20 de Julho de 2018

Três leituras decisivas

Posted in Ler faz crescer às 16:59 por sidneif

Por NATALIA TIMERMAN*

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“Mulher deitada lendo” (1960), de Pablo Picasso (1881-1973)

I

O último livro que me causou fortes sensações físicas foi Poema Sujo. Meu segundo filho estava com poucos meses e tirava alguns cochilos durante o dia, uns mais curtos, outros mais longos, impossível prever quando cada um. Uma manhã, ele adormeceu, peguei o livro de Ferreira Gullar e deitei no sofá, meu lugar preferido da casa e talvez do mundo. Não sei com que meu filho sonhou na hora e meia em que me deixou terminar a leitura para então, no tempo justo, como se soubesse a hora certa, chorar. Fui até seu quarto transtornada, transformada. Um avião passava no céu e eu estava também nele, no alto, no meu antes, retirando meu filho do berço e também no depois, abraçando-o feliz por ele me mostrar sua infância e então a nossa, agradecida por existirmos ambos num universo onde se escreve algo como Poema Sujo.

II

Há livros para frio e livros para calor, mas subverter essa lógica tão tácita quanto obscura pode acontecer e talvez nos ajudar a entendê-la um pouco mais. Levei A Montanha Mágica (Thomas Mann) para ler em umas férias longínquas em Boipeba, na Bahia. Carreguei aquela montanha nevada para cima e para baixo no calor tropical, suei deitada na areia diante do frio rarefeito do tratamento de Hans Castorp, passei os olhos pelos longos diálogos filosóficos escutando ao mesmo tempo alguém perguntando se eu queria camarão. Aquela viagem não teria sido a mesma sem o livro, do qual mal podia me separar, mesmo que por poucas horas, à noite, para tomar uma cerveja com amigos. Talvez me fizesse sentir um pouco de frio, ou mais calor, ou tenha me ajudado, também com sua presença física contrastante com o lugar — a montanha branca desenhada na capa — a entender o que é o tempo. Até hoje, passados tantos anos, mesmo sem ver as marcas que a viagem deixou no livro fechado na estante, sei que a infância demora para passar porque só há o novo, e a partir de certa altura (o topo da montanha), quase tudo se repete ou apenas varia sobre o que antes já foi, e então a vida corre como se descêssemos correndo pela neve (ou a areia) escorregadia.

III

Eu estudava medicina e cabeceava diariamente a realidade e minha escolha. Assistia às aulas de biologia molecular e biofísica sempre com um livro no colo, fugindo da aula, em eterna direção a outro lugar. Comecei a cursar letras à noite e me impressionei com a possibilidade de existirem deveres prazerosos, como na época das aulas de literatura no colégio. No terceiro ano de medicina, fiz uma viagem ao Xingu por um programa extracurricular da faculdade para vacinar índios de aldeia em aldeia e ajudar em uma buscativa de casos de toxoplasmose. Foram três semanas diante de pessoas que vivem de um jeito completamente outro. Três semanas sem espelho, tomando banho de rio, dormindo na rede, sem velocidade que não a da voadeira, que nos levava por horas — às vezes muitas, quatro, cinco, oito — em direção às aldeias. Nessas viagens pelo rio, eu lia o Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa). Eu lia o buriti e levantava os olhos pros buritis nas margens, lia os pássaros e os via cruzando o céu em cima de mim. O livro ficou todo sujo de terra, e ainda guarda um inseto morto entre suas páginas.

Terminei de ler já de volta em São Paulo. Eu chorava a ponto de não conseguir me fazer entender em uma conversa telefônica: demorou um pouco até eu deixar a pessoa despreocupada do outro lado da linha, está tudo bem, nada grave aconteceu, estou assim pela leitura de um livro.

Depois dessa viagem, decidi ir até o fim na faculdade de medicina. E os livros, bem, continuam aqui.

 

*Natalia Timerman, psiquiatra, mestre em Psicologia, escritora. Publicou “Desterros – histórias de um hospital-prisão” (Elefante, 2017).

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Lemos porque…

Posted in Ler faz crescer às 16:57 por sidneif

Por ISABEL FURINI*

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“Maria” (1909), de Helene Schjerfbeck (1862-1946)

Lemos porque queremos entender a realidade de outro ponto de vista ou porque precisamos fugir dela, por um momento, para voltar mais lúcidos.

Lemos porque queremos saber como os outros vivem, enfrentam os problemas, como vencem ou como sucumbem. Lemos porque queremos ver nosso eu refletido no mundo dos personagens.

Tanto a leitura de obras ficcionais quanto o teatro nos levam pelo caminho do entretenimento e da reflexão. Às vezes, nos arrastam pelo caminho da catarse, mas por estradas diferentes.

A fascinação do teatro é o enlevo emocional, a participação grupal — que alimenta, além do instinto estético, o instinto gregário do ser humano.

A leitura é — geralmente — solitária. No momento de ler, estamos sozinhos. Interagimos mentalmente com o livro, depois podemos comunicar as emoções, ideias e pensamentos que experimentamos enquanto realizávamos a leitura. É importante destacar que um bom livro nos faz suportar melhor a solidão.

Ao terminamos de ler um livro, também podemos sentir desejos de elogiar ou de criticar. Mas o fazemos mentalmente. Também podemos escrever nossas impressões ou procurar outras pessoas para fazer comentários ou trocar opiniões. Por isso é tão importante a criação de clubes de leitura. O ser humano é gregário e precisa de outros para dialogar e crescer.

A leitura de um romance ou de um livro de contos coloca em jogo a imaginação, a fantasia, a curiosidade, o raciocínio e até a teoria de valores do leitor. O escritor Jorge Luiz Borges dizia que ler deve ser um ato prazeroso.

Em síntese, lemos literatura para interpretar o mundo, para esquadrinhar a alma humana, para conhecer, para compreender, para sair do dia a dia rotineiro. Ítalo Calvino, Julio Cortázar e outros aconselham ler os clássicos. Os clássicos passam valores enquanto desenvolvem histórias.

Ler é vital para nosso desenvolvimento como seres humanos.

 

*Isabel Furini, escritora, poeta, palestrante e educadora; seus poemas foram premiados no Brasil, Espanha e Portugal; é autora dos livros de poemas “Os Corvos de Van Gogh”  e “,,, e outros silêncios”; membro da Academia de Letras do Brasil/ PR, ; Embaixadora da Palavra pela Fundação Cesar Egido Serrano (Espanha), em 2015; recebeu Comenda Ordem de Figueiró. Realizou recitais poéticos na 36a. Semana Literária do SESC & XV Feira do livro da URPR, e na Burlingame Public Library, USA.

Para mim e para as bonecas

Posted in Ler faz crescer às 16:56 por sidneif

Por BRUNA ASSIS BRASIL*

Dobson, William Charles Thomas, 1817-1898; Fairy Tales

“Fairy Tales”, de William Charles Thomas Dobson (1817-1898)

Quando pequena, eu era muito incentivada a ouvir histórias. Minha família tinha uma cultura muito oral de contação, não necessariamente ligada ao livro. Eu ouvia de tudo: desde a Dona Baratinha até relatos de guerra. Era tudo muito fascinante e me lembro de ficar encantada com a forma como meus avós me faziam imaginar as histórias apenas contando o que estava na memória ou no imaginário deles.

Como leitora propriamente dita, minha grande inspiração foi meu avô, que tinha uma pequena (mas muito especial) biblioteca. Com obras que iam desde o Tesouro da Juventude (enciclopédia) a livros sobre bichos estranhos e os grandes clássicos da literatura. Nada voltado para o público infantil, mas eu achava completamente incrível.

Na escola, meu momento preferido era a aula de conto. Todos se sentavam em almofadas fofinhas e ouviam atentamente as histórias como “Casa sonolenta” e “Se será Serafina?”. Sempre levava muitos livros para casa, que lia e relia para mim mesma ou para as minhas bonecas. Era uma delícia.

Crescendo, continuei lendo bastante. Hoje, confesso que me rendi às maravilhas da leitura digital e sou uma grande fã do Kindle. Quem diria que um dia daria pra carregar tantas histórias em um lugarzinho tão pequeno?

Mas mesmo sendo fã do digital, vou muito a livrarias e AMO me perder nelas por horas a fio. Invisto muito em livros, principalmente de histórias em quadrinhos, infantis e de culinária. Como ilustradora, sou apaixonada pelo design do livro como um objeto. Isso me faz colecionadora assídua daqueles que me encantam pelo visual. Como é gostoso pegar um livro em que a história escrita e a história visual são igualmente bem cuidadas. Amo poder apreciar a conexão entre esses dois lados, é o que mais admiro como leitora. Cada vez mais a linguagem visual faz parte da narrativa do livro, seja ela formada pela ilustração ou simplesmente pelo design gráfico. Sorte a minha existir tanto para ser apreciado.

*Bruna Assis Brasil, ilustradora. http://www.brunaassisbrasil.com.br/

A degradação do homem pelo homem

Posted in Ler faz crescer às 16:52 por sidneif

Por LUIZE VALENTE*

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“The Killing of a Woman Inmate” (1947), de David Olère (1902-1985)

Ler e escrever caminham juntos para mim. Minha escrita é consequência das minhas leituras. Sempre amei os livros, desde criança. E devo muito deste gosto ao meu pai, um assíduo frequentador de livrarias e bibliotecas.

Desde bem pequena, quando ainda nem sabia ler, já vivia entre livros. Acho que foi do fascínio por este mundo no papel que nasceu minha vontade de escrever… da vontade de decifrar aquele código de letras! Quando aprendi a ler, não parei mais.

Considero que a melhor escola para um escritor é a leitura.  Por conta disso tive e tenho diversas influências literárias. E à medida que os anos vão passando (e já são tantos), mais livros se incorporam – acho que é essa a palavra certa! –, passam a fazer parte de mim.

Experiências literárias desde a infância me proporcionaram grandes momentos como leitora. Mas vou ressaltar aqui às que, de certa forma, estão diretamente ligadas as tramas dos meus livros, que giram em torno de temas judaicos.

Existem três autores que descobri, ainda adolescente, cujas obras venho lendo e relendo ao longo da vida. Os três, além de me proporcionarem grande momentos como leitora, embora muitíssimas vezes dolorosos, me marcaram profundamente. São eles Leon Uris, Philip Roth e Primo Levi. Li tudo deles, e É isto um homem?de Primo Levi – sobrevivente do Holocausto –, é um livro que mora na minha cabeceira. Para mim, um dos relatos mais contundentes sobre a degradação e exploração do homem pelo homem.

 

*Luize Valente, Escritora e documentarista, autora de romances históricos.
luizevalente.com

12 de Julho de 2018

Ler e ser : da Bíblia à Biblioteca

Posted in Ler faz crescer às 18:16 por sidneif

Por CHRISTINE CASTILHO FONTELLES*

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“A Leitura” (c. 1891), de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)

Lemos para atender necessidades objetivas. Ouvi esta sentença de Percival Lemos de Britto, um dos maiores estudiosos brasileiros em leitura, durante um seminário no Salão do Livro promovido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o único do gênero que considero imperdível para crianças, adolescentes e educadores — ou seja, adultos todos e sobretudo professores.

Minha paixão pela leitura é tão antiga que parece que nasci assim, com esse gosto enorme e democrático: leio praticamente sobre tudo, embora tenha lá as minhas preferências. Até então nunca tinha pensado no assunto com esta objetividade; eu que lá pelos quinze anos subia ao céu toda a vez que comprava na banca de jornal um clássico da literatura universal, de capa dura com letras douradas. Data desta época minha paixão pela literatura russa: Ana Karennina, de Tolstoi, Crime e Castigo, de Dostoievski, Mãe, de Gorki, retratos intensos de vidas trituradas pela moral, pela miséria e pela ganância.  

Aos poucos fui recolhendo minhas memórias do meu prazer de ler, mesmo os textos mais cabeludos: quando criança, toda bendita noite meu pai me chamava para ler versículos da Bíblia — era homem de muita fé, pai afetuoso que oferecia aos filhos o que havia descoberto de melhor na vida e neste rol estava seu aprendizado religioso, acima do qual só estava seu amor à família que havia constituído com o grande amor da sua vida. Eu não gostava nadinha, ia contrariada e aplicava sistematicamente a mesma represália: toda a vez que terminava de ler, ele me perguntava o que havia entendido, firme e emburrada dizia: “nada”. Hoje sei com enorme clareza quem me guiou no desafio de descobrir que por trás dos símbolos que são as palavras habitam os significados. Foi dele também a iniciativa de me dar um presente inesquecível e inestimável, a coleção completa do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato.

Eu trocava tudo para me esparramar na cama e literalmente de pernas para o ar ir “brincar” lá no Sítio. E olha que sou da geração de criança que brincava na rua, onde o maior temor era o “homem do saco” — soube recentemente que eram o que hoje conhecemos como catadores de material reciclável. A coleção está doada em consignação à minha filha, para quem li desde sempre. No desafio de ser mãe, aliás, a literatura sempre foi minha aliada.

Foi com o poema de Eduardo Alves da Costa, Passeio, que lhe falei, ainda criança, e me fiz entender, sobre o risco da resignação. Observando seu encantamento pelas ilustrações a “recuperei” do desencanto com os livros: a leitura da belíssima edição ilustrada de Romeu e Julieta a levou direto para o original de Shakespeare, já na adolescência. Foi dela que ganhei de aniversário Mania de Explicação (Adriana Falcão) — imperdível! – com a seguinte dedicatória: “para a minha menina que tem a mania de transformar vida em sonho e sonho em realidade”. Hoje ela é bióloga e hoje está na Georgetown University  na estrada de seu pós-doutorado na área de nutrigenômica, programação do câncer e epigenética.

Eu, desde 1999, trabalho com articulação por bibliotecas abertas à comunidade  Brasil adentro e ando às voltas em descobrir e repetir que brasileiro gosta, sim, de ler, para o quê não coopera a ausência de livrarias em 73% dos municípios brasileiros, responsável por 59% das vendas de livros, a ausência de bibliotecas em 53% das escolas públicas — embora o professor seja o grande influenciador de leitura para as crianças conforme revela a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2017 e a precariedade, em quantidade e qualidade, de bibliotecas públicas, que são o lugar por excelência onde TODOS podem acessar bons livros e, por meio destes, todo o conhecimento produzido e registrado em livros pela humanidade.

Eu queria encontrar para o ato de ler algo tão conciso e contundente quanto a frase que li um dia na camiseta que usava o pediatra da minha segunda filha – à época  com 1 ano, quando brincava de ler e seus livros prediletos eram Se você vir uma Vaca  e A História de um Mago, livros cartonados, ideais para bebês : “Carinho também é ação, pratique amamentação”. A palavra-chave insubstituível é carinho. Quer tentar?

*Christine Castilho Fontelles, cientista social formada pela PUC/SP com MBA em marketing pela FIA/FEA/USP. Coordena a campanha Eu Quero Minha Biblioteca pela universalização de bibliotecas em escolas. É conselheira da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e fundadora da Centhral do Brasil – consultoria de projetos de educação para a leitura e escrita.

A linguagem é política

Posted in Ler faz crescer às 18:15 por sidneif

Por MARÍLIA MOSCHKOVICH*

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“Torre de Babel” (1563), de Pieter Bruegel (1525/30-1569)

Certa vez minha mãe me presenteou com um livro chamado O Pato Poliglota ( Ronaldo Simões Coelho). Devo ter lido este livro assim que aprendi a ler, mais ou menos aos 4 anos de idade.

Achava o máximo a ideia de que muitos conflitos poderiam ser resolvidos com comunicação, e que conhecer várias línguas era bacana pra isso e tal. Sempre atribuo a esse livro meu gás pra aprender língua.

Hoje sou fluente em 3, além do português, e estou na Alemanha estudando alemão para um dia talvez ser fluente numa quarta.

O livro despertou meu amor por idiomas e linguagem, ao mostrar como a linguagem é política: tudo isso por meio de uma fábula em que um pato aprende e ensina os idiomas de diversos animais uns aos outros.

 

*Marília Moschkovich, Socióloga, escritora, editora e comentarista política.

Os mais íntimos

Posted in Ler faz crescer às 18:12 por sidneif

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“Moça Lendo” (ca. 1915), Dinastia Qing, Jiaqing, Cantão, China

Por ALANE RAMOS BARBOSA*

Às vezes tudo começa pelo fim.

A morte chegou muito cedo para minha mãe e por isso fui acolhida por minha avó materna, a quem devo meu gosto e admiração pela leitura. Nos anos de minha adolescência, líamos os livros que eu trazia da biblioteca da escola. Alguns ela lia sozinha, outros passamos a ler juntas, pois decidimos, na época, que diariamente às dezoito horas, teríamos uma hora de leitura. O primeiro livro que concluímos foi  O Reverso da Medalha, do escritor norte americano Sidney Sheldon.

Notei, já na juventude, minha paixão pela leitura e, um pouco adiante, pela escrita. Iniciei com Contos Escolhidos, de Machado de Assis e, daí por diante, não parei mais.

Por conta da universidade, estudos filosóficos tomaram boa parte da minha trajetória como leitora, mas não tiraram de mim a paixão pela literatura. Foi nesta mesma época que conheci os escritores que acompanho até hoje. Poderia citar vários, mas vou me ater aos que considero mais íntimos.

Da literatura russa nasce o amor por Dostoievski; dos gregos, Platão; dos portugueses, os poetas Fernando Pessoa e Florbela Espanca; dos franceses, Albert Camus, Foucault, Simone de Beauvoir.

Do nosso país, levo no coração Hilda Hilst, Guimarães Rosa, Mario Quintana, Clarice Lispector, Adélia Prado, Carlos Drummond, Vinícius de Moraes, entre tantos.

Neste momento tenho me dedicado ao escritor francês Georges Bataille, uma das minhas mais gratas surpresas deste ano.

Quero destacar aqui, em especial, um escritor – contista e prosador – marcado por uma escrita sensível e singular. No seu livro Caderno de um Ausente, João Anzanello Carrascoza discorre, na primeira pessoa, sobre a experiência do personagem central, estando na meia idade, ter uma filha. A narrativa contempla um caderno que o personagem escreve para esta filha com a intenção de deixar para ela para que leia quando adulta.

Poético, forte, sensível… Surpreendente! Extraio alguns trechos, que me marcaram, do livro citado:

CADERNO_DE_UM_AUSENTE_1496942644388418SK1496942647B“Acabas de nascer e eu tenho de te explicar, como se já pudesse entender, e, da mesma forma, estou dizendo a mim, que não vamos passar muito tempo juntos, que deves te preparar para viver mais longe de mim do que perto – eu farei pra sempre, só parte do início da tua história”…

“Tu descobrirás, filha, que sonhar nos salva da rotina, mas, também nos desliga da única coisa que nos mantém em vigília.”

“A tua vida, filha, é um texto que há tempos começamos a escrever, mas, daqui em diante, também te cabe pegar esta tinta e delinear o teu curso, tome só cuidado com o que retiras do nada e trazes à superfície, é comum borrar ou rasurar um trecho, mas é impossível apagá-lo…”

“Tu estás começando a te adaptar do lado de cá, onde os nervos vivem expostos e as garras crescem”…

“E há outras fomes que não se comem com garfo e faca, e há carícias que nos sugam mais que solos movediços, e tudo se apaga quando o medo não consegue dormir, Bia, e tudo se acalma quando cessa o torvelinho dos pensamentos, e tudo se ilumina quando temos a manhã em nosso corpo…”

“E te colocar sobre meus ombros, para que tenhas, como toda criança, a ilusão de que alcançará com tuas mãos as estrelas…”

“Eu sou o pai que a vida te deu, e esta, que te toma nos braços agora, que tenta sem jeito, te dar o mamilo pra sugares o teu primeiro alimento do lado de cá, é a mãe que a vida te reservou…”

“Mas a palavra, Bia, chegará o tempo em que tu entenderás, também pode dizer o que ela mesma cala, e afirmar o que literalmente nega…”

“Todas essas vidas, Bia, vindas de outras, igualmente precárias, e que um dia pareceram plenas, há um pouco ou há muito partidas, deixaram um a marca, quase invisível, no livro dos destinos, marca que o tempo haverá de derreter com seu ácido; essas vidas todas, te agrade ou não, correm, desordenadas, dentro de ti…”

“O silêncio, embora pareça ausência, eu te asseguro, é a presença em sua forma mais vívida, toda e qualquer palavra é menos que o silêncio, porque nasceu dele, do útero do silêncio vem o murmúrio, o gemido, o grito, o urro, todos os outros dialetos e até a babel das páginas em branco”…

Carrascoza me tocou profundamente e fez renascer em mim o desejo de escrever.

Como escritora iniciante, que sou, gostaria de agradecer a oportunidade de relatar, de forma sucinta, um pouco de minha trajetória como leitora.

Meu muito obrigado!

36641724_1840330362700294_8656990855535525888_o*Alane Ramos Barbosa, graduada em Filosofia, poeta e prosadora.

6 de Julho de 2018

Os livros

Posted in Ler faz crescer às 14:20 por sidneif

Por LUNNA GUEDES* 

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“The Library” (1905), de Elizabeth Shippen Green (1871–1954)

Os livros me deram a oportunidade de habitar outras paisagens, viver em outros corpos, provar de outras vidas. Ser outra e ninguém. Tudo e nada. Eu sempre fui uma pessoa encolhida, para dentro. Nunca fui tímida… apenas não apreciava presenças. Fui forjada em ausências e nostalgias. Uma criança que prefere espiar a realidade, a participar dela e diagnosticada muito cedo como portadora de algum transtorno por gostar dos cantos, o quarto escuro, as portas fechadas.

Os livros eram um lugar seguro… onde me refugiar. Onde tudo e nada sempre era possível. Eu passava horas inteiras a bordo das ficções que começavam nas páginas e me contagiavam como um vírus que se espalha pela superfície do corpo.

Sou o tipo de leitora que se apodera do objeto livro… primeiro pelo tato. Sinto-o na ponta dos dedos. Provo da textura. E aos poucos o vou invadindo… sentindo o cheiro do papel, o calor das cores… então o agarro. Grudo no peito, fecho os olhos e imagino esse envolver-se prolongado. Eu me misturo de tal maneira a ele… que dou palpites na trama, ralho com personagens. Anoto nas margens, marco o melhor e também o pior. Vou e volto inúmeras vezes. Há exemplares que são casos de amor. Há os mais antigos e também os recém-chegados.

E, depois de tantos livros dos outros… resolvi escrever os meus.. E sei, com certeza, que misturei muito do que provei nesses anos todos… de leitura. Sinto que neles há mais de mim do que eu realmente gostaria.

Cada personagem-história sou eu a viver além da ficção… do real, como sempre foi desde a infância até a fase adulta. Algo em mim escapa e fica ali, deitado em páginas a viver mil vezes a mesma vida, que é outra e também é minha.

*Lunna Guedes, escritora (http://www.catarinavoltouaescrever.worpress.com/), editora, artesã de livros (http://www.scenariumplural.worpress.com/).

Minha experiência como leitora

Posted in Ler faz crescer às 14:13 por sidneif

Por LIA SENA*

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“A Arlesiana: Madame Ginoux” (1888-1889), de Vincent van Gogh ( 1853–1890)

Comecei a ler muito cedo, desde a mais tenra idade e, ao contrário da maioria das pessoas, nunca fui estimulada a ler! Fui criada numa religião muito repressora, na qual apenas a leitura da bíblia era bem vista, portanto, minhas leituras a partir dos seis anos de idade  (que começaram por revistas em quadrinhos) fugiam ao olhar repressor da minha mãe e se refugiavam no quarto da minha avó que morava conosco e me dava apoio.

Passei pela fase das fotonovelas, romances juvenis, jornais e todas as revistas que me chegavam às mãos.

Sempre questionadora e ávida por conhecimento, li, a partir da adolescência, autores brasileiros como Machado de Assis, Jorge Amado, Orígenes Lessa, assim como autores estrangeiros,  Flaubert, Camus, Kafka, Milan Kundera e tantos outros.

Vários livros me marcaram muito; não poderia citar apenas um. Posso citar alguns como Madame Bovary (Gustave Flaubert);  Dom Casmurro (Machado de Assis); A Insustentável Leveza do Ser (Milan Kundera); Capitães de Areia (Jorge Amado); Vigiar e Punir (Focault); Amor Líquido (Zygmunt Bauman) e tantos outros. Na poesia, gosto de muita gente; de Manuel Bandeira a Elisa Lucinda.

Hoje, leio muito mais escritoras e escritores amigos e vivos. Leio diariamente nas redes sociais e procuro comprar os livros dos que mais admiro. Em especial, leio mais mulheres e, cada vez mais, admiro a escrita de cada uma delas.

 

*Lia Sena, escritora, criadora do Sarau das Mulheres em Feira de Santana-BA. Publicou quatro livros: “Pedaços” (Editora Interbahia/1981); Por Todo Risco (Edição independente/2013); Lume dos Anseios( Edições MAC, Coleção Vinho e Poesia/2014); De foro íntimo (Editora Penalux/2018). Participou de várias Antologias e recentemente foi uma das organizadoras revisora e participante com poemas da Antologia Outras Carolinas – Mulherio da Bahia (Editora Penalux/2017). 

29 de Junho de 2018

Eu, leitora

Posted in Ler faz crescer às 15:49 por sidneif

 

Por ELENARA STEIN LEITÃO*

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“Mulher recostada lendo” (1960), de Pablo Picasso (1881-1973)

Eu me considero uma pessoa privilegiada. Nasci em uma casa de leitores.

Desde pequena, os livros eram nossos companheiros. Primeiro, pelas leituras dos mais velhos. Não cheguei a pegar o saudável hábito da leitura de livro em conjunto que meu pai fazia nas eras antes da TV. Mas, como a caçula da família, ganhava livros desde cedo. E era aquela guria chatinha que sabia de cor as historinhas e não admitia que fossem resumidas. Nem depois de mil leituras.

Nossa casa tinha o que um amigo definiu como “armadilhas do bem”, estantes de livros baixas, bem ao alcance dos olhos e mãos das crianças. Desde cedo, os clássicos estavam na mira dos olhos. Tanto que se criou uma lenda familiar na qual eu aos dez anos já tinha lido Dante Alighieri. Confesso que deixei que pensassem assim, mas não era verdade não. Só tinha lido um resumo em uma enciclopédia dessas bem completas.

De verdade mesmo, tinha devorado os Contos de Andersen em uma edição primorosa da então Editora do Globo aqui de Porto Alegre, com ilustrações de Nelson Boeira Faedrich. Tão fabulosa que, muito tempo depois, soube que foi considerada das melhores edições lá na terra do autor. Devo a ele e a Monteiro Lobato minha paixão continuada em criança por ler.

A biblioteca do meu pai tinha de tudo: de Machado de Assis a História da Civilização, de Will Durant. De Stendhal e Eça de Queiroz a Cassandra Rios. Esta última mais escondida, que não era leitura de criança. Mas que eu descobria e como todo fruto proibido, ia lá e conferia. E entre clássicos, resumo de clássicos, infantis e até eróticos (ou pornográficos) fui lá consolidando meu hábito de leitura. Tinha vezes, muitas na verdade, que driblava as ordens de dormir cedo, lendo debaixo das cobertas.  

Fui crescendo entre a literatura fantástica dos anos 70 e o feminismo de Simone de Beauvoir e O Relatório Hite: um profundo estudo Sobre sexualidade feminina (de Shere Hite) . Gabriel Garcia Marquez e os Cem anos de Solidão, que li, reli e, não contente, li de novo até quase enxergar borboletas nas bananeiras. [Carlos] Castaneda, O Despertar dos Mágicos (de Jacques Bergier e Louis Pauwels) e Fritz Perls me explicando a Gestalt se misturavam à Aprendizagem com Clarice.

Clarice. Antes de se tornar figurinha fácil nas redes sociais, nas quais até o que não escreveu recebe a sua assinatura, a Lispector era minha companheira de descobertas. Ela e o Caio. O Abreu.

A Marta Medeiros e a Lia Luft dos primeiros livros. Não mais depois. Leitura, leitoras e autoras tem dessas coisas. A gente se aproxima e se afasta. E nem sabe muito bem o porquê.

Dos livros que li mais de uma vez, na verdade muitas vezes mais que uma vez: Crônicas Marcianas (de Ray Bradbury) e Mulheres que correm com os Lobos (de Clarissa Pinkola Estés). Sem dúvida esses dois livros me acrescentaram muito. Não sem motivo, falam de histórias que me trazem insights até hoje.

São tantos livros que me fizeram mais eu. Dos exotéricos aos técnicos. Dos para conhecer pessoas, seus anseios à História. Poesia, um pouco menos. Ler poemas é para momentos especiais, e dos poetas tenho Thiago de Mello como referência de uma época em que se esperava que a madrugada campesina chegasse e que um homem confiasse em outro homem, como um menino confia em outro menino. Tempos de acreditar.

Tenho com meus livros uma relação de posse que não tenho com as pessoas. Nos últimos anos tenho me trabalhado para desapegar. Mas não é fácil. E mais ainda porque tenho desapegado de livros muito queridos. Mas escolho também com carinho as pessoas com quem eles seguirão novas rotas. Sempre digo que, se ganhou um livro meu, considere-se uma pessoa muito especial para mim. E sim, dou livros de presente.  

O que a leitura me traz? Mais que conhecimento ou mero lazer. Ler é um ato simbólico de envolvimento. É uma abertura de portas e novos mundos. São portais de universos que se abrem na minha cabeça. Sofro quando termino um livro que me envolve muito como se me separasse de grandes amigos. Gosto de cheiro de livro novo. Gosto de ter o livro nas mãos. Gosto da cadência das letras e palavras. Gosto do envolvimento, da descoberta que me exige. Ler é um ato de amor comigo.

*Elenara Stein Leitão, leitora, gateira, sobrevivente, de vez em quando aventura escrever em dois blogs : um como arquiteta, o ARQUITETANDO IDEIAS , outro como pessoa física, o Elenara Elegante.

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