10 de Agosto de 2018

Ler é perigoso

Posted in Ler faz crescer às 16:57 por sidneif

Por MARTHA GOMES*

Ophelia_(Pierre_Auguste_Cot)

“Ophelia / Pause for Thought” (1870), de Pierre Auguste Cot (1837-1883)

Minha infância foi cercada de histórias. Vovó contava seus “causos” de Mato Grosso e do Paraná, lugares onde viveu boa parte da sua vida. Com isso, cresci ouvindo histórias reais, de doer e de sorrir. Algumas pareciam de ficção. Essas eram as de que eu mais gostava. Recitava, também, poemas que eu amava: “quem passou por essa vida em brancas nuvens, (…) quem passou por essa vida e não viveu, foi espectro de homem, e não homem, só passou pela vida, não viveu”. Só fui saber o que era espectro já mocinha, quando comecei a viver entre eles numa depressão que quase me custou a vida. Mas isso já renderia outro texto.

Em casa, lembro-me de uma enciclopédia ilustrada que punha aberta em frente às bonecas. Minha primeira experiência como professora. Chapeuzinho Vermelho e outros contos conheci na escola.

Aprendi a ler cedo, o que me fez pular a primeira série e repetir a segunda. Gostava de escrever, sabia muitas histórias de cor, mas fui reprovada em ciências ao colocar, em uma figura do corpo humano, o fígado no pé. Minha mãe foi chamada à escola para a professora lhe contar o acontecido, o que me rendeu uma bronca de mentirinha e boas risadas até em casa.

Meu pai escrevia “pensamentos”. Vivia com o dicionário embaixo do braço. Minha avó me ensinou a amar histórias, meu pai a respeitar as palavras. Com isso, cresci fazendo poemas que guardava em caixas que perdi em alguma mudança. Meus tios e primos também gostavam de escrever e diziam: – Está no sangue!

O tempo passou e, já adulta, depois de ter meus três filhos, fiz minha faculdade de Letras. Achei que iria deslanchar na escrita, afinal já tinha certa experiência com as palavras e uma bagagem de histórias na cabeça.

Qual não foi minha surpresa ao entrar na faculdade e aprender a enquadrar tudo que vivia solto na minha memória. Travei. Fiquei anos sem escrever. Afinal, como uma profissional da escrita não poderia “errar”. Isso durou muito tempo. Li vários livros enquanto minhas mãos se recusavam a rabiscar uma linha. Apaixonei-me por Machado de Assis. O fascínio pelos clássicos adquiri nas aulas de literatura. Isso fez valer minha faculdade inteira.

Já no final do curso, comecei a frequentar umas rodas de poesias. Na época, os chamados Saraus Literários. Fui percebendo que poderia brincar com as palavras. Que não havia necessidade de tanta rigidez e, aos poucos, fui me lançando novamente no mundo da escrita. Vez ou outra, escrevo umas coisinhas.

Gosto muito de estimular o fomento à leitura literária. Aliás, trabalho com isso. Ler e escrever é direito de todos, como bem escreveu Bartolomeu Campos de Queirós em seu “Manifesto por um Brasil literário”. No mundo da literatura, cada um dá sentido ao que lê.  Deve ser por isso que alguns dizem que ler é perigoso…

 

*Martha Gomes, formada em Letras – Português/Literatura – Universidade Federal Fluminense (UFF), pós-graduada em Leitura e Produção Textual – UFF, pós-graduada em Literatura Infantil e Juvenil – UFF, integrante da Gerência de Leitura e Audiovisual da Prefeitura do Município do Rio de Janeiro, agente de leitura em uma biblioteca escolar do Estado do RJ, parceira do Blog Livros para todas as idades com a coluna “Lendo com Martha Gomes”, participante do GT de cinema da UFF.

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