24 de Setembro de 2018

As histórias dos livros, a vida

Posted in Ler faz crescer às 14:30 por sidneif

Por EDNA BUENO*

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“Grupo de meninas brincando” (1940), de Candido Portinari (1903-1962)

Nasci numa casa cheia de livros e de gente gostando deles. Numa estante enorme, que ocupava um corredor, os livros para crianças ficavam numa prateleira ao nosso alcance. Li muitos contos de fadas, Perrault, Grimm, uma coleção chamada Reino Infantil. Duas outras coleções me encantavam, Mundo da Criança e Tesouro da Juventude. Palavras e imagens, mistérios. Gibis e uns livrinhos de pano inesquecíveis que comprávamos no jornaleiro. Minha mãe lia as histórias fazendo diferentes vozes para as personagens, desconfiava daquilo e quis aprender a ler. Curioso que foi ela, minha mãe, quem me ensinou.

Sabendo ler, mergulhei no Sítio do Picapau Amarelo. Encantador, como na fazenda em que passávamos as férias. Era um grande pedaço de terra que tinha sido do meu avô paterno, que tinha tido seu tempo áureo, e na minha infância era lugar de brincadeira e descoberta. Era aquela imensidão, uma casa de muitos cômodos e sem luz elétrica. De noite, a prata das folhas das embaúbas. Tudo como no sítio de Monteiro Lobato, eu imaginava. Juro que tinha saci. E como era incrível aquilo de vida no livro se cruzar com a vida fora dele, tão igual. Livros feitos de uma vida que eu, de algum modo, conhecia.

Mais tarde, moramos nesse lugar. Perto do Rio de Janeiro, de onde saímos. Nessa época o seu Paulo, dono de uma venda, pediu para deixar um burro pastando em frente à nossa casa. Meu pai batizou o tal de “Teu Retrato” e eu e meus dois irmãos nos divertíamos. A cada pergunta de como se chama o burro, muitas risadas. Eu tinha uns onze anos e não suspeitava que, alguns anos depois, iria abrir o livro Sagarana, de Guimarães Rosa, e encontrar lá a cachorrinha “Sua Cara” e as folhas prateadas das embaúbas. A confirmação: as histórias dos livros, a vida.

Penso que essa leitura na infância, esse cruzar de livros e vida, influenciou o meu jeito de olhar o mundo, de estar nele. Aprender a ler também me deu o gosto pela poesia. Lia poemas em voz alta, adorava, até hoje gosto. A poesia é um jeito de olhar.

Uma alegria foi ler para meu filho quando pequeno. Não fiz vozes para as personagens, já que um dia não gostei disso, e eis que ele me pediu que fizesse. Cada leitor é único, aprendi. Para ele, o texto ganhava cores quando ganhava vozes. Um leitor livre, que se entregava às histórias sem desconfianças. E, então, com ele conheci a cadela basset “Sua Avó” no livro Os bichos que tive, de Sylvia Orthof. Como rimos. Mais uma vez os livros me trazendo essa surpresa, eu vendo que as leituras vão se esticando, passando de um para o outro, meu pai e Sylvia Orthof passando adiante a leitura de Guimarães Rosa.

Transbordei, um dia. Digo que transbordei a partir da fala de Ana Maria Machado, em uma palestra a que assisti, mais ou menos assim: “de tanto ler, um dia acontece de transbordar e escrever. A escrita vem da leitura”. Hoje escrevo. Depois de ter trabalhado anos na engenharia — me graduei em engenharia química —, finalmente me encontrei: as palavras são minha paixão. Ler e escrever me dão sentido, são a minha sintonia.

*Edna Bueno, nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em Engenharia Química, mas sempre esteve muito próxima das letras, uma vez que, desde pequena, todos em sua casa gostavam de ler. O livro “Entre os Bambus” foi publicado no Brasil depois de ter recebido o Prêmio França-Brasil de Literatura para crianças. O outro livro, “A Ingrid Veio Ver o Mar”, ganhou em 2002 o Prêmio Adolfo Aizen, importante premiação na área infantojuvenil.

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