22 de Julho de 2011

Ler, para quê?

Posted in Ler faz crescer às 14:27 por sidneif

Por MÁRCIA CARDEAL*

Lugar de onde venho: uma casa cheia de livros, lápis, papéis, sem energia elétrica, televisão ou internet, um bando de crianças, um jardim delicioso, um pomar, riacho, histórias de assombração noite adentro, nas paredes de madeira ilustradas com as sombras projetadas pelas nossas mãos, à luz da lamparina de querosene… Devia ter quatro, quase cinco anos de idade quando minha mãe, surpresa, me pegou lendo sozinha . Disso não lembro muito bem, mas lembro de sempre ter lido muito e ler, para mim, sempre teve algo de sagrado. Talvez pelo prazer mágico e solitário do alumbramento, o fascínio provocado pelas primeiras descobertas literárias,povoadas de imagens e o desejo de mais e mais. Lembro de procurar lugares meio escondidos para ler, onde ninguém me encontrasse, como embaixo da escada que levava ao sótão. Para lá eu ia, na companhia de Monteiro Lobato, Laura Ingalls, Mark Twain, Stevenson, Dickens, Julio Verne, Alexandre Dumas… (que minha mãe trazia da biblioteca da escola onde lecionava). Um pouco mais tarde, lá pelos 13 ou 14 anos, meu professor de francês, um padre, me apresentou Terra dos Homens, de Saint Exupery. Devidamente devorado, vieram em seguida Albert Camus, Baudelaire, Rimbaud, Poe (que, é claro, tive que reler todos depois!)… que me mostraram o caminho da poesia. Hoje penso que foi por muitas vezes preferir a companhia dos livros à das pessoas, que acabei me tornando ilustradora – uma atividade impossível de exercer sem gostar de ler!

* Márcia Cardeal, ilustradora e responsável pelo blog experimentatil.

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5 de Julho de 2011

A chave do mundo

Posted in Ler faz crescer às 18:05 por sidneif

Por PAULA FÁBRIO*

Trouxeste a chave? O poeta pergunta. E eu não sei precisar o momento justo desse assombro. Quando a literatura me trouxe a chave do mundo. Não saberia dizer se foi apenas tateando Os Três Mosqueteiros na estante do meu irmão mais velho e eu na ponta dos pés, ou se ao longo das páginas de O Assassinato de Roger Ackroyd, quando tudo era tão-somente descoberta e mistério, ou se anos mais tarde com A Hora da Estrela, quando pela primeira vez vislumbrei Clarice e eu ainda não imaginava quantas vezes iria me ajoelhar diante de sua obra. Há pouco tempo foi Inês Pedrosa quem modificou meus dias, removeu paredes e paisagens. Para cada livro, o trabalho de esculpir do lado de cá. Mas meu melhor momento diante de um livro não foi meu. Um leitor muito especial escreveu-me dizendo que algo havia mudado em sua vida com aquele exemplar do Julio Ramón Ribeyro que lhe confiei em tão boa hora: ele havia galgado um degrau na escada da leitura. Não formei nenhum leitor nos meus anos de livreira. Não tive esse mérito, mas pelo menos coloquei o livro exato naquelas mãos que tinham a chave para decifrá-lo. É um começo.

*Paula Fábrio, redatora publicitária, consultora cultural, também escreve no blog Incursões Literárias.

4 de Julho de 2011

Meus livros, minha vida

Posted in Ler faz crescer às 12:23 por sidneif

Por CELSO UNZELTE*

— Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai à porta do Ateneu. Prepare-se para a luta.

Era Raul Pompéia, no primeiro parágrafo de seu O Ateneu, mostrando-me as primeiras palavras que me lembro de ter visto escritas em forma de livro. Como o personagem Sérgio daquele romance (que tinha 11 anos), eu, aos 10, também encontrava, a partir dali, um novo mundo.

No começo, é verdade, hesitei. Vinha direto dos quadrinhos, das histórias de leitura mais fácil contidas nos mais de 1 500 gibis que, na falta de lugar mais adequado — e mesmo de um quarto só para mim e meu irmão —, abarrotavam a estante da sala de minha casa. Aquele novo mundo de letras, desprovido de imagens, parecia-me árido demais para se desejar como futuro. Amaldiçoei dona Denise, a professora da quarta série, por me “receitar” tão cedo e para um resumo em tão poucos dias um livro tão pouco atraente aos meus olhos infantis quanto era O Ateneu. Ao mesmo tempo, porém, percebi que se tratava de um caminho sem volta. Com o tempo, fui me acostumando. E me apaixonando.

Resumo entregue, nota conseguida, passei logo e espontaneamente dos gibis, tão criticados pelos mais velhos na minha época, aos Manuais Disney, coordenados por Ruth Rocha, que nada mais eram que quadrinhos em forma de literatura. Daqueles para a antológica Coleção Vaga-Lume, série com que a Editora Ática iniciou gerações no mundo da literatura de forma muito menos traumática que a minha. Monteiro Lobato, Pollyana, Marcos Rey, Sem Família, autores e títulos confundindo-se na cabecinha infanto-juvenil. Quem, neoleitor como eu era na virada dos anos 70 para os 80, não se lembra desses nomes?

Hoje, meus livros, como eram meus gibis, também já são mais de 1 500 — muitos, inclusive, sobre histórias em quadrinhos. Mas também simplesmente sobre história, ou futebol, cinema, música, arte, religião. Romances, como aquele primeiro O Ateneu. Exóticos, de referência ou ambas as coisas, como Todos os Ratos do Mundo ou Assim Morreu Lampião. Clássicos, como A Divina Comédia.

Se para alguns a vida passa como um videoteipe, para mim ela é de fato um livro aberto, e folheado. Casei-me com uma mulher também afeita à literatura (do ponto de vista da cultura formal, mais até do que eu) em regime de comunhão de livros, enriquecendo minhas estantes com preciosas contribuições, principalmente em termos de romance e de literatura. Herdei livros de amigos que já se foram, como um exemplar de Rebeca. Virei depositário de obras de outros que não têm onde guardá-las, mas que sabem com quem deixá-las. Transformei-me em escritor, sobre assuntos tão variados que vão do Livro de Ouro do Futebol à Família Bresser na História de São Paulo, mas sempre escrevendo com o mesmo prazer de quem lê.

Sou pai de três crianças das quais, juro, jamais ousarei apartar um livro, pois mais vale um exemplar rabiscado (ou até rasgado) que uma traumática interrupção desse contato tátil, cujas seqüelas podem ser irreparáveis. Tornei-me professor de Jornalismo, para o qual sempre perguntam “como escrever bem” e eu, antes de mais nada, sempre respondo: “Leia bem, e muito”. Sonho com muitas coisas, inclusive e freqüentemente que estou ganhando novos livros. Mas principalmente com uma aposentadoria tranqüila, na qual possa folhear, cheirar, mergulhar em cada um dos meus livros, atuais e futuros. E morro — um pouco de inveja, outro tanto de inquietação — a cada vez que penso na forte possibilidade de eles, meus amados livros, sobreviverem até mesmo a mim.

*Celso Unzelte, professor, jornalista, pesquisador, escritor, colunista do portal Yahoo! e comentarista dos canais ESPN.