28 de Novembro de 2011

O poder de escolher

Posted in Ler faz crescer às 11:36 por sidneif

Por  DW RIBATSKI*

Bem, uma coisa importante pra mim na leitura foi que, graças a ela, eu comecei a ampliar minha visão de mundo. Lendo livros e, principalmente, quadrinhos quando criança, comecei a aprender sobre o mundo, e sobre os mundos paralelos da percepção.

Graças à leitura, por exemplo, “desvirei” católico, uma tradição da família que pouco tinha a ver comigo: me identificava com alguma coisa da narrativa, da ética, mas não com o culto em si ou com as regras absurdas e contraditórias. A leitura me fez entender que a religião é só uma opção, que no meu caso não é necessária. Também entender lugares do mundo e como eles se relacionam com as culturas locais, política, etc.

Tudo isso foi trazido pela leitura. E é um pouco óbvio pra mim que pessoas que não leem sempre serão incompletas. Mesmo o tipo mais simples de deslumbramento ou transcendência necessita um catalisador. Podem ser drogas, que trazem isso de uma maneira um pouco aleatória. A leitura estimula o controle do cérebro. Acho que é um tipo de poder. Tu sentes que podes escolher tua vida.

*DW Ribatski, artista plástico e ilustrador.

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26 de Novembro de 2011

A verdade de cada livro

Posted in Ler faz crescer às 11:54 por sidneif

Por FÁTIMA BIANCHI*

Aos seis anos de idade, com uns dias de atraso e depois de muito choro e protesto, consegui sentar-me pela primeira vez num banco escolar, no Grupo Escolar “Professora Lydia Silva”, a única escola de primeiro grau que havia na cidade. Foi a muito custo que minha mãe teve minha matrícula aceita, já que a idade mínima para ingresso, na época, era de sete anos.

A ansiedade de aprender a ler imagino que tenha sido despertada pelas histórias, os “causos”, que desde bem pequena ouvia encantada de meu avô materno. Grande parte dessas primeiras narrativas falava de temas em geral aterrorizantes, como mula sem-cabeça, assombrações, homens que viravam lobisomem na quaresma, coisas do gênero. Costumava passar as férias no sítio, com os pais de minha mãe. À noitinha, numa espécie de ritual, sentávamo-nos todos em volta de meu avô. E nisso tudo havia algo de solene. Muitos dos seus “causos”, acho que tinha ouvido, mas outros ele mesmo inventava, ou pelo menos recriava. Gostava também de contar histórias de romances que lera, em italiano ou espanhol, do que sempre se orgulhou. Meu avô tinha um dom de ir emendando uma narrativa em outra e podia passar horas a fio nos entretendo. Depois íamos todos dormir impressionados, quase sempre com medo, mas o certo é que ele sabia como tornar nossas noites agradáveis.

Diferentemente de meus pais, tanto o meu avô materno como o paterno tinham muito gosto pela leitura. Meu amor pela literatura é provável que tenha herdado deles. Do avô paterno, filho de um ex-padre da região do Veneto, herdei também vários livros em italiano, velhos, que eu folheava sem cansar, espalhando farelinhos de suas páginas ressecadas pela casa, para desespero de minha mãe, que acabou sumindo com eles. Até hoje, nem sei que livros eram aqueles, mas pareciam guardar algum segredo. E era como se estivesse me preparando para um dia desvendá-lo.

Obviamente, deveria aprender a ler em italiano. Mas mais tarde percebi que não era só isso. Ler um livro requer mesmo todo um processo de iniciação, mesmo quando se trata de ficção. Cada obra tem sua própria verdade ou inverdade, e é no teor de verdade de cada uma que está a resolução de seu enigma, como diz Adorno, que, assim como Lukács, define o romance como uma busca de sentido, colocada pela própria forma, de algo que não tem sentido por si só. E é esse o desafio a que, meio aos “trancos e barrancos”, tenho me proposto desde que decidi entrar para o curso de Letras e escolhi a literatura russa do século XIX como objeto de pesquisa e de realização pessoal.

Já na adolescência, lia com prazer os livros exigidos na escola. Deleitavam-me as palavras da Moreninha, do romance de Joaquim Manuel de Macedo, que ainda sei de cor, ou acho que sei: “Tenho quinze anos, sou morena e linda, quero e não me querem, mas tenho amor ainda”. O Crime do Padre Amaro ( Eça de Queirós) também era um dos meus prediletos.

Com cerca de 13 anos de idade comecei minha incursão pela literatura estrangeira com Anna Kariênina, de Tolstói, que peguei da estante da casa de meus padrinhos. Acho que aí começou meu encanto por esse mistério que era a Rússia na minha imaginação de garota do interior. Um encanto que, aliás, com o tempo, só fez aumentar, à medida que fui tomando maior contato com a literatura e a cultura desse país. Manon Lescaut, de Abbé Prévost, foi o seguinte. Depois vieram muitos outros. Mas, de tudo o que li nessa fase de minha vida, nada me ficou tão gravado na memória como estes dois primeiros.

Nesses anos de adolescência, minha paixão pela literatura foi crescendo cada vez mais e tomava-me tardes inteiras, que passava trancada no quarto devorando tudo que me caía nas mãos.

Bem, foram outros tempos, muito diferentes do mundo digital de hoje, que, em qualquer cafundó, qualquer criança pode ser conduzida rapidamente de um canto a outro do mundo pelas telas de TVs e computadores.

*Fátima Bianchi, professora da área de Língua e Literatura Russa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

25 de Novembro de 2011

Ironia

Posted in Ler faz crescer às 10:04 por sidneif

Por ELTON SIMÕES*

A vida é irônica. Curiosamente, minha inspiração para o hábito da leitura veio de alguém que mal sabia ler: minha avó. Ela nasceu em 1917, na mata da Serra da Bocaina, e passou a maior parte de sua vida em uma pequena cidade, com os pés fincados entre a Via Dutra e as margens do Rio Paraíba. Para ela, nascer já era aprender. Ela veio do mato para a cidade em uma história que não sei nem por ouvir contar. Na cidade, ela aprendeu rapidamente que aprender era o começo de uma vida melhor. Ler era o caminho.

Apesar de ter concluído somente o curso primário, minha avó enxergava as luzes das letras. Não podendo, pelas circunstâncias da vida, ela mesma desfrutar dos benefícios da leitura, ela sempre me incentivou a ler.

Curiosa, sempre que me via com um livro nas mãos, minha avó queria saber do que se tratava o livro. E assim, desta maneira, conversávamos sobre tudo. Discuti com ela literatura moderna e clássica, história do Brasil, tratados de direito, textos de filosofia, e técnicas de administração. Ela tinha opinião sobre tudo e comentários originais que eu jamais seria capaz de pensar.

E foi assim que, graças a alguém que não lia livros, eu me acostumei a sentir o calor do papel nos meus dedos enquanto aprendia uma coisa ou outra nas minhas leituras. Irônica, mesmo, esta vida.

*Elton Simões, administrador de empresas, advogado (não praticante), articulista do Blog do Noblat, mediador e facilitador.

13 de Novembro de 2011

De homens, livros e bagunça

Posted in Ler faz crescer às 10:14 por sidneif

Por ALEXANDRA MORAES*

O meu primeiro livro preferido foi “Flicts”, do Ziraldo, que ganhei da minha madrinha quando comecei a ler direitinho, com seis anos. As páginas muito coloridas que narravam as aflições daquela cor sem lugar no mundo me são muito queridas até hoje.

Alimentei o gosto que surgiu da leitura com livros da escola, revistas e jornais. Tive a sorte de passar parte da infância numa casa em que havia muito o que ler –meu avô assinava dois jornais, revistas e era dono de uma biblioteca misturada com marcenaria, seus passatempos, que chamávamos de “quarto da bagunça”. Ali os netos podiam se aventurar com serrotes, martelos e pregos, brincar de batucar na máquina de escrever ou em calculadoras ruidosas, descobrir as cores de mapas antigos, pesquisar na “Barsa” e desenhar com giz na lateral de um arquivo de aço muito escuro, nossa lousa improvisada. Perdi meu avô pouco antes de completar sete anos, mas o quarto da bagunça sobreviveu até o início da minha adolescência, ainda que sem a marcenaria e sem a presença acolhedora daquela figura.

Aos 12, resolvi me aventurar por livros que ainda não haviam aparecido na lista da escola. Peguei “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, e vi alguma graça ali. Segui no romantismo com “O Guarani”, de José de Alencar, e “Helena”, de Machado de Assis. Dali, parti para o Machado realista, consegui desembaralhar as letras do nome de Kierkegaard e pouco depois conheci algumas das minhas grandes paixões literárias. Gostava de comprar em sebos e de estar sempre com um livro, num certo pedantismo adolescente que, no fim das contas, me fez mais bem do que mal.

Fui acumulando livros por pouco mais de uma década e acabei criando uma versão reduzida –mas eloquente– do quarto da bagunça. Me desfiz de boa parte deles quando o pragmatismo teve de se impor à zoeira. Fiquei com um quinto de tudo o que tinha, mas com tudo o que me parecia essencial de verdade –Machado, Eça, uns russos, uns gregos, tirinhas do “Niquel Náusea” e o “Flicts”, aquilo que valeria reler de tempos em tempos pra testar as mesmas letras sob olhos que, apesar de também serem os mesmos, talvez se prendessem a outras nuances e nódoas. E comprei um Kindle, com a intenção de poder reaver parte dos outros quatro quintos se bater saudade.

*Alexandra Moraes, jornalista e autora das tiras de O Pintinho (opintinho.com.br).

11 de Novembro de 2011

Ler e descobrir

Posted in Ler faz crescer às 08:24 por sidneif

Por VALÉRIA LAMEGO*

Li muito durante toda a juventude. Mas o primeiro livro que, aos 13 anos prendeu minha leitura do inicio ao fim, foi “Primo Basílio” de Eça de Queiróz. Não sei porque o volume caiu nas minhas mãos, mas ali me senti leitora.

Depois foi uma sucessão de leituras juvenis, “A Rapaziada de Jô”, de Louise May Alcott; “Lord of the Flies” de Willian Golding, “Luciola” – de José de Alencar, que li na escola, mas lembro-me como hoje da surpresa da leitura e do encantamento com uma história que por ser obrigatória parecia enfadonha a todos, e não o era; “Escolha o Seu Sonho”, de Cecília Meireles lido e anotado aos 14 anos, até os livros retumbantes de toda adolescência de um leitor: “O Vermelho e o Negro” de Stendhal e “Lobo na Estepe” de Herman Hesse; “Noites Brancas” de Dostoeievksi.

A poesia chegou mais tarde, na casa dos 20, e foi Baudelaire o responsável.

Li o que pude, o que foi possivel dividir com a praia e leio até hoje, descobrindo sempre.

*Valéria Lamego, pesquisadora, escritora e editora.

9 de Novembro de 2011

Liberdade de expressão sempre

Posted in Brasil às 10:15 por sidneif

É repugnante, sim, toda  lama de corrupção que os noticíarios jorram todo dia. Também é inevitável o desacorçoamento,  mercê de tanta impunidade e do incessante cinismo da classe política (o que foi aquilo na posse do novo ministro dos esportes? ). Diante de tanta improbidade, porém, há algo a ser valorizado. Deveras valorizado.

E é exatamente a possibilidade da imprensa descortinar  tantos escândalos. Privilégio de democracia, de lugares que respeitam a liberdade de expressão,  imprensa livre (e há setores da política nacional que insistem em controlá-la, será por  quê?) abre canal entre o coração do poder e o cidadão, permite a esse acompanhar e fiscalizar aqueles que foram eleitos para bem representá-lo e agir como dignos responsáveis da gestão pública.

Haverá sempre questionamentos sobre o intento da mídia, hesitações por causa de alinhamento político dos veículos de informação. Contra isso, entretanto, a  liberdade  de expressão é o providencial remédio.  Quanto mais livre a imprensa  e  mais veículos de informação atuarem,  o país escapa de uma única corrente de informação ( ou de uma incontestável verdade oficial). Caberá sempre ao cidadão avaliar a informação.

Saber de “estripulias” de autoridades não é nada fácil em ditaduras, em países onde há apenas a história oficial.

Celebrar a imprensa parece pouco para um Brasil tão marcado pela impunidade, mas preservar a liberdade de expressão é o começo para sólidas mundanças do comportamento da classe política.  Isso porque junto das revelações de corrupção deve estar nossa sóbria indignaçao, sem espaço para reações  “não tem jeito”, “não há o que fazer” e  “é tudo igual”.

As nossas distintas autoridades não  sonham em se desligar do poder. Qualquer fato que arranhe sua imagem perante a opinião pública (ou especificamente signifique perda de votos) causa-lhes insônia.

Um bom exemplo disso a Folha de São Paulo trouxe semanas atrás: em  resposta à decisão  do Superior Tribunal de Justiça de enxugar as câmaras municipais, o Congresso promulgou   emenda constitucional que permite o aumento do número de  edis. As câmaras municipais, é claro,  estão a aprovar  novas  cadeiras legisladoras – mais vereadores, tudo em nome da “representatividade”.   A boa  nova é que  em  algumas cidades  a farra não se consolidou por que houve manifestação popular ( de abaixo-assinado virtual a outdoors e comparecimento ao plenário da câmara).  O medo de não se reeleger foi bem maior que a tentação de facilitar a prebenda.

Foram poucas cidades, é verdade,  nas quais  tamanho desatino foi impedido. Poucas talvez porque em outras cidades nossa atitude tenha sido a de ficar à sombra . Talvez, falta-nos ainda acreditar que vale a pena  ter vergonha na cara.

Para isso, aceitar e praticar a liberdade de expressão é  um auspicioso começo.

5 de Novembro de 2011

A invenção de dona Luiza

Posted in Sem categoria às 13:59 por sidneif

Por JAIME PINSKY*

Paulista de Sorocaba, filho de imigrantes, desde muito cedo convivi com livros que meus pais liam para mim e para minha irmã, toda noite, antes de dormir. Era algo muito afetivo, mas sem condescendência: eles liam em iídiche, esta língua sonora e complexa, com palavras emprestadas do alemão medieval, do polonês e do hebraico, mas com sonoridade e vida próprias. Para mim, naquela época, havia uma língua culta, essa dos livros dos meus pais e uma vulgar, a que eu falava com meus amigos de rua do bairro do Além Linha. Sem conflitos.

Mas minha iniciação literária não havia terminado. A loja do meu pai tinha uma porta que a ligava a uma biblioteca então desativada, de um clube. Minha irmã, dois anos mais velha (eu tinha cinco anos) já estava na escola e entrava lá para ler durante horas. Eu a acompanhava e exigia que ela lesse em voz alta as histórias de fadas e de dragões, de aventuras medievais e de mosqueteiros destemidos. Feito papagaio de pirata eu ficava atrás dela acompanhando a leitura, linha por linha, até aprender a ler. Quando, com seis anos fui colocado na escola de alfabetização de dona Zizi, era tarde demais. Os cartõezinhos com “nenê, asa, bola, cesta, coração”, que devíamos colocar numa cartela com as mesmas palavras escritas com a letra caprichada da professora não passavam de brincadeira de criança para mim: eu já estava irremediavelmente alfabetizado e irreversivelmente louco por livros. O resto foi consequência.

Dona Zizi nos corrigia com enérgica suavidade. Não deveríamos, dizia ela, dizer “nóis vai, nóis fica” e sim “nós vamos e nós ficamos”. Perguntei à minha mãe como devia lidar com o assunto, já que a molecada achava estranha aquela língua que agora eu aprendia na escola e nos livros. Dona Luiza (minha mãe) foi breve e clara: “aprenda o que te ensinam na escola, para você ser alguém; mas fale a língua dos seus amigos, para você não perdê-los. Dona Luiza inventou a sociolinguística…

*Jaime Pinsky, historiador e editor. 

www.jaimepinsky.com.br

jaimepinsky@gmail.com