17 de Agosto de 2018

Ao Bósforo…

Posted in Ler faz crescer às 17:05 por sidneif

Por ANA CRISTINA DE AGUIAR*

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“The Bosphorus with the Two Forts, Fumble Hisan and Anadolu Hisan” (1855), de Count Amadeo Preziosi (1816-1882)

Há um tempo que o Médio Oriente me fascina, mais precisamente, desde que comecei a ler sobre a escrita corânica, que é tida pelos islâmicos/muçulmanos como via de comunicação direta com Deus e cujo encanto das formas e arabescos visa simbolizar esta relação com o sagrado. A suprema beleza contida e expressa nos caligramas, textos poéticos escritos em forma de ornamento, por mãos hábeis e delicadas, muitas vezes com tintas de ouro ou misturas secretas, revelam a grandeza de uma cultura que, infelizmente, muito se desgastou com o tempo, com as guerras, com as inúteis e desumanas querelas étnicas…
Também no livro O segredo do calígrafo (de Rafik Schami, ambientado na Damasco dos anos 1950), encontrei belíssimos relatos sobre essa arte da caligrafia, tão desconhecida de nós, ocidentais afobados e utilitaristas, enlouquecidos para que tudo tenha uma finalidade prática e rápida; tristemente negligentes com a sacralidade da arte pela arte, da beleza pela beleza, do detalhismo e do culto à ornamentação como forma de reverência ao divino, entendido a critério do freguês.
E meu amor por essas artes estendeu-se para as plagas orientais e desembocou na mítica Istambul (antiga Constantinopla, capital do Império Otomano), quando, em 2009, li o livro de mesmo nome, de Orhan Pamuk. A Turquia é um país laico, apesar de a maioria da população ser muçulmana, e tem localização geográfica particular – situa-se entre dois continentes – contando com duas capitais, a política, Ancara, e a histórica, Istambul.
Para o meu arrebatamento definitivo, contribuiu o filme O Tempero da Vida (de Tassos Boulmetis, 2003), que só pode ser degustado assistindo-se; nenhuma descrição daria conta do cheiro das especiarias, do burburinho das ruas e da singela relação de amor que nasce entre um homem e uma mulher ainda na infância, brincando entre montes de temperos e especiarias num empório tipicamente regional.
Gostaria muito de contemplar o Bósforo, por onde circulam os barcos e a fumaça que expelem, tão apreciados por Pamuk. Em suas palavras, “quando a balsa e o vento mudam ligeiramente de posição, a fumaça que sai da chaminé começa a contorcer-se e descrever curvas acima do Bósforo, lembrando a escrita árabe.” Quisera poder flanar pelas ruelas pitorescas e entrar em lojinhas, armarinhos, ateliês e o que mais houver para me inebriar com a cultura de ouro que ainda sobrevive por lá, mesmo com as agruras do velho tempo.
Gostaria muito, enfim, de ver o Bósforo assim, como o relata Pamuk, referindo-se à sua infância na cidade:
“[…] Em pouco tempo, lancei-me em novas e ousadas experiências. Toda manhã, depois que meu primo saía de casa para o liceu alemão, eu abria um dos seus livros imensos, grossos, lindos (era uma edição Brockhaus, acho) e, sentado a uma mesa, copiava as suas linhas. Como eu não sabia alemão, e nem mesmo ler, fazia aquilo sem nenhuma compreensão, desenhando, por assim dizer, a prosa que via à minha frente. Desenhava uma cópia exata de cada linha e de cada frase. Depois que terminava uma palavra que contivesse uma das letras góticas mais difíceis (um g ou um k), fazia o mesmo que os miniaturistas sefévidas depois de desenharem uma a uma os milhares de folhas de um plátano imenso: descansava os meus olhos contemplando os espaços entre os edifícios, os terrenos baldios e as ruas que desciam na direção do mar, e seguindo os barcos que passavam pelo Bósforo nas duas direções.”

 

*Ana Cristina de Aguiar, formada em Linguística, com Mestrado e Doutorado pela Unicamp. O doutoramento, em linhas muito gerais, é sobre a aquisição do sistema de pontuação na escrita da criança e seus imponderáveis, seus imprevistos, sua razão própria. “Também refleti um pouco sobre o estilo de alguns escritores, cuja pontuação subverte o canônico, e passeei pela escrita de línguas não-ocidentais, nas quais a pontuação tem valor diacrítico. Um patchwork que, ao final, ficou bonito!”

“Minha história com as palavras vem de muito cedo, sempre gostei de ler e de me transportar para os enredos que estavam nas páginas em minhas mãos. Cheguei a passar em Direito, numa excelente universidade, mas quando saiu a lista dos aprovados em Letras e Linguística, fui sugada. Atualmente percebo que o Direito também teria sido uma opção interessante para mim, e ele não invalidaria um trajeto de leitura e escrita, porém estar num universo voltado especificamente às palavras e frases e textos acabou se impondo. Sou escritora e poeta amadora e minha primeira publicação aconteceu este ano, com um poema na coletânea “Damas entre Verdes”, do selo e coletivo Senhoras Obscenas. Também me dedico à tradução de poesia norueguesa (visando me exercitar para futuramente oferecer algo para publicação). Colaborei, brevemente, com a página Um poema nórdico ao dia. Atualmente, estou mergulhada na tradução de um livro do norueguês para o português. Já fiz traduções do inglês e alguma coisa do francês. Meu amor é a palavra, publicada ou não, em português ou não, compreensível ou não (sou capaz de me encantar com palavras de línguas estrangeiras só pela sonoridade, pela morfologia que eu tento destrinchar, pela semântica que busco decifrar…). E eu acredito piamente no poder civilizador e engrandecedor da leitura.”
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