18 de Janeiro de 2019

E onde estará Dulce Veiga?

Posted in Ler faz crescer às 16:40 por sidneif

Por PENÉLOPE MARTINS*

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“La Lecture” (1924), de Fernand Léger (1881 – 1955)

Tenho uma lembrança recorrente de Tia Maria me oferecendo livros. Ela foi minha professora no segundo ano primário e tinha uma presença marcante também como dona de uma livraria ao lado da escola.  A livraria “Corujinha” era minúscula mesmo pra gente pequena feito eu, na época com 8 anos. Eu insistia visitas constantes, esperando o transporte da escola pra casa, todos os dias. Metida entre prateleiras, ficava procurando, procurando, procurando livro por livro, palavra por palavra. Queria comprar tudo aquilo, até as estantes, mas eu nem podia um livro por mês.  Meu pai dirigia caminhão, minha mãe tinha um comércio no bairro em que morávamos. Se não tínhamos uma vida pobre, porque não nos faltava casa, comida, estudo, roupa e sapato para calçar, pena fazia nos faltar o dinheiro para a extravagância de comprar a “Corujinha” toda. Quando o dinheiro aparecia, esse sujeito ladino, a gente tinha que escolher, ou isto ou aquilo.

Conheci Cecília Meireles por Marilena, provavelmente, ou teria sido a mesma Tia Maria? De certa forma, minhas professoras foram tão boas mães que assumiram mesmo rosto na minha memória. Ou isto ou aquilo era leitura de sala de aula e que, mais tarde, passou a ser parte da minha biblioteca de valor inestimável. Mais tarde mesmo, a aquisição do livro veio no ensino médio, recordo encontrá-lo sempre entre minhas roupas no armário, amarelado pelo tempo que passou num sebo, a livraria de usados. Aquele exemplar do livro se perdeu, como outros tantos livros meus. É que eu me casei e mudei de casa mais vezes do que eu sonhava e queria, ou menos do que eu deveria, e muitos livros se perderam pelo caminho, até Onde andará Dulce Veiga, autografado por Caio Fernando Abreu, presente de um namorado que sabia da minha loucura pelo autor. Isso foi na Bienal do Livro de São Paulo, ainda no pavilhão do Ibirapuera. Caio estava sozinho, sentado à mesa. Achei tão perturbadora aquela cena. O meu autor favorito dos últimos anos — eu tinha 17, talvez — sozinho entre livros com preços nas capas. Meu namorado se aproximou dele e disse: “ela é sua fã, pode autografar?”. Eu morri de vergonha. Caio olhou pra mim, eu devia ter cara de 12 anos. Lembro que ele escreveu assim: “Penélope, de olhos lindos, cuidado com as feias, menina.”, depois me deu um beijo.

De repente, tenho a sensação que o perdimento de tantos livros pode ter me ajudado a me encontrar. Explico isso, em algum momento.

Onde andará meu livro da Dulce Veiga com a dedicatória-tira-urucubaca de Caio Fernando? Vontade de fazer uma campanha nas redes sociais só pra ver se alguém encontrou, encontrará… Curiosamente, hoje tenho como amigos pessoas que foram grandes amigos de Caio. Ganhei rugas, perdi os 17 anos há quase 30, comprei de volta Ou isto ou aquilo, outro dia chorei ao rever A Disciplina do Amor [Lygia Fagundes Telles]— e não tive coragem de abrir o livro. Virei saudosista, memorialista de mim, um fado de palavras perdidas que me garantem desejo ininterrupto pela busca.

Aliás, uma pausa para uma coisinha pouco interessante. Aqui no Brasil temos por hábito chamar sebo a livraria de usados. Quando eu soube que em Portugal eram alfarrábios, enterneci.

O meu vínculo com a palavra escrita nasceu muito antes disso tudo que contei. Peço desculpas. Acabo dizendo demais. Nasci numa família luso brasileira, pai português, de Miranda do Douro, mãe brasileira, filha de árvore com muitas origens, portuguesa, italiana, alemã e indígena, ao que se sabe. Por conta do pai, aprendi o vira. Na verdade, por conta do meu avô que tocava concertina e cantava e afirmava que eu era uma miúda muito gira e que deveria fazer assim com os pés e com as mãos para cima. Tenho fotos. Por conta de todos eles, os que citei e não citei, aprendi a ouvir música no tempo da vitrola, discos enormes e letras das canções.

Li Lamartine Babo, li Noel Rosa, li Caetano Veloso aos montes (coisa da tia portuguesa abrasileirada no melhor estilo bicho grilo).

Quando eu penso no meu processo como leitora, escuto as vozes da Maria, da Marilena, do avô Valentim, da avó Laura cantando a Casinha da Marambaia [música composta por Henricão/ Rubens Campos e gravada por Carmen Costa] naquela varanda encerada de vermelho que tingia a roupa da gente.

Essas vozes entravam pelos sete buracos de minha cabeça (bicho de sete cabeças) e se transformavam em imagens: palavras escritas. Quando eu fechava os olhos, conseguia ver as letras das canções desenhadas na minha memória.

Com pouca idade eu já sabia chorar com Samba em Prelúdio, ou com Barracão de Zinco. Com pouca idade, reconhecia— as tábuas do meu caixão…” [Povo que lavas no rio, fado composto por Joaquim Campos/Pedro Mello Homem e gravado por Amália Rodrigues].

Claro que, aos 8 anos, quando a Tia Maria abriu a livraria ( e logo fechou porque ela estava mais interessada em nos fazer ler do que vender algo que a sustentasse no comércio), minha imaginação pulou vendo o tanto de palavras guardadas ali naquelas páginas, inventando novos enredos. Eu tinha as palavras de memória, mas desejei aquelas gravadas em papel com sina de bem eterno.

Frequentei bibliotecas desde o primário até o final da faculdade. Foi engraçado quando encontrei a Márcia, bibliotecária da [Faculdade de] Direito São Bernardo do Campo, num dos meus passeios ultraesporádicos ao shopping (hahahahaha, detesto ir ao shopping, acho horrível essa palavra e estou dizendo-a aqui no meio de minhas memórias afetivas, hahahahaha, que ironia). Então, eu encontrei a bibliotecária, séria como ela me parecia a vida toda, e ela me cumprimentou pelo nome. Achei estranho, comentei: “sabe meu nome?”, “sim, claro” — ela me respondeu — , “ou você pensa que todos os estudantes passam os cinco anos frequentando a biblioteca”. Confesso que, num primeiro momento, eu me senti inconveniente, batendo ponto na biblioteca da Márcia. Todavia, eu recordo como me tocavam aqueles livros caríssimos e suas capas duras revestidas a couro. Que dó ver tudo aquilo . Devia ter custado imensa fortuna para servir de amparo ao pó nas estantes. Era por isso, também, que eu me apropriava deles.

Eu me formei bacharel, passei no primeiro exame da Ordem dos Advogados que eu fiz. O exame foi na manhã seguinte à festa do meu casamento. Eu tinha dormido duas horas ou pouco mais. Estava feliz, inocente de preocupações, por isso fiz o exame e fui a primeira a sair da sala. Lembro-me da caneta deslizando a peça processual que eu escrevia como quem canta uma canção para o papel. Ah, o tema da prova era lei do inquilinato, isso até combina com aquele samba, que eu adoro, “aluguei a casa um da vila, meu amigo mora em frente, e a mulher desse amigo, anda arranjando tempo quente” [Casa Um da Vila,  de autoria de Monsueto/Flora Mattos].

Não li os russos como deveria. Não conheço a poesia como poderia. Não sei uma linha de crítica literária. Não estudei a história da canção brasileira. Sou uma leitora em trânsito no tudo que me interessa. Acho o tempo pouco para fazer dele uma coisa só. E isso deve me fazer perder uns pontos na escalada para os prêmios de autoria, mas eu não me importo. A vida é breve e eu nunca serei mais original do que qualquer um de vocês, nem menos. No mais, o que tem me importado, agora, é ler mais mulheres, inclusive me perguntando por Dulce Veiga naquela dedicatória quase fofoqueira que Caio fez ao pé de mim numa sala rodeada por tantos livros que se diziam à venda mesmo sem valor algum para tantas pessoas…

Talvez eu fale demais para dar palavras de graça. E com o que se compra é preciso cuidado. Cuidado para não investir tempo pouco com palavra que ocupa demasiado espaço, juntando poeira.

Aprendendo a ler e perdendo livros para outras histórias encontrar, eu me reconheço em cada ser humano.

 

 

*Penélope Martins, advogada, escritora, narradora de histórias e edita a página Mulheres que Leem Mulheres.

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Quase voo

Posted in Ler faz crescer às 15:14 por sidneif

Por MAYARA ALMEIDA*

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” Alegoria dos Cinco Sentidos” (1668), de Gerard de Lairesse (1644-1711)

Quero começar pelo fim — que, por si só, é o começo: ler é uma busca — ou uma bússola? A leitura, entre tantos caminhos provocados, é um processo de ativação de sentidos: toca o livro (tato), enxergar as palavras e além (visão), ouvir os personagens (audição), sentir os cheiros da imaginação (olfato) e o gosto das experiências lidas (paladar). Um processo de aproximação e recuo — começa, pára, volta a ler, fecha o livro, abre, marca, continua… Até que fique confortável esse movimento de se encontrar (e se perder) entre as leituras.

Ler me ajuda a renovar a credibilidade das coisas e pessoas. Me faz desejar um tempo novo. Ler me faz pensar que eu quase voo, e é um eterno retornar. É um ato de coragem e também de rebeldia. Um calculado absurdo. Grito sem barulho. É um [não] descanso da mente da gente. É um acesso ao curioso esquecimento. Ler é um silêncio necessário. Um respiro. Que não se alcança por completo, mas se tenta. Porque é preciso respirar.

*Mayara Almeida, psicóloga, psicanilsta e escritora. http://www.mayaralmeida.com.br/

7 de Dezembro de 2018

Do livro à leitora

Posted in Ler faz crescer às 15:53 por sidneif

Por ADRIANE FORSTER*

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“Nurse Reading to a Little Girl” (1895), de Mary Cassatt (1844–1926)

Quando criança, recordo de me sentar ao colo de meu avô paterno para ouvir histórias. Na varanda da casa, num banco de madeira, meus avós, meu irmão e meu primo. Às vezes, o colo era dividido, noutras, um só sentava no colo, e assim, entre histórias e perguntas, passávamos um bom tempo. Nunca vi meu avô com um livro na mão, as histórias vinham de suas lembranças. Eram histórias de índios, de animais selvagens e de nossos familiares que vieram da Alemanha.

Mais tarde, quando frequentei a escola e aprendi a ler, minha avó pedia para eu ler trechos da Bíblia ou do devocional diário de que ela gostava, e eu me sentia útil e orgulhosa por fazê-lo. Minha família era muito simples, meus pais estudaram pouco e trabalhavam na roça. Meus avós ajudavam a cuidar de mim e de meus primos enquanto nossos pais trabalhavam, fomos à escola apenas no Ensino Fundamental (primeira série naquele tempo), então, para mim, ler era um ato muito importante.

Na escola, não me lembro de ter experiências significativas e prazerosas com a leitura, que sempre foi-me imposta como obrigação. Mesmo assim, lembro-me do primeiro texto que li, no livro didático, “O jogo do pega-pega da autora Flávia Muniz”. Em casa, não costumava ter contato com livros, somente com os que vinham da escola. Já na universidade, cursando Pedagogia, fui surpreendida em uma aula da disciplina de Didática.

Era inverno de 2007, ao iniciar uma aula, a professora leu uma literatura infantil. Fez uma mediação animada do livro, naquela época, eu não imaginava que o que ela fez tinha esse nome, mas o gesto me tocou em vários sentidos. A professora era muito dedicada, comprometida em fazer-nos entender a relação entre teoria e prática, porém, jamais imaginei que ouviria uma história infantil lida por ela. Além da admiração por seu trabalho, fiquei encantada com a história. Fiquei muito encantada mesmo, tanto, que me lembro dela e a conto até hoje. E me lembro muito bem da professora também.

A partir desse gesto, comecei minha busca por outras literaturas infantis e me transformei numa devoradora de livros. Sempre que encontrava uma história bacana, lia para as crianças. E a minha busca não parava. Comecei a trabalhar com uma bibliotecária e contadora de histórias  também apaixonada por livros, e a relação com as histórias tornou-se muito forte. Cada vez eu lia mais, conhecia novas histórias, contava para os alunos, me encantava…

Minha biblioteca particular começou por volta de 2006, e minhas práticas de mediação de leitura em sala de aula também, me refiro a uma prática de literatura literária, consciente, comprometida com o valor estético da arte literária. Desde então, me empenho em adquirir livros, tanto para minha formação quanto para deleite, e muitas literaturas infantis; participo de cursos de formação com contadores de histórias presencialmente ou por meio da internet, assisto apresentações de contadores de histórias; visito feiras literárias.

Esse encanto e dedicação com a literatura infantil foi tão intenso e marcante em minha vida e em meu trabalho, que recebi convites para contar histórias em outras escolas. e minha busca constante por formação me fez contar histórias em outros espaços como livrarias, teatros e shoppings.

Conto histórias porque acredito que, assim como eu, todas as pessoas (adultos e crianças), tem o direito de ter a oportunidade de sentir prazer em ler. Para mim, a literatura significa liberdade, imaginação e interpretação crítica. É por meio dela que podemos, também, exercitar a empatia e refletir sobre as situações que vivenciamos. Sempre leio bastante e escolho o que vou contar quando de alguma maneira aquela história desperta em mim algum sentimento ou me revela algo. Se a leitura não fizer sentido para mim, minha palavra não será profícua para outra pessoa.

 

*Adriane Forster, contadora de histórias, psicopedagoga, especialista em alfabetização e letramento e docência em educação infantil.

Leitura: amor e profissão

Posted in Ler faz crescer às 15:49 por sidneif

Por CAROLINA MACHADO*

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“Meninas Lendo” (1940), de Santa Rosa (1909-1956)

Desde pequena a leitura fez parte do meu dia a dia. Sendo a mais nova em casa, ansiava o dia em que também poderia desfrutar de notícias, gibis e livros.

Começar a ler foi tão importante para mim que lembro até hoje da primeira palavra que consegui ler, quase soletrando, no jornal Correio do Povo que chegava lá em casa todo dia: grê…mi…O.

Outra lembrança boa que vêm à memória é de um dos primeiros livros que tive, chamava-se Orelhas de cabeça para baixo, de Neil Connelly. Era uma adaptação da história da lebre e da tartaruga, ilustrado em papel-cartão de alta gramatura.

Hoje a leitura continua na minha vida, e para com ela tenho responsabilidade muito maior. Trabalho como revisora de textos e tenho a missão de ajudar autores a levarem sua mensagem da forma mais clara possível a seus leitores.

*Carolina Machado, revisora de textos desde 2008, mestranda em Ciências da Linguagem pela Universidade Nova de Lisboa e graduada em Letras pela PUCRS em 2013.Autora no site revisaoparaque.com e do “Manual de Sobrevivência do Revisor Iniciante” (2018, Ed. Moinhos).

14 de Novembro de 2018

Minhas leituras

Posted in Ler faz crescer às 15:25 por sidneif

Por VERA IONE MOLINA*

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“O Pobre Poeta” (1839), de Carl Spitzweg (1808-1885)

Comecei a pegar livros por minha conta e risco aos 12 anos, de forma totalmente anárquica. Lembro da casa antiga onde morava e do barulho que meus pés faziam nas tábuas do chão, enquanto me deslocava até as estantes. Minhas avós e minha mãe liam muito e eu ia pegando os livros que elas soltavam. Minha avó materna e minha mãe liam romances e minha avó ia ao cinema todas as noites, não havia televisão na minha infância. Havia quatro cinemas na minha terra, mas dois deles eram os mais frequentados, próximos à praça central, frequentei matinés e, mais tarde, as sessões noturnas.

Na minha cabeça havia muita mistura de cinema com literatura. Primeiro minha avó contava os filmes nas tardes em que passávamos reunidas num círculo formado por ela própria, uma irmã dela (minha tia-avó), minha mãe, eu e minhas primas mais velhas. Guardo cenas inesquecíveis que disputaram espaço com os livros na minha formação.

Nasci em 1953, em Uruguaiana, fronteira com Argentina e Uruguai, zona de Segurança Nacional. Além de não ter televisão, não tinha nem eleições para prefeito depois de 1964. Mas eu não me interessava por política e não sentia falta, embora a casa de meus avós fosse muito frequentada por políticos, conhecidos até nacionalmente. Meu avô participara de revoluções e tinha página dele no livro com capa de couro dos membros do Partido Republicano Castilhista (de Julio de Castilhos).

Para terem uma ideia, fora o Erico Verissimo, que na minha casa era discutido como se convivesse e discutisse seus personagens conosco, fui conhecer literatura sul-rio-grandense nos anos 1980. Vou citar alguns autores bem misturados.

  1. Erico Verissimo;
  2. Honoré de Balzack;
  3. Pearl Buck (lia-se muito essa autora nos anos 50-60);
  4. Jorge Luis Borges. (e outros argentinos como Mujica Lainez, Julio Cortázar…);
  5. Scott Fitzgerald;
  6. Manuel Puig (paixão);
  7. João Cabral de Mello Neto;
  8. Machado de Assis;
  9. Gabriel Garcia Márquez;
  10. Aldyr Schlee;
  11. Adélia Prado;
  12. Mario Benedetti (e outros uruguaios, como Mario Arregui).

Tudo misturado, alguns dos meus escolhidos têm muito valor para mim, talvez não constem em listas de intelectuais e estudiosos de literatura. Leio por fruição e profissão, depois de aposentada do magistério público. No final dos anos 1980, ministrava aula de inglês na escola pública e simultaneamente ministrava oficinas de criação literária em prosa de ficção. Embora leia e escute poesia desde sempre, nunca publiquei um livro de poemas, não me considero uma grande poeta, mas às vezes acerto. Os poemas estão guardados.
Gosto muito de poesia norte-americana, principalmente aqueles textos narrativos do tempo dos beats, black mountains, e gosto também de poemas mais imagéticos. É muito difícil discutir e produzir poesia.

Heminghway, Edgar Allan Poe, Scott Fitzgerald eu viria a conhecer no curso de Letras – Português, Inglês e suas respectivas literaturas. Balzak foi culpa da minha mãe. Por isso gosto de narrativas longas, contões e novelas. Os livrões traziam várias histórias que Paulo Rónai chamava de contos. Mas tinha também romances com vários núcleos de personagens que se cruzavam.

Tenho uma relação mágica com a literatura infantil e infantojuvenil. Só conhecia os clássicos, escutava em discos. Então minha mãe começou a ler para minhas irmãs menores O Sítio do Picapau Amarelo, e eu escutava do meu quarto. Quando comecei a escrever, achei que ia me dedicar somente a esse tipo de literatura, então comecei a ler todos os bons autores da época. Ruth Rocha, Ana Maria Machado, depois Sergio Capparelli, Ligia Bojunga.

Não havia a cultura da literatura do meu estado, Rio Grande do Sul, até eu começar a assistir palestras e entrevistas com escritores e professores sobre os gaúchos. Gosto muito de aprender através do sentido da audição. Então comecei a conhecer Aldyr Schlee, Lya Luft, Sergio Faraco, José Eduardo Degrazia por meio de de palestras e painéis sobre suas obras. Nos anos 1980 havia uma promoção de atividades culturais muito rica em Porto Alegre.

Em 1990 fui fazer mestrado. Fiz todos os créditos e não escrevi a dissertação, assim fiquei com o título de especialista. Cansei daquele mundo acadêmico e fui me dedicar mais à escrita, com prejuízo financeiro, mas com uma escolha da qual nunca me arrependi.

 

*Vera Ione Molina, escritora e crítica literária. Graduada em Letras (Português, Inglês e respectivas literaturas) e pós-graduada em Teoria da Literatura. Publicou livros ( omais recente:  “Catarina Abre um Caminho de Magia”, editora Bestiário, Porto Alegre, 2018), ensaios e artigos em  diversos jornais e revistas e integrou várias antologias de poesia e contos. Finalista em diversos concursos literários ,  venceu o Concurso Estadual de Literatura Infantil Escreve, Professor! CPERS, 1989, RS.

19 de Outubro de 2018

Meu amor aos livros

Posted in Ler faz crescer às 16:34 por sidneif

Por ELOÍSA ARAGÃO*

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“Hora de leitura” (s/d), de George Goodwin Kilburne (1839-1924)

Hoje é um dia particularmente doloroso, e eu havia recebido o pedido de escrever porque a leitura e os livros são importantes para mim. Desse modo, volto-me às páginas da Vida para contar. O que hoje faz meu dia ser uma noite desassossegada é que uma pessoa querida perdeu alguém que lhe acompanhou por uns anos numa relação vivida a dois. Não sei se é essa a melhor forma que encontro para narrar que esta figura também me foi cara, confesso, com pesar e um traje de luto cultuado um pouco a distância, até mais por uns dissabores do que alegrias. Além disso, pesa-me a força da ressaca que se abateu sobre nós, que amamos a democracia, e temos de fazer um grande esforço para não nos deixarmos tomar pela enfermidade da depressão civil.

Mas é dessa matéria de escândalos e caos que me ergo para contar sobre os livros. Talvez porque a minha lembrança sobre ouvir histórias tenha vindo da infância quando minha mãe lia, a mim e à minha irmã, contos de fadas e histórias de um livro com capa dura, marrom e cujo título era grafado com letras levemente douradas. Tenho-o guardado como a prova de que ele me vale mais do que as fotografias.

Em certo dia, bateu à porta um vendedor de livros. Era tão diferente aquela visita, e boa. Minha mãe  comprou a coleção de contos de fadas, com ilustrações grandes e brilhantes que me fizeram praticamente entrar num universo onírico. Deve ter pagado em prestações. A generosidade se fazia presente, mas não a medida do dinheiro, que nos tinha mau gosto.  O homem vestia-se de modo formal, uma camisa de mangas compridas e usava gravata. Pensei que era alguém como o próprio diretor da escola vindo ao nosso portão sugerir que os livros oferecem alentos para mulheres e crianças.

Havia muitas dificuldades à nossa volta, não somente materiais, mas uma espécie de assombro do que poderia ser o dia seguinte. Então, ali criança e interessada nos sopros cotidianos de novidade, eu assistia a tudo sem ainda me fazer tantas perguntas. Até mesmo porque meu espanto era maior do que a possibilidade de formular alguma resposta. Nesse universo paralelo em que eu me salvava, havia o momento mágico em que a minha mãe abria o livro e lia-nos poemas e histórias curtas, fábulas. Sentia que para ela igualmente o mundo se transformava, sua voz tornava-se mais pausada e melodiosa, como a fazer um ritual solene à entonação do mundo. A mãe ursa brincando com os filhotes, vendo-os  dar cambalhotas.  

De um modo secreto, percebi que os poemas eram como  jujubas. Era preciso ouvir e deixar a sensação se formar na mente para depois se revelar, como o doce que tem o sabor mais definido quando a bala está quase no final. Foi assim que me lembro do quanto me tocaram poemas de Cecília Mereiles, Florbela Espanca e de Manuel Bandeira. Até certo momento — hoje dou risada de como eu idealizava os poetas e escritores, numa idade mais avançada, ainda perto de 12 ou 13 anos, eu piamente acreditava que não fosse possível aos escritores terem uma vida concreta, acorda, toma banho, toma café, vai trabalhar, tem direito a férias.

Em seguida, revejo os conceitos e penso que o certo mesmo é que Clarice, Machado, Eça, Sophia, Virginia, Guimarães Rosa, Pessoa, Cortazar, Borges, Sartre, Simone de Beauvoir  e tantos outros que me deram e darão tantas horas tão felizes — como uma trupe contemporânea que é fantástica — têm todo o direito de viver num mundo à parte, a seu gosto, no melhor estilo que tenho chamado “fez a fama, deita na cama da tapera odara”. (Odara é como eu chamo tudo o que é lindo e alegre. Um dia, num desvario, pedi que quando eu morresse deveriam tocar no meu enterro “Odara”, de Caetano Veloso.)  

Àquela altura da infância, os contos e as fábulas eu os associava à atenção de um dia desejado, a chegada do aniversário, a festa e o momento de partir o bolo. Outra coisa inesquecível é que, desde aquela época, eu sabia que os animais falavam. Fato que foi se comprovando à proporção que cresci. Tenho por eles a maior amizade porque desde sempre conversamos e eu já duvidava de pessoas que não entendessem a linguagem deles. O cachorro, o gato, a lebre, a tartaruga, a águia, o cavalo, o macaco, a festa inteira no céu. E sempre o leão, enjubado e selvagem, lendo os capítulos das estações com seu poder ruivo. Assim, posso comprovar que a arte de ler é também uma arte de entrar na floresta e conversar com os bichos.

Voltando-me às leituras não ficcionais, meu interesse começou nas aulas de História, a disciplina que me explicava a origem de muitas coisas que me intrigavam. E essa pesquisa sobre fatos, agentes e contextos sociais  aumentava à medida que a minha visão de adolescente notava que vivíamos num país muito conservador, cheio de interditos, de um sistema de dominação que eu percebia ao meu redor e intensa e vertiginosamente me incomodavam. Foi por isso que, desde a época da minha graduação, passei numerosas temporadas debruçando-me em livros de História, Sociologia, Teoria Literária e afins e me tornei historiadora.

Não foi por outro motivo que depois da formação universitária, entre outras possibilidades em que teria de investir, abracei o desempenho na área editorial. Finalmente, eu poderia ganhar a vida na realização de um ofício que eu sempre amara: as leituras e o aprendizado. Ali naquele ambiente ordenado do trabalho, quieta e inquieta, eu poderia entrar no universo dos livros — e, ainda, num futuro que se tornou realidade, ver meu nome nos créditos de uma variedade de obras. Quem trabalhou com  impressos por anos sabe o gosto que tem essa conquista, sortida pela textura e pelo cheiro de um livro que acaba de sair da gráfica. Quando é o nosso que chega, então, nem se fala. Até os pulsos palpitam.

É costume da Vida nos colocar em bifurcações, em dúvidas. Mas quanto a essa escolha nunca hesitei: a arte de amor aos livros e às leituras. Ela só me trouxe coisas boas, como a sorte de um dia ter trabalhado com livros para crianças e adolescentes, elaborando catálogos e editando textos. Li tantas obras criativas e outras clássicas, algumas adaptadas, que fizeram minha criança exultar.  A criança que eu fui, muitas vezes insultada por um ambiente hostil, entre impulsos de conflito e de conciliação recebeu colo nas páginas dos livros e ali se aninhou numa ternura inesgotável.

 

*Eloisa Aragão é mestre e doutora em História Social pela USP. É autora de Censura na lei e na marra: como a ditadura quis calar as narrativas sobre suas violências, São Paulo: Humanitas, 2013; Teresa do jardim encantado, São Paulo: Com-Arte, 2012, e de artigos acadêmicos. Tem vários anos de experiência na área editorial, desempenhando trabalhos de edição e elaboração de textos. Mantém a página no Facebook: Sophia de Mello Breyner Andresen – Militância Antifascista < https://www.facebook.com/Sophia-de-Mello-Breyner-Andresen-Milit%C3%A2ncia-Antifascista-182085276004477/?modal=admin_todo_tour >

3 de Outubro de 2018

Oráculos

Posted in Ler faz crescer às 09:45 por sidneif

Por DENISE SCHITTINE* 

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“In the Library” (1923), de John A. Lomax (1857-1923)

Costumo dizer que temos uma família afetiva de escritores. Uma árvore genealógica que acusa nossos gostos de leitor, influencia nas nossas escolhas de textos, nos ajuda na leitura do mundo. Escolhemos nossos parceiros ancestrais e criamos, ao longo da vida, uma relação sólida e duradoura com eles. Com o tempo, esses escritores se tornam amigos próximos. Pedimos conselhos a eles. São oráculos. Nunca deixei de tomar uma decisão importante em minha vida sem antes abrir uma página de Borges, Guimarães Rosa, Gabo, Graciliano, Sartre, Manguel, Dostoiévski, João Cabral ou James Joyce. Eles me inspiram, me alentam e, sem perceberem, me oferecem respostas, nas entrelinhas, nas orações, nas inflexões de seus personagens… nos versos. São uma família com opiniões díspares, nem sempre em concordância, com personalidades fortes e pontos de vista únicos. Mas, como todas as famílias, é a ela que recorro quando quero me sentir em casa. Alberto Manguel disse uma vez que a combinação da cama com um livro concedia a ele uma espécie de lar ao qual ele sabia que podia voltar, noite após noite, sob qualquer céu. Se eu pudesse viver nos meus livros, habitá-los, já saberia em qual canto de minha biblioteca me recolheria para ouvir as últimas histórias antes do sono.

Comigo começou tarde. Eu já me considerava perdida para leitura quando o professor de literatura do segundo grau entrou em sala, postura desafiadora, recitando o último capítulo de Ulisses. Ele nos olhava sem censura e repetia o hipnotizante monólogo de Molly Bloom. Eram tantos “sins” misturados a uma descrição de paisagens, flores, aromas, perfumes, texturas, vacas, campos, paisagens… A primeira vez que senti uma personagem viva, pulsante, vibrante: com o fluxo de pensamento livre. Saí da sala de aula embriagada pela experiência sensual de Molly. Quis ler o livro. Precisava saber como ela havia chegado ao seu pico de prazer. Então, perdi alguns meses na trama longa e complicada de James Joyce. Foi muito difícil, em alguns pontos, incompreensível. Mas não desisti.

Então, depois dessa primeira experiência finalmente eu tinha encontrado uma das raízes da minha família. O segundo grau foi a minha celebração com a literatura e o encontro com alguns dos personagens que mais me marcaram e emocionaram. Chorei, ainda choro até hoje, com a morte da cachorra Baleia em Vidas Secas: tão corajosa com a cabecinha encostada na pedra depois de perder o que restava da saliva e sonhar com preás. Fabiano, impossibilitado de lidar com as próprias palavras; vítima da violência da vida, da agressividade do soldado amarelo e de sua própria incomunicabilidade. Macabea, uma estrela apagada, mas com brilho interno tão, tão forte, que me gerava uma empatia espontânea. Era uma ingênua, inocente, e eu sempre enxerguei a verdade e a beleza nas pessoas capazes de serem simples. Clarice Lispector era uma descoberta principalmente pela facilidade com que discorria sobre todos os sentimentos, inclusive os meus: o romance A hora da estrela vinha na frente. Mas Clarice era excepcional nos contos. “Feliz aniversário” era o xeque-mate de uma matriarca talvez esquecida, talvez envelhecida, mas com o espirito crítico aguçadíssimo. “Uma galinha” me fez ter pena de todas as angustiadas galinhas que existiam no sítio da minha família. Mas o maior afeto era pelo conto “Felicidade clandestina”: ter a felicidade, ainda que clandestina, de ler um livro proibido era o meu sonho de leitora.

Depois veio o mestre Guimarães Rosa. Mais lágrimas ao final de Grande Sertão Veredas. Não havia amor maior do que o de Riobaldo e Diadorim. Quantos desencontros, quantos desejos nunca mencionados. Era como na vida, o amor dependia do encontro, do momento: deixar passar uma oportunidade poderia significar perder um grande amor. Rosa sabia disso, como sabia de tantas outras coisas. Sabia a linguagem dos valentes vaqueiros, das mulheres esquecidas no sertão, das orações, das superstições e dos medos. Com ele eu aprendi a amar essa região inóspita que brindou o Brasil com a mais bela literatura. E depois dele veio João Cabral, Euclides da Cunha, Ariano Suassuna, Ronaldo Brito. O sertão corre nas minhas veias literárias de uma forma inexplicável. Sertão é o rio São Francisco: percurso inevitável de Severino, em Morte e vida Severina. Um dos poemas mais lindos da nossa literatura, impossível de ser lido sem pensar na música de Chico Buarque e na trajetória do sertanejo que encontra todo tipo de morte em seu percurso até entender que é possível, sim, ao final de tudo, encontrar vida: ainda que pequenina e Severina. Sertão é a oralidade divertida de Ariano Suassuna, que nos faz lembrar dos cordéis e repentes, das feiras de rua do nordeste do país, dos emboladores de coco, carpideiras… contadores de histórias que forjaram a nossa História.

Mas, nesse meio tempo, fui morar fora do Brasil. E, na França descobri a beleza particular dos romances de Sartre. Li com carinho A idade da razão, A náusea e Sursis. Mas as peças eram uma fatia muito especial da obra do escritor e entre elas inegavelmente A prostituta respeitosa e Huis Clos (Entre quatro paredes). Vi montagens de Huis Clos na França e no Brasil e sempre me impressionou a visão do Inferno de Sartre: uma sala fechada com três pessoas que mal se conhecem, mas são obrigadas a conviver pela eternidade. A peça me perturba até hoje. O inferno são os outros? Não, o inferno somos nós. Mas o meu livro de cabeceira sartriano chama-se As palavras, meu oráculo de Delfos. Essa autobiografia, pequena e delicada, sobre a infância do escritor e a sua descoberta das bibliotecas, dos livros e da beleza das palavras é sem dúvida um dos textos mais bonitos que já li. É inesquecível o momento em o pequeno Sartre descobre que os livros têm “vida própria”. Ele pede à mãe, Anne-Marie, ler uma história: “Minha mãe ausentara-se: nenhum sorriso, nenhum sinal de conivência, eu estava no exílio. Além disso, eu não reconhecia sua linguagem. Onde é que arranjava aquela segurança? Ao cabo de um instante, compreendi: era o livro que falava”. Pela linhagem francesa viriam outras leituras, tão importantes: Jean-Pierre Vernant, que só aprofundou o meu amor pela mitologia, o controverso Georges Bataille, Flaubert, principalmente o conto “A legenda de São Julião Hospitaleiro”, Georges Perec e seu W ou le souvenir d’enfance, sempre desafiando o leitor com jogos, ideias e pensamentos. Mas o mais marcante foi Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, uma protagonista irresistível: mulher numa França provinciana do princípio do século XX, Thérèse é indomesticável, genial, entediada e bastante cruel. Uma anti-heroína, uma mulher complexa, amarga, culpada, mas ao mesmo tempo capaz de purgar seu próprio pecado com um doloroso exame de consciência.

Não demorou muito para eu ir estudar literatura e o meu maior medo, como escritora e leitora: a cegueira. Foi com essa tocha que me embrenhei no escuro da obra de Jorge Luis Borges para encontrar um dos escritores que mais escreveu sobre livros, bibliotecas, espelhos, tigres, labirintos… Era uma profusão de assuntos que me encantavam: livros de areia, objetos mágicos, seres imaginários, bibliotecas infinitas, senhas para a eternidade, jogos de espelhos e de palavras, duplos, sonhos, dentro de sonhos, dentro de outros sonhos… Borges era, e é, um caleidoscópio de invenções e referências. A prova de que a realidade é repleta de ficção. Eu tinha chegado aonde queria.

E foi Borges quem me abriu as portas para o meu olhar para América Latina. Morar em Rosário me fez encarar o que havia do outro lado do rio Paraná. Com ele vieram Adolfo Bioy Casares, María Esther Vázquez, Cortázar, Erneste Sabato. O estudo da língua espanhola me permitiu explorar mais: ler Gabriel Garcia Márquez no original, visitar a Colômbia e buscar Macondo em cada cidade e um Buendía em cada esquina. Dormir embalada pelas histórias de Maria Vargas Llosa: Pantaleão y las visitadoras, O elogio da madrasta. Visitar o Chile de Germán Marín, o México de Héctor Abad Faciolince, a Colômbia de Evelio Rosero. Com essas leituras, meu mapa literário estava pronto. E ele ainda é formado de pampas, sertão, rios, cidades imaginárias, caminhos que se bifurcam, labirintos e muitas, muitas bibliotecas: grandes ou pequenas; abertas ou fechadas, mas sempre infinitas.

 

*Denise Schittine, editora de ficção e não-ficção nacional , doutora em em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e Universidade Nacional de Rosário (2011). Autora de  “Ler e escrever no escuro: a literatura através da cegueira” ( Paz e Terra, 2016) e “Blog: comunicação e escrita íntima na internet (Civilização Brasileira, 2004)”. 

24 de Setembro de 2018

Abrir um livro, um nirvana

Posted in Ler faz crescer às 15:25 por sidneif

Por BÁRBARA LIA*

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“A sala de estar” (1941-1943), de Balthus (1908-2001)

Minha vida de leitora começou na infância. Aprendi a ler e comecei a devorar todos os almanaques, livros e revistas pela casa. No início da minha vida de leitora era mais comum ler almanaques e revistas policiais. Lia (e amava) a Revista X-9. Crimes solucionados e na contracapa uma história de terror. Nada disso mudou minha essência delicada, talvez por ser tudo pulverizado com poesia. Meu pai recitava poemas pela casa, o tempo todo. Minha vida teve uma biblioteca sonora com os grandes poetas do Brasil, aqueles que o pai amava: Castro Alves, Vicente de Carvalho, Gonçalves Dias e também Camões. Minha vida era lavada pelo épico, isso me impediu de me assumir poeta mais cedo, pela certeza que jamais escreveria algo tão retumbante e dramático, mas eu achava lindo.

Meu avô, um rábula misterioso, tinha uma Biblioteca enorme, uma parede inteira em seu escritório. Eu amava aqueles livros de capa cor cinza — O Tesouro da Juventude. Passei um tempo enorme desvendando o mundo. Na Escola, em plena época de ditadura militar, nas aulas de Português, serpenteavam clássicos que a gente lia: José de Alencar, Monteiro Lobato, Machado de Assis.

Aos dezesseis anos, iniciei minha vida de trabalhadora com carteira registrada e relógio ponto. Trabalhava oito horas/dia e estudava nas noites. Finais de semana para passeios, mas nesta agenda apertada tentei não ignorar meus amigos livros e me filiei ao Círculo do Livro e tentava encontrar novidades na única livraria da cidade — a Livraria Roma, em Campo Mourão. Meu pai, ao tempo que me deslumbrava com suas histórias e récitas, questionou minhas escolhas independentes. Eu comprei Para uma menina com uma flor, de Vinícius de Moraes, e ele fez um discurso inflamado contra o Vinícius. Meu pai não gostava de comunistas. E ouvi outro discurso quando fiquei encantada com os poemas de Pablo Neruda. De comunista em comunista eu fui levando, ele sempre preocupado com minha rebeldia. Comprei o best-seller [Manson: retrato de um crime repugnante] escrito pelo agente do FBI que prendeu a família Manson. Meu pai achou normal ler o livro de Vicent Bugliosi e detalhes do assassinato da Sharon Tate, com filho no ventre e tudo. Sempre tive esta tendência a tentar entender mentes que matam.

O que superou os crimes, as biografias, os livros de Harold Robbins e Sidney Sheldon do Círculo do Livro foi me mudar para Curitiba, no início dos anos oitenta. Nessa mudança os meus hábitos de leitora tomaram outro rumo. Livrarias, bibliotecas e conhecer os poetas. O horizonte ampliou infinitamente. Cada tempo de férias era para ler um autor, e de verão em verão eu vivi ao lado dos gênios, minha vida nunca mais foi a mesma, e minha Poesia ficou mais rica quando entendi que é possível criar mundos e situações, que é possível ser qualquer coisa dentro de um poema. Isso eu aprendi com os Mestres.

Impossível nominar todos os poetas que li, minha vida era emprestar livros na Biblioteca Pública, ler poesia russa, espanhola, descobrir os mitos. Nada pode ser mais lindo que um verão com Jorge Luis Borges, ou um inverno com Emily Dickinson. Um tempo infindo lendo Fernando Pessoa. Fernando Pessoa e Emily Dickinson disputam o pódio da perfeição no meu coração. Ela é tão incrível que passei meses ao seu redor.

Não dá para enumerar aqui todos os autores que li nestes últimos trinta anos. A gente envelhece, os olhos se cansam, aquela fúria abranda, mas ainda acho que é uma espécie de nirvana abrir um livro e ser sacudida por ideias, versos e narrativas. O poder da palavra, esta que eu amo e com a qual me relaciono com cuidado.

Ler me ajudou a entender o mundo, as pessoas e a minha própria vida.

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Foto: Isaias de Faria

*Bárbara Lia, Poeta e Escritora. Nasceu em Assaí (PR). Vive em Curitiba (PR). Publicou os livros de poesia: “O sorriso de Leonardo” (Kafka/2.004), “O sal das rosas” (Lumme/2.007), “A última chuva” (Mulheres Emergentes/2.007), “Tem um pássaro cantando dentro de mim” (2011), “A flor dentro da árvore” (2011), “Respirar” (2014) e “Forasteira” (Vidráguas/2016). Publicou os Romances: “Solidão Calcinada” (Sec. da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná/2008), “Constelação de Ossos” (Vidráguas/2010), “As filhas de Manuela (Triunfal/2017) e “Não o convidei ao meu corpo” (Kazuá/2018).

O pequeno leitor

Posted in Ler faz crescer às 14:45 por sidneif

Por MARIA AMÁLIA CAMARGO*

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“A New Fairy-tale”, de 1891, de Nikolai Petrovitch Bogdanov-Belsky (1868 – 1945)

“Livros? Livros não.”

Como uma instituição que cuida de crianças carentes não aceita doação de livros infantojuvenis? Pior foi ouvir que “as crianças já praticam esportes e cantam no coral, não têm tempo para ler. No final do dia estão muito cansadas”. Essa conversa pelo telefone aconteceu há um mês. Passei o final da tarde e o resto da noite em estado de choque. Aliás, volta e meia me lembro das palavras da senhora, que apesar de não gostar de livros, tinha a voz da fada-madrinha da Bela Adormecida. Ainda a imagino assim.

Talvez as crianças dessa instituição nem saibam quem é a Bela Adormecida. Talvez não saibam o que é uma fada-madrinha ou nem sequer tenham escutado algo que comece com “era uma vez”. Não consigo imaginar uma criança sem acesso a livros, privada de fantasia, de cultura. Certamente nas horas de folga elas brincam de faz de conta, mas deve ser um faz de conta diferente do das crianças que são incentivadas a ler e têm um repertório de histórias e personagens povoando a imaginação.  

Sempre me perguntam a importância da leitura para uma criança. Além do enriquecimento do vocabulário, da capacidade de compreensão de texto, a leitura propicia a reflexão, o desenvolvimento do pensamento crítico. O pequeno leitor pode exercer a capacidade de julgar o que é certo e errado, justo e injusto. Além de tudo, a criança se depara com sentimentos e emoções pelas quais virá a enfrentar e a sentir no futuro. Ah! E o mais importante: um livro é um mundo a ser explorado. Quem lê viaja sem sair do lugar.  

Meus grandes momentos como leitora foram na infância. Ficaram guardados na memória sem que eu me desse conta disso até começar a escrever profissionalmente. Lembro-me que meus livros preferidos eram protagonizados por personagens rebeldes, criações da Fernanda Lopes de Almeida e da Ruth Rocha. Princesas e meninas contestadoras que serviram de inspiração para muitas das minhas personagens, em especial a Emília Ercília do livro A ervilha que não era torta, mas deixou uma princesa assim (Caramelo, 2012).

*Maria Amália Camargo, formada em Letras pela USP, é escritora e tradutora de literatura infantojuvenil. De vez em quando também se arrisca a ilustrar. Ministra oficinas de criação literária em escolas e bibliotecas, onde aprende mais do que ensina.

As histórias dos livros, a vida

Posted in Ler faz crescer às 14:30 por sidneif

Por EDNA BUENO*

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“Grupo de meninas brincando” (1940), de Candido Portinari (1903-1962)

Nasci numa casa cheia de livros e de gente gostando deles. Numa estante enorme, que ocupava um corredor, os livros para crianças ficavam numa prateleira ao nosso alcance. Li muitos contos de fadas, Perrault, Grimm, uma coleção chamada Reino Infantil. Duas outras coleções me encantavam, Mundo da Criança e Tesouro da Juventude. Palavras e imagens, mistérios. Gibis e uns livrinhos de pano inesquecíveis que comprávamos no jornaleiro. Minha mãe lia as histórias fazendo diferentes vozes para as personagens, desconfiava daquilo e quis aprender a ler. Curioso que foi ela, minha mãe, quem me ensinou.

Sabendo ler, mergulhei no Sítio do Picapau Amarelo. Encantador, como na fazenda em que passávamos as férias. Era um grande pedaço de terra que tinha sido do meu avô paterno, que tinha tido seu tempo áureo, e na minha infância era lugar de brincadeira e descoberta. Era aquela imensidão, uma casa de muitos cômodos e sem luz elétrica. De noite, a prata das folhas das embaúbas. Tudo como no sítio de Monteiro Lobato, eu imaginava. Juro que tinha saci. E como era incrível aquilo de vida no livro se cruzar com a vida fora dele, tão igual. Livros feitos de uma vida que eu, de algum modo, conhecia.

Mais tarde, moramos nesse lugar. Perto do Rio de Janeiro, de onde saímos. Nessa época o seu Paulo, dono de uma venda, pediu para deixar um burro pastando em frente à nossa casa. Meu pai batizou o tal de “Teu Retrato” e eu e meus dois irmãos nos divertíamos. A cada pergunta de como se chama o burro, muitas risadas. Eu tinha uns onze anos e não suspeitava que, alguns anos depois, iria abrir o livro Sagarana, de Guimarães Rosa, e encontrar lá a cachorrinha “Sua Cara” e as folhas prateadas das embaúbas. A confirmação: as histórias dos livros, a vida.

Penso que essa leitura na infância, esse cruzar de livros e vida, influenciou o meu jeito de olhar o mundo, de estar nele. Aprender a ler também me deu o gosto pela poesia. Lia poemas em voz alta, adorava, até hoje gosto. A poesia é um jeito de olhar.

Uma alegria foi ler para meu filho quando pequeno. Não fiz vozes para as personagens, já que um dia não gostei disso, e eis que ele me pediu que fizesse. Cada leitor é único, aprendi. Para ele, o texto ganhava cores quando ganhava vozes. Um leitor livre, que se entregava às histórias sem desconfianças. E, então, com ele conheci a cadela basset “Sua Avó” no livro Os bichos que tive, de Sylvia Orthof. Como rimos. Mais uma vez os livros me trazendo essa surpresa, eu vendo que as leituras vão se esticando, passando de um para o outro, meu pai e Sylvia Orthof passando adiante a leitura de Guimarães Rosa.

Transbordei, um dia. Digo que transbordei a partir da fala de Ana Maria Machado, em uma palestra a que assisti, mais ou menos assim: “de tanto ler, um dia acontece de transbordar e escrever. A escrita vem da leitura”. Hoje escrevo. Depois de ter trabalhado anos na engenharia — me graduei em engenharia química —, finalmente me encontrei: as palavras são minha paixão. Ler e escrever me dão sentido, são a minha sintonia.

*Edna Bueno, nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em Engenharia Química, mas sempre esteve muito próxima das letras, uma vez que, desde pequena, todos em sua casa gostavam de ler. O livro “Entre os Bambus” foi publicado no Brasil depois de ter recebido o Prêmio França-Brasil de Literatura para crianças. O outro livro, “A Ingrid Veio Ver o Mar”, ganhou em 2002 o Prêmio Adolfo Aizen, importante premiação na área infantojuvenil.

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