15 de Fevereiro de 2019

Mágica e única

Posted in Ler faz crescer às 09:22 por sidneif

Por ROSÂNGELA VIEIRA ROCHA*

Lady with a Book circa 1860 by Arthur Boyd Houghton 1836-1875

“Lady with a book” (ca. 1860), de Arthur Boyd Houghton (1836–1875)

O livro mais marcante na minha vida é Orgulho e preconceito, de Jane Austen.

Nasci numa cidade pequena do interior de Minas, Inhapim, onde não havia livrarias — e ainda não há — nem biblioteca pública, na época. Fazia parte de um grupo de meninas muito interessadas em leitura. Devia ter dez, onze anos (saí de lá aos catorze, para estudar em Brasília). Como era a mais nova da turma, geralmente esperava bastante tempo para ler, pois as mais velhas tinham preferência.

Havia duas maneiras de obtermos os livros: pelo reembolso postal ou através de alguém que fosse a uma cidade maior e se dispusesse a comprar para nós. Um único exemplar, pois não tínhamos recursos para mais. Esse exemplar corria de mão em mão. Como raramente podíamos escolher, líamos de tudo.

Na época, os livros da “Biblioteca das Moças” — uma coleção enorme, de histórias água-com-açúcar, em que proliferavam as obras de M. Delly — e os da Coleção “Menina e Moça” faziam muito sucesso. Pensávamos que M. Delly era uma mulher, e que M. se referia a madame. Anos mais tarde descobri que eram dois irmãos, um rapaz e uma moça, que assinavam assim.

Num conjunto tão heterogêneo, nem sei como surgiu um exemplar de Orgulho e preconceito, sem nenhuma indicação. Quando chegou a mim, faltavam as trinta páginas finais, o que só descobri durante a leitura. Adorei o livro. Chorei demais por não ter podido ler o final. Fiquei tão traumatizada que, quando tive oportunidade, comprei seis exemplares.

Não tinha a menor ideia de que se tratava de uma das maiores escritoras inglesas do século XIX. Foi o primeiro romance de verdade que me chegou às mãos e intuí que se tratava de literatura da melhor qualidade. Posteriormente, li todos os livros traduzidos de Jane Austen.

Tenho um apreço especial por Orgulho e preconceito, que releio de vez em quando, pois influenciou não apenas o meu trajeto como leitora, como também o de escritora. Considero-o o livro da minha vida, uma obra mágica, única.

 

*Rosângela Vieira Rocha,  escritora, jornalista e professora aposentada da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília.

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Uma aula poética sobre texto e linguagem

Posted in Ler faz crescer às 09:16 por sidneif

Por MARIA FÉLIX FONTELE*

(Aos que leem, aos que escrevem)

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“A Girl Writing” (ca. 1870), de Henriette Browne (1829-1901)

Bendita linguagem! Será que estamos condenados ao teu emaranhado? Se a resposta é sim, em que bela prisão nos encontramos, pois é por meio de ti que exaltamos o amor, qualificamos os oceanos, as famílias das borboletas e dos pássaros, as cores, os abismos, a complexidade da vida, e tudo que há dentro e fora de nós. Não se configuras somente como o falar porque nem toda linguagem é feita de palavras. Gestos, acenos, sobrancelha arqueada, olhar raivoso ou amoroso e silêncios fazem parte de teu reino. Porém, és puro texto. Não há nada fora do texto, seja ele dito ou não.

Poeticamente, o professor de redação iniciava as aulas, nada enfadonhas e convencionais dada a substância, dado o tecido em que era engendrado o discurso tal qual brocado salpicado de pérolas. Nosso aprendizado seguia luxuoso. Manoel de Alcântara Carvalhosa apresentava-se nessa ordem: professor, escritor e pintor. Naquele final de 1999, quando o planeta comentava a chegada do ano 2000 com as mais variadas profecias, repetia-se a seguinte frase: “De dois mil passaremos? ”. Os questionamentos eram parecidos. Como seria o fim? Fogo em profusão, inundação, queda de asteroide? Teríamos a destruição inevitável da Torre de Babel da modernidade com suas inúmeras línguas e desentendimentos? Quem sabe, depois de tudo não nasceria uma só língua entre os povos e a linguagem da paz se materializasse?

Carvalhosa era sutil, sem arroubos apocalípticos, contrário a utopias sobre a existência de mundos perfeitos. Dizia que vivíamos em orbe inacabado, a ser esculpido por nós, da mesma forma como elaboramos um bom texto, com componentes necessários para torná-lo agradável: ritmo, clareza na expressividade, bom senso, simplicidade, ordem direta, conhecimento do que se fala, boa pontuação, sem repetições de ideias e palavras, equilíbrio, encantamento, sentimento dosado! Fale para os outros e não simplesmente para você mesmo, recomendava. Cavalgue pelo texto e as palavras como se seguisse aquela velha trilha: nem tanto a terra, nem tanto ao mar. Mas emocione!

Nossa! Exclamou um aluno do fundo da sala: é muita coisa para se colocar em poucas linhas! O professor, com sorriso no canto da boca, acrescentou: e tem mais. Inclinou-se um pouco na cadeira e continuou: deixe as portas da imaginação abertas, comungue com a sensibilidade, embriague-se de fantasia, apaixone-se e, sobretudo, não tente dissecar a alma dos homens porque, possivelmente, sua história ficará entediante, recheada de ensinamentos e clichês. Mas sobrevoe essa alma, reconheça e tente assimilar as eternas inquietações do coração humano. Por fim, deixe o leitor tirar suas conclusões, depois de seduzi-lo. E essa era apenas a primeira de uma série de aulas sobre texto e linguagem! Que fôlego! Eu só consegui balbuciar uma única frase: “Meu Deus, dai-me inspiração!

 

*Maria Félix Fontele é jornalista e escritora, autora do livro “Versos que me habitam “(editora Confraria do Vento). O texto “Uma aula poética sobre texto e linguagem”, indicado ao blog Tabacaria pela própria autora,  foi publicado originalmente na Revista Capital de Brasília (edição de Julho/Ago/Set/2017).

7 de Fevereiro de 2019

Para gostar de ler

Posted in Ler faz crescer às 16:16 por sidneif

Por RITA QUEIROZ*

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“A Young Woman with a Book” (1756-1762), de Pietro Rotari ( 1707 – 1762)

Quando tinha por volta de três anos, meus pais se mudaram para uma casa que ficava ao lado de uma escola. Nessa época, não havia turmas de maternalzinho nem de jardim de infância, nem mesmo em escolas particulares. As crianças só ingressavam na pré-escola entre os cinco e seis anos, para cursarem o que se chamava pré-primário, ou o que é hoje a alfabetização.

Todos os dias, sentada na janela de casa, via os estudantes passarem para a escola e ficava chorando, porque queria ir estudar também. Imaginem a minha felicidade no dia que isso aconteceu.

Mas não ingressei no chamado pré-primário na escola que olhava da janela de casa, mas sim em uma escolinha, cuja professora que alfabetizava se chamava D. Merolina, uma senhorinha gordinha, de cabelos grisalhos, muito simpática! Gostava muito dela! Ela alfabetizou muitas crianças, inclusive eu! Adorava ir para as aulas, aprender a reconhecer as letras, a saber uni-las, decifrá-las quando juntas, desbravar o mundo da leitura e me ver fazendo parte dele! Ah, a leitura! Esta entidade mágica que nos transporta para outros mundos, para lugares indevassáveis, inóspitos, mas encantados! A leitura que nos faz atravessar o tempo, que nos faz ver além do alcance, mesmo sem colocar olho biônico!

Desde que fui alfabetizada que a leitura faz parte de mim, do mesmo modo como dormir, comer, me banhar no mar, sentir a brisa soprar… enfim… Não li todos os livros que tenho e aqueles que gostaria de já ter lido, estão todos na fila aguardando o dia em que chegarei lá!

Sempre li de tudo! Na pré-adolescência, adorava ler fotonovelas. As minhas preferidas eram as italianas, cheias de histórias que iam além da trama folhetinesca. Foi lendo essas fotonovelas que conheci Roma, os etruscos e me apaixonei pela Itália! Paixão que cresceu ainda mais quando assisti ao filme “Candelabro italiano”, no qual havia um personagem que era etruscólogo. Fiquei encantada! Imaginem ser especialista em etruscos, conhecer tudo sobre esse povo, ir em busca de seus rastros! Anos mais tarde, quando já cursava Letras na universidade, me apaixonei pela Filologia Românica, pelo estudo sobre a origem das línguas românicas, desde quando Roma era uma simples aldeia. Saí da universidade e fui ensinar o quê? Filologia Românica! O que li nas fotonovelas, de forma breve e romanceada, bem como vi no filme, passou a ser meu assunto de trabalho! Sendo bem clichê: Amo tudo isso!!

Na adolescência, no ensino médio, estudando na antiga Escola Técnica Federal da Bahia (hoje Instituto Federal da Bahia), e aluna da professora Cecília (nome cuja origem é etrusca, vejam só!), conheci autores como Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rubem Braga, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Stanislaw Ponte Preta, dentre outros. A professora recomendava sempre a leitura das crônicas e, de tantas lidas, duas me marcaram: “A velha contrabandista”, de Stanislaw Ponte Preta; e “No restaurante”, de Carlos Drummond de Andrade. A primeira trata da história da velhinha que, durante um mês, enganara o fiscal da alfândega, desconfiado de que ela trazia muamba em um saco, mas neste só havia areia; intrigado, ele a interpela sobre o que trazia como contrabando e ela responde que era a lambreta, na qual ela atravessava a fronteira. A segunda é a história de uma garotinha de quatro anos que vai ao restaurante com o pai; ela vai logo dizendo que quer lasanha, ele insiste para que comam camarão, ela cede, mas no final diz que quer a lasanha e que o pai deverá comer também.

Continuando as leituras, no curso de Letras, outros autores entraram em minha vida, não só brasileiros como portugueses e italianos. Dentre eles, destaco: Vinícius de Morais, Cecília Meireles, Lima Barreto, Eça de Queirós, Sá de Miranda, Gil Vicente, Dias Gomes, Mário de Andrade, Clarice Lispector, Oswald de Andrade, Jorge Amado, Dante Alighieri, Petrarca, Boccaccio, dentre tantos outros.

Mas outras leituras faziam parte de mim: os famosos gibis, ou as histórias em quadrinhos, da Turma da Mônica, de Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey, Minnie, Pateta e outros. E os livros da série Vaga-Lume? Li vários, como Éramos seis, de Maria José Dupré; O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida; O feijão e o sonho, de Orígenes Lessa; etc. Bem como os autores clássicos do Romantismo / Naturalismo: Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, Raul Pompéia, Visconde de Taunay, Aloísio Azevedo, Castro Alves, Gonçalves Dias, José de Alencar, Álvares de Azevedo, Casemiro de Abreu, Junqueira Freire…

E a leitura segue em mim e eu nela, amalgamadas em tantas teias, sejam estas literárias ou não. Desbravando histórias de homens, mulheres, jovens, anciãos, que deixam nas linhas e entrelinhas o pão que alimenta nossas almas a seguir sonhando, buscando o paraíso de Dante e Beatriz!

 

50248147_297060040994742_5452744548897783808_n*Rita Queiroz. Nascida na Bahia de todos os Santos, na terra de Nosso Senhor de Bonfim, com o Sol em Leão, aos 22 dias do mês de agosto. Tímida na infância e na adolescência, vem desde sempre ressignificando sua vida através da palavra. Graduada em Letras, misturou o verbo e os textos manuscritos no mestrado e no doutorado, movendo-se apaixonadamente por tantas histórias de épocas pretéritas que ainda hoje se repetem. Vida e verbo visceralmente tingem o/s papel/is desta leonina, amante do verso que a faz inteira. Assim, as dores se fizeram palavras e as cicatrizes, risos. Construindo, reconstruindo e se deslocando em espaços possíveis e imaginários, espera sempre tocar outras almas com sua poesia e sua docência.

Um tanto de mim

Posted in Ler faz crescer às 16:12 por sidneif

Por ELIZZA BARRETO*

Girl Reading (oil on canvas)

“Girl reading”, de Henri Lebasque (1865-1937)

Eu escrevo desde que aprendi a escrever e tenho algumas referências literárias que, felizmente, me auxiliaram durante a vida no amadurecimento das minhas produções.

Alguns livros marcam etapas específicas da minha jornada na escrita, iniciando pela série Destemida, de Natalie Jane Prior, que me infuenciou dos seis aos dez anos com devaneios no meu computador de tubo; Crepúsculo, de Stephenie Meyer, nos me treze anos, quando dei início a produções mais longas (e melosas), como novelas; Charles Bukowski, nos meus 16, quando eu me tornei um pouco amarga e seletiva em minhas relações, colocando um pouco mais de intensidade e verdade nos meus escritos; Caio Fernando Abreu, nos meus 17, que deu um empurrãozinho em vários poemas guardados na minha cabeça;  e Colleen Hoover, nos meus 18, que atravessou a minha vida e mudou completamente a forma como eu colocava palavras no papel.

Hoje em dia, sigo dizendo que a CoHo me inspira e influencia de uma forma impressionante, mas acrescento ainda outros nomes, como J.K. Rowling, Colleen Houck, Jenny Han, Amanda Lovelace, Rupi Kaur, Paulo Leminski, Neil Gaiman. Essas pessoas despertaram em mim, durante toda a vida, uma alma de escritora, contadora de histórias, reinventora da realidade, reconstrutora da própria vida, marcando etapas extremamente importantes, tanto na vida pessoal quanto na jornada criativa, me ajudando a sobreviver ao caos, respirando a vida de personagens, que tinham um tanto de mim.

Em 2016, aos 21 anos, escrevi o livro (publicado dois anos depois) que mudaria completamente a minha vida — Cappuccino de Chocolate com Creme (Ed. Multifoco). Devo a todas essas leituras um universo inteiro, pois sem elas eu teria várias lacunas. Foi na leitura, no acesso ao universo de um outro, que me encontrei, que descobri o potencial das histórias malucas que surgem na minha cabeça na hora do banho ou enquanto lavo a louça do jantar. O meu livro precisa entrar nessa lista, no entanto, não apenas porque eu o escrevi (e reli um milhão de vezes), mas porque me inspirou a continuar buscando e vivendo a vida dos meus sonhos, a minha maior e melhor aventura.

 

*Elizza Barreto, psicóloga e escritora, pós-graduanda do programa de Residência Multiprofissional em Cardiologia – UNIFESP.