14 de Junho de 2018

A oficina das ressurreições humanas

Posted in Ler faz crescer às 16:38 por sidneif

Por RAFAEL ZACCA*

17

“Morte e Vida” (1910-1915), de Gustav Klimt (1862-1918)

Lembro-me de que quando li Clarice Lispector pela primeira vez tive a nítida sensação de que o tempo e a vida eram infinitos. Eu lia A Hora da Estrela, e me parecia que aquilo duraria para sempre. Eu estava sozinho na casa de meu pai, que à época trabalhava em São Paulo durante a semana, e o Rio de Janeiro se estendia madrugada adentro como se o tempo fosse o próprio universo em constante expansão. Não era Clarice que era imortal, nem aquele que a lia; era a própria leitura que parecia não ter começo nem fim (como o narrador da novela de Clarice, que quer, a todo custo, adiar o começo e o fim de sua narrativa).

 Walter Benjamin referiu-se algumas vezes à sua própria geração como uma geração que fracassou. Que morreu nos campos de batalha, que foi humilhada economicamente e arrebentada até o osso pelo fascismo. Ainda assim, me lembro da sensação de ter lido, pela primeira vez, no caderno N das Passagens, no ano de 2010, a anotação: “a indestrutibilidade suprema da vida em todas as coisas.” Quem anuncia o fim do mundo deve anunciar também uma chance. “Há esperança suficiente, infinita – mas não para nós.” A frase é de Kafka, e a chance de Benjamin se escreve sobre ela. A chance não é esperançosa, ela é qualquer coisa que se arrisca apesar de… Sempre fiquei fascinado com a arte dos desesperados que enxergam uma chance. Drummond, Clarice, Benjamin.

“Eu não vivi na terra o que me cabia até o fim”, escreveu certa vez Maiakóvski, “nem amei o que me cabia até o fim.” Desesperado, é claro. Conta o Roman Jakobson que em 1920 voltava da Europa para Moscou cheio de livros e novidades ocidentais. Conversando com Maiakóvski, falou, entre outras coisas, sobre a teoria da relatividade. Isso deixou o poeta fora de si. Ou dentro. Totalmente numa. Conta o Jakobson, num relato meio grande, que vou reproduzir inteiro, porque é absurdo, que, depois de debater longamente sobre a teoria de Einstein, tentando explicar ao amigo a relatividade, Jakobson ouviu do poeta: “Você não acha que é desse modo que adquiriremos a imortalidade?” “Olhei-o surpreso”, diz Jakobson, “e murmurei uma dúvida. Então ele apertou os maxilares com aquela obstinação hipnotizadora, provavelmente familiar a todos que o conheceram de perto, e disse: “Pois eu estou inteiramente convencido de que algum dia não existirá mais a morte. Vão ressucitar os mortos. Vou procurar um físico que me explique o livro de Einstein ponto por ponto. É impossível que eu não entenda.” Para mim, nesse instante revelou-se um Maikóvski que eu não conhecia: a exigência da vitória sobre a morte o dominava. Logo ele me contou que estava escrevendo um poema, V Internacional, que trataria de todas essas questões. “Einstein será um membro dessa Internacional.” Naquela época, Maiakóvski andava obcecado com o projeto de enviar a Einstein um telegrama de felicitação – da arte do futuro para a ciência do futuro.” O poema de Maikóvski restou inacabado. Mas Jakobson tem algo a dizer sobre isso tudo, lembrando o epílogo do poema “Sobre isto”: “Eu vejo, vejo claramente até os detalhes, incólume à decomposição e à destruição, brilhando, eleva-se através dos séculos a oficina das ressurreições humanas.” No mesmo poema, Maiakóvski pedia a um cientista do futuro: “ressucite-me, quero viver o que me cabe.”

Alguém que me ama desde que eu era um bebê parece estar, ano após ano, mais e mais assustada com a possibilidade de que em breve (daqui a um, dez, talvez cinquenta anos) não esteja mais aqui. Dou-te aqui um nome fictício, Maria. Maria. Maria, três vezes te digo que não vais morrer, e se morreres viverás com os camaradas da V Internacional, e eu estarei lá, antes, te esperando.

*Rafael Zacca, poeta, crítico, oficineiro e coarticulador da oficina Experimental de Poesia. https://rafaelzacca.com/

 

 

Anúncios

1 Comentário »

  1. Como a vida é irônica até para os desesperados, Maiakóvski tirou dele a própria vida. Gostei do seu texto, dá muito que pensar. Um abraço da Mariluz.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: