6 de Setembro de 2018

Sobre a leitura

Posted in Ler faz crescer às 16:38 por sidneif

Por KATIA GERLACH*

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“Duas meninas lendo” (1934), de Pablo Picasso (1881-1973)

Antes do alfabeto, os gestos, os olhares, as almas, os céus, os mares. Antes das páginas, as sensações do corpo, os batimentos, os passos, os contornos. Antes dos livros, as ideias, as emoções, as digressões.

De modo consciente ou não, não paramos de ler. Acordamos e, com alguma memória, lemos as nossas noites passadas. Não há nada mais encantador do que ler os olhos de alguém, estabelecer um laço ótico que se traduza na possibilidade de páginas e páginas escritas. Ou o mistério da leitura da palma da mão, as linhas do destino assimilando os desenhos da vida. Portanto, a experiência da leitura é intuitiva, orgânica, humana, força criadora, inevitável.

Aprendi a ler através da letra “v” aos quatro anos. Senti pressa em ler. Era urgente perder aquela espécie de cegueira. Quis decifrar as letras para que o mundo não me enganasse, para que eu pudesse checar nas enciclopédias aveludadas os fatos.

A Nazaré cuidava de mim naquela época. Foi a minha terceira avó, levava o pó de café usado para casa a fim de tostá-lo de novo no forno, concertava bonecas e vestia-as como ninguém, às vezes enlouquecia e desaparecia para voltar ao mesmo lugar dias depois.

Lembro das mãos da Nazaré, as unhas pintadas cor de rosa, impressão digital nos documentos de identidade e a inutilidade dos dez dedos que teriam em segurar um livro, folhear páginas. Naná morreu analfabeta, com os bolsos cheios de bilhetes com números de ônibus, e eu continuo a ler por nós, para que possamos aproximar os nossos universos.

 

*Katia Gerlach, escritora. Natural do Rio de Janeiro e radicada em Nova York, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law, e professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas. Corpo docente da Universidad Desconocida do Brooklyn sob a reitoria de Enrique Villa-Matas. Participação no Disquiet International Program em Lisboa através de estipêndio pela Fundação Luso-Americana, FLAD. Agraciada pelo programa da New York Foundation for the Arts, Artes Literárias.  Publica no Jornal Rascunho e na Revista Cenas (Centro Cultural Raimundo Carrero).  Colunista da Philos – Revista de Literatura da União Latina. Autora de “Jogos (Ben)ditos e Folias (Mal)ditas” (Editora Oito e Meio, 2017), “Colisões Bestiais (Particula)res” (Editoria Oito e Meio, 2015), “Forasteiros” (Dulcineia Catadora, 2013), “Forrageiras de Jade” (Dulcineia Catadora, 2009).

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