15 de Fevereiro de 2019

Mágica e única

Posted in Ler faz crescer às 09:22 por sidneif

Por ROSÂNGELA VIEIRA ROCHA*

Lady with a Book circa 1860 by Arthur Boyd Houghton 1836-1875

“Lady with a book” (ca. 1860), de Arthur Boyd Houghton (1836–1875)

O livro mais marcante na minha vida é Orgulho e preconceito, de Jane Austen.

Nasci numa cidade pequena do interior de Minas, Inhapim, onde não havia livrarias — e ainda não há — nem biblioteca pública, na época. Fazia parte de um grupo de meninas muito interessadas em leitura. Devia ter dez, onze anos (saí de lá aos catorze, para estudar em Brasília). Como era a mais nova da turma, geralmente esperava bastante tempo para ler, pois as mais velhas tinham preferência.

Havia duas maneiras de obtermos os livros: pelo reembolso postal ou através de alguém que fosse a uma cidade maior e se dispusesse a comprar para nós. Um único exemplar, pois não tínhamos recursos para mais. Esse exemplar corria de mão em mão. Como raramente podíamos escolher, líamos de tudo.

Na época, os livros da “Biblioteca das Moças” — uma coleção enorme, de histórias água-com-açúcar, em que proliferavam as obras de M. Delly — e os da Coleção “Menina e Moça” faziam muito sucesso. Pensávamos que M. Delly era uma mulher, e que M. se referia a madame. Anos mais tarde descobri que eram dois irmãos, um rapaz e uma moça, que assinavam assim.

Num conjunto tão heterogêneo, nem sei como surgiu um exemplar de Orgulho e preconceito, sem nenhuma indicação. Quando chegou a mim, faltavam as trinta páginas finais, o que só descobri durante a leitura. Adorei o livro. Chorei demais por não ter podido ler o final. Fiquei tão traumatizada que, quando tive oportunidade, comprei seis exemplares.

Não tinha a menor ideia de que se tratava de uma das maiores escritoras inglesas do século XIX. Foi o primeiro romance de verdade que me chegou às mãos e intuí que se tratava de literatura da melhor qualidade. Posteriormente, li todos os livros traduzidos de Jane Austen.

Tenho um apreço especial por Orgulho e preconceito, que releio de vez em quando, pois influenciou não apenas o meu trajeto como leitora, como também o de escritora. Considero-o o livro da minha vida, uma obra mágica, única.

 

*Rosângela Vieira Rocha,  escritora, jornalista e professora aposentada da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília.

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Uma aula poética sobre texto e linguagem

Posted in Ler faz crescer às 09:16 por sidneif

Por MARIA FÉLIX FONTELE*

(Aos que leem, aos que escrevem)

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“A Girl Writing” (ca. 1870), de Henriette Browne (1829-1901)

Bendita linguagem! Será que estamos condenados ao teu emaranhado? Se a resposta é sim, em que bela prisão nos encontramos, pois é por meio de ti que exaltamos o amor, qualificamos os oceanos, as famílias das borboletas e dos pássaros, as cores, os abismos, a complexidade da vida, e tudo que há dentro e fora de nós. Não se configuras somente como o falar porque nem toda linguagem é feita de palavras. Gestos, acenos, sobrancelha arqueada, olhar raivoso ou amoroso e silêncios fazem parte de teu reino. Porém, és puro texto. Não há nada fora do texto, seja ele dito ou não.

Poeticamente, o professor de redação iniciava as aulas, nada enfadonhas e convencionais dada a substância, dado o tecido em que era engendrado o discurso tal qual brocado salpicado de pérolas. Nosso aprendizado seguia luxuoso. Manoel de Alcântara Carvalhosa apresentava-se nessa ordem: professor, escritor e pintor. Naquele final de 1999, quando o planeta comentava a chegada do ano 2000 com as mais variadas profecias, repetia-se a seguinte frase: “De dois mil passaremos? ”. Os questionamentos eram parecidos. Como seria o fim? Fogo em profusão, inundação, queda de asteroide? Teríamos a destruição inevitável da Torre de Babel da modernidade com suas inúmeras línguas e desentendimentos? Quem sabe, depois de tudo não nasceria uma só língua entre os povos e a linguagem da paz se materializasse?

Carvalhosa era sutil, sem arroubos apocalípticos, contrário a utopias sobre a existência de mundos perfeitos. Dizia que vivíamos em orbe inacabado, a ser esculpido por nós, da mesma forma como elaboramos um bom texto, com componentes necessários para torná-lo agradável: ritmo, clareza na expressividade, bom senso, simplicidade, ordem direta, conhecimento do que se fala, boa pontuação, sem repetições de ideias e palavras, equilíbrio, encantamento, sentimento dosado! Fale para os outros e não simplesmente para você mesmo, recomendava. Cavalgue pelo texto e as palavras como se seguisse aquela velha trilha: nem tanto a terra, nem tanto ao mar. Mas emocione!

Nossa! Exclamou um aluno do fundo da sala: é muita coisa para se colocar em poucas linhas! O professor, com sorriso no canto da boca, acrescentou: e tem mais. Inclinou-se um pouco na cadeira e continuou: deixe as portas da imaginação abertas, comungue com a sensibilidade, embriague-se de fantasia, apaixone-se e, sobretudo, não tente dissecar a alma dos homens porque, possivelmente, sua história ficará entediante, recheada de ensinamentos e clichês. Mas sobrevoe essa alma, reconheça e tente assimilar as eternas inquietações do coração humano. Por fim, deixe o leitor tirar suas conclusões, depois de seduzi-lo. E essa era apenas a primeira de uma série de aulas sobre texto e linguagem! Que fôlego! Eu só consegui balbuciar uma única frase: “Meu Deus, dai-me inspiração!

 

*Maria Félix Fontele é jornalista e escritora, autora do livro “Versos que me habitam “(editora Confraria do Vento). O texto “Uma aula poética sobre texto e linguagem”, indicado ao blog Tabacaria pela própria autora,  foi publicado originalmente na Revista Capital de Brasília (edição de Julho/Ago/Set/2017).

7 de Fevereiro de 2019

Para gostar de ler

Posted in Ler faz crescer às 16:16 por sidneif

Por RITA QUEIROZ*

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“A Young Woman with a Book” (1756-1762), de Pietro Rotari ( 1707 – 1762)

Quando tinha por volta de três anos, meus pais se mudaram para uma casa que ficava ao lado de uma escola. Nessa época, não havia turmas de maternalzinho nem de jardim de infância, nem mesmo em escolas particulares. As crianças só ingressavam na pré-escola entre os cinco e seis anos, para cursarem o que se chamava pré-primário, ou o que é hoje a alfabetização.

Todos os dias, sentada na janela de casa, via os estudantes passarem para a escola e ficava chorando, porque queria ir estudar também. Imaginem a minha felicidade no dia que isso aconteceu.

Mas não ingressei no chamado pré-primário na escola que olhava da janela de casa, mas sim em uma escolinha, cuja professora que alfabetizava se chamava D. Merolina, uma senhorinha gordinha, de cabelos grisalhos, muito simpática! Gostava muito dela! Ela alfabetizou muitas crianças, inclusive eu! Adorava ir para as aulas, aprender a reconhecer as letras, a saber uni-las, decifrá-las quando juntas, desbravar o mundo da leitura e me ver fazendo parte dele! Ah, a leitura! Esta entidade mágica que nos transporta para outros mundos, para lugares indevassáveis, inóspitos, mas encantados! A leitura que nos faz atravessar o tempo, que nos faz ver além do alcance, mesmo sem colocar olho biônico!

Desde que fui alfabetizada que a leitura faz parte de mim, do mesmo modo como dormir, comer, me banhar no mar, sentir a brisa soprar… enfim… Não li todos os livros que tenho e aqueles que gostaria de já ter lido, estão todos na fila aguardando o dia em que chegarei lá!

Sempre li de tudo! Na pré-adolescência, adorava ler fotonovelas. As minhas preferidas eram as italianas, cheias de histórias que iam além da trama folhetinesca. Foi lendo essas fotonovelas que conheci Roma, os etruscos e me apaixonei pela Itália! Paixão que cresceu ainda mais quando assisti ao filme “Candelabro italiano”, no qual havia um personagem que era etruscólogo. Fiquei encantada! Imaginem ser especialista em etruscos, conhecer tudo sobre esse povo, ir em busca de seus rastros! Anos mais tarde, quando já cursava Letras na universidade, me apaixonei pela Filologia Românica, pelo estudo sobre a origem das línguas românicas, desde quando Roma era uma simples aldeia. Saí da universidade e fui ensinar o quê? Filologia Românica! O que li nas fotonovelas, de forma breve e romanceada, bem como vi no filme, passou a ser meu assunto de trabalho! Sendo bem clichê: Amo tudo isso!!

Na adolescência, no ensino médio, estudando na antiga Escola Técnica Federal da Bahia (hoje Instituto Federal da Bahia), e aluna da professora Cecília (nome cuja origem é etrusca, vejam só!), conheci autores como Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rubem Braga, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Stanislaw Ponte Preta, dentre outros. A professora recomendava sempre a leitura das crônicas e, de tantas lidas, duas me marcaram: “A velha contrabandista”, de Stanislaw Ponte Preta; e “No restaurante”, de Carlos Drummond de Andrade. A primeira trata da história da velhinha que, durante um mês, enganara o fiscal da alfândega, desconfiado de que ela trazia muamba em um saco, mas neste só havia areia; intrigado, ele a interpela sobre o que trazia como contrabando e ela responde que era a lambreta, na qual ela atravessava a fronteira. A segunda é a história de uma garotinha de quatro anos que vai ao restaurante com o pai; ela vai logo dizendo que quer lasanha, ele insiste para que comam camarão, ela cede, mas no final diz que quer a lasanha e que o pai deverá comer também.

Continuando as leituras, no curso de Letras, outros autores entraram em minha vida, não só brasileiros como portugueses e italianos. Dentre eles, destaco: Vinícius de Morais, Cecília Meireles, Lima Barreto, Eça de Queirós, Sá de Miranda, Gil Vicente, Dias Gomes, Mário de Andrade, Clarice Lispector, Oswald de Andrade, Jorge Amado, Dante Alighieri, Petrarca, Boccaccio, dentre tantos outros.

Mas outras leituras faziam parte de mim: os famosos gibis, ou as histórias em quadrinhos, da Turma da Mônica, de Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey, Minnie, Pateta e outros. E os livros da série Vaga-Lume? Li vários, como Éramos seis, de Maria José Dupré; O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida; O feijão e o sonho, de Orígenes Lessa; etc. Bem como os autores clássicos do Romantismo / Naturalismo: Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, Raul Pompéia, Visconde de Taunay, Aloísio Azevedo, Castro Alves, Gonçalves Dias, José de Alencar, Álvares de Azevedo, Casemiro de Abreu, Junqueira Freire…

E a leitura segue em mim e eu nela, amalgamadas em tantas teias, sejam estas literárias ou não. Desbravando histórias de homens, mulheres, jovens, anciãos, que deixam nas linhas e entrelinhas o pão que alimenta nossas almas a seguir sonhando, buscando o paraíso de Dante e Beatriz!

 

50248147_297060040994742_5452744548897783808_n*Rita Queiroz. Nascida na Bahia de todos os Santos, na terra de Nosso Senhor de Bonfim, com o Sol em Leão, aos 22 dias do mês de agosto. Tímida na infância e na adolescência, vem desde sempre ressignificando sua vida através da palavra. Graduada em Letras, misturou o verbo e os textos manuscritos no mestrado e no doutorado, movendo-se apaixonadamente por tantas histórias de épocas pretéritas que ainda hoje se repetem. Vida e verbo visceralmente tingem o/s papel/is desta leonina, amante do verso que a faz inteira. Assim, as dores se fizeram palavras e as cicatrizes, risos. Construindo, reconstruindo e se deslocando em espaços possíveis e imaginários, espera sempre tocar outras almas com sua poesia e sua docência.

Um tanto de mim

Posted in Ler faz crescer às 16:12 por sidneif

Por ELIZZA BARRETO*

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“Girl reading”, de Henri Lebasque (1865-1937)

Eu escrevo desde que aprendi a escrever e tenho algumas referências literárias que, felizmente, me auxiliaram durante a vida no amadurecimento das minhas produções.

Alguns livros marcam etapas específicas da minha jornada na escrita, iniciando pela série Destemida, de Natalie Jane Prior, que me infuenciou dos seis aos dez anos com devaneios no meu computador de tubo; Crepúsculo, de Stephenie Meyer, nos me treze anos, quando dei início a produções mais longas (e melosas), como novelas; Charles Bukowski, nos meus 16, quando eu me tornei um pouco amarga e seletiva em minhas relações, colocando um pouco mais de intensidade e verdade nos meus escritos; Caio Fernando Abreu, nos meus 17, que deu um empurrãozinho em vários poemas guardados na minha cabeça;  e Colleen Hoover, nos meus 18, que atravessou a minha vida e mudou completamente a forma como eu colocava palavras no papel.

Hoje em dia, sigo dizendo que a CoHo me inspira e influencia de uma forma impressionante, mas acrescento ainda outros nomes, como J.K. Rowling, Colleen Houck, Jenny Han, Amanda Lovelace, Rupi Kaur, Paulo Leminski, Neil Gaiman. Essas pessoas despertaram em mim, durante toda a vida, uma alma de escritora, contadora de histórias, reinventora da realidade, reconstrutora da própria vida, marcando etapas extremamente importantes, tanto na vida pessoal quanto na jornada criativa, me ajudando a sobreviver ao caos, respirando a vida de personagens, que tinham um tanto de mim.

Em 2016, aos 21 anos, escrevi o livro (publicado dois anos depois) que mudaria completamente a minha vida — Cappuccino de Chocolate com Creme (Ed. Multifoco). Devo a todas essas leituras um universo inteiro, pois sem elas eu teria várias lacunas. Foi na leitura, no acesso ao universo de um outro, que me encontrei, que descobri o potencial das histórias malucas que surgem na minha cabeça na hora do banho ou enquanto lavo a louça do jantar. O meu livro precisa entrar nessa lista, no entanto, não apenas porque eu o escrevi (e reli um milhão de vezes), mas porque me inspirou a continuar buscando e vivendo a vida dos meus sonhos, a minha maior e melhor aventura.

 

*Elizza Barreto, psicóloga e escritora, pós-graduanda do programa de Residência Multiprofissional em Cardiologia – UNIFESP.

25 de Janeiro de 2019

Ler para compreender

Posted in Ler faz crescer às 15:44 por sidneif

Por LINDEVANIA MARTINS*

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“Psique e Cupido” (1823), de Victoria Martín de Campo (1794-1869)

Nasci na década de 70, em uma cidade do interior do Maranhão chamada Pinheiro. Minha família era pobre, e morávamos em uma casa sem energia elétrica. Daí que as noites eram cheias das sombras criadas pelas luzes de lamparinas e velas. Aos cinco anos, eu tinha alucinações noturnas que eram controladas com simpatias, sessões espíritas e Gardenal.

Cresci introspectiva, desconfiada, com certa tendência ao isolamento e à fantasia. Desconfiava dos meus pais que diziam que eu apenas sonhava e pareciam me deixar sozinha para lidar com o que eu não compreendia. Desconfiava especialmente de Deus que não salvava uma criança quando os monstros apareciam.

Minha experiência com os livros, desde cedo, foi minha tentativa de lidar com certa inadaptação que teve origem ali e responder a essas questões iniciais: os outros realmente não veem o que eu vejo? Por outro lado, eles veem coisas às quais eu não tenho acesso? Como lidar com esse Deus que tudo pode, mas não me livra dos terrores noturnos?

Perto dos meus 7 anos, meus pais fizeram o esforço de mudar para uma casa com energia elétrica por recomendações médicas: isso poderia me ajudar. Eu havia sido alfabetizado em casa por minha mãe, usando biscoitos de letrinhas, e, após a mudança, comecei a frequentar oficialmente a escola. Foi quando descobri a biblioteca. Imaginei que, naquela infinidade de livros, haveria algum que contasse uma história como a minha, com uma menina como eu, se fazendo perguntas semelhantes. Ela deveria ter as respostas que eu não tinha.

Nessa busca, fui me apaixonando pelos livros. As alucinações cessaram. O mundo dos livros me parecia mais acolhedor, seguro e divertido do que aquele que até então eu vivia.

Estava sempre na biblioteca e lia livros de todos os tipos: livros infantis, juvenis, gibis e tudo mais que estivessem por lá. Nas datas comemorativas, sempre pedia livros aos meus pais e, quando eles melhoraram financeiramente, ganhei uma enciclopédia e uma máquina de escrever.

No começo da adolescência, descobri os filósofos, e foi mais fácil aprender a lidar com as minhas descrenças. Não tive mais medo de ir para o inferno, se Deus existisse, por duvidar dele.

Os livros me permitiam penetrar profundamente na psique de outra pessoa, sem interrupções. Era como se eu pudesse conhecê-las profundamente, e conhecer esses de papel também era um modo de me conhecer e conhecer as pessoas que me cercavam. Ler era, então, minha tentativa de encontrar meu lugar no mundo. Mais tarde, escrever também passaria a ter essa função.

Contudo, pelos meus vinte e poucos anos, quando estava na faculdade, a minha relação com os livros entrou em crise: era um misto de amor, gratidão e ressentimento.

Durante muito tempo, um dos meus sonhos era ter uma vasta biblioteca para que eu não precisasse sair de casa em busca de livros. Mas agora percebia claramente que eu não tinha experiências de vida, que eu não me relacionava bem com pessoas, que eu não conhecia lugares, exceto as que me chegavam através dos livros. Percebia que as relações que eu estabelecia na vida real eram relações superficiais, que as pessoas que eu conhecia pareciam planas e que elas geralmente perdiam para aquelas dos livros, mais profundas e interessantes.

Percebi que eu precisava mudar minha relação com os livros. Eles não poderiam substituir o mundo e me colocar numa posição inerte perante a vida. Mas foram também os livros que me ajudaram a compreender e a encontrar uma solução para isso.

A leitura treinou meu olhar e me devolveu um mundo diferente. Nem sempre melhor. Nem sempre um mundo que fazia sentido. Mas me mostrou que era possível viver, encontrar pessoas com as quais se pudesse ter relações mais profundas e agir nesse mundo.

 

lindevania pb*Lindevania Martins é maranhense, escritora, defensora pública, mestra em Cultura e Sociedade e pesquisadora. Primeiro lugar por duas vezes consecutivas no Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, prêmio Odilo Costa Filho. Autora dos livros de contos “Anônimos” (2003), “Zona de Desconforto”(2018) e “A Outra” (Inédito). Integra o coletivo Mulherio das Letras. Possui contos e poemas publicados em diversas revistas e antologias. Anota coisas no blog Catálogo de Indisciplinas.

Experiência de leitora

Posted in Ler faz crescer às 15:40 por sidneif

Por MARIA TERESA MOREIRA*

 

The Dweller in the Innermost c.1885-6 by George Frederic Watts 1817-1904

“The Dweller in the Innermost” (c. 1885-6), de George Frederic Watts (1817-1904)

Falar sobre minha experiência como leitora é falar sobre minha própria natureza e me causa uma imensa alegria!
Não sei dizer exatamente qual foi o primeiro livro que li, mas minha avó paterna e também uma tia se esmeraram em presentear-me com livros encantadores, que faziam-me voar na imaginação! Livros sempre fizeram parte da minha vida!
Posso dizer com segurança que minha maior influência como leitora é de Monteiro Lobato. Papai havia comprado com muito sacrifício toda a coleção dos livros infantis de Lobato, e eu devorei cada um, deliciada com o mundo do Sítio do Pica-pau Amarelo, sentindo-me íntima da Emília e da Narizinho, familiarizada com o Reino das Águas Claras, iniciada na mitologia grega e na busca de petróleo no país, cheia de ideias para reformar a natureza. Não me cansava e, embora eu levasse um bom tempo na leitura de cada livro, passava para o seguinte com avidez e entusiasmo. A leitura me fazia sentir participante da estória, mexia com minha imaginação, me ajudava a enfrentar situações de   que enfrentava na infância e adolescência — embora naquele tempo não costumássemos dar nome nem especial atenção a este problema.
Quando terminei de ler Monteiro Lobato, senti-me instigada a ler mais e mais, desejosa de descobrir novos mundos, de modo que “ataquei” a biblioteca do meu pai, que felizmente tinha uma variedade considerável. Li incontáveis livros dos mais variados e, desde então, não parei mais, ainda que haja fases em que não consiga ler muito. Aliás, não leio tanto quanto gostaria, mas consigo ler mais de um livro ao mesmo tempo — e geralmente o faço…!
Uma das coisas que acho mais interessante na minha experiência de leitora e que não posso deixar de pontuar é que parece que sou atraída para a o livro que mais preciso ler em cada momento de minha vida…! É impressionante! Sem que eu saiba, me sinto atraída por algum título, por uma capa, e, conforme vou lendo, vou sendo alimentada exatamente com aquilo que mais preciso para aquela fase pela qual estou passando!! É lindo!!
Por essas razões é que digo e repito  que falar sobre minha experiência como leitora é falar sobre quem sou, sobre minha própria natureza. Ler, para mim, tornou-se essencial e me ajuda a entender mais a vida, a mim mesma e aos outros!
Como é bom ler!!!

 

*Maria Teresa Moreira, poetisa. Edita a página 50 Tons de Menopausa.

18 de Janeiro de 2019

E onde estará Dulce Veiga?

Posted in Ler faz crescer às 16:40 por sidneif

Por PENÉLOPE MARTINS*

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“La Lecture” (1924), de Fernand Léger (1881 – 1955)

Tenho uma lembrança recorrente de Tia Maria me oferecendo livros. Ela foi minha professora no segundo ano primário e tinha uma presença marcante também como dona de uma livraria ao lado da escola.  A livraria “Corujinha” era minúscula mesmo pra gente pequena feito eu, na época com 8 anos. Eu insistia visitas constantes, esperando o transporte da escola pra casa, todos os dias. Metida entre prateleiras, ficava procurando, procurando, procurando livro por livro, palavra por palavra. Queria comprar tudo aquilo, até as estantes, mas eu nem podia um livro por mês.  Meu pai dirigia caminhão, minha mãe tinha um comércio no bairro em que morávamos. Se não tínhamos uma vida pobre, porque não nos faltava casa, comida, estudo, roupa e sapato para calçar, pena fazia nos faltar o dinheiro para a extravagância de comprar a “Corujinha” toda. Quando o dinheiro aparecia, esse sujeito ladino, a gente tinha que escolher, ou isto ou aquilo.

Conheci Cecília Meireles por Marilena, provavelmente, ou teria sido a mesma Tia Maria? De certa forma, minhas professoras foram tão boas mães que assumiram mesmo rosto na minha memória. Ou isto ou aquilo era leitura de sala de aula e que, mais tarde, passou a ser parte da minha biblioteca de valor inestimável. Mais tarde mesmo, a aquisição do livro veio no ensino médio, recordo encontrá-lo sempre entre minhas roupas no armário, amarelado pelo tempo que passou num sebo, a livraria de usados. Aquele exemplar do livro se perdeu, como outros tantos livros meus. É que eu me casei e mudei de casa mais vezes do que eu sonhava e queria, ou menos do que eu deveria, e muitos livros se perderam pelo caminho, até Onde andará Dulce Veiga, autografado por Caio Fernando Abreu, presente de um namorado que sabia da minha loucura pelo autor. Isso foi na Bienal do Livro de São Paulo, ainda no pavilhão do Ibirapuera. Caio estava sozinho, sentado à mesa. Achei tão perturbadora aquela cena. O meu autor favorito dos últimos anos — eu tinha 17, talvez — sozinho entre livros com preços nas capas. Meu namorado se aproximou dele e disse: “ela é sua fã, pode autografar?”. Eu morri de vergonha. Caio olhou pra mim, eu devia ter cara de 12 anos. Lembro que ele escreveu assim: “Penélope, de olhos lindos, cuidado com as feias, menina.”, depois me deu um beijo.

De repente, tenho a sensação que o perdimento de tantos livros pode ter me ajudado a me encontrar. Explico isso, em algum momento.

Onde andará meu livro da Dulce Veiga com a dedicatória-tira-urucubaca de Caio Fernando? Vontade de fazer uma campanha nas redes sociais só pra ver se alguém encontrou, encontrará… Curiosamente, hoje tenho como amigos pessoas que foram grandes amigos de Caio. Ganhei rugas, perdi os 17 anos há quase 30, comprei de volta Ou isto ou aquilo, outro dia chorei ao rever A Disciplina do Amor [Lygia Fagundes Telles]— e não tive coragem de abrir o livro. Virei saudosista, memorialista de mim, um fado de palavras perdidas que me garantem desejo ininterrupto pela busca.

Aliás, uma pausa para uma coisinha pouco interessante. Aqui no Brasil temos por hábito chamar sebo a livraria de usados. Quando eu soube que em Portugal eram alfarrábios, enterneci.

O meu vínculo com a palavra escrita nasceu muito antes disso tudo que contei. Peço desculpas. Acabo dizendo demais. Nasci numa família luso brasileira, pai português, de Miranda do Douro, mãe brasileira, filha de árvore com muitas origens, portuguesa, italiana, alemã e indígena, ao que se sabe. Por conta do pai, aprendi o vira. Na verdade, por conta do meu avô que tocava concertina e cantava e afirmava que eu era uma miúda muito gira e que deveria fazer assim com os pés e com as mãos para cima. Tenho fotos. Por conta de todos eles, os que citei e não citei, aprendi a ouvir música no tempo da vitrola, discos enormes e letras das canções.

Li Lamartine Babo, li Noel Rosa, li Caetano Veloso aos montes (coisa da tia portuguesa abrasileirada no melhor estilo bicho grilo).

Quando eu penso no meu processo como leitora, escuto as vozes da Maria, da Marilena, do avô Valentim, da avó Laura cantando a Casinha da Marambaia [música composta por Henricão/ Rubens Campos e gravada por Carmen Costa] naquela varanda encerada de vermelho que tingia a roupa da gente.

Essas vozes entravam pelos sete buracos de minha cabeça (bicho de sete cabeças) e se transformavam em imagens: palavras escritas. Quando eu fechava os olhos, conseguia ver as letras das canções desenhadas na minha memória.

Com pouca idade eu já sabia chorar com Samba em Prelúdio, ou com Barracão de Zinco. Com pouca idade, reconhecia— as tábuas do meu caixão…” [Povo que lavas no rio, fado composto por Joaquim Campos/Pedro Mello Homem e gravado por Amália Rodrigues].

Claro que, aos 8 anos, quando a Tia Maria abriu a livraria ( e logo fechou porque ela estava mais interessada em nos fazer ler do que vender algo que a sustentasse no comércio), minha imaginação pulou vendo o tanto de palavras guardadas ali naquelas páginas, inventando novos enredos. Eu tinha as palavras de memória, mas desejei aquelas gravadas em papel com sina de bem eterno.

Frequentei bibliotecas desde o primário até o final da faculdade. Foi engraçado quando encontrei a Márcia, bibliotecária da [Faculdade de] Direito São Bernardo do Campo, num dos meus passeios ultraesporádicos ao shopping (hahahahaha, detesto ir ao shopping, acho horrível essa palavra e estou dizendo-a aqui no meio de minhas memórias afetivas, hahahahaha, que ironia). Então, eu encontrei a bibliotecária, séria como ela me parecia a vida toda, e ela me cumprimentou pelo nome. Achei estranho, comentei: “sabe meu nome?”, “sim, claro” — ela me respondeu — , “ou você pensa que todos os estudantes passam os cinco anos frequentando a biblioteca”. Confesso que, num primeiro momento, eu me senti inconveniente, batendo ponto na biblioteca da Márcia. Todavia, eu recordo como me tocavam aqueles livros caríssimos e suas capas duras revestidas a couro. Que dó ver tudo aquilo . Devia ter custado imensa fortuna para servir de amparo ao pó nas estantes. Era por isso, também, que eu me apropriava deles.

Eu me formei bacharel, passei no primeiro exame da Ordem dos Advogados que eu fiz. O exame foi na manhã seguinte à festa do meu casamento. Eu tinha dormido duas horas ou pouco mais. Estava feliz, inocente de preocupações, por isso fiz o exame e fui a primeira a sair da sala. Lembro-me da caneta deslizando a peça processual que eu escrevia como quem canta uma canção para o papel. Ah, o tema da prova era lei do inquilinato, isso até combina com aquele samba, que eu adoro, “aluguei a casa um da vila, meu amigo mora em frente, e a mulher desse amigo, anda arranjando tempo quente” [Casa Um da Vila,  de autoria de Monsueto/Flora Mattos].

Não li os russos como deveria. Não conheço a poesia como poderia. Não sei uma linha de crítica literária. Não estudei a história da canção brasileira. Sou uma leitora em trânsito no tudo que me interessa. Acho o tempo pouco para fazer dele uma coisa só. E isso deve me fazer perder uns pontos na escalada para os prêmios de autoria, mas eu não me importo. A vida é breve e eu nunca serei mais original do que qualquer um de vocês, nem menos. No mais, o que tem me importado, agora, é ler mais mulheres, inclusive me perguntando por Dulce Veiga naquela dedicatória quase fofoqueira que Caio fez ao pé de mim numa sala rodeada por tantos livros que se diziam à venda mesmo sem valor algum para tantas pessoas…

Talvez eu fale demais para dar palavras de graça. E com o que se compra é preciso cuidado. Cuidado para não investir tempo pouco com palavra que ocupa demasiado espaço, juntando poeira.

Aprendendo a ler e perdendo livros para outras histórias encontrar, eu me reconheço em cada ser humano.

 

 

*Penélope Martins, advogada, escritora, narradora de histórias e edita a página Mulheres que Leem Mulheres.

Quase voo

Posted in Ler faz crescer às 15:14 por sidneif

Por MAYARA ALMEIDA*

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” Alegoria dos Cinco Sentidos” (1668), de Gerard de Lairesse (1644-1711)

Quero começar pelo fim — que, por si só, é o começo: ler é uma busca — ou uma bússola? A leitura, entre tantos caminhos provocados, é um processo de ativação de sentidos: toca o livro (tato), enxergar as palavras e além (visão), ouvir os personagens (audição), sentir os cheiros da imaginação (olfato) e o gosto das experiências lidas (paladar). Um processo de aproximação e recuo — começa, pára, volta a ler, fecha o livro, abre, marca, continua… Até que fique confortável esse movimento de se encontrar (e se perder) entre as leituras.

Ler me ajuda a renovar a credibilidade das coisas e pessoas. Me faz desejar um tempo novo. Ler me faz pensar que eu quase voo, e é um eterno retornar. É um ato de coragem e também de rebeldia. Um calculado absurdo. Grito sem barulho. É um [não] descanso da mente da gente. É um acesso ao curioso esquecimento. Ler é um silêncio necessário. Um respiro. Que não se alcança por completo, mas se tenta. Porque é preciso respirar.

*Mayara Almeida, psicóloga, psicanilsta e escritora. http://www.mayaralmeida.com.br/

7 de Dezembro de 2018

Do livro à leitora

Posted in Ler faz crescer às 15:53 por sidneif

Por ADRIANE FORSTER*

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“Nurse Reading to a Little Girl” (1895), de Mary Cassatt (1844–1926)

Quando criança, recordo de me sentar ao colo de meu avô paterno para ouvir histórias. Na varanda da casa, num banco de madeira, meus avós, meu irmão e meu primo. Às vezes, o colo era dividido, noutras, um só sentava no colo, e assim, entre histórias e perguntas, passávamos um bom tempo. Nunca vi meu avô com um livro na mão, as histórias vinham de suas lembranças. Eram histórias de índios, de animais selvagens e de nossos familiares que vieram da Alemanha.

Mais tarde, quando frequentei a escola e aprendi a ler, minha avó pedia para eu ler trechos da Bíblia ou do devocional diário de que ela gostava, e eu me sentia útil e orgulhosa por fazê-lo. Minha família era muito simples, meus pais estudaram pouco e trabalhavam na roça. Meus avós ajudavam a cuidar de mim e de meus primos enquanto nossos pais trabalhavam, fomos à escola apenas no Ensino Fundamental (primeira série naquele tempo), então, para mim, ler era um ato muito importante.

Na escola, não me lembro de ter experiências significativas e prazerosas com a leitura, que sempre foi-me imposta como obrigação. Mesmo assim, lembro-me do primeiro texto que li, no livro didático, “O jogo do pega-pega da autora Flávia Muniz”. Em casa, não costumava ter contato com livros, somente com os que vinham da escola. Já na universidade, cursando Pedagogia, fui surpreendida em uma aula da disciplina de Didática.

Era inverno de 2007, ao iniciar uma aula, a professora leu uma literatura infantil. Fez uma mediação animada do livro, naquela época, eu não imaginava que o que ela fez tinha esse nome, mas o gesto me tocou em vários sentidos. A professora era muito dedicada, comprometida em fazer-nos entender a relação entre teoria e prática, porém, jamais imaginei que ouviria uma história infantil lida por ela. Além da admiração por seu trabalho, fiquei encantada com a história. Fiquei muito encantada mesmo, tanto, que me lembro dela e a conto até hoje. E me lembro muito bem da professora também.

A partir desse gesto, comecei minha busca por outras literaturas infantis e me transformei numa devoradora de livros. Sempre que encontrava uma história bacana, lia para as crianças. E a minha busca não parava. Comecei a trabalhar com uma bibliotecária e contadora de histórias  também apaixonada por livros, e a relação com as histórias tornou-se muito forte. Cada vez eu lia mais, conhecia novas histórias, contava para os alunos, me encantava…

Minha biblioteca particular começou por volta de 2006, e minhas práticas de mediação de leitura em sala de aula também, me refiro a uma prática de literatura literária, consciente, comprometida com o valor estético da arte literária. Desde então, me empenho em adquirir livros, tanto para minha formação quanto para deleite, e muitas literaturas infantis; participo de cursos de formação com contadores de histórias presencialmente ou por meio da internet, assisto apresentações de contadores de histórias; visito feiras literárias.

Esse encanto e dedicação com a literatura infantil foi tão intenso e marcante em minha vida e em meu trabalho, que recebi convites para contar histórias em outras escolas. e minha busca constante por formação me fez contar histórias em outros espaços como livrarias, teatros e shoppings.

Conto histórias porque acredito que, assim como eu, todas as pessoas (adultos e crianças), tem o direito de ter a oportunidade de sentir prazer em ler. Para mim, a literatura significa liberdade, imaginação e interpretação crítica. É por meio dela que podemos, também, exercitar a empatia e refletir sobre as situações que vivenciamos. Sempre leio bastante e escolho o que vou contar quando de alguma maneira aquela história desperta em mim algum sentimento ou me revela algo. Se a leitura não fizer sentido para mim, minha palavra não será profícua para outra pessoa.

 

*Adriane Forster, contadora de histórias, psicopedagoga, especialista em alfabetização e letramento e docência em educação infantil.

Leitura: amor e profissão

Posted in Ler faz crescer às 15:49 por sidneif

Por CAROLINA MACHADO*

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“Meninas Lendo” (1940), de Santa Rosa (1909-1956)

Desde pequena a leitura fez parte do meu dia a dia. Sendo a mais nova em casa, ansiava o dia em que também poderia desfrutar de notícias, gibis e livros.

Começar a ler foi tão importante para mim que lembro até hoje da primeira palavra que consegui ler, quase soletrando, no jornal Correio do Povo que chegava lá em casa todo dia: grê…mi…O.

Outra lembrança boa que vêm à memória é de um dos primeiros livros que tive, chamava-se Orelhas de cabeça para baixo, de Neil Connelly. Era uma adaptação da história da lebre e da tartaruga, ilustrado em papel-cartão de alta gramatura.

Hoje a leitura continua na minha vida, e para com ela tenho responsabilidade muito maior. Trabalho como revisora de textos e tenho a missão de ajudar autores a levarem sua mensagem da forma mais clara possível a seus leitores.

*Carolina Machado, revisora de textos desde 2008, mestranda em Ciências da Linguagem pela Universidade Nova de Lisboa e graduada em Letras pela PUCRS em 2013.Autora no site revisaoparaque.com e do “Manual de Sobrevivência do Revisor Iniciante” (2018, Ed. Moinhos).

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