22 de Setembro de 2015

Revelações e epifanias

Posted in Ler faz crescer às 16:49 por sidneif


Por RAQUEL NAVEIRA*

“O Mistério da Vida”  (1879), de Carl Marr (1858-1936).

O objeto livro

Sempre fui fascinada pela palavra. Ela é minha forma de ser e estar no mundo. Quando criança, amava as cantigas de rodas, os contos de fadas, o objeto livro. Meu avô era um autodidata, possuía uma rica biblioteca e eu gostava de manusear os livros, de observar figuras à luz de velas.

As asas da imaginação

Logo que comecei a ler, encontrei Monteiro Lobato – foi o abrir das asas da imaginação. Meu avô me levou a Taubaté para conhecer o Sítio do Picapau Amarelo, e lá participei de um concurso da Petrobrás sobre a vida e a obra de Monteiro Lobato. Eu devia ter uns oito anos, foi quando resolvi ser escritora. Escrevia histórias de fadas e bruxas em cadernos. Era meio bruxa e meio fada. O amor pelos livros transformou-se em amor pelo Magistério. Gostava de dar aulas para minhas bonecas, de fazer chamada, de passar lições na lousa. Nasci com vocação para escritora e professora. Dediquei-me ao jornalismo e ao magistério.

Bálsamo e remédio

A poesia veio na adolescência. Como bálsamo e remédio. Creio que “mágoas curam grandes mágoas”, como disse Luís de Camões. Gosto de revelações, de epifanias, de momentos que explodem no cotidiano e que fazem tudo mudar.

De Monteiro Lobato a Mia couto

Sempre fui leitora apaixonada. Desde criança: Monteiro Lobato, Hans Christian Andersen, os irmãos Grimm, As Mil e Uma Noites, Malba Tahan. Na adolescência, a poesia: os românticos, o revolucionário Castro Alves, o genial Álvares de Azevedo, o clássico Gonçalves Dias; os modernistas: Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles. E houve o momento Clarice Lispector. Lygia Bojunga, amiga querida, que passou a me enviar seus livros com lindas dedicatórias. E Nélida Piñon, que narra tudo como Homero. A Literatura Francesa caminhou lado a lado, o francês é minha segunda língua: Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Paul Verlaine. Há a Literatura Latina – sou fascinada por Roma Antiga, pela mitologia greco-romana -, a  latino-americana com o realismo fantástico de Jorge Luis Borges, a  portuguesa: Camões, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, entre outros. E hoje, a literatura africana com Mia Couto à frente. Nunca esquecendo que minha leitura de todos os dias é a Bíblia. Está tudo lá: oráculos, ensinamentos, poesia pura como ouro de Ofir. Com destaque para os salmos, os cantares de Salomão e as cartas de Paulo.

O verbo encarnado

O meu universo é o das palavras. Creio no poder da palavra. Que a palavra é bênção e maldição. Que ela cria o real. Que Deus é o verbo encarnado. Que o reino das palavras é mágico. Que a palavra atrai,profetiza, cura, exorciza, marca com ferro e fogo.

*Raquel Naveira, escritora, jornalista e professora sul-mato-grossense. Conforme sugestão da própria escritora, o texto Revelações e epifanias é formado por trechos de entrevistas de Raquel Naveira concedidas ao Mestre em Literatura Brasileira Ângelo Mendes Corrêa ( São paulo Review, 03/08/2015, link http://saopauloreview.com.br/a-leitura-e-a-literatura-sao-a-base-de-tudo/) e ao jornalista Carlos Herculano Lopes (O Estado de Minas, 15/03/2014);

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