18 de Novembro de 2013

Uma criança no Inferno

Posted in Ler faz crescer às 09:46 por sidneif

Por SÉRGIO RODRIGUES*

Homero e outros poetas clássicos no Limbo. Ilustração de Gustave Doré para a "Divina Comédia", obra de Dante Alighieri (1265-1321)

Homero e outros poetas clássicos no Limbo (Inferno, Canto IV) – Ilustração de Gustave Doré para  “A Divina Comédia”, obra seminal do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321).

Devo a uma repórter que me fez recentemente uma pergunta batida – “Qual foi o primeiro livro inesquecível da sua vida?” – o retorno de uma memória poderosa: a da descoberta que fiz quando, aos sete anos de idade, decidi subir numa cadeira para alcançar aquele portentoso volume de capa dura na estante de meus pais, chamado “A Divina Comédia”.

 Calma, não vou dizer aqui que li Dante aos sete anos. Imagino que tenha no máximo passado os olhos pelas palavras, sem nada entender. O que me fisgou – e me fez voltar repetidamente ao livro, anos a fio – foram as ilustrações do francês Gustave Doré (1832-1883), principalmente as do Inferno. O Inferno de Dante segundo a visão gótica e romântica de Doré revelou aos meus olhos um território estonteante de terror e sensualidade.

 Imagino que o impacto não seria o mesmo para as crianças de hoje, com seu acesso mais ou menos livre a imagens fortes, mas, naquele finalzinho dos anos sessenta, eu não tinha a menor idéia de que uma coisa daquelas pudesse existir. De repente meus sonhos ficaram mais atormentados, o mundo mais perigoso – e mais excitante.

 Hoje percebo que, embora os versos de Dante não tenham entrado no jogo, o que se deu ali foi mesmo uma descoberta da literatura. Porque depois daquilo eu estava vacinado por trezentos e oitenta anos contra essa balela tão difundida de que livros são coisas chatas.

*Sérgio Rodrigues, jornalista e escritor. Rodrigues assina os blogs Todoprosa e Sobre Palavras e é autor  do romance “O Drible” (Companhia das Letras).

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1 de Novembro de 2013

Meu pequeno paraíso -ameaçado

Posted in Ler faz crescer às 08:43 por sidneif

Por LUIZ NAZARIO*

"A Escola de Atenas" (1508-1511), afresco de Rafael Sanzio (1483-1520).

“A Escola de Atenas” (1508-1511), afresco de Rafael Sanzio (1483-1520).

Em São Paulo, durante anos frequentei a Biblioteca Jenny Klabin do Museu Lasar Segall, na Rua Berta número 111, minha biblioteca ideal, por diversos motivos: a simpatia das bibliotecárias; a localização do museu próxima à minha casa; a atmosfera acolhedora de uma casa-museu particular; a presença de um bar para refrigerar as pausas no calor ou esquentá-las no inverno; as programações de cinema e as exposições de artes plásticas, que combinavam perfeitamente com uma tarde de leitura; a excelente coleção especializada em teatro, fotografia e cinema.

Comecei a atacar o acervo – hoje com mais de 500 mil itens – como o personagem do Autodidata, em A náusea, de Jean-Paul Sartre (1905-1980): um dos meus objetivos de então era ler todas as grandes peças teatrais; decidi que um bom método era seguir a ordem alfabética dos grandes autores: comecei com Fernando Arrabal, Antonin Artaud (1896-1948), Samuel Beckett (1906-1989), Bertolt Brecht (1898-1956), Albert Camus (1913-1960), Karel Capek (1890-1938), T. S. Eliot (1888-1965), Jean Genet (1910-1986), chegando até Henrik Ibsen (1828-1906) e Eugène Ionesco (1912-1994), pulando alguns autores enjoativos ou embaralhando um pouco a ordem que me impusera quando me caíam sob os olhos peças que me arrebatavam desde a primeira página e que eu não conseguia parar de ler; como o drama metafísico dos Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello (1867_1936) ou o monólogo para duas atrizes A mais forte, de August Strindberg (1849-1912).

Foi nessa Biblioteca que descobri o teatro do absurdo, que marcou minha adolescência com sua filosofia niilista, da qual só me curei, mais tarde, com a absorção de altas doses de existencialismo. E, passada a mania da ordem alfabética, devorei toda a obra teatral de Tennessee Williams (1911-1983), Nelson Rodrigues (1912-1980) e Jean-Paul Sartre. E apenas ali, na Biblioteca Jenny Klabin, encontrei a única peça que Simone de Beauvoir (1908-1986) escreveu, Les bouches inutiles (As bocas inúteis), levada ao palco, na época, por Jean Genet. Aliás, uma bela peça, ao contrário do que diziam os críticos… Ler teatro é delicioso, porque os textos são limitados ao tempo de palco e os diálogos espaçados podem ser sorvidos com maior rapidez que a mistura de diálogos e descrições nos romances.

Havia tardes sufocantes na minha juventude, especialmente nos fins de semana, quando São Paulo parecia-me a metrópole mais triste e feia do mundo. Nestas tardes de tédio espesso, nem sequer interrompido por um telefonema amigo ou pelo lançamento de um filme, eu me refugiava na Biblioteca Jenny Klabin para folhear as mais novas revistas de cinema, sonhando com os filmes “malditos” que jamais veria, com as retrospectivas tentadoras que inundavam as cinematecas americanas e europeias. Espiava também todas as revistas de fotografia, até que as imagens de Wilhelm von Gloeden (1856-1931), Jacques Henri Lartigue (1894-1986), Ansel Adams (1902-1984), Henri Cartier-Bresson (1908-2004), Cecil Beaton (1904-1980), Richard Avedon (1923-2004), Diane Arbus (1923-1971) ou Anne Leibovicz se me tornaram familiares.

Depois que meu primeiro livro, O cinema industrial americano, escrito de memória, sem consultar nenhum livro – causa de muitos erros – fez certo sucesso, a Editora Brasiliense encomendou-me uma pequena biografia do cineasta e escritor Pier Paolo Pasolini (1922-1975) para a coleção Encanto Radical. De Pasolini, havia visto apenas os filmes: ignorava sua literatura. Foi na Biblioteca Jenny Klabin que li então tudo o que existia por ou sobre Pasolini – dezenas de livros e revistas, em italiano, francês, inglês, espanhol. Como muitas coleções não estavam completas, gastei, importando a literatura de Pasolini, muito mais do que recebi em “direitos autorais”.

Muitas vezes, no Brasil, um autor se pergunta por que continua a escrever. Para o bem ou para o mal, ele não pode deixar de fazê-lo: um escritor está condenado a escrever. No final, sempre sobra alguma coisa: conheci fãs de Pasolini que se tornaram meus amigos; e fãs de Pasolini que se tornaram meus inimigos; fãs que me revelaram suas vidas pasolinianas e fãs que se decepcionaram com minha vida não-pasoliniana… O livro esgotou três edições sucessivas graças a uma resenha positiva na revista Veja, e fui então convidado por Caio Túlio Costa a integrar a equipe de críticos do jornal  Folha de São Paulo.

A Biblioteca Jenny Klabin continuou a ser minha fonte durante a redação de minhas críticas: primeiro, para a Folha de S. Paulo; depois, para os jornais Estado de São Paulo e Diário do Grande ABC; logo para as revistas SetA-ZHVElle e Atlante; finalmente, para a revista Isto É, onde assinei por três anos a página de cinema. Eu passava no Segall tardes inteiras folheando léxicos, enciclopédias e histórias do cinema à procura de uma data, um título, um nome de ator ou diretor. A geração IMDb não faz ideia da dificuldade que era escrever sobre cinema antes dos Bancos de Dados da Internet. Eu cruzava, muitas vezes, ali na Biblioteca, com outros críticos em apuros, especialmente com a saudosa Pola Vartuck.

Lembro-me das duras tarefas de que eu encarregava as dedicadas bibliotecárias, que vinham sempre em meu auxílio. Elas consistiam, por exemplo, em encontrar uma boa fotografia do filme Mothra, a deusa Selvagem (1961) para ilustrar um ensaio que eu estava escrevendo sobre Ishirô Honda (1911-1993). E quanto mais “impossíveis” essas missões, mais encarniçadamente as empreendíamos. Procurávamos uma agulha num palheiro, mas as buscas absurdas eram sempre coroadas de êxito, pois havia algo de mágico na Biblioteca Jenny Klabin: apesar de todas as falhas nas suas coleções, sempre encontrávamos ali o que procurávamos, ou pelo menos o rastro do que procurávamos. Creio que isso se explica logicamente pelo fato de que a maioria dos livros não passa de um eco de outros livros, e poucos são os livros realmente importantes e básicos – as fontes.

Uma boa biblioteca é aquela que possui as fontes. A Biblioteca Jenny Klabin era a melhor no Brasil (e creio que na América Latina) no campo do cinema, do teatro e da fotografia porque seu núcleo fora solidamente formado por um crítico brilhante e um colecionador apaixonado: Anatol Rosenfeld (1912-1973). O que decide da qualidade de uma biblioteca é essa base de inteligência e paixão, que consegue reunir o melhor do que se editou em determinada época. A Biblioteca Jenny Klabin não satisfazia mais o pesquisador contemporâneo, obcecado pela totalidade do conhecimento produzido. A distância entre seu núcleo sólido e as aquisições recentes alargou-se, ao longo dos anos, com a falta de verba, por um lado, e a incontrolável expansão editorial, por outro. Os frequentadores do Museu Lasar Segall às vezes diminuíam essa distância com doações.

Doei à Biblioteca todos os meus livros sobre o cinema russo quando decidi especializar-me em cinema alemão. Também doei os textos que o grande animador Norman McLaren (1914-1987) certa vez me enviou e que eram escritos numa linguagem técnica acima da minha compreensão. Mas as doações dos frequentadores da biblioteca não eram suficientes para manter a Biblioteca. Mais tarde se anunciou não o aumento das verbas, que seria a salvação da Biblioteca Jenny Klabin, mas sua transferência do Museu Lasar Segall para a Fundação Nacional das Artes (Funarte).

O professor aposentado da Universidade de São paulo (USP) Jorge Schwartz, o novo diretor do Museu Lasar Segall, pretendia, adotando uma linguagem de empreiteiro,  ampliar o espaço expositivo do Museu transferindo “cerca de 500 metros cúbicos de materiais da biblioteca”. Com as sobras do “material”, ele montaria no Museu uma “biblioteca temática” [Cf. MARTÍ, Silas. Diretor do Lasar Segall quer aumentar o espaço. Folha de S. Paulo, 8 set. 2008].

Claro que o desmembramento das coleções para a criação de uma “biblioteca temática” (limitada ao modernismo? À pintura? Ao expressionismo? À obra de Segall?) acarretaria a perda não apenas do belo núcleo inicial que, como toda paixão, só sobrevive de constantes oferendas, mas das próprias oferendas que renovavam a eterna esperança da impossível completude. O que se anunciava sem protesto da intelectualidade, sem mobilização da classe artística, era a morte de uma fonte de cultura, a morte de uma bela biblioteca.

Em 2011, um novo anúncio apareceu na imprensa: a biblioteca do Lasar Segall seria transferida não mais para a Funarte, mas para a Cinemateca Brasileira. O custo dessa mudança foi estimado em R$ 10 milhões. Apenas os títulos de artes plásticas e os que pertenciam ao pintor Lasar Segall (1891-1957) ficariam no Museu.: “Com isso, vamos reforçar o museu como um centro de referência sobre o expressionismo, tanto brasileiro quanto internacional, e do modernismo”, declarou Schwartz.

A operação foi aprovada na reunião do conselho deliberativo do museu, em 22 de novembro de 2011, depois que a Funarte não conseguiu definir um espaço adequado e a Cinemateca mostrou interesse em acolher os demais acervos. Carlos Magalhães, então diretor da Cinemateca, e que trabalhou de 1984 a 2002 no Museu Lasar Segall, declarou que o apoio do então Ministro da Cultura Juca Ferreira fora fundamental para o reposicionamento.

A transferência incluiria os três bibliotecários que cuidavam do acervo no museu. Previa-se a construção de um novo espaço na Cinemateca para abrigar os acervos. Mas a orientação era realizar a mudança, mesmo que provisoriamente, o mais rápido possível, para liberar os 400 m² que a biblioteca ocupava no Museu Lasar Segall: “Não vai dar para colocar tudo nas prateleiras agora, mas faremos o melhor possível”, concluiu Magalhães. Em mais um lance estranho, Schwartz deu uma entrevista ao jornal O Globo[15/03/2013] afirmando que o Museu Lasar Segall tinha pouca verba e muitas goteiras:

Primeiro nos disseram que a biblioteca ia para a Funarte, mas, quando estava tudo pronto para ser levado ao Teatro de Arte Israelita Brasileiro, nos avisaram que não havia recursos para manter o material lá e voltaram atrás. Depois prometeram que o acervo seria levado para a Cinemateca Brasileira, mas o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) ficou com medo de que o órgão passasse a ser gerido por uma organização social (OS) e decidiu manter tudo aqui. É um drama. No ranking do Ibram, o Museu Lasar Segall é de nível 1, o mais alto possível. Mesmo assim, seu orçamento anual para programação não passa de R$ 200 mil. Há cinco anos, quando assumi, tínhamos R$ 600 mil. Foram cortando, cortando e ficamos só com um terço. Eu mesmo só posso trabalhar aqui porque sou aposentado como professor titular de Literatura da USP. O que conseguimos fazer aqui é um milagre. [Fonte:http://oglobo.globo.com/cultura/diretor-do-museu-lasar-segall-diz-ter-pouca-verba-muitas-goteiras-7841317#ixzz2ixJ5zGDa].

O Instituto Brasileiro de Museus/MinC informou, em resposta, que:

1) O Museu Lasar Segall possui autonomia administrativa e execução orçamentária e financeira descentralizada; (2) No que diz respeito ao telhado, houve intervenções recentes […]; 3) O orçamento descentralizado para o Museu em 2012 foi de R$1.328.070,75 […]; (4) O interesse na doação dos cerca de 530 mil itens da Biblioteca Jenny Klabin Segall para a Cinemateca Brasileira foi expresso pelo Diretor do Museu Lasar Segall à direção do Ibram em 2010. […] O processo administrativo sobre a questão foi encaminhado em março de 2012 ao Museu Lasar Segall, que desde então não havia se pronunciado;  (5) Quanto ao cargo de diretor do Museu Lasar Segall, este é de livre nomeação e exoneração pelo Ibram. […] [Fonte: http://www.museus.gov.br/ibram-responde-criticas-de-reportagem-sobre-o-museu-lasar-segall-em-sp/].

A transferência da Biblioteca Jenny Klabin não foi sequer iniciada. Parece haver um gozo em ficar balançando a espada sobre o pescoço da vítima. Todo esse processo denota a gigantesca incompetência administrativa que domina no Brasil, com medidas absurdas sendo propostas e aprovadas, ainda que não seja demonstrada a capacidade necessária para executá-las, com ameaças de deslocamentos e ausência de um pensamento conservacionista. Na Europa, tudo é mantido em seus lugares originais, há séculos, através de modernizações e reformas eficientes. Nem as guerras são capazes de modificar a tendência preservacionista. Aqui, verbas são consumidas e nenhum resultado aparece. Não há continuidade nas administrações. Mas para haver cultura é preciso haver continuidade. Talvez por isso o Brasil seja um país sem cultura.

 
*Luiz Nazario, historiador e crítico de cinema.