25 de Maio de 2020

A obra que toca o leitor

Posted in Ler faz crescer às 16:46 por sidneif

Por MAÍRA GOMES*

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“Retrato de Adelaïde Simonovich” (1889), de Valentin Serov (1865 – 1911)

Me lembro de estar sentada na velha cadeira de balanço, perninhas balançando, segurando um livro do Ziraldo. O Menino Maluquinho foi o primeiro livro que “li”. Na realidade, eu decorei o livro de tanto que os adultos liam para mim. 

Meu pai gostava de impressionar os amigos dizendo que a filha de 2 anos já sabia ler. Os olhares admirados eram seguidos por expressões de incredulidade e, por fim, decepção com a própria ingenuidade. Aquele cotoco de gente não sabia ler, tinha era boa memória.

Aquele exemplar de O Menino Maluquinho me acompanhou durante a primeira infância e praticamente se desintegrou. No entanto, continuei mantendo uma relação afetiva com a obra que, de tão profunda, foi também a primeira “leitura” do meu filho, aos 15 dias de vida.

O Menino Maluquinho garantiu seu lugar de honra na minha vida de leitora e mais tarde passou a dividir espaço com os gibis da Turma da Mônica. 

Como eu amava (e amo) as histórias e as personagens criadas por Maurício de Sousa!

O domingo de manhã era reservado para as idas ao hortomercado, padaria e banca de jornal.  As horas seguintes eram de paz para minha mãe, já que eu me debruçava sobre as revistinhas e lia de uma só vez, ansiosa pelo próximo domingo.

Se Ziraldo e Maurício de Sousa foram responsáveis pelo nascimento da Maíra leitora, Pedro Bandeira, com seu A marca de uma lágrima, foi responsável pelo surgimento da Maíra escritora. Lembro de ler, reler e suspirar com os poemas de amor escritos pela protagonista, Isabel. Hoje, 23 anos depois daquela primeira leitura, releio a obra com frequência para me reconectar com a adolescente que um dia fui.

Pedro Bandeira tornou-se meu grande ídolo literário e, recentemente, tive a felicidade de entrevistá-lo. Dizer ao Pedro como ele mudou minha vida, agradecê-lo por ser como ele é, generoso, talentoso e humilde, foi definitivamente um momento que nunca vou esquecer.

Caminhando para a publicação do meu terceiro livro e depois de entrevistar dezenas de profissionais do mercado literário, a reflexão que faço é sobre a influência dos autores e suas obras na vida das pessoas. Se eu puder tocar um único leitor como Ziraldo, Maurício e Pedro me tocaram, terei cumprido meu papel como escritora.

 

*Maíra Gomes, jornalista e escritora.

https://linktr.ee/mairagomes_oficial

21 de Maio de 2020

A literatura da voz

Posted in Ler faz crescer às 17:23 por sidneif

Por MARCO HAURÉLIO*

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“A família” (1925), de Tarsila do Amaral (1886-1973)

Eu nasci numa localidade rural, a Ponta da Serra, encravada no alto-sertão da Bahia, na zona de transição entre a caatinga e o cerrado; um arruado de três casas apenas, uma delas, que pertencia a um irmão de minha avó já falecido, vazia, a da minha avó Luzia Josefina, e a de meu pai. À frente das casas, uma igreja de adobe, caiada, construída por meu bisavô paterno Ramiro José de Farias, o Major Ramiro, um famoso curador (rezador), personagem de um ciclo de histórias que convergiram, naturalmente, para a lenda. Durante a semana santa, era intenso o fluxo de pessoas por conta da devoção ao Bom Jesus Senhor dos Passos, que incluía uma peregrinação ao topo da serra, onde meu bisavô fincara um cruzeiro, e a via-sacra, entre a igreja e o cemitério, também construído pelo Major Ramiro, espaço que possibilitava a recriação do trajeto de Jesus, em 14 estações, desde o pretório de Pilatos ao Gólgota, onde foi crucificado. No cemitério, sob uma latada, os fiéis rezavam orações “fortes”, como O Sonho de Nossa Senhora e Na Porta das Almas Santas, além do Ofício de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Ponta da Serra.

Minha avó Luzia era de compleição frágil, mas sempre altiva e orgulhosa por ser uma das poucas sertanejas do lugar que “tinha leitura”. E fazia questão de manter uma pequena biblioteca, que incluía livros de Renato Sêneca Fleury, o clássico Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, uma adaptação de Ali-Babá e os Quarenta Ladrões, da Melhoramentos, e coletâneas de orações, como o Porta do Céu. Também guardava na gaveta de um armário que ficava na sala uma grande quantidade de folhetos de cordel, incluindo João Soldado, de Antônio Teodoro dos Santos, Os Olhos de Dois Amantes por Cima da Sepultura, de Cícero Vieira da Silva, e Juvenal e o Dragão, de Leandro Gomes de Barros. Meu pai Valdi, o seu caçula, também possuía uma pequena biblioteca, e a joia da coroa era uma coleção em capa-dura, da extinta editora Spiker, da obra de Machado de Assis. Esse acervo ia sendo enriquecido à medida que apareciam os vendedores porta a porta, e eu me recordo de quando ele adquiriu uma coleção da editora Rideel, que trazia uma adaptação de As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e uma antologia de contos infantis, composta, em sua maioria, por contos recolhidos pelos Irmãos Grimm.

Mas, nesse período, ou um pouco antes, já que minha avó veio a falecer no início de 1983, um ano depois da partida de meu avô Joaquim, eu já havia mergulhado no maravilhoso mundo da literatura de cordel nordestina, chegando a aprender, na integra, alguns romances longuíssimos, recitados nas cozinhas das casas de parentes, a troco de algumas moedas. Comecei a escrever ainda bem cedo, inventando enredos fabulosos, ambientados em reinos imaginários, e histórias “reais”, contadas pela família, além de testamentos de judas e quadrinhas soltas. Os contos populares, narrados por minha avó ficaram vincados em minha memória. Belisfronte, A Moura Torta, Maria Borralheira, O Compadre Rico e o Compadre Pobre, entre outros, também fizeram parte de minha infância e ajudaram a povoar o meu horizonte dos seres fantásticos dessas velhas narrativas, conservadas pela memória popular e que seriam, muito tempo depois, acrescidas de outras tantas histórias, registradas em algumas coletâneas. 

Meu pai também possuía edições de bolso da Ilíada e da Odisseia, que eu fui ler aos 13 anos, quando nossa família já havia deixado para trás a Ponta da Serra e se fixado em Serra do Ramalho, no início de 1986, um antigo assentamento banhado pelo rio São Francisco, que, três anos depois de nossa chegada, alcançaria o estatuto de município. Foi lá, numa casa alugada, que, à sombra de um flamboaiã, escrevi o meu primeiro cordel digno de ser publicado, O Herói da Montanha Negra, no mesmo período em que li as epopeias homéricas e assisti ao filme Fúria de Titãs, de Desmond Davis, com efeitos especiais do mago da stop-motion, Ray Harryhausen. Esse cordel só seria publicado em 2006, ou seja, dezenove anos depois de ter sido escrito, pela tradicional editora de Luzeiro, de São Paulo, onde trabalhei por dois anos como editor. Quando completei trinta anos de poesia, em 2017, escrevi um longo poema em martelo agalopado (modalidade da poesia popular), no qual conto essa história:

O doutor Pensamento me conduz

Para as plagas da Serra do Ramalho,

Para onde o meu pai, hoje grisalho,

Se mudou, carregando a sua cruz.

E foi lá, com as graças de Jesus,

Que escrevi um romance hoje afamado,

Num caderno que tenho ainda guardado,

Sob a sombra de um belo flamboaiã,

Esse livro é pra mim um talismã,

E foi pela Luzeiro publicado.

Escrevi desde os seis anos histórias,

Versos soltos, poemas de ABC,

Mas “O Herói da Montanha Negra” é o que

Reuniu em si as muitas memórias.

Outras obras, quais aves migratórias,

São lembranças que guardo com apreço,

Mesmo as que se perderam, não esqueço,

Mas “O Herói”, para mim, é o limiar.

Que mostrou aonde eu posso chegar,

O que quero, o que faço e o que teço.

Aos catorze anos passei em um concurso do Banco do Brasil para a função de menor-aprendiz e o salário, mesmo não sendo lá essas coisas, me possibilitou certa “independência financeira”. Desde que comecei a receber meu primeiro salário, comecei a fazer pedidos à editora Tecnoprint (atual Ediouro), e tenho praticamente todos os exemplares adquiridos nesta época. Os quatro primeiros livros foram os clássicos de bolso Os Miseráveis e Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo, Quo Vadis?, de Henryk Sienkiewicz, e Madame Bovary, de Gustave Flaubert; Depois, vieram outros, muitos outros. Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, todas as tragédias de Shakespeare, os poetas românticos brasileiros, vários de Julio Verne e Alexandre Dumas. E, noutra fase, Cecília Meireles, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa, Onestaldo de Pennafort, Jorge de Lima, Garcia Lorca…

Desde 2005, resido em São Paulo, e, como exposto acima, trabalhei na editora Luzeiro, tradicional casa publicadora de cordéis, e depois, a convite do editor Nelson dos Reis, fui parar na editora Nova Alexandria, na qual coordenei uma coleção chamada Clássicos em Cordel. A coleção, de certa forma, fundia, as minhas duas grandes paixões literárias: o cordel e a literatura clássica. Adaptei para esta coleção duas obras, uma de leitura mais recente, coisa de 20 anos, A Megera Domada, de Shakespeare, outra, um clássico de minhas leituras juvenis, O Conde de Monte Cristo, De Alexandre Dumas, que, ao lado de Os Miseráveis, é o meu romance favorito.

Hoje, tenho cerca de 50 livros lançados, entre infantis, juvenis e obras de referência sobre cordel e cultura popular, além de dezenas de folhetos e muitas histórias em gestação, incluindo roteiros para filmes e séries. Mas o que mais me encanta, passados esses anos todos, ainda é a “literatura da voz”, as velhas histórias preservadas pelas bibliotecas vivas, homens e mulheres, guardiães da veneranda tradição. Tradição sem a qual não existiriam obras seminais, fixadas no papel, como o Decameron, de Boccaccio, o Gargantua, de Rabelais, o D. Quixote, ou mesmo o nosso Grande Sertão: Veredas, de Rosa. E, claro, o Auto da Compadecida, do nosso querido mestre Ariano Suassuna, além de toda a obra do grande etnógrafo Luís da Câmara Cascudo. O último, claro, era também poeta e prosador, mas mesmo sua obra “científica” pode ser lida com o mesmo prazer com que escutamos uma boa prosa de mestres por vezes ágrafos, mas nem por isso despojados da grande poesia da vida. 

O que vem pela frente, quem dirá?

O que importa é seguir de fronte erguida,

O que importa é cantar, louvar a vida,

O que importa é viver o hoje, o já.

A aquarela que descolorirá,

Em poesia sublime decantada,

É a prova de que sua jornada,

Com tropeços e acertos, segue em frente,

O que importa é ser gente, porque gente

É quem ama o que faz. O resto é nada. 

 

*Marco Haurélio, escritor, professor, pesquisador da literatura de cordel e do folclore brasileiro. 

http://marcohaurelio.blogspot.com/

11 de Maio de 2020

Infância e Leitura: uma relação de amor

Posted in Ler faz crescer às 16:21 por sidneif

Por VÂNIA ORTIZ*

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“Marguerite Lisant” (1906), de Henri Matisse (1869-1954)

A leitura é um ato do intelecto e, se bem desenvolvida, pode transformar-se em fruição estética e espiritual. Para quem tem o hábito frequente de ler, não faz diferença quanto ao objeto de leitura, já que é determinantemente de grande relevância para o aprendizado do ser humano e é através dela que podemos enriquecer nosso vocabulário, obter conhecimento, dinamizar o raciocínio e a interpretação. Ao ler, descobrimos um mundo novo, rico de maravilhas desconhecidas e, uma vez que o hábito seja estimulado desde a mais tenra idade, o ser humano compreende que ler é algo importante e prazeroso. Despertado para o universo da leitura, certamente, terá se construído e formado um adulto culto, dinâmico e perspicaz. Saber ler e compreender o que os outros dizem faz com que sejamos mais racionais. É a leitura que possibilita a capacidade de interpretar, tornando o leitor mais informado e crítico, é através dela que ressignificamos nosso olhar sobre as pessoas e sobre o mundo. 

Destarte, agradeço o convite do caríssimo Sidnei para contribuir com seu blog e os convido a participar desse admirável mundo novo, que nos remete a lembranças tão preciosas e tão únicas de nossa infância, cujo relato é indescritivelmente fascinante. Por ser o período no qual edificamos as bases que sustentarão tudo o que virá depois, a infância é também um período mágico, em que a brincadeira e a imaginação constroem memórias afetivas tão plenas de significado que perdurarão por toda a existência. Engana-se quem pensa que o começo da vida é uma etapa que fica para trás depois que viramos adultos. Ela é um ciclo vivo, que volta e se renova; ecos da criança que fomos continuam a ressoar dentro de nós no decorrer de nossa trajetória ou, como nas palavras do romancista Franz Hellens, “a infância não é uma coisa que morre em nós e seca uma vez cumprido o seu ciclo. Não é uma lembrança. É o mais vivo dos tesouros e continua a nos enriquecer sem que o saibamos..

São essas memórias que trazem alento e vitalidade na fase adulta: recordações pueris representam refúgio nos momentos mais difíceis da trajetória humana e nos auxiliam em todos os processos de ressignificação. 

Diante do exposto, recordo-me de minha infância, em um vilarejo totalmente desconhecido, tomado pelos altos coqueiros e pela rica arquitetura dos antigos casarões, onde reinavam a paz e a tranquilidade, já tão distantes dos dias atuais, e de como a leitura sempre se fazia presente em meus dias. Gibis, jornais, livros clássicos e tantos best-sellers que sempre me despertaram os melhores e prazerosos sentimentos.

Assim, imbuída pelo incentivo de meu amado pai, meus finais de tarde eram sempre em boa companhia: livros e música clássica, compartilhados com a sempre presente figura paterna.

Autores(as) renomados(as), internacionais e nacionais, fizeram parte da minha biblioteca particular e até hoje contribuem para que eu tenha um olhar mais empático acerca da Literatura, a saber: Adélia Prado, Agatha Christie, Albert Camus, Aldous Huxley, Antoine de Saint-Exupéry, Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Cora Coralina, Dante Alighieri, Eckhart Tolle, Fernando Pessoa, Fiódor Dostoiévski, Franz Kafka, Gabriel García Márquez, George Orwell, Giovanni Boccaccio, Graciliano Ramos, Hilda Hilst, James Joyce, Jane Austen, Jiddu Krishnamurti, João Guimarães Rosa, José de Alencar, José Saramago, Julio Cortázar, Kahlil Gibran, Luís Vaz de Camões, Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Mario Quintana, Mia Couto, Milan Kundera, Pablo Neruda, Paulo Leminski, Rachel de Queiroz, Vinicius de Morais, Vladimir Nabokov, William Shakespeare entre tantos outros que, vez ou outra, me lembram do quanto sou imensamente grata por ter sido tão privilegiada.

Já o gosto peculiar pela música clássica erudita surgiu sob a forte influência dos discos de vinil tocados na sonata da sala de estar. Entre eles, estavam nomes como Claude-Achille Debussy, Franz Schubert, Frédéric François Chopin, George Friedrich Händel, Giacomo Puccini, Giuseppe Verdi, Heitor Villa-Lobos, Igor Stravinsky, Johann Sebastian Bach, Johannes Brahms, Joseph Maurice Ravel, Ludwig van Beethoven, Pyotr Ilyich Tchaikovsky, Richard Wagner, Wolfgang Amadeus Mozart e tantos outros notáveis e incomparáveis que hoje compõem minha seleta coleção de DVDs.

E assim, aquela menininha que tanto gostava de ler e de livros cresceu, formou-se e direcionou sua carreira para a área de Letras, assumindo o desafio de formar bons cidadãos e bons leitores e utilizando a escrita como forma de expressão da arte, do belo, do conhecimento e da empatia que somente a leitura de bons livros pode proporcionar.

Parafraseando Casimiro de Abreu: quanta saudade tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, pois foi lá naquele lugarejo desconhecido que descobri que a leitura poderia me trazer tanto conhecimento e me levaria para além do campo da imaginação. Ler sempre será um exercício de empatia e um jeito bom de enxergar lá fora e de alcançar cá dentro.

 

*Vânia Ortiz, Formada em Letras, Pedagogia, Pós-Graduada em Gestão Educacional, Especialista em Neuropsicologia e Mestre em Linguística Aplicada, atua como Diretoria Pedagógica e Consultora Educacional e é, também, a idealizadora e a responsável pela ATHOS EDUCACIONAL.

7 de Maio de 2020

Régua e compasso

Posted in Ler faz crescer às 16:54 por sidneif

Por ROGÉRIO ANDRADE BARBOSA*

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“Grande banhista com livro” (1937), de Pablo Picasso (1881-1973)

Primeira lembrança da leitura

Como se estivesse num tapete voador que me levasse numa viagem encantadora por todos os recantos de nosso planeta.

Companhia

Os livros sempre foram e continuam a ser grandes companheiros.

Terras inusitadas

Gostava de  livros de aventuras como os de Júlio Verne. Porque me faziam viajar nas asas da imaginação por terras e lugares inusitados.

Caminhada

Os livros, além de me dar uma profissão, me deram régua e compasso na caminhada pelas estradas da vida.

 

*Rogério Andrade Barbosa, Escritor, palestrante, contador de histórias, professor de Literatura Africana e ex-voluntário das Nações Unidas na Guiné-Bissau. https://www.rogerioandradebarbosa.com.br/

4 de Maio de 2020

Reflexões sobre o livro A paixão segundo G.H

Posted in Ler faz crescer às 16:30 por sidneif

Por ROBERTA GASPAROTTO*

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Estou deitada na cama lendo pela sétima vez o livro A paixão segundo G.H, de Clarice Lispector. Esse livro me hipnotizou de tal forma que ao terminá-lo imediatamente o recomeço. O tempo todo, a personagem tenta tocar no âmago das coisas… E ela vai se aproximando temerosamente e corajosamente, tudo junto e misturado. Mistura interessante, temor e coragem… Ando me sentindo assim ao examinar minhas emoções e ir cada vez mais fundo nelas. É como se agora eu conseguisse mergulhar no meu abismo sem me perder… E olhá-lo com muita reverência, cuidado e curiosidade. Dor e prazer se misturam nessa minha mais nova imersão. Indo ao mais escuro de mim para tentar achar uma fresta nova de luz… Esse escrito faz parte disso, você faz parte disso ao me fazer companhia em minhas malucas viagens. Mas te digo que é a mais maravilhosa viagem de todas!

Neste livro, Clarice fala muito sobre o medo que temos de perder a forma. Mas se Deus é sem forma e é energia, como eu acredito, como vamos encontrá-lo? Introduzi-O aqui, meio abruptamente para você… Mas pensando bem, Suas aparições em nossa vida não são abruptas também. Pois é, esse encontro com o divino, o divino que há em nós, exige uma travessia infernal. Sei por experiência própria que isso é difícil demais e dói como se tivessem arrancando nossa própria pele. E na verdade é mais ou menos isso que acontece ao nos desfazermos de nossas couraças emocionais, que um dia nos foram tão úteis, mas acabam ficando obsoletas e atrapalhando nosso crescimento. Se entrei nesse processo, há mais ou menos uns nove anos atrás, é só porque não aguentava mais minhas crises de depressão – me vi no inferno. E, olhando em retrospectiva, ter me visto sem escolha lá foi a maior bênção que me aconteceu.

*Roberta Gasparotto,  escritora, formada em Psicologia e pós-graduada em Língua Portuguesa. Autora do livro “Mil mulheres cabem em mim” (Sguerra Design, 2019). E é deste livro ( mais precisamente do capítulo 21), que Roberta Gasparotto retira, especialmente para a seção Ler faz crescer,  o texto acima. 

30 de Março de 2020

Voracidade, fuga & outras cositas más

Posted in Ler faz crescer às 17:14 por sidneif

Por LAURA NAVARRO*

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“Woman reading in the Forest” (1875), de Gyula Benczúr (1844-1920)

Quando Sidnei me fez o convite para falar da minha experiência como leitora, eu  me lembrei da Laura de dez anos. Uma criança agitada, faladora e imaginativa, que só conseguiu ficar mais de dez minutos sentada quando leu O gênio do crime, de João Carlos Marinho. Comecei a devorar os livros infantis de casa e da livraria Nobel que tinha no bairro, e ganhei o título de leitora voraz pelo livreiro. Um pouco como aquele movimento traçado por Norval Baitello quando ele diz que devoramos as imagens e somos devorados por elas. No caso, eu devoro a forma como um autor X ou Y escreve, que me cativa ou não. Sou sinestésica, creio que existem livros para serem lidos em certas condições climáticas (ex: dia nublado, dia ensolarado, noite na praia, etc) e com certas cores à disposição.

Parafraseando um pouco Giuseppina Burigo, que escreveu aqui há pouco, eu assumo essa dificuldade de falar sobre algo que há tanto tempo faz parte de minha vida. Então eu prefiro tecer essas imagens, as imagens da voracidade. Eu era uma criança magra, mas tinha fome do mundo. Fome das ilustrações, dos personagens que faziam coisas inimagináveis. Tipo aquele livro da vaca voadora, ou, mais para frente, das três mulheres que não se desvencilham do terror soviético d’As vacas de Stálin (Sofi Oksanen). Eu preciso devorar, preciso conhecer, preciso empatizar com o mundo que há fora de mim. O que é o mundo? eu gritava para mim mesma. E, em algumas páginas, eu tinha a resposta. Estava satisfeita. Eu não precisaria ir à Ditaduras Africanas para conhecê-las em suas minúcias. Um prazer furtivo, como o de conhecer novas palavras do nada. Um prazer que me deixava de encontro com o crescimento intelectual e até mesmo emocional. Eu virei adulta por meio dos livros.
Só que, conforme fui crescendo, e passei a escrever poesia, descobri uma nova função secreta escondida dentro da literatura: a de fugir junto com os personagens. Com as descrições. Com as páginas. Até o cheiro dos livros era uma viagem à la Aldous Huxley. Lembro de contar nas rodas escolares sobre férias a respeito das minhas viagens com livros — muitas vezes feitas juntas a viagens demoradas de carro. Ver a paisagem cansa. A palavra, não. Eu fugia um pouco das monotonias e das pequenas violências encarceradas em nosso dia a dia. Fui fazer jornalismo para escrever sobre os livros; para fugir e para devorar. Observação: ao longo da minha vida, vários blogs com resenhas de todos os tipos foram criados por mim. E eu mantenho esse movimento, de extravasar o que eu acabei de devorar. Um pouco antropófaga, diria.
Aos vinte anos, decidi, em uma aula de Design de minha faculdade, que queria trabalhar com livros. E então aconteceu uma outra reviravolta em minha vida. Eu passei a ser uma obsessiva com capas, diagramações, etc. Presto atenção às fontes. Devoro essas informações que antes não percebia. A imagem de uma boa literatura tem a ver com a imagem de algo que dá vontade de fugir junto, isto é, uma boa edição. Então os livros passaram a ser um pouco pequenos xodós cotidianos – sua identidade toda me é analisada. E, com isso, conheço um pouco mais da Laura leitora que começou com dez anos, eu vejo as dificuldades da Laura, os sonhos da Laura. Eu os alimento. E cresço. Por isso me é tão caro o nome da seção do blog: Ler Faz Crescer.

*Laura Navarro é escritora e estudante de jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero.

6 de Março de 2020

Ler: um mundo de possibilidades e encontros! 

Posted in Ler faz crescer às 16:12 por sidneif

Por GIUSEPPINA BURIGO*

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“The Young Eastern Woman” (1838), de Friedrich Amerling (1803-1887)

Que missão me foi dada quando Sidnei convidou-me a escrever um relato para esta seção. Uma missão difícil porque o livro e a leitura são presentes na minha vida há muitos anos e em situações diversas — leio para desestressar, para passar o tempo e nos momentos mais difíceis, nos mais felizes, nos mais tristes, nos mais solitários encontrei-me sempre nos livros, uma janela que abria-me caminhos para mundos diversos e, dentre tantas possibilidades, o principal mundo: meu mundo interno.

 Ao ler um conto, um romance, uma história, encontro, nas personagens, nas situações vividas pelas personagens, alegorias de mim mesma e de situações que vivencio e, por isso, um mesmo livro sempre tem algo a acrescentar: seu texto é fixo, gravado pelas letras no papel; mas a experiência do ler sempre é modificada, pois, eu, leitora, estou sempre transitando, sempre modificando e, assim, sempre acabo por notar novas nuances numa mesma fonte. 

Lembro-me de diversas experiências com a leitura, essa pratica tão intima que faço por prazer, por trabalho — e que sorte a minha trabalhar com algo que me permita estar sempre em construção e poder sempre dizer: “estou lendo esse conto incrível por conta do meu trabalho!” —, por vontade e por encontro.

 Quero frisar, então, a pratica da leitura que me leva ao encontro (já que ela acontece toda vez que leio algo): encontro-me com a capa, com o título, com o release, com a maneira de escrever do autor; o material físico produzido por tantas mãos e olhares encontram meu olhar e reverberam em meu ser de alguma maneira que me faça retirar o livro da estante (eu ainda sou dessas pessoas que preferem ler o livro físico), o artigo do repositório ou da revista, etc…

E no encontro é que a gente cresce! E como cresce!!! No encontro com outras pessoas em nosso cotidiano, no encontro com as culturas diferentes da nossa, no encontro com outras criações… no encontro com cada texto literário, eu encontro a rica possibilidade de tocar o imaginário de outra pessoa, de tocar a cultura, os aspectos culturais e sociais desta outra pessoa que generosamente colocou um pouco de si no mundo. No encontro com cada um destes mundos posso encontrar-me a mim mesma novamente, redescobrir e recriar-me, crescendo em conhecimento, em experiências (quem nunca chorou, sorriu, torceu e praticamente viveu junto com um personagem?) e, assim, cresço um pouquinho mais a cada encontro! 

 

*Giuseppina Burigo, narradora de histórias, atriz, cantora e educadora.

Porto de abrigo, porta para outras realidades

Posted in Ler faz crescer às 15:59 por sidneif

Por MARCELO VIANA*

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“Job Lot Cheap” (1878), de William Harnett (1848 – 1892)

O primeiro Livro

Comecei a ler muito cedo. A minha mãe era professor do ensino primário e, por falta de alternativa, levava os filhos para a escola. Então fui educado, sobretudo em leitura e matemática, por “osmose” na sala de aula.
Com quatro anos, li o meu primeiro livro “de verdade” (muito texto, poucas figuras).
Ainda lembro do enredo e do título: Bambi e o Vagão cor-de-rosa (trata-se de um menino, não do personagem da Disney)

A biblioteca

Quando eu tinha 8 anos, a minha mãe me inscreveu numa biblioteca local, onde eu podia retirar livros gratuitamente e levar para casa. Eu devorava livros, devolvia, pegava mais. Acho que nesse período lia uns três livros por dia…

Leituras que marcam

Foram muitas. Ainda na infância, li O Hobbit, de J. R. R. Tolkien. Foi um imenso mundo de imaginação que se abriu de repente. Mais tarde, no ensino médio, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, ajudaram muito a moldar meu modo de ver o mundo.
Não ficção também: História da filosofia ocidental e Por que não sou cristão, ambos de Bertrand Russel.
Mais recentemente, Sapiens: uma breve história da humanidade e Homo Deus: uma breve história do amanhã,  de Yuval Harari, e Subliminar: Como o inconsciente influencia nossas vidas, de Leonard Mlodinow: olhares extremamente perturbadores sobre o que somos, e no que estamos nos tornando.

A mesinha de cabeceira

Não posso conceber a vida sem leitura. Tenho um monte de livros na minha mesinha de cabeceira, que vou lendo na medida da disponibilidade de tempo. A pilha só cresce, porque continuo comprando.
Também me tornei usuário de e-books, pela praticidade e disponibilidade. A leitura é fonte de prazer e informação, porto de abrigo, porta para outras realidades, no tempo e no espaço.

*Marcelo Viana, matemático, diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e colunista da Folha de São Paulo. Primeiro brasileiro e primeiro matemático do mundo  a receber o Grande Prêmio Científico Louis D., principal premiação científica da França, oferecido pelo Institut de France.

10 de Dezembro de 2019

Leitura todo-poderosa

Posted in Ler faz crescer às 15:08 por sidneif

Por MARIA AMÉLIA ELÓI*

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“In lettura sul mare” (1910), de Vittorio Matteo Corcos (1859-1933)

Quanto poder sobre minha vida. Quanto engenho, quanta paixão da braba essa senhora me traz. Quanta verdade destrava nos silêncios em que me toca. É assim a Dona Leitura: estimula viagens, adultera o real, engambela meus miolos e minhas tripas. Enquanto chacoalha minha realidade morna, enseja acessos novos a mim mesma e ao outro, abre janelas para esta criatura afeita a cômodos cerrados.

Ao decifrar a narrativa tecida, exercito carências e adimplências; descubro lacunas e acervos que, em contextos distintos, certamente me escapariam. Essa Patroa, fiel provedora de amido e tempero, toca-me as peles, cora-me sonhos e pesadelos, descortina-me verdades e transparências. Devo culpá-la também pelos textos que intento. Sob sua regência, por sua influência, de repente me arrisco a escrever. (Questão de honra, gratidão, pagamento?)

Dona Leitura é agasalho, colheita, fartura de promessas. Nada de solidão ou egoísmo em seu terreiro. Agarrada a uma boa obra literária, tomo a voz, a dor, o medo, o sopro, o mistério, a história do outro. Subitamente, o forasteiro me representa, eu me torno o peregrino que eu não era, a humanidade de mim se apropria. E eu adoro essa possibilidade de viver mais, muito além.

Ler é exercício de empatia, jeito bom de enxergar lá fora e de alcançar cá dentro. A Dona Leitura — principalmente a de sobrenome essencialmente literário — me atrai, provoca, engravida. A Palavra me laçando, me lançando ao misto de dor encantamento alegria prazer desespero raiva surpresa e inveja, inveja que arde. Diante do romance criativo e poeticamente edificado, vou grifando tudo, agarrada aos personagens, ávida sedenta pelas belezuras e eternidades literárias. Eu sempre despeitada, querendo ter escrito aquilo que leio e que me emociona. E completamente fascinada, sem querer nunca mais sair dali nem dar adeus àquela história. Eu precisando morar no livro.

Para não cometer o pecado branco da desmemória, não vou citar aqui autores e títulos de obras que marcaram, marcam e continuarão marcando minha vida. Mas garanto que a lista é imensa e variada. Muitos livros centelhas têm provocado diálogos e me tocado de forma profunda e cada vez mais diferente, de acordo com o contexto. Eu me apaixono por clássicos da literatura brasileira e por lançamentos estrangeiros e também sou fisgada por livros publicados por autores vizinhos, do Distrito Federal. Meu leque se abre sempre, com as lindezas recém-descobertas. Há muita literatura a ser lida, relida, a ser louvada.

Que privilégio ter acesso a um bom conteúdo literário (disponível na minha estante, no meu livro eletrônico, em bibliotecas públicas, nas revistas, resenhas, redes sociais, nas mesas de debates e encontros com autores, entre outros). Que alegria poder conviver com escritores maravilhosos, com os quais posso trocar ideias. Adoro prestigiá-los, lendo seus livros, recebendo-os para bate-papos, publicando trechos e impressões sobre suas obras, participando com eles de eventos culturais. Sinto prazer em aplaudi-los e divulgá-los. Um luxo fazer parte da turma de devoção à Dona Leitura. Neste momento — em especial depois de ter me aliado ao movimento nacional Mulherio das Letras —, tenho dado preferência a obras de mulheres vivas. Muitas delas se tornaram minhas madrinhas literárias, heroínas lindas que discursam esperança. 

Nunca serei grata o suficiente à Dona Leitura; mas dia a dia, na minha escrita e nas minhas atitudes, vou tentando fazer jus a sua influência formadora e revolucionária, vou pelejando para ser uma leitora mais digna, uma mulher autora cidadã mais íntegra. Agradeço às amizades e às vidas que ela me possibilita e tento transparecer às minhas filhas, aos amigos e aos alunos como é sublime o amor que sinto pela senhora todo-poderosa. 

*Maria Amélia Elói nasceu em 1973 em Taguatinga, DF. Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade de Brasília, foi premiada em 2009 no III Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação, com a obra “Poesia Torta”. Em 2001, ganhou o Prêmio Nestlé/MEC pelo ensaio “Idéias a Mais!: a crítica literária no JB e na Folha de S. Paulo no ano 2000″. Em 2016, publicou o livro de crônicas “Um milagre para cada corcova”, pela Editora Penalux. Em 2017, participou da antologia de contos “Novena para pecar em paz,” também pela Editora Penalux. É servidora da Câmara dos Deputados, onde desenvolve projetos culturais.

Abracadabra, a escrita é poderosa!

Posted in Ler faz crescer às 15:03 por sidneif

Por CHRISTIANE DE MURVILLE*

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“The submissive reader” (1928), de René Magritte (1898-1967)

Quantos lugares interessantes, histórias fantásticas e personagens incríveis conheci através dos livros! Cada vez que inicio uma leitura, um universo diferente descortina-se à minha frente, estimulando minha imaginação, meus pensamentos e trazendo novas reflexões. Sou transportada para outros mundos, que podem ser alegres, tristes, chocantes, assustadores, reconfortantes, esperançosos, vibrantes ou sombrios, remetendo às inúmeras sensações e aos estados emocionais que podemos eventualmente experimentar ao longo da vida.

Conheci O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry) e a Turma da Mônica, me encantei com as aventuras do Rei Artur, em Brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley), voei com Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach), fiquei impressionada com a Divina Comédia ( Dante Alighieri) e aprendi muito com O Livro de Mirdad (Mikhail Naimy) e a Autobiografia de um Iogue (Paramahansa Yogananda)! Certamente, muitos livros me marcaram profundamente e contribuíram na formatação da realidade que hoje percebo à minha volta. 

Afinal, até o Aladim já sabia que criamos ao falar, que as palavras, como por exemplo “abracadabra”, têm força, ainda mais quando proferidas com convicção e intenção. Mas não somente a palavra oral é poderosa, a escrita também! Expressa conceitos, ideias sobre a vida e o mundo, toca e influencia pessoas, evoca sentimentos, fomenta comportamentos, revela planos de ação, decisões, coloca à mostra o que cada um carrega em seu coração. 

Atualmente, confesso que sou mais seletiva com minhas leituras. Sei o quanto aquilo com o qual alimentamos a nossa mente contribui para a construção da realidade que encontraremos mais adiante. Tudo pode ser considerado como vibração, uma forma de onda, um som ou energia vibrando em determinado padrão e frequência. E crenças, pensamentos, sentimentos, emoções, intenções e ações influenciam os padrões vibracionais de energia que determinam e materializam o mundo físico conforme o percebemos, definindo a realidade vivida. Somos absolutamente responsáveis por tudo que vemos e materializamos à nossa volta!

Mas que mundo deixaremos para as gerações futuras? de medo, comparação, raiva, desconfiança, ganância e egoísmo ou de compaixão, amor, honra, generosidade, respeito e unidade? Pois, onde colocamos a nossa energia e atenção e o que temos na mente e no coração indicam para onde caminhamos. Apontam a realidade com a qual estamos em sintonia, à qual damos crédito, força e vida, levando-a a oportunamente se manifestar.

Leitura é fundamental, transforma a realidade. É uma ferramenta poderosa que, quando explorada com consciência, pode promover experiências inspiradoras e esclarecedoras e contribuir para a materialização de mundos mais harmoniosos, alegres e luminosos para todos. 

 

*Christiane de Murville, doutora em Psicologia Cliníca, bacharel em Ciência da Computação. É autora, pela editora Chiado,  da triologia “A Caverna Cristalina” : Volume 1: “Uma aventura no tempo”, Volume 2: “O desafio do labirinto”, Volume 3: “Capturados no tempo”, “A vida como ela é”, “Até quando? O vai e vem” ( todos já com publicações também em francês) e “Até quando? A prisão”.

https://www.cmurville.com.br/

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