26 de Outubro de 2012

A Tia e a poesia

Posted in Ler faz crescer às 12:33 por sidneif

Por MARINA MARA*

Um momento lindo como leitora foi quando ouvi a professora (que ainda chamávamos de Tia) falar sobre poesia, era a primeira vez que escutava aquela palavra – ou pelo menos era a primeira vez que prestava atenção nela… momento que fui tomada de uma grande surpresa, pensei: então aquela brincadeira com as palavras que eu faço se chama poesia?!

*Marina Mara, poetisa, publicitária e jornalista.

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23 de Outubro de 2012

Rescaldo do mensalão

Posted in Brasil às 15:18 por sidneif

25 condenados no julgamento do mensalão.Tubarões na rede da justiça. Choradeira inaceitável de um lado, oportunismo do outro. Cabotinismo de ambos os partidos.

O veredicto do Supremo Tribunal Federal sobre o caso do mensalão merece ser venerado. O país tão acostumado com a impunidade ganha um sopro de dignidade e civilidade. Doravante o que se espera é a mesma postura intolerante da justiça brasileira contra o mau uso da máquina pública, a malversação e a prevaricação.

Consequência benéfica do julgamento do mensalão seria os partidos políticos repensarem suas condutas. Mas a julgar pelas reações dos maiores partidos do Brasil – PT e PSDB – estamos longe de uma nova consciência política.

O PT adota o discurso de “golpe dos meios de comunicação e da elite”, protagoniza a choradeira da suposta vítima, banca o mocinho e ignora evidências. O PSDB, por sua vez, usa o resultado do julgamento – resposta da justiça a crimes que lesam o país  – como atestado de condenação de um partido, um mero trunfo para angariar votos, reduzindo a importância da decisão do STF.

Petistas e pessedebistas deveriam deixar o cabotinismo de lado e se perguntar como dois partidos que surgiram  sob a bandeira de um novo jeito de fazer política (longe do fisiologismo, do balcão do negócios) foram capazes de alianças com velhas oligarquias políticas, de rasgar seus compromissos com os eleitores por causa da avidez pelo poder.

Os dois partidos, se ainda possuem algum resquício do ideário de uma nova política calcada na transparência e na lisura, precisam fazer autocrítica, reconhecer os seu erros e compreender que  o Brasil está , mesmo que lentamente, mudando.

9 de Outubro de 2012

Sinal verde 09/10/2012

Posted in Sinal Verde às 19:05 por sidneif

 Eleições brasileiras

Muitas candidaturas parasitas sucumbiram, algumas sobrevivem. Êxitos e insucessos políticos decorrentes do nosso voto. Nossas escolhas. Somos uma democracia, podemos escolher em quem votar. Nada de biônicos goela abaixo.

Sinal vermelho 09/10/2012

Posted in Sinal Vermelho às 19:04 por sidneif

Censura ao blog do Noblat

A Justiça Eleitoral obrigou o jornalista Ricardo Noblat a retirar do blog  todas as fotos sobre  a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB), candidata a prefeita de Manaus. E não é a primeira vez que os tribunais brasileiros passam por cima da liberdade de imprensa e expressão. Tudo isso suscita duas questões:

  1. Será que os juízes conhecem a constituição brasileira, tomaram conhecimento de decisões do Superior Tribunal Federal que referenda a liberdade de imprensa e expressão? Será preciso desenhá-lo?
  2. O PCdoB esqueceu o tempo de perseguição política por que passou? Acha justo perpetrar a censura, da qual tantas vezes foi vítima?

8 de Outubro de 2012

A porta

Posted in Ler faz crescer às 16:35 por sidneif

Por LEILA GUENTHER*

Não foi o primeiro nem o melhor livro que li, mas foi o que me deu consciência da mágica da literatura: Clarissa, de Erico Verissimo. Ali não havia aventuras nem peripécias, apenas a história comum de uma garota comum, mas era a primeira vez que eu percebia que, ao ler, uma porta se abria para outra dimensão, um mundo mais real e mais concreto do que qualquer outro que eu conhecesse, apesar de ser feito apenas de palavras. À época, julguei a experiência sobrenatural: eu via Clarissa e a casa em que morava e as ruas por onde passava sem nunca ter ido até lá. Ficava imaginando se as outras pessoas que liam aquele livro viam o mesmo que eu via.

Para mim, que comecei a ler antes de distinguir o lado direito do esquerdo, antes de ter coragem de descer no escorregador do parquinho, e que sempre tive dificuldade de lidar com a “realidade”, com as coisas práticas da vida, a experiência foi decisiva: há um lugar, há um mundo especial para onde posso ir sempre que quiser, e de onde raramente tenho vontade de sair.

*Leila Guenther, escritora e revisora de texto.

5 de Outubro de 2012

A epopeia de Isadora

Posted in Educação às 18:49 por sidneif

Sobram intelectuais a considerar que a educação é fundamental para o desenvolvimento do país. Também não falta quem esgrime contra a precariedade das escolas brasileiras. Mas iniciativas concretas para alcançar uma educação decente são poucas. Tão raro que a atitude da estudante catarinense Isadora Faber (apenas 13 anos), com sua página no Facebook (Diário de Classe), em vez de ser um diapasão de conduta para toda a sociedade, é vista como surpreendente e relevante para uns e assustador e ameaçador para outros.

A iniciativa de Isadora foi uma inopinada sacudida na desfaçatez das autoridades públicas e na letargia dos profissionais da educação.

Governos são acostumados a tratar superficialmente a educação. É inaugurar uma escola ali, uma creche acolá (aliás, impressionante como os candidatos, nas eleições, falam de creche quando são instados a falar de educação, parece que o tema se resume apenas a isso) . Não espere deles esforços para dar às escolas infraestrutura adequada nem preocupação com o sistema pedagógico e a valorização e capacitação dos professores.

Já os professores parecem viver o estado “ ser professor é isso mesmo, não há o que fazer nem posso ser contestado”. Isadora nos diz que há o que fazer. E muito. O movimento suscitado pela jovem estudante deveria ser encampado pelos profissionais da educação. É instrumento legítimo para reivindicar soluções e a devida valorização da classe.

Sim, a menina questionou professores. Porém, isso não deve ser encarado como invectiva. A classe precisa fazer autocrítica – se há profissional sem condição de lecionar, esquivar-se da responsabilidade não ajudará a classe ( nem o professor em questão) . É melhor assumi-la, tentar resolver o problema (reciclagem, ajudá-lo a se prepara melhor) . A classe quando reflete sobre as suas mazelas tende a crescer. Corporativismo não torna a profissão valorizada. Bons profissionais trazem respeito à classe.

Outra causa importante para o desleixo da educação no Brasil está no seio da sociedade. Famílias pouco estimam a escola. Estudar é somente o ato de “passar de ano”. Aprender é algo menor. As condições da escola e dos professores são ignoradas. Pouco se interessam pelos conselhos de classe. Às vezes, a leniência dos pais tem efeito pior – crianças e adolescentes violentos e sem noção de limite. Nas famílias de baixa renda, a pouca escolaridade dos pais agrava a situação, pois  não sabem como cobrar os filhos e a escola e/ou não entendem  a relevância dos estudos.

O resultado da nossa tamanha irresponsabilidade para com a educação é a má formação do corpo discente, jovens que ostentam diplomas, mas são totalmente despreparados.

E o futuro do movimento encetado pela Isadora? Está em nossas mãos – professores, pais e alunos, a sociedade como um todo. E se começa aprendendo uma coisa: estudar não se resume a notas, nem a passar de ano, aprender é adquirir conhecimento, ser capaz de ler, escrever e pensar.

3 de Outubro de 2012

Coleção Meio de Cultura

Posted in Notas às 15:46 por sidneif

O físico Marcelo Knobel, que participa da seção Ler faz crescer ( o depoimento dele está no post abaixo), coordena a  Coleção Meio de Cultura, cuja principal característica é a  linguagem da ciência mais acessível ao leitor comum – a aproximação do texto científico à sociedade.

Publicada pela Editora da Unicamp, a coleção já possui 10 títulos: A Extinção dos Tecnossauros (Nicola Nosengo); Ciência – Use com Cuidado (Marcelo Leite); Dez Teorias que Comoveram o Mundo (Leonardo Moledo, Esteban Magnani); Inventando Milhões (Simon Torok, Paul Holper); Kluge (Gary Marcus); O Gozo Intelectual (Jorge Wagensberg); O Sol Morto de Rir (Sérgio de Régules); O Sonho de Einstein (Pietro Greco); Superstição (Robert L. Park); Borges e a Mecânica Quântica (Alberto Rojo).

Mais informações: Coleção Meio de Cultura.

Fotografias de leitura

Posted in Ler faz crescer às 15:45 por sidneif

Por MARCELO KNOBEL*

Não sei se acontece com todos, mas minhas memórias, em certos casos, estão arquivadas como fotografias. São alguns instantâneos de lugares, momentos, sentimentos, cheiros, que remetem a uma melancolia inevitável. Não importa se as lembranças são boas ou ruins, elas são acompanhadas por uma nostalgia de um tempo que não voltará. Ao pensar no desafio de pensar em um grande momento meu como leitor, revirei esses arquivos, em busca dessas imagens conectadas com livros. Como qualquer mecanismo de busca, as memórias têm muitas falhas, e o viés do tempo, neste caso é inexorável.

Momentos de destaque para mim se relacionam com extremos. Considero sobretudo leituras que me fizeram gargalhar ou chorar. Curiosamente, lembro de um livro que provocou em mim ambas reações: Tudo se Ilumina, de Jonathan Safran Foer. Fiquei extremamente tocado com a leitura desse livro, que me emocionou profundamente, em todos os aspectos. A trama é complexa, o texto é poético e o livro está muito bem estruturado. Esse mesmo autor norte-americano posteriormente escreveu Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, também  um excelente livro, que certamente recomendo. Ambos livros viraram posteriormente filmes que, entretanto, tiveram que ser radicalmente simplificados para caber no roteiro e na linguagem cinematográfica.

Haveria certamente outros tantos momentos para compartilhar, mas me limito a este, que foi o primeiro que surgiu ao estimular as minhas lembranças.

 *Marcelo Knobel, físico, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin, coordenador da “Coleção Meio de Cultura” (Editora da Unicamp) e pró-reitor de graduação da Unicamp.

2 de Outubro de 2012

As propostas para um milênio que já começou

Posted in Ler faz crescer às 14:58 por sidneif

Por ALDO ALBUQUERQUE BARRETO*

Seis Propostas para o Próximo Milênio, o último livro de Italo Calvino (1923-1985), resultou de uma série de seis aulas, um ciclo de seis conferências que foi realizada durante o ano acadêmico de 1985/86 na Universidade de Harvard nos Estados Unidos. Nelas, o autor apresenta propostas para a qualidade e fluidez da escrita no futuro. Quando partiu para as palestras nos EUA, Calvino já tinha cinco conferências preparadas. As suas propostas indicam o pensar de uma nova narrativa textual que deveria ser: leve, rápida, exata, visível e múltipla. O escritor morreu em Setembro de 1985 e não escreveu a sexta proposta que seria a consistência.

 Pensando nas propostas somos levados, inicialmente, ao texto de Paul Valéry (1871-1845) que dizia que uma narrativa deveria ter leveza do pensamento, ser leve como um pássaro que flui, mas não como a pluma que cai. Avoante como Mercúrio, o mensageiro dos deuses. A escrita flui fácil, mas não é vaga ou aleatória. A rapidez fala da necessidade de uma trama sem os excessos de detalhismos e de divagação que protelam a conclusão. A precisão evoca a necessidade de usar imagens nítidas na composição do texto, deixando para a interpretação do leitor as viagens do imaginário.

 A visibilidade fornece a composição visiva do espaço em que se processa a história; uma mise-en-scéne do lugar físico para os olhos da imaginação. A multiplicidade deve permitir ao leitor sua interferência na apreensão do significado pelo  emaranhado de suas muitas cognições prévias.

 A última proposta que seria a consistência não consta do livro de Calvino. Segundo Esther Judith Singer Calvino (sua mulher e editora do livro), a consistência trazia referências ao livro Bartebly, o Escrivão, de Herman Melville (1819-1891). O tal escrivão cartorial por ofício, um certo dia nada mais escreveu e para sempre. Talvez a sua decisão tenha sido influenciada pela inconsistência de sua escritura, de tipo altamente formatado, sem encadeamento e sem uma sequência adequada para uma apreensão da realidade sonhada. Talvez Calvino quisesse falar, nesta última e oculta proposta, sobre o excesso de consistência, que um formato rígido não prende o escritor. Estas serão sempre especulações.

Uma preocupação percorre todo o texto do autor no destaque colocado em duas imagens para simbolizar a geração da informação e a sua absorção no espaço dos receptores. O cristal facetado e rigoroso seria a representação da invariância e da regularidade da escrita modeladas do texto destinado ao formato. Uma imagem que se adapta à narrativa estruturada, na qual a ciência da informação tem se inspirado para a sua ideologia de controle e arranjo homogêneo dos conteúdos.

Contudo, ao ser refletida em múltiplas direções, a narrativa cristalizada se desorganiza para ser chama, que é a imagem da inconstância e da indefinição associada a cada percepção subjetiva na sua incessante agitação, manipulando sensibilidades nas cadeias da consciência para apreender a informação como conhecimento.

 O cristal é a invariância do formato linear que vai de signo a signo como um folhetim que quer se contar ancorado à forma. Calvino não viveu a época dos formatos digitais abertos, mas as suas propostas para os traços lineares estão adequadas às partículas entrelaçadas que viajam em ondas de pensamento no hipertexto.

A metáfora do cristal e da chama ilustra os ritos dos fluxos das mensagens no tempo anterior ao conhecimento. A informação tem que deixar a beleza do cristal, o tesouro da forma, para consumir-se na individualidade da chama de cada um dos receptores.

*Aldo de Albuquerque Barreto, doutor em ciência da Informação, editor da revista científica Datagramazero.

Fonte: CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. São Paulo: Companhia da Letras, 1990.