24 de Setembro de 2018

O pequeno leitor

Posted in Ler faz crescer às 14:45 por sidneif

Por MARIA AMÁLIA CAMARGO*

Nikolay_Bogdanov-Bel'sky._New_fairy_tale

“A New Fairy-tale”, de 1891, de Nikolai Petrovitch Bogdanov-Belsky (1868 – 1945)

“Livros? Livros não.”

Como uma instituição que cuida de crianças carentes não aceita doação de livros infantojuvenis? Pior foi ouvir que “as crianças já praticam esportes e cantam no coral, não têm tempo para ler. No final do dia estão muito cansadas”. Essa conversa pelo telefone aconteceu há um mês. Passei o final da tarde e o resto da noite em estado de choque. Aliás, volta e meia me lembro das palavras da senhora, que apesar de não gostar de livros, tinha a voz da fada-madrinha da Bela Adormecida. Ainda a imagino assim.

Talvez as crianças dessa instituição nem saibam quem é a Bela Adormecida. Talvez não saibam o que é uma fada-madrinha ou nem sequer tenham escutado algo que comece com “era uma vez”. Não consigo imaginar uma criança sem acesso a livros, privada de fantasia, de cultura. Certamente nas horas de folga elas brincam de faz de conta, mas deve ser um faz de conta diferente do das crianças que são incentivadas a ler e têm um repertório de histórias e personagens povoando a imaginação.  

Sempre me perguntam a importância da leitura para uma criança. Além do enriquecimento do vocabulário, da capacidade de compreensão de texto, a leitura propicia a reflexão, o desenvolvimento do pensamento crítico. O pequeno leitor pode exercer a capacidade de julgar o que é certo e errado, justo e injusto. Além de tudo, a criança se depara com sentimentos e emoções pelas quais virá a enfrentar e a sentir no futuro. Ah! E o mais importante: um livro é um mundo a ser explorado. Quem lê viaja sem sair do lugar.  

Meus grandes momentos como leitora foram na infância. Ficaram guardados na memória sem que eu me desse conta disso até começar a escrever profissionalmente. Lembro-me que meus livros preferidos eram protagonizados por personagens rebeldes, criações da Fernanda Lopes de Almeida e da Ruth Rocha. Princesas e meninas contestadoras que serviram de inspiração para muitas das minhas personagens, em especial a Emília Ercília do livro A ervilha que não era torta, mas deixou uma princesa assim (Caramelo, 2012).

*Maria Amália Camargo, formada em Letras pela USP, é escritora e tradutora de literatura infantojuvenil. De vez em quando também se arrisca a ilustrar. Ministra oficinas de criação literária em escolas e bibliotecas, onde aprende mais do que ensina.

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