13 de Outubro de 2009

Opinião e reflexão

Posted in Ler faz crescer às 19:50 por sidneif

Por ANA DE HOLLANDA*

Acho que a leitura é uma das melhores formas de por o intelecto para funcionar. Quando lemos um texto, imaginamos os cenários, personagens, procuramos entender o que está subentendido na situação enfim, traduzimos para nossa visão, muitas vezes criticamente, o que está exposto no papel.

Sou filha de escritor (Sérgio Buarque de Hollanda) e cresci num espaço ocupado, em grande parte, pelos livros. Fascinava-me as horas, dias, semanas, sem sábado, domingo ou feriado, que meu pai passava enfurnado no escritório, lendo ou escrevendo. Geralmente no fim da tarde, ele interrompia por algum tempo o estudo, me chamava e se dedicava a mim… lendo. Lia, traduzindo simultaneamente do francês As Mil e Uma Noites. Eu não tinha dúvidas (e muitos outros também) de que ele era o homem mais culto do universo. No entanto, ao me ver ler algo, perguntava minha opinião sobre o assunto e provocava a reflexão com inúmeras perguntas capciosas. Ele amava os livros, mas não como uma verdade única, pois sabia que a inteligência e a personalidade de cada um podem produzir novas interpretações interessantes e intrigantes.

Não tenho dúvidas de que essa didática às avessas, foi o que me instigou a ler, refletir, definir minhas opiniões e me deu confiança para me aventurar na vida e profissão.

*Ana de Hollanda, cantora e compositora.

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5 de Outubro de 2009

A agonia de uma biblioteca

Posted in Brasil às 11:18 por sidneif

Há alguns dias recebi a programação de outubro da biblioteca comunitária Barca dos Livros (  que já foi tema de um texto deste blogueiro) . Em vez de gáudio pela diversidade de eventos, alcançou-me o desolamento.

Não, a programação continua diversa e edificante. Mas a tarja preta…

A tarja preta no final da programação anunciava a tristeza e o inaceitável. A biblioteca agoniza. Mesmo sendo um  projeto vigoroso ( para entender o porquê desse adjetivo, recomendo assistir ao programa Ação, comando por Serginho Groisman na Globo, do próximo dia  17 de outubro) de estímulo à leitura na comunidade, patrocínios não aportam na biblioteca.

Mas somos o país da copa do mundo de futebol, das olimpíadas. Vamos festejá-lo. Recursos não faltarão a esses dois eventos. Nosso suado dinheirinho está aí para ficar sob responsabilidade de pessoas da melhor estirpe ( é só pensar nos jogos pan-americanos!).

Qualquer necessidade maior e a solução está pronta: loterias, bingos e incentivos de todos os tipos socorrem nossos valentes dirigentes esportivos. Estes, que suam tanto o colarinho branco, ainda exigem, claro, desobrigação de prestar contas. Muito justo.

E os atletlas? Estes continuam de pires na mão.

E qual a relação  entre esporte e  biblioteca? Certamente é a pergunta de quem ler este texto.

Bibliotecas formam leitores, pessoas que aprendem a imaginar e a pensar. São homens e mulheres que  crescem, não viram reféns de programas sociais, entendem a relevância do esporte como saúde e lazer. É de cabeças assim que seria portentoso ver brotar o desejo de comandar uma copa do mundo, olimpíadas…

Obrigado, Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 09:47 por sidneif

Chegou ao fim o especial Thereza Christina, um verdadeiro presente para este blogueiro.

Agradeço  à escritora Thereza Christina Rocque da Motta  a autorização  e  a confiança  depositada em mim   para publicar seus textos.

Se as publicações não estiveram à altura do imenso talento da autora, respeito e dignidade não faltou deste blogueiro para com os textos.

2 de Outubro de 2009

Thereza Christina

Posted in Especial Theresa Christina às 10:15 por sidneif

A literatura não apenas mudou, mas como fez a minha vida, me salvando da estagnação, do lugar comum e da depressão. A literatura pode mudar muitas vidas e acho que tem mudado a vida de muita gente e não sabemos. Várias vezes ouvi gente dizer que tomou esta ou aquela decisão por causa de algo que leu.

Ivana de Arruda Leite, escritora e que conheço desde 1980, comentou certo dia sobre o impacto que Reinações de Narizinho teve sobre ela, fazendo-a decidir se tornar escritora. Acho que todo mundo que escreve, ou gosta de ler, tem uma história para contar sobre viradas que a vida deu por causa de um livro que leram.

Nem eu mesmo sei como se dá isso, mas reconheço que tudo que li serve de base para tudo que faço ou digo.

Eu me apóio na literatura desde os primeiros livros que li, mesmo que não tenha sido de forma premeditada. E sempre tinha alguém para ler para mim algo que achou interessante.

Conheci pessoalmente grandes poetas que me ensinaram a ler meus próprios poemas e a lapidá-los. A visão estética deles me guiou desde o início. Surpreendiam sempre, por outro lado, da boa leitura que eu tinha de autores brasileiros, em vez de ter lido os estrangeiros. Mas a literatura apóia um todo que se transforma em dia-a-dia.

Na verdade, isto é algo que sempre fiz, recortar frases e trechos de livros e escrever sobre eles, porque faziam sentido para mim, uma bússola encravada no livro. Aqui, o norte. Então, vou para este lado.

Para mim, como escrevi em meu poema, livros são oásis onde buscamos nos refrescar, algo que nos responda às nossas perguntas, mesmo que não saibamos quais são.

Por outro lado, sempre foi o que li que me deu subsídios para dialogar com as questões emocionais mais complexas. Muitos livros que dei para pessoas que conhecia abriram para elas portas e janelas para sua alma. Também poemas que escrevi iluminaram pessoas, sem que eu soubesse. Sempre recebo de alguém até hoje a notícia de que algum poema meu a ajudou em determinado momento. Se meu poema respondeu à questão daquela pessoa, concluí que tenho as respostas mesmo sem saber as perguntas. E é isso que poesia faz por nós. Ou qualquer coisa que se leia.

Estes são os grandes temas para mim: amor, casamento, filhos. Eis o tripé de toda a existência humana. Todos os livros falam de relacionamentos. Raiva, despeito, vingança. Traição, negligência, abandono. Devoção, respeito, temor. Tudo passa por amizade, descobertas, existência: as pessoas concentram seus esforços em ser como os outros e poucas vezes como elas mesmas. Abre-se um leque de possibilidades ao longo da infância, adolescência, maturidade, velhice. A busca do amor. O encontro. A despedida.

As canções mais belas falam de amor. Os mais belos poemas. Os mais belos romances. As mais belas peças de teatro. Por que assistimos novamente a mesma história, lemos novamente o mesmo poema? Do que tentamos nos lembrar? Por que todos os escritores reescrevem o que foi escrito? Não bastou Shakespeare aos homens? Não bastou Dante, Camões? Ovídio? Homero? Se um livro impulsiona outro livro, então, um livro não contém tudo e o Homem é infinito repetindo-se ad aeternum.

Fernando Pessoa justamente tem um verso que diz que escrevemos porque não nos bastamos. Ferreira Gullar diz o mesmo. Não nos basta ser quem somos, temos necessidade de, continuamente, nos reinventarmos. A poesia alcança uma intra-existência que poucos atingem de outra forma. Os romances envolvem quem como um mito. E contos deixam o fim mais próximo ao começo da história. Vivemos em capítulos de novela, de folhetim. Periódicos da alma.

Li há pouco Fragmentos de um discurso amoroso e vou reler L’amour fou, de André Breton, que me foi apresentado por um poeta em 1981. Estou lendo cartas de Fernando Sabino e Clarice Lispector, e o primeiro volume de La recherche du temps perdu, que nunca havia lido. Tenho uma pilha de livros na cabeceira e mais livros e livros espalhados por toda casa e pelas estantes que nunca consegui sequer começar a ler, mas que ficam lá, à espera.

Thereza Christina Rocque da Motta, poetisa, editora e tradutora. Publicou Joio & trigo, Areal, Sabbath, Alba, Chiaroscuro, Rios, Lilases e Marco Polo e a Princesa Azul. Traduziu poemas de Anne Morrow Lindbergh (O Unicórnio e outros poemas, a sair), e Shakespeare (44 Sonetos escolhidos e 154 Sonetos, Ibis Libris), Organiza a Ponte de Versos há dez anos. Fundou a editora Ibis Libris em agosto de 2000.

1 de Outubro de 2009

Sobre o nome do blog

Posted in Notas às 23:38 por sidneif

Nunca é tarde para corrigir uma falha.

Escrevo esta nota para esclarecer a origem do nome deste Blog.

A inspiração para a denominação do blog  é o poema Tabacaria do genial poeta Fernando Pessoa.

Abaixo, publico o poema em questão. Apreciem, deliciem-se  e entendam o porquê da minha escolha e veneração pelo poeta lusitano.

Tabacaria

Posted in Notas às 23:26 por sidneif

      Não sou nada.

 

      Nunca serei nada.

 

      Não posso querer ser nada.

 

      À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

Fernando Pessoa