24 de Setembro de 2018

Abrir um livro, um nirvana

Posted in Ler faz crescer às 15:25 por sidneif

Por BÁRBARA LIA*

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“A sala de estar” (1941-1943), de Balthus (1908-2001)

Minha vida de leitora começou na infância. Aprendi a ler e comecei a devorar todos os almanaques, livros e revistas pela casa. No início da minha vida de leitora era mais comum ler almanaques e revistas policiais. Lia (e amava) a Revista X-9. Crimes solucionados e na contracapa uma história de terror. Nada disso mudou minha essência delicada, talvez por ser tudo pulverizado com poesia. Meu pai recitava poemas pela casa, o tempo todo. Minha vida teve uma biblioteca sonora com os grandes poetas do Brasil, aqueles que o pai amava: Castro Alves, Vicente de Carvalho, Gonçalves Dias e também Camões. Minha vida era lavada pelo épico, isso me impediu de me assumir poeta mais cedo, pela certeza que jamais escreveria algo tão retumbante e dramático, mas eu achava lindo.

Meu avô, um rábula misterioso, tinha uma Biblioteca enorme, uma parede inteira em seu escritório. Eu amava aqueles livros de capa cor cinza — O Tesouro da Juventude. Passei um tempo enorme desvendando o mundo. Na Escola, em plena época de ditadura militar, nas aulas de Português, serpenteavam clássicos que a gente lia: José de Alencar, Monteiro Lobato, Machado de Assis.

Aos dezesseis anos, iniciei minha vida de trabalhadora com carteira registrada e relógio ponto. Trabalhava oito horas/dia e estudava nas noites. Finais de semana para passeios, mas nesta agenda apertada tentei não ignorar meus amigos livros e me filiei ao Círculo do Livro e tentava encontrar novidades na única livraria da cidade — a Livraria Roma, em Campo Mourão. Meu pai, ao tempo que me deslumbrava com suas histórias e récitas, questionou minhas escolhas independentes. Eu comprei Para uma menina com uma flor, de Vinícius de Moraes, e ele fez um discurso inflamado contra o Vinícius. Meu pai não gostava de comunistas. E ouvi outro discurso quando fiquei encantada com os poemas de Pablo Neruda. De comunista em comunista eu fui levando, ele sempre preocupado com minha rebeldia. Comprei o best-seller [Manson: retrato de um crime repugnante] escrito pelo agente do FBI que prendeu a família Manson. Meu pai achou normal ler o livro de Vicent Bugliosi e detalhes do assassinato da Sharon Tate, com filho no ventre e tudo. Sempre tive esta tendência a tentar entender mentes que matam.

O que superou os crimes, as biografias, os livros de Harold Robbins e Sidney Sheldon do Círculo do Livro foi me mudar para Curitiba, no início dos anos oitenta. Nessa mudança os meus hábitos de leitora tomaram outro rumo. Livrarias, bibliotecas e conhecer os poetas. O horizonte ampliou infinitamente. Cada tempo de férias era para ler um autor, e de verão em verão eu vivi ao lado dos gênios, minha vida nunca mais foi a mesma, e minha Poesia ficou mais rica quando entendi que é possível criar mundos e situações, que é possível ser qualquer coisa dentro de um poema. Isso eu aprendi com os Mestres.

Impossível nominar todos os poetas que li, minha vida era emprestar livros na Biblioteca Pública, ler poesia russa, espanhola, descobrir os mitos. Nada pode ser mais lindo que um verão com Jorge Luis Borges, ou um inverno com Emily Dickinson. Um tempo infindo lendo Fernando Pessoa. Fernando Pessoa e Emily Dickinson disputam o pódio da perfeição no meu coração. Ela é tão incrível que passei meses ao seu redor.

Não dá para enumerar aqui todos os autores que li nestes últimos trinta anos. A gente envelhece, os olhos se cansam, aquela fúria abranda, mas ainda acho que é uma espécie de nirvana abrir um livro e ser sacudida por ideias, versos e narrativas. O poder da palavra, esta que eu amo e com a qual me relaciono com cuidado.

Ler me ajudou a entender o mundo, as pessoas e a minha própria vida.

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Foto: Isaias de Faria

*Bárbara Lia, Poeta e Escritora. Nasceu em Assaí (PR). Vive em Curitiba (PR). Publicou os livros de poesia: “O sorriso de Leonardo” (Kafka/2.004), “O sal das rosas” (Lumme/2.007), “A última chuva” (Mulheres Emergentes/2.007), “Tem um pássaro cantando dentro de mim” (2011), “A flor dentro da árvore” (2011), “Respirar” (2014) e “Forasteira” (Vidráguas/2016). Publicou os Romances: “Solidão Calcinada” (Sec. da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná/2008), “Constelação de Ossos” (Vidráguas/2010), “As filhas de Manuela (Triunfal/2017) e “Não o convidei ao meu corpo” (Kazuá/2018).

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