3 de Abril de 2015

Aprender a aprender sozinho

Posted in Ler faz crescer às 14:43 por sidneif

Por NUNO MINDELIS*

"Moça Jovem lendo" (1904), do alemão Casper Ritter (1862-1923).

“Moça Jovem lendo” (1904), do alemão Caspar Ritter (1861-1923).

Desde que nasci,  tive a sorte de minha mãe entupir a nossa casa com livros. Ela era uma leitora voraz, essa é provavelmente uma das maiores dádivas que uma criança pode ter.

 Eu e o meu irmão ganhamos todos os clássicos da literatura,  Robinson Crusoe (Daniel Defoe, 1660-1731), Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho (Lewis Caroll, 1832-1898), As Viagens de Gulliver (Jonathan Swift, 1667-1745), contos dos irmãos Grimm, fábulas de La Fontaine (Jean, 1621-1695)  e tantos outros.

 Também nos trazia sempre livros do Tintin¹. Eram como um presente nos dado geralmente quando ficávamos doentes , com gripe ou resfriado, e tínhamos que faltar à escola.

Apesar do ambiente dos quadrinhos, aprendi muita história , geografia e até francês ao mergulhar naquelas aventuras todas, já que eram as edições originais das editoras Flamboyant e  Casterman. Não havia tradução de livros onde eu morava. Era tudo importado e no original.

 Paralelamente , em razão de que minha mãe lia muito, havia quase todos os grandes clássicos da literatura adulta e mais contemporânea pelas estantes da casa , Ernest Hemingway (1899-1962), Truman Capote (1924-1984), F. Scott Fitzgerald (1896-1940), Oscar Wilde (1854-1900) etc.

E muito Eça de Queiroz (1845-1900), em edições primorosas de papel especial, fininho, espetacular. A Cidade e as Serras, O Crime do Padre Amaro e muitos outros.

Também assinava todas as edições da National Geographic, bem como as revistas Time e Newsweek.

 Aos doze anos, peguei por acaso a Metamorfose de Franz Kafka (1883-1924). Li-o, achando que haveria um final feliz , como tanto estava acostumado sendo uma criança. Não houve.

A minha mãe surpreendeu-se ao saber que tinha lido o livro.

Porquê leste esse livro ? Peguntou rindo.

– Bom, estava sempre à vista nesta estante, no caminho do meu quarto.

 Comecera a lê-lo e não conseguia largá-lo porque avançava numa torcida sôfrega por um final feliz.

Um professor meu muito cedo ensinou-me algo de que nunca esquecerei: “peguem no livro e leiam, leiam tudo. Mesmo que não compreendam, continuem a ler. Quando terminarem, leiam de novo. E assim por diante até compreenderem tudo e é certo que chegará esse momento. E leiam a capa, a orelha, o prefácio, as notas, os dados bibliográficos,  leiam tudo , absolutamente tudo e sempre.”

Desde que se sabe da existência do homem, todo o conhecimento é transmitido pela escrita. A rupestre (antes da escrita formal)  até hoje dá dicas de civilizações ancestrais.

Não há outra forma. Mesmo quando se pensa nos sistemas mais sofisticados, é de reparar-se que escrevemos neles ou pelo seu meio. O editor de texto Word que o diga.

 Ler liberta e dá a possibilidade de aprender a aprender sozinho. Por isso liberta. E por isso o conselho do meu professor.

É como abrir cortinas e olhar ao longe, ver o passado, o presente e, como Julio Verne (1828-1905) prova, uma boa dose do futuro com muita precisão.

*Nuno Mindelis, músico brasileiro. Nascido em Angola, Mindelis é um dos principais guitarristas de blues do país.

¹Tintin, personagem dos quadrinhos criado pelo cartunista belga Hergé (1907-1983).

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