27 de Julho de 2018

Minhas experiências como leitora

Posted in Ler faz crescer às 18:12 por sidneif

Por LUCIANA DO ROCIO MALLON*

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“Fascinação de Iara” (1929), de Theodoro Braga (1872-1953)

Eu lembro que, quando tinha quatro anos de idade, ficava olhando para as embalagens e cartazes para observar os desenhos das letras. Assim exclamava:

– Quero aprender a ler!

Como eu ainda estava no maternal, as atividades escolares só tinham relação com as Artes, como exemplos: pintura, escultura em massinha, artesanato, etc. Então minha madrinha deu umas cartilhas de alfabetização e gibis para a minha pessoa. Deste jeito fui aprendendo a ler aos poucos.

Os primeiros livros que ganhei foram de contos de fada. Eles foram importantes na minha alfabetização. Mas não eram os meus preferidos porque o enredo parecia o mesmo, porque sempre uma princesa casava com um príncipe no final. Por isso, eu pedia para que minha mãe e outras mulheres da minha família contassem lendas de terror para mim. Desta maneira conheci causos sobrenaturais como: O Cachorro do Drácula, Maria Bueno, A Casa do Burro Brabo, A Noiva do Belvedere, etc.

Quando completei cinco anos recebi vários livros das autoras Ruth Rocha e Marina Colasanti, onde algumas princesas e fadas eram rebeldes. Então meu interesse pela leitura aumentou. Pois descobri que não existiam apenas fadas e princesas boazinhas e passivas.

Já no meu aniversário de seis anos, ganhei o livro de poemas chamado Ou Isto ou Aquilo, da autora Cecília Meireles. Na época eu já fazia algumas rimas de improviso com as palavras que as pessoas pediam para mim. Mas depois da leitura desta obra, a minha paixão pela Poesia transformou-se em amor eterno.

Na adolescência, bem no período do ginásio, um livro que me marcou muito foi Sem Olhar Para Trás, da autora Lannoy Dorin, porque o tema era gravidez na adolescência. Esta obra também combatia de certa forma o preconceito que as pessoas tinham contra as mães solteiras na época.

No tempo do colégio também gostei da obra Dom Casmurro, do autor Machado de Assis. Pois eu sempre ficava pensando se a Capitu traiu ou não. Além disso, a expressão “olhos de ressaca” fazia com que eu imaginasse como era o olhar desta personagem, tanto que batizei a minha gata de estimação com o nome de Capitu porque notei que o meu bichinho também possuía olhos de ressaca.

Durante a juventude um livro que gostei foi Depois Daquela Viagem, da autora Valéria Piassa Polizzi, que falava sobre uma moça bonita que contraiu o vírus da Aids. Este livro foi excelente porque, de alguma forma, tinha o poder de diminuir o preconceito contra os soropositivos.

Estas obras e outros livros que li foram essenciais na minha formação de escritora.

 

Luciana do Rocio Mallon, repentista, bailarina folclórica, pesquisadora de causos e lendas, escritora. Apresenta, gratuitamente, a performance “Lendas, Repentes e Danças” em asilos, escolas, hospitais e eventos no Centro de Curitiba. Trouxe, para o Brasil, a “Vesteterapia”, que é o estudo místico através das roupas, sempre ressaltando o sagrado feminino. Publicou o livro “Lendas Curitibanas” (Instituto Memória, 2013), escreve, diariamente, na página do Facebook chamada Lendas e Poesias da Tia Lu:   https://web.facebook.com/LendasDaTiaLuciana/

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Mãe, eu quero ler o mundo…

Posted in Ler faz crescer às 18:10 por sidneif

Por TELMA VENTURA*

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“News From Abroad” (1885), de Carlton Alfred Smith (1853-1946)

Mãe, me ensina a ler?

Nossa, menina, você é tão novinha e já quer aprender a ler?

Sim, mãe… eu quero aprender a ler o muuuuunnndddoooooo !!! (em gestos largos e olhos brilhantes).

Minha mãe, de vestido florido e com o ferro de passar na mão, sorriu para mim. A pequena menina que queria ler o mundo, por meio das palavras escritas nos livros. Algo muito novo e inusitado para uma menininha de quatro anos nascida naquela família. Mas assim se fez. Mesmo tão nova, aprendi a ler e me deslumbrar e me perder naquelas aventuras todas do Érico Veríssimo – pois minha mãe, mesmo tendo tido pouca oportunidade de estudar, teve a sabedoria e a sensibilidade de escolher livros da mais alta qualidade literária para me alfabetizar. Assim, me encantei junto com a Rosa Maria (Rosa Maria no Castelo Encantado), me aventurei com o Fernando em seu avião (As Aventuras do Avião Vermelho), e chorei muito com Basílio (A Vida do Elefante Basílio).

Em pouco tempo, quis vislumbrar outros universos – a Terra já não bastava àquela menina desbravadora – e pedi ao meu pai que comprasse livros mais desafiadores: O que devemos saber sobre Marte era o meu favorito da coleção “O que devemos saber sobre…”, pois eu adorava imaginar a mim mesma viajando para outros planetas, outras constelações. Por meio da leitura, eu conseguia.

Cresci quase que obrigando meu pai a ir à livraria todas as semanas. Ele não aguentava mais, pois não entendia como uma adolescente preferia gastar dinheiro em livros a comprar os tênis, os jeans ou o perfume da moda.

Você não vai sair com suas amigas no sábado, não? Vai ficar com esses seus livros, de novo?!? Quem lê muito, enlouquece, hein! Estou vendo a hora que vou ter que te internar em um hospício!!!

Pois é… a Literatura e a loucura. Aos dezesseis, li Cem Anos de Solidão, do maravilhoso Gabriel Garcia Marquez, e me perguntei, pela primeira vez, Quem será o louco, aqui? A imagem do Coronel Aureliano Buendía, amarrado à árvore do quintal de sua casa, sendo alimentado como um animal, “para a segurança da família”, me fez questionar a sanidade do mundo. Daquele mundo que eu lia (nos livros e fora deles). Quem serão os loucos?

Cem anos de solidão me fez mergulhar na obra de Marquez – a qual eu li inteira, desde os contos aos romances – e me apaixonar definitivamente pela Literatura, mas também me levou ao curso de graduação em Psicologia. Mesmo assim, não consegui obter respostas à minha pergunta. Abandonei uma possível carreira na área da saúde mental (ou da doença mental?) e voltei a me dedicar à Literatura.

Minhas filhas receberam seus nomes em uma aberta homenagem a heroínas literárias: Beatrice, de A Divina Comédia ( Dante Alighieri)e Helena, a mulher mais linda do mundo mítico grego. Entre infernos e mitos, gestações e nascimentos. Nascimento de uma leitora, pesquisadora e escritora que tem a consciência de que a Literatura cria e destrói mundos, da mesma maneira que as histórias pessoais de cada indivíduo constroem – ou destroem – sua história de vida. São as histórias que fazem o mundo – aquele mundo que a menininha de quatro anos queria ler, mas que a mulher de trinta questionou.

E uma vez mais questionei. Questionei novamente a sanidade do ser humano ao ler A Desumanização, de Valter Hugo Mãe, obra que me colocou frente-à-frente com considerações a respeito da falta de humanidade daqueles que se intitulam “humanos”. Em O remorso de Baltazar Serapião, o extremo da violência contra a mulher. Contos de Cães e Maus Lobos, o vazio da (in)existência.

O vazio e a ausência final – e fatal – foi trazido por Inês Pedrosa, por meio de Fazes-me Falta. Tão pungente e avassalador que se afigurou a obra que eu estudei por quatro anos, e que me tornou Mestra em Literatura. Não consegui ficar impassível diante daquela falta inexorável que é a morte – a falta de sentido, a falta de quem amamos e que nos deixou para sempre, a falta de amor e verdade nas relações – ditas – afetivas. Clara, a professora cega de A Eternidade e o desejo, entretanto, enuncia que “Sou cega mas enxergo muito mais do que vocês” e, com as falas dessa ceguinha muito sacana (como a própria se classifica), percebi que o ato de ler o mundo começa pela ação de ler a si mesmo.

A leitura de uma obra literária começa no(a) leitor(a), em seus próprios olhos, em seus próprios olhares e afetos. Ler é passar a conhecer a si mesmo(a) na fruição da leitura. O afeto antes, a construção literária na sequência, ambos afetando o sujeito que lê. Os livros que lemos e as leituras que realizamos – literárias, do mundo, das pessoas, de nós mesmos – ajudam a construir quem somos.

Hoje, sou professora de Literatura. Tenho sorte. Mostro a outras pessoas como compreender uma obra literária e, assim, tentarem entender um pouco mais o outro, o mundo e quem elas mesmas são. Escrevo e, dessa maneira, construo alguns mundos. Literários. Daqueles que eu queria ler quando era ainda bem pequena.

Minhas filhas leem. Estão construindo seus próprios mundos. E eu as acompanho, como minha mãe fez comigo, e a mãe da mãe da mãe da minha mãe. Todas e todos nós. Leitoras e leitores.

 

*Telma Ventura Educadora e Mediadora de Leitura, é a idealizadora e curadora dos Projetos Culturais Um Conto por Encontro e Voz de Mulher. Mestra em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, pesquisa as interfaces entre Literatura e Psicologia, bem como as Literaturas de Autoria Feminina, com foco nas performances narrativas presentes na matéria literária. Coautora de artigos que integram as obras “Educação e Linguagens” (BT Acadêmica/CAPES, 2017) e “A literatura infantil e juvenil na contemporaneidade: Histórias, Caminhos, Representações” (BT Acadêmica, 2016), lançará em 2018 sua primeira obra individual, intitulada “Desconstruindo o silenciamento feminino: Inês Pedrosa e a narrativa performática de Fazes-me Falta”, pela Editora Todas as Musas.

Eterna busca pelo tempo perdido

Posted in Ler faz crescer às 18:05 por sidneif

Por KAREN MONTEIRO*

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“Un coin d’appartement” (1875), de Claude Monet (1840-1926)

Nunca gostei (propositalmente com cacófato para informalizar esse início de encontro) de falar sobre as minhas leituras pelo simples fato de achar que estou sempre em dívida comigo e com os livros que se empilham, aguardando a vez. Não tenho rotina de leitura. Posso passar dias sem abrir o livro de literatura que está na cabeceira, só lendo outros textos, livros, trechos de livros relacionados ao trabalho ou ao post que estou escrevendo para o meu blog Arte na Roda (sobre arte e meio ambiente).

Meu jeito de ler, confesso, é um tanto caótico. Começo um livro, ganho outro, vejo um imprescindível no sebo, paro o que estava lendo, retomo depois de sei lá quantos meses… Aí esqueço o que li e tenho que começar tudo de novo.

Desisti de me dar prazo para terminar uma leitura. Vou dançando conforme o meu ritmo, conforme as palestras e oficinas, exposições, shows, peças de teatro, que preenchem uma parte bem significativa dos meus dias e me fazem chegar em casa querendo dormir com a reverberação do que vi. E o livro lá no criado-mudo … Um dia aprendo a lidar com essa tortura.  Nem tento mais me comparar com o amigo que devora um livro numa sentada. Até cometo essa façanha, mas bem, bem de vez em quando.

Reinvidico para os livros prazo de validade, tempo de leitura, assim como os espetáculos e palestras.  Eles deveriam vir com etiqueta: “Esse livro se autotransportará em quinze dias para a casa mais próxima ou banco de praça do bairro em oferecimento ao próximo leitor”.

Não, não… Permita-me voltar atrás. Deixemos como está. Deixemos esses nossos companheiros da alegria ou da tristeza munidos do caráter democrático, do tempo infinito, da duração sob medida para o portador. Deixemo-nos na nossa eterna busca pelo tempo perdido. Por aquela vez. Lembra? Aquela vez. Naquele mês, a mercê do vento, na ladeira do momento. Aqueles dias em que o tormento se desfazia no instante. Não permanecia gravado no lombo ou no ombro. Não morava na boca do estômago medrosa. Não tapava a garganta que pedia polvorosa.  Ou uma rosa. Continua me abrindo, Proust (acho que vou ler você até o fim da vida), mais caminhos para me perder ou me encontrar. Tanto faz. No fim, pensando com os coloridos botões, olores transportam, no trajeto pelas vias até as narinas, lembranças que valem uma vida ou trazem o apaziguamento da memória ruim. O apagamento do passado fardo. A abertura das orlas e portas para quintais e beiras ensolaradas do presente, na trilha do futuro que flutua entre perdas e ganhos, se enterra em frustrações ou germina em triunfos que percorrem o nosso túnel do tempo.

 

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Sempre em busca da melhor palavra… E o muro de estênceis de letras de metal da obra de Helena Trindade no Instituto Tomie Ohtake é um lugar bem bom para acuar ou amaciar os vãos de significado.

*Karen Monteiro, cronista, jornalista cultural, tradutora do alemão e inglês e assessora de imprensa. Nasceu em São Paulo, mas mora em Curitiba. Mantém o blog Arte na Roda, no site Conexão Planeta. Antes disso, publicava seus escritos poéticos sobre a vida e seus espetáculos no blog Nunca precisou de chão firme. Os textos antigos ainda estão disponíveis.

 

Contato: monteiro.hk@gmail.com

Ler é compartilhar

Posted in Ler faz crescer às 18:01 por sidneif

Por ANA PAULA CECATO*

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“Three Novels” (1887), de Van Gogh (1853-1890)

Desde que me conheço por gente, tenho a lembrança de que sou alguém curiosa, que gosta de compartilhar histórias com as outras pessoas. Embora eu seja muito tímida, desde pequena, me colocava a conversar com bonecas, a ensinar minha irmã e outras crianças do bairro, a ouvir atenta às histórias contadas pelos meus avós, a ler contos de fadas com minha mãe e meu pai. A palavra de alguém sempre foi um rito de aprendizagem, uma forma de encontrar as minhas palavras, aquelas que possibilitariam que eu desse meu recado para o mundo.

Na infância e na adolescência, as palavras foram ferramentas importantes para entender uma etapa que fora difícil. Crescer dói, e foram em alguns livros que pude me identificar com algumas personagens que enfrentavam os mesmos conflitos existenciais que eu: Raul da Ferrugem Azul, da Ana Maria Machado; Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll; Mariana, de Pedro Bandeira. Também escrevi muito na adolescência: cultivava diários, sacrificava as últimas folhas de caderno da escola, publicava em blogs, anotava frases de livros e letras de música — formando, assim, um acervo afetivo de textos que diziam meus desejos, sonhos e confrontos juvenis.

Ainda que tenha me formado leitora desde criança, não tinha muita consciência disso, tanto que, ao terminar o colégio, o curso de Letras não fora a primeira opção. Mas foi minha mãe, observadora atenta dos meus gestos leitores e docentes, quem me deu a sugestão de fazer a graduação. E fui.

Porém, foi no segundo ano do curso que há um ponto de virada em minha vida: além de mudar de universidade, frequentar uma livraria na esquina da minha casa trouxe uma oportunidade decisiva: trabalhar na Feira do Livro de Porto Alegre, evento cuja equipe integro há 13 anos. Foi na Feira em que pude reviver lembranças da minha história como leitora na infância, conhecer escritores, ilustradores, contadores de histórias, professores, bibliotecários, ampliar meu repertório de leitura, e, dessa forma, comecei a contornar os caminhos que me levam a trabalhar com a leitura literária nos espaços em que ocupo.

Atualmente, estou em sala de aula e tenho trabalhado como uma formiguinha que carrega nas costas os reflexos dos flagelos sociais que se colocam em uma escola,  para que a literatura seja uma possibilidade de autoconhecimento e de expressão da subjetividade dos meus alunos, através das imagens verbais e visuais que o livro para a infância e adolescência nos apresenta.  Também atuo na formação de mediadores de leitura, encontrando pessoas que desejam levar a palavra literária para seus espaços de atuação, mas que, muitas vezes, precisam (re)descobri-se como leitoras.

Acredito que tenho mantido vivo o desejo curioso daquela menina de compartilhar histórias, referências e afetos. Ainda que a leitura, como um retrato colocado na parede, seja idealizada como uma atividade solitária e quase imóvel, ela também se potencializa na troca e na discussão coletiva. Muito mais neste tempo, em que perceber o outro é tão complicado, que seja a força simbólica da literatura  um caminho para uma sociedade mais solidária.

 

*Ana Paula Cecato, mestre em Letras, professora de Língua Portuguesa em Porto Alegre e atua na formação de mediadores de leitura, promovendo cursos como o Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, realizado há nove anos.

Site: www.facebook.com/descobrinhanca

20 de Julho de 2018

Três leituras decisivas

Posted in Ler faz crescer às 16:59 por sidneif

Por NATALIA TIMERMAN*

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“Mulher deitada lendo” (1960), de Pablo Picasso (1881-1973)

I

O último livro que me causou fortes sensações físicas foi Poema Sujo. Meu segundo filho estava com poucos meses e tirava alguns cochilos durante o dia, uns mais curtos, outros mais longos, impossível prever quando cada um. Uma manhã, ele adormeceu, peguei o livro de Ferreira Gullar e deitei no sofá, meu lugar preferido da casa e talvez do mundo. Não sei com que meu filho sonhou na hora e meia em que me deixou terminar a leitura para então, no tempo justo, como se soubesse a hora certa, chorar. Fui até seu quarto transtornada, transformada. Um avião passava no céu e eu estava também nele, no alto, no meu antes, retirando meu filho do berço e também no depois, abraçando-o feliz por ele me mostrar sua infância e então a nossa, agradecida por existirmos ambos num universo onde se escreve algo como Poema Sujo.

II

Há livros para frio e livros para calor, mas subverter essa lógica tão tácita quanto obscura pode acontecer e talvez nos ajudar a entendê-la um pouco mais. Levei A Montanha Mágica (Thomas Mann) para ler em umas férias longínquas em Boipeba, na Bahia. Carreguei aquela montanha nevada para cima e para baixo no calor tropical, suei deitada na areia diante do frio rarefeito do tratamento de Hans Castorp, passei os olhos pelos longos diálogos filosóficos escutando ao mesmo tempo alguém perguntando se eu queria camarão. Aquela viagem não teria sido a mesma sem o livro, do qual mal podia me separar, mesmo que por poucas horas, à noite, para tomar uma cerveja com amigos. Talvez me fizesse sentir um pouco de frio, ou mais calor, ou tenha me ajudado, também com sua presença física contrastante com o lugar — a montanha branca desenhada na capa — a entender o que é o tempo. Até hoje, passados tantos anos, mesmo sem ver as marcas que a viagem deixou no livro fechado na estante, sei que a infância demora para passar porque só há o novo, e a partir de certa altura (o topo da montanha), quase tudo se repete ou apenas varia sobre o que antes já foi, e então a vida corre como se descêssemos correndo pela neve (ou a areia) escorregadia.

III

Eu estudava medicina e cabeceava diariamente a realidade e minha escolha. Assistia às aulas de biologia molecular e biofísica sempre com um livro no colo, fugindo da aula, em eterna direção a outro lugar. Comecei a cursar letras à noite e me impressionei com a possibilidade de existirem deveres prazerosos, como na época das aulas de literatura no colégio. No terceiro ano de medicina, fiz uma viagem ao Xingu por um programa extracurricular da faculdade para vacinar índios de aldeia em aldeia e ajudar em uma buscativa de casos de toxoplasmose. Foram três semanas diante de pessoas que vivem de um jeito completamente outro. Três semanas sem espelho, tomando banho de rio, dormindo na rede, sem velocidade que não a da voadeira, que nos levava por horas — às vezes muitas, quatro, cinco, oito — em direção às aldeias. Nessas viagens pelo rio, eu lia o Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa). Eu lia o buriti e levantava os olhos pros buritis nas margens, lia os pássaros e os via cruzando o céu em cima de mim. O livro ficou todo sujo de terra, e ainda guarda um inseto morto entre suas páginas.

Terminei de ler já de volta em São Paulo. Eu chorava a ponto de não conseguir me fazer entender em uma conversa telefônica: demorou um pouco até eu deixar a pessoa despreocupada do outro lado da linha, está tudo bem, nada grave aconteceu, estou assim pela leitura de um livro.

Depois dessa viagem, decidi ir até o fim na faculdade de medicina. E os livros, bem, continuam aqui.

 

*Natalia Timerman, psiquiatra, mestre em Psicologia, escritora. Publicou “Desterros – histórias de um hospital-prisão” (Elefante, 2017).

Lemos porque…

Posted in Ler faz crescer às 16:57 por sidneif

Por ISABEL FURINI*

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“Maria” (1909), de Helene Schjerfbeck (1862-1946)

Lemos porque queremos entender a realidade de outro ponto de vista ou porque precisamos fugir dela, por um momento, para voltar mais lúcidos.

Lemos porque queremos saber como os outros vivem, enfrentam os problemas, como vencem ou como sucumbem. Lemos porque queremos ver nosso eu refletido no mundo dos personagens.

Tanto a leitura de obras ficcionais quanto o teatro nos levam pelo caminho do entretenimento e da reflexão. Às vezes, nos arrastam pelo caminho da catarse, mas por estradas diferentes.

A fascinação do teatro é o enlevo emocional, a participação grupal — que alimenta, além do instinto estético, o instinto gregário do ser humano.

A leitura é — geralmente — solitária. No momento de ler, estamos sozinhos. Interagimos mentalmente com o livro, depois podemos comunicar as emoções, ideias e pensamentos que experimentamos enquanto realizávamos a leitura. É importante destacar que um bom livro nos faz suportar melhor a solidão.

Ao terminamos de ler um livro, também podemos sentir desejos de elogiar ou de criticar. Mas o fazemos mentalmente. Também podemos escrever nossas impressões ou procurar outras pessoas para fazer comentários ou trocar opiniões. Por isso é tão importante a criação de clubes de leitura. O ser humano é gregário e precisa de outros para dialogar e crescer.

A leitura de um romance ou de um livro de contos coloca em jogo a imaginação, a fantasia, a curiosidade, o raciocínio e até a teoria de valores do leitor. O escritor Jorge Luiz Borges dizia que ler deve ser um ato prazeroso.

Em síntese, lemos literatura para interpretar o mundo, para esquadrinhar a alma humana, para conhecer, para compreender, para sair do dia a dia rotineiro. Ítalo Calvino, Julio Cortázar e outros aconselham ler os clássicos. Os clássicos passam valores enquanto desenvolvem histórias.

Ler é vital para nosso desenvolvimento como seres humanos.

 

*Isabel Furini, escritora, poeta, palestrante e educadora; seus poemas foram premiados no Brasil, Espanha e Portugal; é autora dos livros de poemas “Os Corvos de Van Gogh”  e “,,, e outros silêncios”; membro da Academia de Letras do Brasil/ PR, ; Embaixadora da Palavra pela Fundação Cesar Egido Serrano (Espanha), em 2015; recebeu Comenda Ordem de Figueiró. Realizou recitais poéticos na 36a. Semana Literária do SESC & XV Feira do livro da URPR, e na Burlingame Public Library, USA.

Para mim e para as bonecas

Posted in Ler faz crescer às 16:56 por sidneif

Por BRUNA ASSIS BRASIL*

Dobson, William Charles Thomas, 1817-1898; Fairy Tales

“Fairy Tales”, de William Charles Thomas Dobson (1817-1898)

Quando pequena, eu era muito incentivada a ouvir histórias. Minha família tinha uma cultura muito oral de contação, não necessariamente ligada ao livro. Eu ouvia de tudo: desde a Dona Baratinha até relatos de guerra. Era tudo muito fascinante e me lembro de ficar encantada com a forma como meus avós me faziam imaginar as histórias apenas contando o que estava na memória ou no imaginário deles.

Como leitora propriamente dita, minha grande inspiração foi meu avô, que tinha uma pequena (mas muito especial) biblioteca. Com obras que iam desde o Tesouro da Juventude (enciclopédia) a livros sobre bichos estranhos e os grandes clássicos da literatura. Nada voltado para o público infantil, mas eu achava completamente incrível.

Na escola, meu momento preferido era a aula de conto. Todos se sentavam em almofadas fofinhas e ouviam atentamente as histórias como “Casa sonolenta” e “Se será Serafina?”. Sempre levava muitos livros para casa, que lia e relia para mim mesma ou para as minhas bonecas. Era uma delícia.

Crescendo, continuei lendo bastante. Hoje, confesso que me rendi às maravilhas da leitura digital e sou uma grande fã do Kindle. Quem diria que um dia daria pra carregar tantas histórias em um lugarzinho tão pequeno?

Mas mesmo sendo fã do digital, vou muito a livrarias e AMO me perder nelas por horas a fio. Invisto muito em livros, principalmente de histórias em quadrinhos, infantis e de culinária. Como ilustradora, sou apaixonada pelo design do livro como um objeto. Isso me faz colecionadora assídua daqueles que me encantam pelo visual. Como é gostoso pegar um livro em que a história escrita e a história visual são igualmente bem cuidadas. Amo poder apreciar a conexão entre esses dois lados, é o que mais admiro como leitora. Cada vez mais a linguagem visual faz parte da narrativa do livro, seja ela formada pela ilustração ou simplesmente pelo design gráfico. Sorte a minha existir tanto para ser apreciado.

*Bruna Assis Brasil, ilustradora. http://www.brunaassisbrasil.com.br/

A degradação do homem pelo homem

Posted in Ler faz crescer às 16:52 por sidneif

Por LUIZE VALENTE*

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“The Killing of a Woman Inmate” (1947), de David Olère (1902-1985)

Ler e escrever caminham juntos para mim. Minha escrita é consequência das minhas leituras. Sempre amei os livros, desde criança. E devo muito deste gosto ao meu pai, um assíduo frequentador de livrarias e bibliotecas.

Desde bem pequena, quando ainda nem sabia ler, já vivia entre livros. Acho que foi do fascínio por este mundo no papel que nasceu minha vontade de escrever… da vontade de decifrar aquele código de letras! Quando aprendi a ler, não parei mais.

Considero que a melhor escola para um escritor é a leitura.  Por conta disso tive e tenho diversas influências literárias. E à medida que os anos vão passando (e já são tantos), mais livros se incorporam – acho que é essa a palavra certa! –, passam a fazer parte de mim.

Experiências literárias desde a infância me proporcionaram grandes momentos como leitora. Mas vou ressaltar aqui às que, de certa forma, estão diretamente ligadas as tramas dos meus livros, que giram em torno de temas judaicos.

Existem três autores que descobri, ainda adolescente, cujas obras venho lendo e relendo ao longo da vida. Os três, além de me proporcionarem grande momentos como leitora, embora muitíssimas vezes dolorosos, me marcaram profundamente. São eles Leon Uris, Philip Roth e Primo Levi. Li tudo deles, e É isto um homem?de Primo Levi – sobrevivente do Holocausto –, é um livro que mora na minha cabeceira. Para mim, um dos relatos mais contundentes sobre a degradação e exploração do homem pelo homem.

 

*Luize Valente, Escritora e documentarista, autora de romances históricos.
luizevalente.com

12 de Julho de 2018

Ler e ser : da Bíblia à Biblioteca

Posted in Ler faz crescer às 18:16 por sidneif

Por CHRISTINE CASTILHO FONTELLES*

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“A Leitura” (c. 1891), de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

Lemos para atender necessidades objetivas. Ouvi esta sentença de Percival Lemos de Britto, um dos maiores estudiosos brasileiros em leitura, durante um seminário no Salão do Livro promovido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o único do gênero que considero imperdível para crianças, adolescentes e educadores — ou seja, adultos todos e sobretudo professores.

Minha paixão pela leitura é tão antiga que parece que nasci assim, com esse gosto enorme e democrático: leio praticamente sobre tudo, embora tenha lá as minhas preferências. Até então nunca tinha pensado no assunto com esta objetividade; eu que lá pelos quinze anos subia ao céu toda a vez que comprava na banca de jornal um clássico da literatura universal, de capa dura com letras douradas. Data desta época minha paixão pela literatura russa: Ana Karennina, de Tolstoi, Crime e Castigo, de Dostoievski, Mãe, de Gorki, retratos intensos de vidas trituradas pela moral, pela miséria e pela ganância.  

Aos poucos fui recolhendo minhas memórias do meu prazer de ler, mesmo os textos mais cabeludos: quando criança, toda bendita noite meu pai me chamava para ler versículos da Bíblia — era homem de muita fé, pai afetuoso que oferecia aos filhos o que havia descoberto de melhor na vida e neste rol estava seu aprendizado religioso, acima do qual só estava seu amor à família que havia constituído com o grande amor da sua vida. Eu não gostava nadinha, ia contrariada e aplicava sistematicamente a mesma represália: toda a vez que terminava de ler, ele me perguntava o que havia entendido, firme e emburrada dizia: “nada”. Hoje sei com enorme clareza quem me guiou no desafio de descobrir que por trás dos símbolos que são as palavras habitam os significados. Foi dele também a iniciativa de me dar um presente inesquecível e inestimável, a coleção completa do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato.

Eu trocava tudo para me esparramar na cama e literalmente de pernas para o ar ir “brincar” lá no Sítio. E olha que sou da geração de criança que brincava na rua, onde o maior temor era o “homem do saco” — soube recentemente que eram o que hoje conhecemos como catadores de material reciclável. A coleção está doada em consignação à minha filha, para quem li desde sempre. No desafio de ser mãe, aliás, a literatura sempre foi minha aliada.

Foi com o poema de Eduardo Alves da Costa, Passeio, que lhe falei, ainda criança, e me fiz entender, sobre o risco da resignação. Observando seu encantamento pelas ilustrações a “recuperei” do desencanto com os livros: a leitura da belíssima edição ilustrada de Romeu e Julieta a levou direto para o original de Shakespeare, já na adolescência. Foi dela que ganhei de aniversário Mania de Explicação (Adriana Falcão) — imperdível! – com a seguinte dedicatória: “para a minha menina que tem a mania de transformar vida em sonho e sonho em realidade”. Hoje ela é bióloga e hoje está na Georgetown University  na estrada de seu pós-doutorado na área de nutrigenômica, programação do câncer e epigenética.

Eu, desde 1999, trabalho com articulação por bibliotecas abertas à comunidade  Brasil adentro e ando às voltas em descobrir e repetir que brasileiro gosta, sim, de ler, para o quê não coopera a ausência de livrarias em 73% dos municípios brasileiros, responsável por 59% das vendas de livros, a ausência de bibliotecas em 53% das escolas públicas — embora o professor seja o grande influenciador de leitura para as crianças conforme revela a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2017 e a precariedade, em quantidade e qualidade, de bibliotecas públicas, que são o lugar por excelência onde TODOS podem acessar bons livros e, por meio destes, todo o conhecimento produzido e registrado em livros pela humanidade.

Eu queria encontrar para o ato de ler algo tão conciso e contundente quanto a frase que li um dia na camiseta que usava o pediatra da minha segunda filha – à época  com 1 ano, quando brincava de ler e seus livros prediletos eram Se você vir uma Vaca  e A História de um Mago, livros cartonados, ideais para bebês : “Carinho também é ação, pratique amamentação”. A palavra-chave insubstituível é carinho. Quer tentar?

*Christine Castilho Fontelles, cientista social formada pela PUC/SP com MBA em marketing pela FIA/FEA/USP. Coordena a campanha Eu Quero Minha Biblioteca pela universalização de bibliotecas em escolas. É conselheira da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e fundadora da Centhral do Brasil – consultoria de projetos de educação para a leitura e escrita.

A linguagem é política

Posted in Ler faz crescer às 18:15 por sidneif

Por MARÍLIA MOSCHKOVICH*

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“Torre de Babel” (1563), de Pieter Bruegel (1525/30-1569)

Certa vez minha mãe me presenteou com um livro chamado O Pato Poliglota ( Ronaldo Simões Coelho). Devo ter lido este livro assim que aprendi a ler, mais ou menos aos 4 anos de idade.

Achava o máximo a ideia de que muitos conflitos poderiam ser resolvidos com comunicação, e que conhecer várias línguas era bacana pra isso e tal. Sempre atribuo a esse livro meu gás pra aprender língua.

Hoje sou fluente em 3, além do português, e estou na Alemanha estudando alemão para um dia talvez ser fluente numa quarta.

O livro despertou meu amor por idiomas e linguagem, ao mostrar como a linguagem é política: tudo isso por meio de uma fábula em que um pato aprende e ensina os idiomas de diversos animais uns aos outros.

 

*Marília Moschkovich, Socióloga, escritora, editora e comentarista política.

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