20 de Fevereiro de 2013

A leitura irmana

Posted in Ler faz crescer às 17:45 por sidneif

Por URDA ALICE KLUEGER*

livroirmana2Não conheço nada que possa nos levar instantaneamente a qualquer lugar, a qualquer tempo ou a qualquer aventura quanto a leitura. Leio compulsivamente desde que fui alfabetizada, faz mais de 50 anos! Meu sonho de consumo de criança era fazer 12 anos, para poder ser sócia da Biblioteca Pública Municipal Dr. Fritz Mueller, da minha cidade de Blumenau (SC). Antes disso, quer dizer, antes dos 12 anos, eu já lera tudo o que havia na minha casa, nas dos meus parentes e vizinhos e na minha escola, o que inclui as Enciclopédias Barsa e Delta Larousse inteiras. Para quem é muito jovem, explico que tais enciclopédias eram um tipo de antepassado do Google de hoje.

No tempo em que cresci já havia cinema, que eu adorava, mas não era a toda hora que se podia ir lá. Também havia rádio, mas televisão, nem pensar. A TV chegou na minha adolescência e foi fascinante; a Internet chegou bem mais tarde, e também foi uma coisa fantástica. Nesse meio tempo apareceram algumas outras coisas maravilhosas, como o videocassete e os DVDs, mas por mais que admirasse tais coisas, sempre a leitura esteve acima de  todas elas para mim. Nada era capaz de ter a mesma magia e o encanto de um bom livro – claro que há livros que não são bons, que são mal escritos e chatos, mas estes a gente nem lê até o fim. Acho um pecado dar-se um livro chato para uma criança ler, por exemplo. Ela vai ficar tão decepcionada que não vai querer ler outros livros.

Dentre tantos acontecimentos maravilhosos na minha vida, nascidos de algum livro, estava aqui a lembrar-me de um recente. Vou contar:

Na infância/adolescência, acabei ganhando toda uma coleção de livros de uma escritora estadunidense chamada Laura Ingals Wilder (1867-1957), diversos dos quais ainda permanecem na minha biblioteca. Eram as histórias simples de uma menina, sua família e seu cachorro, que viveram as aventuras da colonização dos Estados Unidos no século XIX. Tive que ficar velha para entender que aqueles livros eram mais que livros, eram um verdadeiro estado de espírito que uniam as pessoas ao redor do mundo.

Eu tinha 52 anos, estava na cidade de Cusco (Peru), depois de longa viagem de moto (tal viagem está contada no meu livro Viagem ao Umbigo do Mundo), e no hotel onde estava hospedada, em algum momento me vi subindo de elevador com um casal mais ou menos da minha idade e de língua inglesa. Eu não falo inglês, mas procurei ser simpática com eles:

– England? – perguntei.

– No, no, American! – (Os estadunidenses têm mania de se dizerem americanos, como se nós também não o fôssemos!). Mas eles tinham sido simpáticos, e tentei outro arremedo de conversa:

– New York? Washington?

– No! Dakota! – (ou teriam dito Wisconsin?) Sei é que era um dos estados onde Laura Ingals Wilder havia vivido as suas aventuras.

Então procurei imitar o sotaque deles:

– Laura Ingals Wilder? – E foi uma coisa muito emocionante! Os dois puseram-se a rir e a dar pulinhos, querendo ser meus irmãos, e nós três pulávamos dentro do elevador enquanto ríamos de felicidade e dizíamos um para o outro:

– Laura Ingals Wilder! Laura Ingals Wilder!

Pena que o elevador chegou em algum lugar e tivemos que nos separar! Mas vejam vocês como a magia do livro vai longe, como é capaz a nos irmanar com pessoas que achávamos inteiramente desconhecidas, de outra língua, num lugar distante no mundo…

Eu me emociono muito quando lembro de tal momento e de tal contato! Pediria a outros possíveis leitores que tivessem lido tal autora que fizessem contacto comigo.

* Urda Alice Klueger, escritora e historiadora.

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13 de Fevereiro de 2013

Pequenas coisas, grandes lições

Posted in Brasil às 13:29 por sidneif

Por POLLY D’AVILA*

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“O Pássaro Azul” (1968), pintura de Marc Chagall (1887-1985)

Tenho várias histórias da minha mãe para contar aos meus filhos (quando eles vierem). A última delas aconteceu há poucos dias.

Ela chegou de uma viagem dizendo que tinha algo pra me dar. Curiosa, tentei adivinhar qual era a “surpresa”, mas errei todas as tentativas. Foi quando ela me mostrou um casal de pequenos pássaros cuidadosamente aquecidos em um papel toalha.

A princípio eu lhe disse que não queria cuidar deles, pois da última vez que eu o fiz um pássaro morreu e me apego facilmente a essas pequenas criaturinhas. Porém, com o passar dos dias eu acabei me apaixonando pelo casalzinho, sempre muito faminto e que depois de alguns dias começou a cantar.

Então, minha mãe disse-me toda a história: Ela estava no campo inspecionando um material em um dia chuvoso (ossos do seu ofício). E ao pegar umas frutas no chão, verificou um ninho de pássaros todo encharcado que havia caído de uma árvore. Os dois pássaros estavam a tremer de frio e não emitiam som algum.

Ela pegou um papel toalha e pediu ajuda de um colega para colocá-los novamente no ninho. Mas a árvore era alta, estava chovendo muito e, depois de algumas tentativas, decidiu trazê-los para casa. Disse-me que cuidaria deles até quando pudessem ser soltos na natureza.

Na verdade, tudo isso me deu uma grande lição, já que muitas coisas se explicam através de metáforas e analogias.

Assim como os pássaros, somos seres frágeis e que, em algum momento, passamos pelo mesmo processo de cuidados, até crescermos e estarmos preparados para desbravar o mundo.

E assim como os pássaros, a nossa verdadeira essência se desenvolve na liberdade. São nos pequenos atos que aprendemos muito com nossos pais. Por meio das pequenas coisas, aquelas que muitos consideram banais, podemos encontrar grandes lições na vida. Para isso, basta apenas saber olhar.

Lembro-me, inclusive, de um texto do Rubem Alves que li em 2007 chamado A Complicada Arte de Ver. Nele está escrito que “O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser apreendido.” A cegueira muitas vezes é formada em nossos olhos a partir da correria e dos problemas cotidianos.

Sobre o ato de ver, Santo Agostinho (354-430) também escreveu que certa vez dois homens olharam através da grade da prisão, um deles viu a lama e o outro o céu estrelado.

Aqui fica a mensagem.

Polly d’Avila, artista plástica. O texto, que foi cedido gentilmente pela autora, foi publicado originalmente no Facebook.