21 de Agosto de 2012

A loucura é sábia

Posted in Ler faz crescer às 14:33 por sidneif

Por ROQUE SPONHOLZ*

Apesar de nascer e crescer rodeado de livros, foi numa farmácia vizinha de minha casa, e não numa biblioteca, que comecei a sentir o gosto pela leitura; lia as piadas do Almanaque Biotonico Fontoura da coleção do Seu Clemente, o farmacêutico.

Só depois é que fui parar no sítio do Lobato, nos serões de Dona Benta e nos bolinhos de polvilho da Tia Nastácia.

Crescendo numa pequena cidade do interior do Paraná, fazia o sertão virar mar, e sobrevivente de naufrágio, acompanhado pelo meu cão que virava papagaio numa deserta ilha, fantasiava ser Robinson Crusoé, do Defoe.

Às vezes mergulhava no oceano para ver se me encontrava com o Capitão Nemo, do Verne.

Já estudante de arquitetura e urbanismo, filosofava com Morus e não me conformava com a Utopia ter se transformado num projeto irrealizável. Louco ficava só de pensar que louco estava, quando Erasmo, elogiando a Loucura, me mostrou o quanto ela é sábia.

Hoje me consola saber que sou tão ranzinza e misantropo quanto Schopenhauer e os Anos Mais Selvagens da Filosofia, de Safranski.

Livros recentemente relidos: Chove Sobre a Minha Infância, de Miguel Sanches Neto, e As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino.

Livro a ler/ver: Gênesis, do fantástico Crumb.

Enfim, livros lidos são para sempre, inclusive aqueles que já não possuímos mais.

*Roque Sponholz, chargista e arquiteto.

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14 de Agosto de 2012

A prepotência que ceifa vidas

Posted in Mundo às 15:23 por sidneif

É espantosa e atroz a passividade do mundo inteiro diante da carnificina que ocorre na Síria. A incapacidade dos líderes mundiais de chegar a uma solução para trazer paz aos sírios retrata a prepotência da condição humana. Interesses econômicos, apego ao poder e solidariedade a regimes totalitários se sobrepõem à ideia de preservar vidas.

No calor da primavera árabe que derrubou vários ditadores, os sírios tentam se livrar do jugo do presidente Bashar al-Assad. Acresce que o ditador sírio responde com todo o aparato de opressão que possui. O resultado do embate, como já se podia esperar, é a hecatombe e a fuga de milhares de inocentes para os países vizinhos – de mãos vazias, marcados pela violência e sem esperança de futuro.

Enquanto isso, o dito mundo civilizado não consegue tomar medidas para conter a fúria do tirano sírio. O Conselho de Segurança da ONU já votou por impor sanções a Damasco e cogitou até a intervenção militar. China e Rússia, entretanto, são refratários a qualquer retaliação ao aliado Assad.

Pouco importa se vidas inocentes são ceifadas pela sede de poder do líder sírio e seus asseclas. Interesses econômicos, respaldo político a projetos de poder ou pura omissão valem o sangue de um povo .

Tamanha prepotência humana parece não ter fim. E é antiga. Desde que o homem descobriu a manipulação e decidiu que era melhor que o outro. Então ensinou ao aliado que todos eram iguais, mas uns (eles) eram mais iguais que outros (inigualável “Revolução dos Bichos”, grande George Orwell!).

É assim desde as civilizações antigas e sua sede de poder que as levava a exterminar povos ou escravizá-los. Também foi assim no período de colonização da América e da África. É esse pensamento que pautou guerras e o estímulo a ditaduras . Fez Estados Unidos e União soviética medirem forças e interesses, por meio da guerra fria e do apoio a  regimes autoritários.

A história da humanidade tão manchada de sangue afigura-se não ter ensinado o homem a considerar a vida do outro. Apenas existem aliados. A quem se opõe a eles resta o menosprezo. Ou, no máximo de condescendência possível, a omissão.

 

7 de Agosto de 2012

Meu jeito de ler

Posted in Ler faz crescer às 12:32 por sidneif

Por IVALD GRANATO*

Eu tenho muitas histórias de livros, adoro livros. Mas confesso que não gosto de ler muito. Mesmo assim  sempre comprei muitos livros porque meus filhos adoram ler. Por causa da mãe. Ela não larga os livros .

Aprendi muito com o Paulo Leminski (1944-1989), um dos maiores escritores que conheci com intimidade. Ele também não era muito fã de ler, digo ler sentado durante horas. Leminski tinha livros espalhados pelo chão, onde podiamos sentar em cima, dormir se quisesse, sempre biscoitando alguma página.

Durante muitas visitas a Curitiba, peguei dele essa mania de ter livros em vários lugares onde estou sempre vasculhando alguma coisa. Creio que na verdade descobri uma maneira da leitura, viver lendo sem ficar lendo. Aí a importância da leitura de um jeito diferente. Descobri que ler dessa maneira tem uma forma mais dinâmica, dando oportunidade de fazer outras coisas com a leitura por perto sem ficar direto nas páginas.

Talvez eu não goste de romance, e sim das pesquisas ou frases soltas. E assim sempre fui envolvido em livros sem que tenha tido a obrigação de terminar de lê-los. Vivo com livros a toda volta, sempre buscando algo escrito alienadamente ou às vezes procurando o que possa me sanar alguma dúvida.

Jorge Mautner, outro grande amigo escritor e músico de altíssimo nível,  me encantou de forma bem expressa  – conviver com ele e ler dez livros ao mesmo tempo.

O Rubens Gerchman (artista plástico, 1942 – 2008), quando viajávamos juntos ele se encarregava da leitura e eu dos outros afazeres, como dirigir, ver mapas, descobrir territórios, já que íamos a lugares difíceis e longínquos .

Daí vem para mim a importância da leitura.

*Ivald Granato, artista plástico.