17 de Agosto de 2018

Como me tornei uma leitora

Posted in Ler faz crescer às 17:13 por sidneif

Por DIVANIZE CARBONIERI*

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“A leitora”, de Armin Glatter (1861-1916)

O processo de me tornar uma leitora foi longo, mas parece que nada poderia impedi-lo. Encontrava-se ali em gérmen desde o início e foi se desenvolvendo conforme fui crescendo. Quando eu ainda não estava na escola, ficava um período do dia na casa da minha avó. Na casa dela, tinha um quintal enorme com um quartinho ou barracão nos fundos. E lá dentro estava guardada uma infinidade de livros que tinham sido dos meus tios. Eu ficava folheando e imaginando, porque ler mesmo não sabia. Mapas, desenhos de navios, fotos iam me fazendo admirar cada vez mais os livros e desejar conhecer o seu conteúdo. Identifico que esse foi o começo do meu fascínio, que dura até hoje.

Depois eu entrei na escola e aprendi a ler. Minhas irmãs iam até a biblioteca municipal buscar livros para elas e traziam para mim também. Toda semana praticamente chegava um livro diferente, e ainda me lembro de alguns títulos: Rosinha, minha canoa (José Mauro de Vasconcelos), O menino do dedo verde (Maurice Druon), Memórias de um cabo de vassoura (Orígenes Lessa), As letras falantes (Orígenes Lessa), entre outros. Isso durou vários anos. Lia ainda muitos gibis que eu comprava na banca da praça onde tomava ônibus para voltar para casa depois da escola. O dono da banca às vezes deixava eu ficar devendo para pagar no outro dia. Acho que todo dia eu comprava um. Eram principalmente histórias da Turma da Mônica, do Maurício de Sousa, que tiveram o mérito de tornar minha leitura cada vez mais rápida.

Com uns 10 anos, eu já andava de ônibus sozinha e podia ir quando quisesse à biblioteca no centro da minha cidade. Era possível entrar no acervo, que ficava dentro do que parecia um cofre. Na verdade, era um recinto com uma porta-forte. Eu andava pelos corredores cheios de prateleiras e escolhia os livros a esmo. Um por semana, mais ou menos. Depois ficava surpresa porque o novo sempre tinha a ver com o anterior. Lia coisa apropriada pra minha idade e coisa que não era. Ninguém censurava o que eu lia.

Na escola, a gente também lia muito. Acho que eram quatro livros de literatura por semestre, normalmente de autores canônicos, como Monteiro Lobato, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis. A gente lia e fazia prova sobre os livros. Alguns colegas não gostavam, mas eu sempre gostei. Aliás, até hoje eu gosto de ler esses romances oitocentistas: é como entrar numa realidade virtual, num filme de época. Também tinha que escrever uma redação por semana. Isso tudo antes dos catorze anos.

Na minha adolescência, alguns livros não eram recomendados pela escola, mas se tornaram uma febre: Eu, Cristiane F., 13 anos, drogada, prostituída (Kai Hermann; Horst Rieck), Feliz ano velho (Marcelo Rubens Paiva), As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley). Li todos eles e muito mais coisa. Nessa época, desenvolvi um grande interesse pelos romances e autobiografias que tratavam das experiências de seus autores durante a ditadura militar, como O que é isso, companheiro? de Fernando Gabeira e Metade arrancada de mim de Izaías Almada. Além da literatura, história, sociologia e filosofia foram se tornando assuntos cada vez mais recorrentes nos livros que emprestava da biblioteca. Ao final da adolescência, eu já era uma leitora competente, e meu amor pelos livros, com o tempo, acabou se transformando em profissão, já que hoje sou professora de literatura numa universidade federal e escritora.

 

*Divanize Carbonieri, doutora em letras pela Universidade de São Paulo, atuando como professora de literaturas de língua inglesa na Universidade Federal de Mato Grosso. É autora de “Entraves” (2017), agraciado com o 2o Prêmio Mato Grosso de Literatura na categoria Poesia, e de “Grande depósito de bugigangas” (2018), selecionado pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá. Foi finalista do Prêmio Off Flip 2018 – Poesia e selecionada para integrar a antologia “Um girassol nos teus cabelos” (2018), organizada pelo Mulherio das Letras em homenagem a Marielle Franco. Participa também de outras diversas coletâneas.

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