27 de Julho de 2018

Mãe, eu quero ler o mundo…

Posted in Ler faz crescer às 18:10 por sidneif

Por TELMA VENTURA*

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“News From Abroad” (1885), de Carlton Alfred Smith (1853-1946)

Mãe, me ensina a ler?

Nossa, menina, você é tão novinha e já quer aprender a ler?

Sim, mãe… eu quero aprender a ler o muuuuunnndddoooooo !!! (em gestos largos e olhos brilhantes).

Minha mãe, de vestido florido e com o ferro de passar na mão, sorriu para mim. A pequena menina que queria ler o mundo, por meio das palavras escritas nos livros. Algo muito novo e inusitado para uma menininha de quatro anos nascida naquela família. Mas assim se fez. Mesmo tão nova, aprendi a ler e me deslumbrar e me perder naquelas aventuras todas do Érico Veríssimo – pois minha mãe, mesmo tendo tido pouca oportunidade de estudar, teve a sabedoria e a sensibilidade de escolher livros da mais alta qualidade literária para me alfabetizar. Assim, me encantei junto com a Rosa Maria (Rosa Maria no Castelo Encantado), me aventurei com o Fernando em seu avião (As Aventuras do Avião Vermelho), e chorei muito com Basílio (A Vida do Elefante Basílio).

Em pouco tempo, quis vislumbrar outros universos – a Terra já não bastava àquela menina desbravadora – e pedi ao meu pai que comprasse livros mais desafiadores: O que devemos saber sobre Marte era o meu favorito da coleção “O que devemos saber sobre…”, pois eu adorava imaginar a mim mesma viajando para outros planetas, outras constelações. Por meio da leitura, eu conseguia.

Cresci quase que obrigando meu pai a ir à livraria todas as semanas. Ele não aguentava mais, pois não entendia como uma adolescente preferia gastar dinheiro em livros a comprar os tênis, os jeans ou o perfume da moda.

Você não vai sair com suas amigas no sábado, não? Vai ficar com esses seus livros, de novo?!? Quem lê muito, enlouquece, hein! Estou vendo a hora que vou ter que te internar em um hospício!!!

Pois é… a Literatura e a loucura. Aos dezesseis, li Cem Anos de Solidão, do maravilhoso Gabriel Garcia Marquez, e me perguntei, pela primeira vez, Quem será o louco, aqui? A imagem do Coronel Aureliano Buendía, amarrado à árvore do quintal de sua casa, sendo alimentado como um animal, “para a segurança da família”, me fez questionar a sanidade do mundo. Daquele mundo que eu lia (nos livros e fora deles). Quem serão os loucos?

Cem anos de solidão me fez mergulhar na obra de Marquez – a qual eu li inteira, desde os contos aos romances – e me apaixonar definitivamente pela Literatura, mas também me levou ao curso de graduação em Psicologia. Mesmo assim, não consegui obter respostas à minha pergunta. Abandonei uma possível carreira na área da saúde mental (ou da doença mental?) e voltei a me dedicar à Literatura.

Minhas filhas receberam seus nomes em uma aberta homenagem a heroínas literárias: Beatrice, de A Divina Comédia ( Dante Alighieri)e Helena, a mulher mais linda do mundo mítico grego. Entre infernos e mitos, gestações e nascimentos. Nascimento de uma leitora, pesquisadora e escritora que tem a consciência de que a Literatura cria e destrói mundos, da mesma maneira que as histórias pessoais de cada indivíduo constroem – ou destroem – sua história de vida. São as histórias que fazem o mundo – aquele mundo que a menininha de quatro anos queria ler, mas que a mulher de trinta questionou.

E uma vez mais questionei. Questionei novamente a sanidade do ser humano ao ler A Desumanização, de Valter Hugo Mãe, obra que me colocou frente-à-frente com considerações a respeito da falta de humanidade daqueles que se intitulam “humanos”. Em O remorso de Baltazar Serapião, o extremo da violência contra a mulher. Contos de Cães e Maus Lobos, o vazio da (in)existência.

O vazio e a ausência final – e fatal – foi trazido por Inês Pedrosa, por meio de Fazes-me Falta. Tão pungente e avassalador que se afigurou a obra que eu estudei por quatro anos, e que me tornou Mestra em Literatura. Não consegui ficar impassível diante daquela falta inexorável que é a morte – a falta de sentido, a falta de quem amamos e que nos deixou para sempre, a falta de amor e verdade nas relações – ditas – afetivas. Clara, a professora cega de A Eternidade e o desejo, entretanto, enuncia que “Sou cega mas enxergo muito mais do que vocês” e, com as falas dessa ceguinha muito sacana (como a própria se classifica), percebi que o ato de ler o mundo começa pela ação de ler a si mesmo.

A leitura de uma obra literária começa no(a) leitor(a), em seus próprios olhos, em seus próprios olhares e afetos. Ler é passar a conhecer a si mesmo(a) na fruição da leitura. O afeto antes, a construção literária na sequência, ambos afetando o sujeito que lê. Os livros que lemos e as leituras que realizamos – literárias, do mundo, das pessoas, de nós mesmos – ajudam a construir quem somos.

Hoje, sou professora de Literatura. Tenho sorte. Mostro a outras pessoas como compreender uma obra literária e, assim, tentarem entender um pouco mais o outro, o mundo e quem elas mesmas são. Escrevo e, dessa maneira, construo alguns mundos. Literários. Daqueles que eu queria ler quando era ainda bem pequena.

Minhas filhas leem. Estão construindo seus próprios mundos. E eu as acompanho, como minha mãe fez comigo, e a mãe da mãe da mãe da minha mãe. Todas e todos nós. Leitoras e leitores.

 

*Telma Ventura Educadora e Mediadora de Leitura, é a idealizadora e curadora dos Projetos Culturais Um Conto por Encontro e Voz de Mulher. Mestra em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, pesquisa as interfaces entre Literatura e Psicologia, bem como as Literaturas de Autoria Feminina, com foco nas performances narrativas presentes na matéria literária. Coautora de artigos que integram as obras “Educação e Linguagens” (BT Acadêmica/CAPES, 2017) e “A literatura infantil e juvenil na contemporaneidade: Histórias, Caminhos, Representações” (BT Acadêmica, 2016), lançará em 2018 sua primeira obra individual, intitulada “Desconstruindo o silenciamento feminino: Inês Pedrosa e a narrativa performática de Fazes-me Falta”, pela Editora Todas as Musas.

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1 Comentário »

  1. Sem dúvida, a sua aptidão para a leitura apontou um caminho que lhe serviu de esteira para toda a vida. Tenha certeza que ganhou um fã e que desejo muito ler a sua primeira obra individual. Você escreve muito bem, de forma agradável, clara e apaixonante!


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