21 de Setembro de 2011

Devorador de bibliotecas

Posted in Ler faz crescer às 10:36 por sidneif

Por LUCAS FIGUEIREDO*

Confesso que li pouco na minha juventude. Mesmo na universidade, lia pouco, apenas o essencial. Por dever, lia capítulos de livros que os professores passavam. E por gosto um ou dois livros de literatura por ano.

Depois de formado, por precisão, fui jogado dentro dos livros. Meu trabalho como repórter obrigava que eu me aprofundasse em diversos temas. Fui tomando gosto. Quando vi, devorava estantes inteiras de bibliotecas (sem exagero, que o digam as bibliotecárias da Biblioteca do Senado).

Hoje sinto vergonha de ter lido tão pouco antes. E um certa pena de mim por ter perdido tanto tempo. Mas me contento com a descoberta, mesmo que tardia. E tendo dizer aos mais jovens que conheço: não perca tempo, meu rapaz…

*Lucas Figueiredo, jornalista, escritor e blogueiro.

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18 de Setembro de 2011

Na poltrona com Borges

Posted in Ler faz crescer às 12:07 por sidneif

Por DEBORA DINIZ*

Para ler, gosto do ambiente dos cafés literários. Dizem que o lugar de leitura – num sentido metafórico, que considera a bagagem pessoal, histórica e cultural do indivíduo – influencia na interpretação de uma obra. Pessoalmente, diria que o lugar de leitura – desta vez, o espaço que escolhemos para esse exercício, simplesmente – também orienta a forma como receberemos as palavras de um autor. E El Ateneo é um dos lugares onde essa sensação é clara.

Em Atenas, na Grécia antiga, o ateneu era um local público onde se reuniam pensadores e poetas. Dedicado a Atena, deusa da sabedoria e protetora daqueles que exerciam atividades artísticas e intelectuais, era no ateneu que se liam e se discutiam as obras daqueles criadores.

Na Avenida Santa Fe, em Buenos Aires, El Ateneo é também uma homenagem à leitura e ao conhecimento. Antigo teatro, cinema por vários anos e palco de pomposos espetáculos na capital argentina, El Ateneo mantém o esplendor da época de sua inauguração, no início do século passado, e é, hoje, uma das mais belas livrarias do mundo e uma das maiores da América Latina.

Ali, onde o visitante se senta em confortáveis poltronas, contempla as qualidades arquitetônicas da livraria – que mantém a estrutura original de um grandioso teatro – e aprecia um delicioso cortado1 oferecido pela casa, já tive a oportunidade de desfrutar de memoráveis momentos de leitura. Uma sugestão a quem topar essa vivência: em sua experiência em El Ateneo, aproveite o momento cosmopolita e pegue da estante Jorge Luis Borges. E, para entrar mesmo no clima, que tal La biblioteca de Babel?

*Debora Diniz, antropóloga, professora da Universidade de Brasília (UnB), pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Anis).

1tipo de preparo de café.

10 de Setembro de 2011

A determinação de Leonardo Da Vinci

Posted in Ler faz crescer às 14:16 por sidneif

Por ALESSANDRO SEGATO*

Na verdade não tenho uma literatura específica, mas me interesso por tudo, tudo mesmo que contenha antropologia, psicologia e filosofia, que nada mais é do que estudar a existência humana e tudo que a cerca.

Nestes muitos anos de profissão, aprendi que o ser humano é uma dádiva com suas diferenças, mistérios e características tão distintas quanto encantadoras. O ser humano me fascina, amo lidar com cada pessoa, observar, tratar com elas, ver suas crenças, suas ambições ou falta delas. Tudo no ser humano é fascinante para mim.

Em meu ramo, mesmo estando tão banalizado hoje, ainda é uma arte comer, alimentar nossa anatomia nos dignifica ou não. Por isso escrevo que leio tudo, vejo tudo o que me cai nas mão sobre o mestre e filósofo Leonardo da Vinci, todos seus tratados, todas suas obras, pensamentos, desenhos e formas a que tenho alcance, pois era um gênio, cientista, pesquisador, cozinheiro de mão cheia, poeta, medico, escultor, pintor, engenheiro, inventor irrequieto e sagaz por desvendar e descobrir, mas ao mesmo tempo amante do belo, do ser humano e das artes e, antes de tudo, PERFECCIONISTA.

Leonardo, se me permite chamá-lo pelo primeiro nome, não tinha medo de mergulhar no que acreditava! Sempre soube a missão e os legados que queria deixar ao mundo…

Gênio!!! Tento levar para minha vida e em tudo que faço esta determinação e vários destes princípios. (Além, claro, dos que meus pais e meus avós muito sabiamente conseguiram me ensinar.)

*Alessandro Segato, italiano radicado no Brasil, empresário, chef de cozinha.

6 de Setembro de 2011

Epifanias pelas ruas de Dublin

Posted in Ler faz crescer às 11:24 por sidneif

Por SÉRGIO MEDEIROS*

Como leitor de obras literárias, um dos meus grandes momentos foi a leitura do romance “Ulisses”, de James Joyce, na adolescência. Esse romance foi publicado originalmente em 1922, em inglês.

O irlandês James Joyce criou algo novo: cada capítulo do romance tem um estilo próprio, que o diferencia do resto. Isso é único. Antes de Joyce ninguém havia tentado fazer algo parecido.

Além disso, a escrita de Joyce é muito viva, muito sugestiva: o leitor vê, cheira, quase toca o que quer que ele esteja descrevendo.

Já reli “Ulisses” muitas vezes, em tradução e em inglês, e o prazer é o mesmo, senão maior, a cada releitura. Isso se dá, no meu caso, porque consigo imergir, durante a leitura, no mundo de Joyce. Consigo passear, ao lado dos personagens, pelas ruas de Dublin

Mas não é só isso: o romance me ensina, a cada releitura, a olhar o mundo, a ver e ouvir os seres e as coisas como um fato estético e espiritual. Ou seja, “Ulisses” aguça e estimula a nossa sensibilidade. Vejo melhor não só Dublin, mas a minha própria cidade. Parece que tudo fica mais “rico”, mais “evidente”, quando lemos Joyce.

Joyce acreditava em “epifanias”, que são percepções privilegiadas do mundo físico e anímico. Uma imagem, uma palavra, um som, podem revelar um aspecto oculto ou novo do mundo. “Ulisses” está pleno de epifanias, seus personagens têm visões, e o leitor que o percorre com a devida atenção também.

Então, reconsiderando tudo o que disse, parece-me que a leitura de uma grande obra literária (mesmo, ou sobretudo, quando essa obra é considerada muito difícil) é capaz de aguçar nossa maneira de perceber o mundo/os mundos. E isso é essencial para o leitor. É o que sobra, fechado o livro.

*Sérgio Medeiros, escritor, tradutor, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e  diretor executivo da editora da UFSC.

5 de Setembro de 2011

Grande surpresa

Posted in Ler faz crescer às 12:29 por sidneif

Por JOSÉ ROBERTO TORERO*

Acho que meu melhor momento como leitor foi quando tinha uns 12 anos e li um livro chamado Beleza Negra (Anna Sewell).

Não lembro de muita coisa da história (é uma autobiografia de um cavalo, um clássico juvenil americano), mas lembro que chorei no final, e isso foi uma grande surpresa para mim. Não sabia que um livro podia fazer a gente chorar.

A partir daí li mais ainda. Mas, curiosamente, com o tempo fui passando para livros mais bem humorados.

*José Roberto Torero, jornalista e escritor.

4 de Setembro de 2011

Um mundo seu, um tempo seu

Posted in Ler faz crescer às 10:07 por sidneif

Por MARITZA  KLEIN STEFFENHAGEN*

Não gostava muito de ler quando era pequena, mas o meu pai amava. Ele contava que era bem pobre quando criança e tinha de fazer as entregas do seu pai, um alfaiate . Então no caminho, sempre com um livro embaixo do braço, parava nas esquinas, em algum lugar escuro, se encostava à parede e lia, lia, lia, muitas vezes esquecia-se do tempo e tinha que sair correndo para entregar os pacotes. Quando chegava para entregar o dinhero ao pai, este perguntava: “por onde andou, garoto? Está atrasado!” E ele sabia que cada minuto que correra valeu a pena, pois era um minuto de leitura ganho.

Cresci vendo o meu pai ler e aos poucos me apaixonei pela leitura.

Sempre que podia, que sobrava um tempinho, lia, lia, lia…

E lá vem novamente o meu pai: ele dizia que todo ser humano tinha que ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Cresci com esta mensagem, gravada bem fundo no meu cérebro. E um dia, autografei um livro, meu livro e dei-o com muito orgulho para o meu pai.

Hoje sempre que sobra um tempinho, leio; às vezes na madrugada, pois é o tempinho que sobra. Aos meus filhos ensinei que quando você lê, pode entrar em um mundo mágico. Só você, sua imaginação e o livro. Um mundo só seu. Um tempo só seu…

Hoje já escrevi dois livros e o terceiro está na mente, ainda dentro do meu mundo.

Espero em breve, compartilhar com vocês.

*Maritza Klein Steffenhagen, fisioterapeuta e autora do livro Manual da Coluna.

1 de Setembro de 2011

Tecelagem da palavra

Posted in Ler faz crescer às 10:49 por sidneif

Por FELIPE PENA*

Minha relação com a literatura é visceral, mas começou por linhas tortas: as linhas da academia. Eu sou um acadêmico. É minha formação, sou professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). Fiz mestrado e doutorado em literatura, pós-doutorado na Sorbonne, e hoje oriento teses. Mas certos hermetismos universitários sempre me incomodaram.

A linguagem da academia, às vezes, é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais alguns professores se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. E isso se reflete na literatura. Claro que há boas exceções e é necessário valorizá-las.

O fato é que eu sempre tive o desejo de ser romancista, mas não queria reproduzir o que vem sendo feito pelos escritores da minha geração (com até 39 anos), que optaram por seguir determinados ditames da crítica que são referendados por uma certa mídia especializada em literatura (novamente, há as boas exceções) e pela academia. Por exemplo, ainda que aprecie a metalinguagem e os jogos experimentais, não tenho vontade de enveradar por esse caminho. Tampouco tenho interesse nos enquadramentos de gênero.

Meu único objetivo é contar uma história. Passo quase cinco anos anos escrevendo meus livros com os olhos voltados para a carpintaria da narrativa. É isso que me interessa: a história, a narrativa, a tecelagem da palavra. Pretendo continuar como ficcionista. É o que me faz respirar. A realidade não me interessa.

*Felipe Pena, professor e jornalista.