6 de Setembro de 2018

Sobre a leitura

Posted in Ler faz crescer às 16:38 por sidneif

Por KATIA GERLACH*

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“Duas meninas lendo” (1934), de Pablo Picasso (1881-1973)

Antes do alfabeto, os gestos, os olhares, as almas, os céus, os mares. Antes das páginas, as sensações do corpo, os batimentos, os passos, os contornos. Antes dos livros, as ideias, as emoções, as digressões.

De modo consciente ou não, não paramos de ler. Acordamos e, com alguma memória, lemos as nossas noites passadas. Não há nada mais encantador do que ler os olhos de alguém, estabelecer um laço ótico que se traduza na possibilidade de páginas e páginas escritas. Ou o mistério da leitura da palma da mão, as linhas do destino assimilando os desenhos da vida. Portanto, a experiência da leitura é intuitiva, orgânica, humana, força criadora, inevitável.

Aprendi a ler através da letra “v” aos quatro anos. Senti pressa em ler. Era urgente perder aquela espécie de cegueira. Quis decifrar as letras para que o mundo não me enganasse, para que eu pudesse checar nas enciclopédias aveludadas os fatos.

A Nazaré cuidava de mim naquela época. Foi a minha terceira avó, levava o pó de café usado para casa a fim de tostá-lo de novo no forno, concertava bonecas e vestia-as como ninguém, às vezes enlouquecia e desaparecia para voltar ao mesmo lugar dias depois.

Lembro das mãos da Nazaré, as unhas pintadas cor de rosa, impressão digital nos documentos de identidade e a inutilidade dos dez dedos que teriam em segurar um livro, folhear páginas. Naná morreu analfabeta, com os bolsos cheios de bilhetes com números de ônibus, e eu continuo a ler por nós, para que possamos aproximar os nossos universos.

 

*Katia Gerlach, escritora. Natural do Rio de Janeiro e radicada em Nova York, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law, e professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas. Corpo docente da Universidad Desconocida do Brooklyn sob a reitoria de Enrique Villa-Matas. Participação no Disquiet International Program em Lisboa através de estipêndio pela Fundação Luso-Americana, FLAD. Agraciada pelo programa da New York Foundation for the Arts, Artes Literárias.  Publica no Jornal Rascunho e na Revista Cenas (Centro Cultural Raimundo Carrero).  Colunista da Philos – Revista de Literatura da União Latina. Autora de “Jogos (Ben)ditos e Folias (Mal)ditas” (Editora Oito e Meio, 2017), “Colisões Bestiais (Particula)res” (Editoria Oito e Meio, 2015), “Forasteiros” (Dulcineia Catadora, 2013), “Forrageiras de Jade” (Dulcineia Catadora, 2009).

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Bons livros, a gente escala

Posted in Ler faz crescer às 16:36 por sidneif

Por CARLA BESSA*

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“La liseuse” (Ca 1880-1890), de Jean-Jacques Henner (1829 -1905)

Há uma passagem em O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, na qual o protagonista diz: “O que realmente me impressiona é um livro que, quando você acaba de lê-lo, você deseja que o autor que o escreveu fosse um amigo incrível seu e que você pudesse ligar pra ele quando sentisse vontade. Isso não acontece muito, no entanto.”

De fato, para mim, gerar essa intimidade e cumplicidade com um bom livro é como encontrar um amigo de verdade, alguém com quem se pode dividir o silêncio sem medo, com quem se pode estar junto e ao mesmo tempo só. “Não acontece muito, no entanto.”

E, assim como ocorre com amigos, há livros que você reconhece de cara, a simpatia é imediata e vocês já vão saindo de mãos dadas. Caminham juntos por um tempo, voltando a certas frases e espreitando as entrelinhas com a voracidade do reconhecimento. Depois, e quase sem que se perceba, cada um segue seu rumo e quando vocês se dão conta, já se perderam de vista. Mas pode muito bem acontecer de se reencontrarem anos mais tarde e retomarem o fio daquela meada que ficou pela estrada. Então, o livro já não é só o texto escrito ali, mas um verdadeiro diálogo com o tempo, e isso tem a força de uma epifania. Mas “não acontece muito, no entanto”

Atualmente, dois desses “amigos” vêm me acompanhando pelos meus descaminhos, carrego-os para cima e para baixo, na maior parte do tempo nem conversamos, mas sei que estão ali e o seu silêncio me ampara e me guia. São eles: Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato e Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues. A linguagem desses dois autores foi para mim um susto e um encantamento, me pegou em cheio, me incomodou, me desnorteou. (O mesmo ocorreu com Guimarães Rosa).

Gosto de livros que são como terrenos pedregosos ou montanhas altas, são difíceis de escalar, mas quando se chega finalmente lá em cima, a vista é mais vasta. Gosto de leituras que não entendo de cara como simpatizo com pessoas complicadas e malcomportadas. Porque me levam a repensar o que se tornou óbvio, a trocar de perspectiva, a questionar a norma. Acho que é isso que procuro nos livros. “Não acontece muito, no entanto.”

*Carla Bessa , Tradutora literária e escritoraEstudou teatro no Rio de Janeiro. Em 1991 emigrou para a Alemanha onde trabalhou por 15 anos em teatros alemães, austríacos e suíços como atriz e diretora. Atualmente, vive entre o Rio e Berlim e é tradutora literária e escritora. Seu primeiro livro de contos, “Aí eu fiquei sem esse filho”, foi publicado em 2017 pela editora Oito e meio, do Rio de Janeiro. Além disso, tem contos publicados em vários blogs literários e revistas online como a Revista Lavoura, Revista Gueto e Revista LiteraLivre. Como resenhista, colabora regularmente com o Jornal Rascunho.

O que a memória ama fica eterno

Posted in Ler faz crescer às 16:31 por sidneif

Por ALESSANDRA BARCELAR*

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“Beatrice” (1896), de Marie Spartali Stillman ( 1844–1927)

Geralmente, quando a pergunta é sobre livros marcantes em minha vida, costumo evocar a mais antiga memória ou o que tenho dela.

O Inicio é algo gravado e começa, acredito eu, com 7 ou 8 anos, quando descobri Coração de Vidro, de José Mauro de  Vasconcelos, não que antes nunca havia visto uma fábula ou história, mas o mergulho, a viagem e a inquietação, com certeza, aconteceram com esse livro.

Não sei ao certo se isso ocorreu por o ambiente ser narrado em uma fazenda ou pela realidade crua. Mas o tom melancólico dos contos me inquietaram, foi a primeira vez que chorei, ali percebi qual era realmente a função da leitura, através da percepção da natureza humana.  Lembrei-me de um amigo que citou uma frase de Rubem Alves ao falar desse livro: “ Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno”.

Outro livro que me marcou profundamente, até pela precoce leitura, foi  Exodus, de Leon Uris, digo precoce porque ele me chegou quando ainda era muito jovem, 13 ou 14 anos. É um livro de quase 900 páginas, na época que li eram divididos em 3 volumes, porém não recordo editora. A importância de Exodus para mim foi por ser meu primeiro livro histórico.  O  livro conta a formação do Estado de Israel, e a capacidade de Uris contar histórias fez da obra algo inesquecível para mim. Foi através desse livro que comecei entender a necessidade de recorrer a outros recursos para compreender uma história e me localizar no tempo e espaço da narrativa. E, de modo consequente, o livro foi o “embrião” para a escolha acadêmica anos depois.

Claro que depois disso, vieram muitos, vários outros livros excelentes, necessários, importantes, já que procuro estar sempre envolvida em trabalhos com leituras, mas esses dois realmente foram um marco, o primeiro pela descoberta do poder da leitura e o segundo pela identidade.

11160672_1079890318693756_2536729381978102914_n*Alessandra Barcelar é Historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, e atua na área de Gestão Hospitalar e Economia da Saúde. Publicou em algumas revistas literárias do Brasil e Portugal . Colaborou com a “Antologia Mitos Modernos I”, a qual foi premiada com o Prêmio Le Blanc de Arte Sequencial, Animação e Literatura Fantástica , livro esse com previsão de lançamento em 2018. 

17 de Agosto de 2018

Como me tornei uma leitora

Posted in Ler faz crescer às 17:13 por sidneif

Por DIVANIZE CARBONIERI*

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“A leitora”, de Armin Glatter (1861-1916)

O processo de me tornar uma leitora foi longo, mas parece que nada poderia impedi-lo. Encontrava-se ali em gérmen desde o início e foi se desenvolvendo conforme fui crescendo. Quando eu ainda não estava na escola, ficava um período do dia na casa da minha avó. Na casa dela, tinha um quintal enorme com um quartinho ou barracão nos fundos. E lá dentro estava guardada uma infinidade de livros que tinham sido dos meus tios. Eu ficava folheando e imaginando, porque ler mesmo não sabia. Mapas, desenhos de navios, fotos iam me fazendo admirar cada vez mais os livros e desejar conhecer o seu conteúdo. Identifico que esse foi o começo do meu fascínio, que dura até hoje.

Depois eu entrei na escola e aprendi a ler. Minhas irmãs iam até a biblioteca municipal buscar livros para elas e traziam para mim também. Toda semana praticamente chegava um livro diferente, e ainda me lembro de alguns títulos: Rosinha, minha canoa (José Mauro de Vasconcelos), O menino do dedo verde (Maurice Druon), Memórias de um cabo de vassoura (Orígenes Lessa), As letras falantes (Orígenes Lessa), entre outros. Isso durou vários anos. Lia ainda muitos gibis que eu comprava na banca da praça onde tomava ônibus para voltar para casa depois da escola. O dono da banca às vezes deixava eu ficar devendo para pagar no outro dia. Acho que todo dia eu comprava um. Eram principalmente histórias da Turma da Mônica, do Maurício de Sousa, que tiveram o mérito de tornar minha leitura cada vez mais rápida.

Com uns 10 anos, eu já andava de ônibus sozinha e podia ir quando quisesse à biblioteca no centro da minha cidade. Era possível entrar no acervo, que ficava dentro do que parecia um cofre. Na verdade, era um recinto com uma porta-forte. Eu andava pelos corredores cheios de prateleiras e escolhia os livros a esmo. Um por semana, mais ou menos. Depois ficava surpresa porque o novo sempre tinha a ver com o anterior. Lia coisa apropriada pra minha idade e coisa que não era. Ninguém censurava o que eu lia.

Na escola, a gente também lia muito. Acho que eram quatro livros de literatura por semestre, normalmente de autores canônicos, como Monteiro Lobato, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis. A gente lia e fazia prova sobre os livros. Alguns colegas não gostavam, mas eu sempre gostei. Aliás, até hoje eu gosto de ler esses romances oitocentistas: é como entrar numa realidade virtual, num filme de época. Também tinha que escrever uma redação por semana. Isso tudo antes dos catorze anos.

Na minha adolescência, alguns livros não eram recomendados pela escola, mas se tornaram uma febre: Eu, Cristiane F., 13 anos, drogada, prostituída (Kai Hermann; Horst Rieck), Feliz ano velho (Marcelo Rubens Paiva), As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley). Li todos eles e muito mais coisa. Nessa época, desenvolvi um grande interesse pelos romances e autobiografias que tratavam das experiências de seus autores durante a ditadura militar, como O que é isso, companheiro? de Fernando Gabeira e Metade arrancada de mim de Izaías Almada. Além da literatura, história, sociologia e filosofia foram se tornando assuntos cada vez mais recorrentes nos livros que emprestava da biblioteca. Ao final da adolescência, eu já era uma leitora competente, e meu amor pelos livros, com o tempo, acabou se transformando em profissão, já que hoje sou professora de literatura numa universidade federal e escritora.

 

*Divanize Carbonieri, doutora em letras pela Universidade de São Paulo, atuando como professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Federal de Mato Grosso. É autora de “Entraves” (2017), agraciado com o 2o Prêmio Mato Grosso de Literatura na categoria Poesia, e de “Grande depósito de bugigangas” (2018), selecionado pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá. Foi finalista do Prêmio Off Flip 2018 – Poesia e selecionada para integrar a antologia “Um girassol nos teus cabelos” (2018), organizada pelo Mulherio das Letras em homenagem a Marielle Franco. Participa também de outras diversas coletâneas.

Ao Bósforo…

Posted in Ler faz crescer às 17:05 por sidneif

Por ANA CRISTINA DE AGUIAR*

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“The Bosphorus with the Two Forts, Fumble Hisan and Anadolu Hisan” (1855), de Count Amadeo Preziosi (1816-1882)

Há um tempo que o Médio Oriente me fascina, mais precisamente, desde que comecei a ler sobre a escrita corânica, que é tida pelos islâmicos/muçulmanos como via de comunicação direta com Deus e cujo encanto das formas e arabescos visa simbolizar esta relação com o sagrado. A suprema beleza contida e expressa nos caligramas, textos poéticos escritos em forma de ornamento, por mãos hábeis e delicadas, muitas vezes com tintas de ouro ou misturas secretas, revelam a grandeza de uma cultura que, infelizmente, muito se desgastou com o tempo, com as guerras, com as inúteis e desumanas querelas étnicas…
Também no livro O segredo do calígrafo (de Rafik Schami, ambientado na Damasco dos anos 1950), encontrei belíssimos relatos sobre essa arte da caligrafia, tão desconhecida de nós, ocidentais afobados e utilitaristas, enlouquecidos para que tudo tenha uma finalidade prática e rápida; tristemente negligentes com a sacralidade da arte pela arte, da beleza pela beleza, do detalhismo e do culto à ornamentação como forma de reverência ao divino, entendido a critério do freguês.
E meu amor por essas artes estendeu-se para as plagas orientais e desembocou na mítica Istambul (antiga Constantinopla, capital do Império Otomano), quando, em 2009, li o livro de mesmo nome, de Orhan Pamuk. A Turquia é um país laico, apesar de a maioria da população ser muçulmana, e tem localização geográfica particular – situa-se entre dois continentes – contando com duas capitais, a política, Ancara, e a histórica, Istambul.
Para o meu arrebatamento definitivo, contribuiu o filme O Tempero da Vida (de Tassos Boulmetis, 2003), que só pode ser degustado assistindo-se; nenhuma descrição daria conta do cheiro das especiarias, do burburinho das ruas e da singela relação de amor que nasce entre um homem e uma mulher ainda na infância, brincando entre montes de temperos e especiarias num empório tipicamente regional.
Gostaria muito de contemplar o Bósforo, por onde circulam os barcos e a fumaça que expelem, tão apreciados por Pamuk. Em suas palavras, “quando a balsa e o vento mudam ligeiramente de posição, a fumaça que sai da chaminé começa a contorcer-se e descrever curvas acima do Bósforo, lembrando a escrita árabe.” Quisera poder flanar pelas ruelas pitorescas e entrar em lojinhas, armarinhos, ateliês e o que mais houver para me inebriar com a cultura de ouro que ainda sobrevive por lá, mesmo com as agruras do velho tempo.
Gostaria muito, enfim, de ver o Bósforo assim, como o relata Pamuk, referindo-se à sua infância na cidade:
“[…] Em pouco tempo, lancei-me em novas e ousadas experiências. Toda manhã, depois que meu primo saía de casa para o liceu alemão, eu abria um dos seus livros imensos, grossos, lindos (era uma edição Brockhaus, acho) e, sentado a uma mesa, copiava as suas linhas. Como eu não sabia alemão, e nem mesmo ler, fazia aquilo sem nenhuma compreensão, desenhando, por assim dizer, a prosa que via à minha frente. Desenhava uma cópia exata de cada linha e de cada frase. Depois que terminava uma palavra que contivesse uma das letras góticas mais difíceis (um g ou um k), fazia o mesmo que os miniaturistas sefévidas depois de desenharem uma a uma os milhares de folhas de um plátano imenso: descansava os meus olhos contemplando os espaços entre os edifícios, os terrenos baldios e as ruas que desciam na direção do mar, e seguindo os barcos que passavam pelo Bósforo nas duas direções.”

 

*Ana Cristina de Aguiar, formada em Linguística, com Mestrado e Doutorado pela Unicamp. O doutoramento, em linhas muito gerais, é sobre a aquisição do sistema de pontuação na escrita da criança e seus imponderáveis, seus imprevistos, sua razão própria. “Também refleti um pouco sobre o estilo de alguns escritores, cuja pontuação subverte o canônico, e passeei pela escrita de línguas não-ocidentais, nas quais a pontuação tem valor diacrítico. Um patchwork que, ao final, ficou bonito!”

“Minha história com as palavras vem de muito cedo, sempre gostei de ler e de me transportar para os enredos que estavam nas páginas em minhas mãos. Cheguei a passar em Direito, numa excelente universidade, mas quando saiu a lista dos aprovados em Letras e Linguística, fui sugada. Atualmente percebo que o Direito também teria sido uma opção interessante para mim, e ele não invalidaria um trajeto de leitura e escrita, porém estar num universo voltado especificamente às palavras e frases e textos acabou se impondo. Sou escritora e poeta amadora e minha primeira publicação aconteceu este ano, com um poema na coletânea “Damas entre Verdes”, do selo e coletivo Senhoras Obscenas. Também me dedico à tradução de poesia norueguesa (visando me exercitar para futuramente oferecer algo para publicação). Colaborei, brevemente, com a página Um poema nórdico ao dia. Atualmente, estou mergulhada na tradução de um livro do norueguês para o português. Já fiz traduções do inglês e alguma coisa do francês. Meu amor é a palavra, publicada ou não, em português ou não, compreensível ou não (sou capaz de me encantar com palavras de línguas estrangeiras só pela sonoridade, pela morfologia que eu tento destrinchar, pela semântica que busco decifrar…). E eu acredito piamente no poder civilizador e engrandecedor da leitura.”

10 de Agosto de 2018

Expansão e implosões

Posted in Ler faz crescer às 17:01 por sidneif

Por CRISTINA JUDAR*

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“Open Air Concert” (1890), de Lilla Cabot Perry (1848–1933)

Mais do que crescimento, a leitura/literatura gera expansão e implosões. Depois de certos trechos, com os quais você toma contato com o pensamento do escritor, você continua a mesma, mas às vezes sem se reconhecer naquilo que era antes. Você pode viver ritos de passagem de natureza secular entre um parágrafo e outro. É como se em você não houvesse mais espaço pra aquilo que não cabe após certas iluminações.

Um marco, da minha infância pra adolescência, foi a personagem Jo, de Louisa May Alcott, em seu romance Little Women (Mulherzinhas), numa edição embolorada da coleção de livros do meu pai. Esse livro me ensinou muito sobre as possibilidades do masculino que havia no feminino, o que foi algo de importância fundamental e, arrisco dizer, é até hoje. Aquela passagem crítica, em que ela corta e vende seu cabelo longo por causa de uma necessidade financeira da família, também representou, simbolicamente, um mundo de necessidades interiores e latentes da personagem que, desde o início, já trazia em si várias inquietações em relação a aquilo que ao “ser mulher” estava reservado no contexto histórico e social da época em que se passa a narrativa. (Assim como suas irmãs, eu habitei aquele sótão de concílios e elaborações, viveiro de almas que ali se aglutinavam intencionalmente para que pudessem viver a liberdade artística).

Jo precisava daquele cabelo cortado, assim como sua família necessitava do dinheiro. Sua dor diante da perda é o luto que vivemos em momentos de mudanças e descobertas radicais. Foi uma morte necessária para que outras vidas viessem. A partir daí, como mulher e escritora, Jo submergiu. E eu estava na sua cola.

Outro livro que me fez expandir do solo ao céu foi On The Road (do beat Jack Kerouac), lá pelos meus 21 anos, emprestado de um amigo da minha irmã que estudava cinema. Não sei se o trecho é exatamente dessa forma, mas foi assim que o memorizei: “se os governos quisessem mesmo que toda a cárie da população mundial fosse eliminada de vez, já haveria a possibilidade de, de forma barata, generalizada e eficaz, ser fabricada uma pasta dental capaz de evitar o surgimento de todos os problemas dentais”. 

Assim como esse, permaneceram na minha mente diversos pensamentos revolucionários da época, que me deslocaram do espaço, até então concedido à literatura, que havia no meu pensamento. On the Road foi fundamental, sem dúvida.

foto_nova*Cristina Judar é escritora e jornalista, autora das HQs “Lina” (Editora Estação Liberdade) “Vermelho, Vivo” (Devir), do livro de contos “Roteiros para uma Vida Curta” (Finalista e Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014) e do romance “Oito do Sete” (contemplado pelo ProAC de Prosa) – ambos publicados pela editora Reformatório. É coautora do livro-arte “Luminescências” e criadora do “Questions For a Live Writing”, projeto de prosa poética desenvolvido na Queen Mary University of London. É uma das editoras da revista de arte e cultura LGBT “Reversa Magazine”, além de integrante do conselho editorial da revista de literatura e artes visuais “Theodora”.

Ler é perigoso

Posted in Ler faz crescer às 16:57 por sidneif

Por MARTHA GOMES*

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“Ophelia / Pause for Thought” (1870), de Pierre Auguste Cot (1837-1883)

Minha infância foi cercada de histórias. Vovó contava seus “causos” de Mato Grosso e do Paraná, lugares onde viveu boa parte da sua vida. Com isso, cresci ouvindo histórias reais, de doer e de sorrir. Algumas pareciam de ficção. Essas eram as de que eu mais gostava. Recitava, também, poemas que eu amava: “quem passou por essa vida em brancas nuvens, (…) quem passou por essa vida e não viveu, foi espectro de homem, e não homem, só passou pela vida, não viveu”. Só fui saber o que era espectro já mocinha, quando comecei a viver entre eles numa depressão que quase me custou a vida. Mas isso já renderia outro texto.

Em casa, lembro-me de uma enciclopédia ilustrada que punha aberta em frente às bonecas. Minha primeira experiência como professora. Chapeuzinho Vermelho e outros contos conheci na escola.

Aprendi a ler cedo, o que me fez pular a primeira série e repetir a segunda. Gostava de escrever, sabia muitas histórias de cor, mas fui reprovada em ciências ao colocar, em uma figura do corpo humano, o fígado no pé. Minha mãe foi chamada à escola para a professora lhe contar o acontecido, o que me rendeu uma bronca de mentirinha e boas risadas até em casa.

Meu pai escrevia “pensamentos”. Vivia com o dicionário embaixo do braço. Minha avó me ensinou a amar histórias, meu pai a respeitar as palavras. Com isso, cresci fazendo poemas que guardava em caixas que perdi em alguma mudança. Meus tios e primos também gostavam de escrever e diziam: – Está no sangue!

O tempo passou e, já adulta, depois de ter meus três filhos, fiz minha faculdade de Letras. Achei que iria deslanchar na escrita, afinal já tinha certa experiência com as palavras e uma bagagem de histórias na cabeça.

Qual não foi minha surpresa ao entrar na faculdade e aprender a enquadrar tudo que vivia solto na minha memória. Travei. Fiquei anos sem escrever. Afinal, como uma profissional da escrita não poderia “errar”. Isso durou muito tempo. Li vários livros enquanto minhas mãos se recusavam a rabiscar uma linha. Apaixonei-me por Machado de Assis. O fascínio pelos clássicos adquiri nas aulas de literatura. Isso fez valer minha faculdade inteira.

Já no final do curso, comecei a frequentar umas rodas de poesias. Na época, os chamados Saraus Literários. Fui percebendo que poderia brincar com as palavras. Que não havia necessidade de tanta rigidez e, aos poucos, fui me lançando novamente no mundo da escrita. Vez ou outra, escrevo umas coisinhas.

Gosto muito de estimular o fomento à leitura literária. Aliás, trabalho com isso. Ler e escrever é direito de todos, como bem escreveu Bartolomeu Campos de Queirós em seu “Manifesto por um Brasil literário”. No mundo da literatura, cada um dá sentido ao que lê.  Deve ser por isso que alguns dizem que ler é perigoso…

 

*Martha Gomes, formada em Letras – Português/Literatura – Universidade Federal Fluminense (UFF), pós-graduada em Leitura e Produção Textual – UFF, pós-graduada em Literatura Infantil e Juvenil – UFF, integrante da Gerência de Leitura e Audiovisual da Prefeitura do Município do Rio de Janeiro, agente de leitura em uma biblioteca escolar do Estado do RJ, parceira do Blog Livros para todas as idades com a coluna “Lendo com Martha Gomes”, participante do GT de cinema da UFF.

Ler é viver

Posted in Ler faz crescer às 16:51 por sidneif

Por DOMINGAS ALVIM*

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“A Melancolia no Jardim da vida” (1558), de Matthias Gerung (15001-570)

Desde criança eu tive a sorte de poder viver rodeada por livros. Meus pais sempre leram muito, de modo que a leitura sempre me pareceu um hábito natural, quase que uma obrigação muito prazerosa.

Antes mesmo de ser alfabetizada, o livro já me era um companheiro. Eu os usava para fazer mesinhas, cadeiras, construir casinhas de livros, rabiscá-los (sim, meu pai quase morria, mas sabia que aquilo era parte de uma vontade minha de poder, de algum modo, me relacionar com aquelas coisas de papel e, por isso, deixava). Desse modo, a leitura para mim era quase o mesmo que tomar banho ou escovar os dentes. Um hábito diário.

Meu pai, todos os dias, me lia histórias antes de dormir. E me lembro também de que, desde uns três anos, eu já tinha uma vitrolinha — anos 80, gente — com disquinhos cheios de historinhas que eles colocavam para eu sossegar. Em vez de tablet e celular, era o livro — ou a leitura — que me punha quieta, focada num mundo paralelo. E foi assim que eu cresci.

Eu me lembro de que, lá pelos nove anos de idade, minha mãe tinha dificuldade de me tirar de casa. Recordo-me dela me falando: ‘mas, filha, hoje é domingo, tá um sol imenso lá fora, um calorão, vamos para a praia com seus primos!’ E eu: ‘não, mãe, podem ir vocês. Eu vou ficar aqui em casa com a minha avó. Ela vendo televisão e eu lendo no quarto.’ Ela se ressentia. Não entendia como uma criança poderia preferir ficar em casa lendo do que estar vivendo, na vida real, a praia com os primos. No fundo, eu sentia que a vida real ficava era muito sem graça perto das aventuras que eu estava tendo. Eram heróis e heroínas, vilões, animais, selvas, desertos, viagens ao centro da terra, tanta coisa tão mais interessante do que apenas mais um dia de sol na praia (risos). Claro que entendo que eu passava um pouco dos limites com minha fixação em meus livros. Sei lá. É que eu achava – e continuo achando – que ler era viver a vida de muitas vidas. Ler era viver mil e uma vidas em uma. Era poder ser todos os personagens de cada livro que eu lia e entender o mundo por milhares de perspectivas muito mais amplas do que apenas a minha.

Acho que a leitura influenciou bastante a pessoa que sou hoje. Fui, de certo modo, formada por muita gente feita de palavras, gente de papel. Pessoas que me deram importantes lições, que me trouxeram mundos desconhecidos, que me abriram muitas portas. Sou muito grata a todas elas, a esses seres de ficção e também a seus autores.

Daí, acho que a escrita foi mera consequência. Comecei a querer criar meus próprios mundos. Senti a necessidade de escrever as histórias que eu queria ler e, assim, ver que, com as palavras, nós, escritores, podemos tocar pessoas. Toda palavra escrita é um toque sem mão. E talvez por isso consiga muitas vezes tocar mais fundo. Lá, lá no fundo, a alma do coração.

 

*Domingas Alves, escritora, consultora e professora de Escrita Criativa & Expressiva. http://www.domingasalvim.com/

3 de Agosto de 2018

Um vício sem cura

Posted in Ler faz crescer às 16:50 por sidneif

Por ANA EMÍLIA CARDOSO*

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“Lendo Orfeu n.º 2”, de Almada Negreiros (1893-1970)

Um grande momento como leitora? Ainda ontem tive um. Estava dividida entre a maravilhosa autobiografia de Oliver Sacks, Sempre em Movimento, e o último livro do meu autor preferido, David Sedaris, Calypso.

Ler é algo que me transporta para outro planeta. Se eu pudesse, passaria muitas horas do dia lendo. Toda vez que eu descubro um autor de que gosto, não sossego enquanto não ler tudo que ela ou ele escreveu.

Foi assim com Elena Ferrante e Rosa Montero neste verão, com Truman Capote quando estava na faculdade e com a alemã Angela Sommer-Bodenburg, que escrevia as aventuras do Pequeno Vampiro, quando eu tinha uns 10 anos. Ler é um vício, felizmente sem cura.

 

*Ana Emília Cardoso, Mestre em Sociologia, escritora, professora e palestrante. Autora do best seller “A Mamãe é Rock”, fundadora e coordenadora do projeto cultural Bonne Chance; trabalha na start up Canal Bloom. https://anaemiliacardoso.com/

Livro: relicário de paixões

Posted in Ler faz crescer às 16:47 por sidneif

Por ANNA APOLINÁRIO*

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“Decorative Lamp. Woman Reading a Book” (1793-1800 – model of 1780), de Louis-Simon Boizot (1743-1809) e H. F. Vincent (1733-1809)

“A literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade.”

 (Antonio Candido)

A paixão pelos livros é algo que carrego desde a infância, cresci tendo acesso a livros e à leitura, nesse ambiente favorável tornei-me leitora dedicada. Na escola, o gosto pelas aulas de português e literatura era predominante, eu devorava tudo, de paradidáticos a quadrinhos, mas a poesia sempre me pegava mais, forte e avassaladora, em tenra adolescência, a descoberta de poetas como Augusto dos Anjos, Murilo Mendes, Cecília Meireles, entre tantos outros. Bibliotecas são, definitivamente, meus lugares preferidos, em que me sinto acolhida e livre, aprecio corredores com estantes apinhadas, amo o silêncio e o mergulho abissal num bom livro.

Leitura sempre me foi algo vital, e foi através da formação como leitora que foi moldada a minha produção como escritora, o meu fazer poético. Anos de leitura e bagagem literária alimentam minha escrita, saciam a fome da alma, sempre em busca de beleza, conhecimento e vida. Dentro dos livros há sempre algo que não tem nome, algo que pulsa poderosamente, brutal e sublime, alquímico, capaz de transformar e recriar a realidade, tocando e moldando profundamente o humano.

São muitas as obras marcantes na minha caminhada como leitora, mas alguns são devastadores e inconfundíveis, então há este livro que me trouxe uma febre lírica alucinógena, gritos e rasgos de amor, morte em bico de rapina, estou falando de Ariel, livro de poemas da Sylvia Plath. Eu havia acabado de ingressar na faculdade, no fulgor de meus vinte anos, era um dezembro quente, e eu me vi arrastada por aqueles poemas, a voz impiedosa e rutilante daquela mulher, um sibilo percorrendo todos os meus poros, acessando de maneira única o cerne de minha sensibilidade. Outro livro arrebatador, cuja leitura me colocou em transe, foi Lavoura Arcaica, do grande Raduan Nassar, um romance que nos destrói, tamanha beleza e voltagem poética.

Como não se sentir violentado pela gramática cruel de Herberto Helder, ou tremendamente atiçado pelos versos de Hilda Hilst? Eu poderia tecer inúmeras considerações sobre inúmeros livros, a literatura é fonte infinda, canto incessante que fascina e engrandece, um deleite necessário, um direito irrevogável.

*Anna Apolinário é poeta. Publicou “Solfejo de Eros” (CBJE, 2010), “Mistrais” ( Prêmio Literário Augusto dos Anjos, 2014) e Zarabatana (Patuá, 2016).

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