3 de Agosto de 2018

Livro: relicário de paixões

Posted in Ler faz crescer às 16:47 por sidneif

Por ANNA APOLINÁRIO*

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“Decorative Lamp. Woman Reading a Book” (1793-1800 – model of 1780), de Louis-Simon Boizot (1743-1809) e H. F. Vincent (1733-1809)

“A literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade.”

 (Antonio Candido)

A paixão pelos livros é algo que carrego desde a infância, cresci tendo acesso a livros e à leitura, nesse ambiente favorável tornei-me leitora dedicada. Na escola, o gosto pelas aulas de português e literatura era predominante, eu devorava tudo, de paradidáticos a quadrinhos, mas a poesia sempre me pegava mais, forte e avassaladora, em tenra adolescência, a descoberta de poetas como Augusto dos Anjos, Murilo Mendes, Cecília Meireles, entre tantos outros. Bibliotecas são, definitivamente, meus lugares preferidos, em que me sinto acolhida e livre, aprecio corredores com estantes apinhadas, amo o silêncio e o mergulho abissal num bom livro.

Leitura sempre me foi algo vital, e foi através da formação como leitora que foi moldada a minha produção como escritora, o meu fazer poético. Anos de leitura e bagagem literária alimentam minha escrita, saciam a fome da alma, sempre em busca de beleza, conhecimento e vida. Dentro dos livros há sempre algo que não tem nome, algo que pulsa poderosamente, brutal e sublime, alquímico, capaz de transformar e recriar a realidade, tocando e moldando profundamente o humano.

São muitas as obras marcantes na minha caminhada como leitora, mas alguns são devastadores e inconfundíveis, então há este livro que me trouxe uma febre lírica alucinógena, gritos e rasgos de amor, morte em bico de rapina, estou falando de Ariel, livro de poemas da Sylvia Plath. Eu havia acabado de ingressar na faculdade, no fulgor de meus vinte anos, era um dezembro quente, e eu me vi arrastada por aqueles poemas, a voz impiedosa e rutilante daquela mulher, um sibilo percorrendo todos os meus poros, acessando de maneira única o cerne de minha sensibilidade. Outro livro arrebatador, cuja leitura me colocou em transe, foi Lavoura Arcaica, do grande Raduan Nassar, um romance que nos destrói, tamanha beleza e voltagem poética.

Como não se sentir violentado pela gramática cruel de Herberto Helder, ou tremendamente atiçado pelos versos de Hilda Hilst? Eu poderia tecer inúmeras considerações sobre inúmeros livros, a literatura é fonte infinda, canto incessante que fascina e engrandece, um deleite necessário, um direito irrevogável.

*Anna Apolinário é poeta. Publicou “Solfejo de Eros” (CBJE, 2010), “Mistrais” ( Prêmio Literário Augusto dos Anjos, 2014) e Zarabatana (Patuá, 2016).

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