6 de Setembro de 2018

Bons livros, a gente escala

Posted in Ler faz crescer às 16:36 por sidneif

Por CARLA BESSA*

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“La liseuse” (Ca 1880-1890), de Jean-Jacques Henner (1829 -1905)

Há uma passagem em O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, na qual o protagonista diz: “O que realmente me impressiona é um livro que, quando você acaba de lê-lo, você deseja que o autor que o escreveu fosse um amigo incrível seu e que você pudesse ligar pra ele quando sentisse vontade. Isso não acontece muito, no entanto.”

De fato, para mim, gerar essa intimidade e cumplicidade com um bom livro é como encontrar um amigo de verdade, alguém com quem se pode dividir o silêncio sem medo, com quem se pode estar junto e ao mesmo tempo só. “Não acontece muito, no entanto.”

E, assim como ocorre com amigos, há livros que você reconhece de cara, a simpatia é imediata e vocês já vão saindo de mãos dadas. Caminham juntos por um tempo, voltando a certas frases e espreitando as entrelinhas com a voracidade do reconhecimento. Depois, e quase sem que se perceba, cada um segue seu rumo e quando vocês se dão conta, já se perderam de vista. Mas pode muito bem acontecer de se reencontrarem anos mais tarde e retomarem o fio daquela meada que ficou pela estrada. Então, o livro já não é só o texto escrito ali, mas um verdadeiro diálogo com o tempo, e isso tem a força de uma epifania. Mas “não acontece muito, no entanto”

Atualmente, dois desses “amigos” vêm me acompanhando pelos meus descaminhos, carrego-os para cima e para baixo, na maior parte do tempo nem conversamos, mas sei que estão ali e o seu silêncio me ampara e me guia. São eles: Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato e Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues. A linguagem desses dois autores foi para mim um susto e um encantamento, me pegou em cheio, me incomodou, me desnorteou. (O mesmo ocorreu com Guimarães Rosa).

Gosto de livros que são como terrenos pedregosos ou montanhas altas, são difíceis de escalar, mas quando se chega finalmente lá em cima, a vista é mais vasta. Gosto de leituras que não entendo de cara como simpatizo com pessoas complicadas e malcomportadas. Porque me levam a repensar o que se tornou óbvio, a trocar de perspectiva, a questionar a norma. Acho que é isso que procuro nos livros. “Não acontece muito, no entanto.”

*Carla Bessa , Tradutora literária e escritoraEstudou teatro no Rio de Janeiro. Em 1991 emigrou para a Alemanha onde trabalhou por 15 anos em teatros alemães, austríacos e suíços como atriz e diretora. Atualmente, vive entre o Rio e Berlim e é tradutora literária e escritora. Seu primeiro livro de contos, “Aí eu fiquei sem esse filho”, foi publicado em 2017 pela editora Oito e meio, do Rio de Janeiro. Além disso, tem contos publicados em vários blogs literários e revistas online como a Revista Lavoura, Revista Gueto e Revista LiteraLivre. Como resenhista, colabora regularmente com o Jornal Rascunho.

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