27 de Julho de 2018

Eterna busca pelo tempo perdido

Posted in Ler faz crescer às 18:05 por sidneif

Por KAREN MONTEIRO*

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“Un coin d’appartement” (1875), de Claude Monet (1840-1926)

Nunca gostei (propositalmente com cacófato para informalizar esse início de encontro) de falar sobre as minhas leituras pelo simples fato de achar que estou sempre em dívida comigo e com os livros que se empilham, aguardando a vez. Não tenho rotina de leitura. Posso passar dias sem abrir o livro de literatura que está na cabeceira, só lendo outros textos, livros, trechos de livros relacionados ao trabalho ou ao post que estou escrevendo para o meu blog Arte na Roda (sobre arte e meio ambiente).

Meu jeito de ler, confesso, é um tanto caótico. Começo um livro, ganho outro, vejo um imprescindível no sebo, paro o que estava lendo, retomo depois de sei lá quantos meses… Aí esqueço o que li e tenho que começar tudo de novo.

Desisti de me dar prazo para terminar uma leitura. Vou dançando conforme o meu ritmo, conforme as palestras e oficinas, exposições, shows, peças de teatro, que preenchem uma parte bem significativa dos meus dias e me fazem chegar em casa querendo dormir com a reverberação do que vi. E o livro lá no criado-mudo … Um dia aprendo a lidar com essa tortura.  Nem tento mais me comparar com o amigo que devora um livro numa sentada. Até cometo essa façanha, mas bem, bem de vez em quando.

Reinvidico para os livros prazo de validade, tempo de leitura, assim como os espetáculos e palestras.  Eles deveriam vir com etiqueta: “Esse livro se autotransportará em quinze dias para a casa mais próxima ou banco de praça do bairro em oferecimento ao próximo leitor”.

Não, não… Permita-me voltar atrás. Deixemos como está. Deixemos esses nossos companheiros da alegria ou da tristeza munidos do caráter democrático, do tempo infinito, da duração sob medida para o portador. Deixemo-nos na nossa eterna busca pelo tempo perdido. Por aquela vez. Lembra? Aquela vez. Naquele mês, a mercê do vento, na ladeira do momento. Aqueles dias em que o tormento se desfazia no instante. Não permanecia gravado no lombo ou no ombro. Não morava na boca do estômago medrosa. Não tapava a garganta que pedia polvorosa.  Ou uma rosa. Continua me abrindo, Proust (acho que vou ler você até o fim da vida), mais caminhos para me perder ou me encontrar. Tanto faz. No fim, pensando com os coloridos botões, olores transportam, no trajeto pelas vias até as narinas, lembranças que valem uma vida ou trazem o apaziguamento da memória ruim. O apagamento do passado fardo. A abertura das orlas e portas para quintais e beiras ensolaradas do presente, na trilha do futuro que flutua entre perdas e ganhos, se enterra em frustrações ou germina em triunfos que percorrem o nosso túnel do tempo.

 

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Sempre em busca da melhor palavra… E o muro de estênceis de letras de metal da obra de Helena Trindade no Instituto Tomie Ohtake é um lugar bem bom para acuar ou amaciar os vãos de significado.

*Karen Monteiro, cronista, jornalista cultural, tradutora do alemão e inglês e assessora de imprensa. Nasceu em São Paulo, mas mora em Curitiba. Mantém o blog Arte na Roda, no site Conexão Planeta. Antes disso, publicava seus escritos poéticos sobre a vida e seus espetáculos no blog Nunca precisou de chão firme. Os textos antigos ainda estão disponíveis.

 

Contato: monteiro.hk@gmail.com

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