16 de Março de 2012

A minha estante

Posted in Ler faz crescer às 10:01 por sidneif

Por SABRINA EVANGELISTA MEDEIROS*

A memória mais importante que tenho da leitura na minha infância são os livros da coleção Uma história por dia, que minha mãe me apresentou logo depois de alfabetizada, como parte das compras mensais no seu livreiro favorito. Até hoje, agora como avó, recebe o mesmo homem na sede do seu trabalho, e eu procuro reproduzir o hábito de ouvir as estórias do meu filho Miguel tal qual ela me ouvia.

Entre a tradição do livreiro e as modernas livrarias on-line com textos eletrônicos, eu fico com os dois. O livreiro porque só ele torna o gosto pessoal. Os eletrônicos porque a tecnologia não substitui, agrega, torna ainda mais possível a leitura. Eu, que adorava os livros cheios de recorte que dobrados faziam descobrir um mundo, também me apaixonei pelos hodiernos, de materialidade sujeita a diversos tipos de contestação. Dizem os amantes dos livros que é preciso uma estante para tornar o conhecimento parte do cotidiano. A minha está nas livrarias, no livreiro ou é virtual.

Adoro os livros da minha infância: Monteiro Lobato e Julio Verne estão comigo até hoje. Numa rotina no qual o tempo é muito escasso, fico triste de reconhecer que a literatura original, espontânea, aquela que a gente quer ler porque quer, é muito mais rara que minhas obrigações acadêmicas. Não raro é o momento em que eu deixo um livro pessoal em troca de mais um texto necessário às minhas aulas, análises e artigos.

Mas alguns livros escapam desse ciclo vicioso. Alguns, em áudio, ganharam espaço no meu carro, onde acontece um universo de coisas em muitas horas de trânsito. Ouvir Irene Ravache e a própria autora Maitê Proença lendo os trechos mais tensos da autobiografia Uma vida Inventada me fez tão bem quanto ouvir Nelson Motta contando para mim, só para mim, a vida do Tim Maia. Acho que biografia e áudio combinam. As Memórias do Livro, de Geraldine Brooks, na voz de Cristiana Oliveira também foi muito rico, e conhecer a Hagadá¹, entre a Barra e a Urca, um privilégio.

Hoje, minha alta voltagem me faz abrir, em um intervalo ou outro e no lugar do e-mail, um livro em especial. Existe gente que não chamaria isso de livro. Esta é a segunda vez em dois anos que leio O Cortiço, de Aluízio de Azevedo, no meu iphone. A edição cuidada, em formato de aplicativo próprio, tem cor e marcador de livro antigo e me deixa folhear páginas. Como tal, já me espera o livro A Cartomante, de Machado de Assis, há alguns meses já instalado.

O Rio de Janeiro dos cortiços onde viviam lavadeiras, trabalhavam operários de uma pedreira e alfaiates de grande valor, me traz o cotidiano de homens comuns que tanto aprecio e desejo para mim. Pode parecer contraditório, mas este me parece o melhor de tudo: juntar o meu cotidiano e a maneira de vivê-lo com experiências registradas muito antes, que me tocam em novo formato, nova linguagem, mas que têm comigo algo sempre em comum. Nem que sejam estórias.

Sabrina Evangelista Medeiros, Doutora em Ciência Política, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Escola de Guerra naval (EGN) e analista de assuntos Internacionais da Globo News.

¹. Relato da libertação do povo hebreu do domínio egipcio, que é lido durante  a cerimônia da páscoa judaica. Existem muitas versões dessa obra litúrgica. O livro de Geraldine Brooks gira em tono da hagadá de Sarajevo.
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6 de Março de 2012

O esporte dela

Posted in Ler faz crescer às 08:51 por sidneif

Por KEILA GRINBERG*

Quando era criança, um dia ouvi meu tio falando a um amigo: “o esporte dela é ler”. Ela era eu. Fiquei ofendida. Logo eu, que adorava esportes. Meu esporte não era ler, era jogar futebol. Naquela época, menina não jogava futebol, e eu, mesmo meio pequena para minha idade, tinha o maior orgulho de ser do time do prédio.

O que não queria dizer que eu não lesse o tempo todo. Não lembro de como era o mundo antes de aprender a ler. Lembro de passear de carro e ler todas as propagandas que passavam por nós. Lia no recreio da escola, quando a quadra não era da nossa turma. Chegava em casa e continuava a ler. Lia antes do “Globo Esporte” e depois da novela. Quando comecei a jogar volei, lia antes do aquecimento, no ônibus a caminho dos jogos, depois das partidas.

Eu li livros de boa e de má qualidade. Li livros infantis e de adulto, clássicos, suspenses e muita revistinha (continuo lendo, com o álibi de comprar para minhas filhas). Li livros obscuros e best-sellers. Nem preciso dizer que no esporte não fui muito longe. Também não sei se a leitura me fez crescer. Continuei baixinha. O que sei é que a leitura me dava muito prazer. O mesmo prazer que hoje tenho ao viver de ler, escrever e ensinar.

Keila Grinberg, historiadora e escritora.