sempre terminando um livro para começar outro. De uns anos para cá, passei a largar livros pela metade, a largar livros abertos pela casa, a só terminar os que me dão prazer. Recomendo essa leitura mais descompromissada, passear pelas estantes como quem passeia por uma cidade.

*Giovana Madalosso é autora de “A teta racional”, livro de contos finalista do Prêmio Biblioteca Nacional, e do romance “Tudo pode ser roubado”.